O otário

Desacreditado
Descreditado
Deixado no fundo do poço
Largado como uma pilha de osso
Frustrado como seus pais
A própria pomba preta da paz
O desvio de olho de qualquer rapaz
Para o outro lado

Tô acostumado
Palavras de ódio escapam aos montes
De fora, pelos meus amados
De dentro, pela influência de vários

Mas o abstrato se esconde
Ao contrário eu já teria me livrado
Não, o abstrato se desmancha
Os sentidos podem ser trocados
Esquecidos
Alterados
Vencidos
Ajeitados para que soem fracos
Diminuídos quando trazidos
Enganados quando conversados…

O concreto sou eu que faço
Transformo o silêncio em assunto
A brincadeira em significado
Não-dito em falado
E o contrato, firmado
Às vezes não parece muito
Mas dentro do mundo adulto
É o que me deixa saciado

Às vezes eu me sinto um sapato
Daquela música do Roupa Nova
Não sou ultrapassado ou velho
Mas talvez eu seja muito sério
Ou talvez muito idiota…
Tolo demais para não resolver o mistério
Ou só quero levá-lo para a cova

Às vezes eu não quero resposta
O sentimento mais puro de carinho
Beijar na boca, dormir agarradinho
Acordar sem pensar na discussão
Construir no mundo uma ilusão
De uma fugídia perfeição…

O problema é quando estou sozinho
E a ilusão de desfaz no caminho
Os pensamentos me engolem todinho

E eu fico calado.
E eu me sinto…


Otário?

É pena

É pena que eu não consegui mais ver esse teu olhado
Rindo ao seu lado
Momentos de brilhantismo e história
Que foram e são muitos
E os guardo agora como memória

É pena não mais ouvir de sua vida
Eu fiquei impactado de saber sobre sua ida
Essa cidade traz dificuldade pelas esquinas
Imagino que tenha saudade de São Paulo
Mas não deixa fácil sua partida

É pena não mais contar minhas coisas
Passar as noites explicando bobagens
Ou conhecendo novas pessoas
Descobrindo diferentes expressões de arte
Tendo a sorte de estar com sua pessoa

É pena estar distante
Estar indisponível pelo trabalho
Ocupado em cada instante
Mas é que eu ando meio atrapalhado
Ando realmente dividido
Esse ano foi difícil achar tempo para mim
Comigo
Essa distância foi amigável

É pena que esteja distante
Queria conversar contigo
Falar uns pontos que são relevantes
Queria ainda ser um amigo

É pena não curtir mais a presença
As noites de dança na sala
O carteado e a provocação intensa
A recompensa no suor de madrugada

Como disse,
A memória tem vida própria
Ela lembra, ela mostra
Agora eu sinto pena dela
Porque eu sei que não volta

É pena de mim naquele são João
Noite que ela sempre evoca
Da dança tímida
e do licor de paçoca
Última vez que toquei sua mão

Eu não imaginava a proporção
Não, eu não tinha nenhuma noção
E depois o amargo na boca
Subindo aos poucos
Como conta-gota

Eu vejo os erros e assumo os caminhos
Mas assumo também a confusão
E sei que conversa justa teria resolvido
Não uma forte discussão e um sermão

A história e a memória andam me perseguindo…
Pedindo uma solução
pra esse dilema infinito
Mas o tempo, maior que elas
Não se rende ao póstumo perdão
E nem ao sermão duplamente compelido
Eu ou você certos ou perdidos…
Cansado e traído,
O tempo absoluto regra nosso destino

É pena não ter mais tempo
Fico feliz que o mundo girou a seu favor
Vejo as peças, sei de seu primor
Um dia eu apareço, juro!
Quero saber de tudo tudo tudo

É pena.
Não é fim
Não é ódio
Não é temor.
Não é o romântico amor.
Também não é um pódio
Ou promoção.
Só dizer que apertaria novamente sua mão

Encurralado

Me tirem o prazer
Tirem o amor e a simpatia
Tirem a simplicidade do lazer
Tirem tudo o que eu precisaria
Tirem, mas deixem a covardia

E retirem o orgulho
Levem para longe meu ego
Tornem-no absurdo
Mergulhem-o no mais profundo inferno
Até a timidez tomar conta de tudo
Até não existir mais um lado certo

E continue tirando
Tirem minha inteligência
Subjuguem-na e tomem comando
Defendam a doce inocência
E aos poucos vou atrofiando
E me acostumando à leniência

Pois agora que levem de mim
Levem a confiança para longe daqui
A honra, o poder, a vontade
Podem arrancar com toda liberdade

Deitado depois de meses a fio
Comendo o mesmo prato [literalmente]
Me sentindo vazio [figurado]
Reflito o que ficou comigo
Depois desse amargurado Ícaro
Desistiu dele e do que acreditava
Para não sofrer mais represália

Não sobrou nada
Não sobrou nada

Sempre odiaram que eu fosse livre
O sexo que eu fazia tinha que ter limite
E o que eu falava era burrice
E quando eu opinava, sandice

Estudar é liberdade para quem?
Porque não tira as cordas do refém
Amarrado nas próprias palavras
Refém preso por quem eu amava

E não tô falando de namorada

Por isso eu quero muito fugir
Conhecer outros lugares
Sair daqui
Vivenciar novos milagres

Acreditar que posso ser eu
Completo
Totalmente novo
Sem medo de ser insano
Sem medo dos outros