O mar 🌊

Te amo tanto que dói

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Eu acreditava que pessoas são ilhas
Pedaços de terra prontos para serem desbravados…
Mas eu estava muito enganado
Pessoas são oceanos

São mares revoltos
São criaturas desconhecidas
São insuportáveis calmarias
Quando o barco precisa de um sopro

E quando o barco precisa de um sopro
São o clima tempestuoso

Oceanos profundos
Que afogam o marinheiro mais competente
Que guardam riquezas e saberes inúmeros
Um novo mundo secreto e absurdo
Escondido às vistas dentro da gente

Eu olho para o horizonte
O oceano não tem fim
Estou prestes a cair de minha ilha
Mas eu sei que preciso
O oceano chama meu nome e eu não resisto

Vejo a luz do sol tremular na água
De perto, vejo os peixes brincarem sem parar
Sento na areia e espero o tempo passar
De noite, vejo a lua pintar as águas escuras do mar
O vento e seu brilho como pincéis
A empurrar
E puxar

A água do mar me atrai
Ouço meu nome sendo chamado
A ilha já me parece pequena e voraz demais
Não que o mar me reserve paz
Mas seus segredos geram dúvidas insaciáveis…
E a virtude de todo tolo é a curiosidade

Construo uma jangada
Um bote, uma canoa furada
Remo para longe das ondas pequenas,
Das médias e das altas
Mas elas me empurram de volta para praia
Como se dissessem para tomar mais cuidado com a jornada

Eu as ouço como ouço um ditado antigo
Construo um barco mais forte
Separo reservas
E em um mapa eu traço o norte
Parto nessa missão sozinho,
sem companhia ou amigo
A busca não é pelo meu destino
E sim por um chamado distinto
Doce, arredio, místico
Algo que há décadas não sinto

Um arrepio invade meu corpo
Coloco o barco no mar
Sinto o cheiro de sal invadir o ar
O sol a brilhar em meu rosto
Os ventos me ajudam a navegar
E, quando eu menos espero
O horizonte se abre para mim de novo

O azul infinito se estende perante a mim
Tão grande, tão lindo que me faz seguir

O azul do céu é sensível e prestativo
Como um pai, o céu assopra ao meu ouvido
Palavras de força, palavras de incentivo
Não me perde de vista
Faz me sentir aconchegado, querido
Seja no calor do sol, ou no chuvisco frio
Do azul celeste ao azul anil
E de noite, apesar do suposto vazio
Ainda faço do céu, meu abrigo
E do brilho das estrelas, amigos

O azul do mar é impulsivo
É violento, é agressivo e hostil
Eu puxo as velas, controlo o leme e o timo
Mas lutar contra o mar eu não consigo
Pode ser calmo, mas nunca gentil
A paciência do anil sumiu
Esse azul faz parte do oceano
É profundo, intenso e sombrio
E eu me sinto… Vivo?
Adrenalina pulsando em meus ouvidos
Sinto o arrepio, a onda vindo
Seguro no mastro com toda força possível
Eu sobrevivo

Solto meu nome em um grito
É tudo que eu tenho
É tudo que eu preciso
Me desfaço das roupas molhadas
Olho para o mar com as vistas embaçadas
Não há nada além disso

Confronto tudo aquilo que me cerca
O peito nu, suor pingando
O cabelo colado na testa
Pergunto para a água
“O quer quer de mim?”
Pergunto por que me chamou até aqui

Sem respostas além do vento forte
Eu caio do barco em direção ao perigo
Sem boia, sem traje, sem ar, sem motivo
Mergulho dentro do profundo líquido
Provo um pouco do sal desse mar
Que me engoliu sem pensar

Mar

Barulho alto
Muito alto
Sinal da vida em brasa

Fogo se espalha
Chamas fortes
Chamas altas
Queimam a cabeça
Consomem a beleza
Distorcem, deixa fraca
Deixa instável
Mesmo a pessoa mais calma

Corro para cima
Corro para baixo
Abro minhas asas
E salto
Torcendo pela alçada
Não sabendo se voarei
Ou se farei a chegada

Eu não voo
Bato as asas
Sinto o vento no corpo
Mas não voo
O corpo treme perante o esforço
As asas fraquejam cansadas
E eu volto ao meu posto
Andando como um louco
Buscando algo que desfaça
Algo que acabe com a fumaça
Com o fogo, com a brasa
Que me queimam todo
Que me desgraça

até que acostuma
A dor é contínua
Ela acumula
Pinga de gota a gota
Ela inunda
E, de tão molhado
Meu corpo afunda…

Debaixo da água
O som é abafado
Se ouve chiados
Te ouço assustado
Não se assuste não

Nada mais normal
Do que afogar o fogo da aflição
Nos mares da apatia e frustração

Esses mares não são revoltos
Eles são pacientes
São lindos, são soltos…
São mais profundos que nenhum outro
Eles atenuam o fogo
Águas quentes
Mares que puxam aos poucos…

Pisca-se os olhos
E seja pelo mar
Seja pelo olho
Seja pela ira
Ou pelo que irá acontecer
De novo

Você afunda, morto
Sem respirar
Mergulhado em desgosto

Ou fica molhado
Ou pega fogo

Só pode um dos dois.