O otário

Desacreditado
Descreditado
Deixado no fundo do poço
Largado como uma pilha de osso
Frustrado como seus pais
A própria pomba preta da paz
O desvio de olho de qualquer rapaz
Para o outro lado

Tô acostumado
Palavras de ódio escapam aos montes
De fora, pelos meus amados
De dentro, pela influência de vários

Mas o abstrato se esconde
Ao contrário eu já teria me livrado
Não, o abstrato se desmancha
Os sentidos podem ser trocados
Esquecidos
Alterados
Vencidos
Ajeitados para que soem fracos
Diminuídos quando trazidos
Enganados quando conversados…

O concreto sou eu que faço
Transformo o silêncio em assunto
A brincadeira em significado
Não-dito em falado
E o contrato, firmado
Às vezes não parece muito
Mas dentro do mundo adulto
É o que me deixa saciado

Às vezes eu me sinto um sapato
Daquela música do Roupa Nova
Não sou ultrapassado ou velho
Mas talvez eu seja muito sério
Ou talvez muito idiota…
Tolo demais para não resolver o mistério
Ou só quero levá-lo para a cova

Às vezes eu não quero resposta
O sentimento mais puro de carinho
Beijar na boca, dormir agarradinho
Acordar sem pensar na discussão
Construir no mundo uma ilusão
De uma fugídia perfeição…

O problema é quando estou sozinho
E a ilusão de desfaz no caminho
Os pensamentos me engolem todinho

E eu fico calado.
E eu me sinto…


Otário?

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