Mergulho
Caio de vez na água
Não sei se é fundo
Afundo pensando em nada
Não nado
Imóvel fico estirado
Enquanto a água me devora
Me engole e digere minha forma
E quem sou eu?
A luz parece distante
As formas, embaçadas
As vistas, marejadas
E o mar, confiante
Os pensamentos cessam
E, por um instante
Essa pergunta deixa de ser necessária
A água me sufoca
Mas eu não procuro por ar
As bolhas saem e eu pareço não ligar
Meu rosto desbota
Minha visão desfoca
E eu me entrego ao mar
Afundo, vendo os outros em seus lugares
Afundo, pois não luto contra os mares
Afundo, afinal não há mais saída
Afundo, e aceito a minha partida
E então o desespero
O irracional desejo por viver
Engulo logo a água
Ela vai para o peito
Lavando tudo que foi feito
Todos os desejos
Defeitos
Trejeitos
Apagando o mundo inteiro
…
Eu me joguei na água primeiro
Eu quis não saber o futuro
Eu quis tocar o fundo
Sentir a água lavando o peito
Os meus olhos se fecham
E então o sol queima minha pele
Uma lembrança que nunca se perde
Abro os olhos e vejo pessoas
Pessoas que já foram, que são e serão
Todas boas
Elas preocupam comigo
Perguntam e gesticulam
Mas não oferecem abrigo
Eu suplico por ajuda
De novo ou de velho
Mas ninguém sequer escuta
Ouço uma voz conhecida
Cantando “Doubt”
Com uma caneca de malte
E uma expressão única e amiga
Acordo de sobressalto
Na casa?
Num quarto?
Pensei em besteira
Nunca seria derradeira….
Ela não deixaria