Mergulho

Mergulho
Caio de vez na água
Não sei se é fundo
Afundo pensando em nada

Não nado
Imóvel fico estirado
Enquanto a água me devora
Me engole e digere minha forma

E quem sou eu?

A luz parece distante
As formas, embaçadas
As vistas, marejadas
E o mar, confiante

Os pensamentos cessam
E, por um instante
Essa pergunta deixa de ser necessária

A água me sufoca
Mas eu não procuro por ar
As bolhas saem e eu pareço não ligar
Meu rosto desbota
Minha visão desfoca
E eu me entrego ao mar

Afundo, vendo os outros em seus lugares
Afundo, pois não luto contra os mares
Afundo, afinal não há mais saída
Afundo, e aceito a minha partida

E então o desespero
O irracional desejo por viver
Engulo logo a água
Ela vai para o peito
Lavando tudo que foi feito
Todos os desejos
Defeitos
Trejeitos
Apagando o mundo inteiro



Eu me joguei na água primeiro
Eu quis não saber o futuro
Eu quis tocar o fundo
Sentir a água lavando o peito

Os meus olhos se fecham
E então o sol queima minha pele
Uma lembrança que nunca se perde

Abro os olhos e vejo pessoas
Pessoas que já foram, que são e serão
Todas boas

Elas preocupam comigo
Perguntam e gesticulam
Mas não oferecem abrigo

Eu suplico por ajuda
De novo ou de velho
Mas ninguém sequer escuta

Ouço uma voz conhecida
Cantando “Doubt”
Com uma caneca de malte
E uma expressão única e amiga

Acordo de sobressalto
Na casa?
Num quarto?
Pensei em besteira
Nunca seria derradeira….
Ela não deixaria

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