Criador de universos / Lágrimas nos olhos

Eu escrevi esse texto a princípio para liberar um pouco do sentimento de vazio que eu estou sentindo, mas o que aconteceu mesmo foi que eu chorei muito. Eu não revisei ele. Eu não reli e nem quero. Estou postando porque eu quero ele salvo para o futuro. Definitivamente não foi fácil escrever isso. E definitivamente foi emocionante.

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Eu me sinto destruindo um universo
Apagando estrelas,
Destroçando planetas
Galáxias que eu conhecia de perto
Extinguidas em segundos…

Estou contemplando a destruição de mundos
Sistemas simples e complexos de vida
Os segredos, as fantasias, todas perdidas
A curiosidade não mais significa
Entendimento não mais qualifica
Leis da física que seu professor não mais aplica

Sinto o frio do espaço sideral
O silêncio, o escuro e a dor visceral
Implodindo para fora
Explodindo para dentro
Um evento que acontece agora
Mas que dura mais tempo
Como um buraco negro

Eu nunca vou ser mais o mesmo
Me emociono com todo o desespero
Tento puxar para mim o último lampejo
De vida, de esperança
Do fim dessa grande mudança
Mas eu não tenho controle
E assisto o extermínio de toda beleza começar
E terminar

Eu tento chorar, mas não consigo
As lágrimas são seguradas pela sensação estranha
De alívio
Tão tacanha como o primeiro ser vivo
Com medo de tudo que nunca tinha visto

O silêncio dá lugar para a voz
E o nada já é algo
Algo tão estranho como “Nós”
Palavras vazias de um universo desgastado
Negligenciado e destroçado
Surge agora um novo espaço

Eu me sinto construindo um universo
Um ser poderoso, inteligente e velho
Cujo coração não bate com o mesmo critério
E nem nunca mais vai bater

Sinto criando tudo do zero
Os planetas, as estrelas, os mistérios
Pensando assim, já não parece tão diverso
Sinto falta do antigo universo

Pode deus criar infinitos desses universos
E replicar cada acontecimento histórico e adverso
Há momentos que existem só uma vez
Como aprender a andar de bicicleta
Ou receber um elogio por algo que você fez
Nenhuma experiência é completa
Por isso que são únicas

Eu valorizo os erros,
Os acertos
Os defeitos e os consertos
Mas o universo é algo tão complexo
Como medir distância entre estrelas?
Como medir o prazer no sexo?

Eu posso criar vários desses
Mas sei que não conseguiria reproduzir seu cheiro
Seu toque, seu abraço, seu desejo calado
Reproduzir seu empenho
Sua vontade de estar ao meu lado
As fofocas, as dicas e os bons resultados
Não há poder no mundo que me faria deixar isso de lado

Eu amo estar ao seu lado
Os momentos bons eram divinos
E até quando não fazíamos nada
Era um máximo
Eu queria estar errado
Eu queria muito estar errado
Queria não achar que não há solução esse caso
Queria encontrá-la contigo
Passo a Passo
A cada briga
A cada fracasso

Mas eu me sinto muito machucado
Há muito estou ignorando meus percalços
Tentando comunicá-los
E eu não quero mais me sentir culpado
Por tudo que há de errado
Pelos maus tratos
Pelas conversas que eu nunca me senti confortável
Ou já senti, mas hoje não é mais o caso
Pelos espaços confinados
Pela dor física que eu sentia na bacia e na perna
Pelos momentos calados pensando
“O que estou fazendo aqui nessa merda?”
“qual é o meu valor nisso tudo?”
“se existe amor, por que só me sinto confuso?”

Estamos em fases diferentes
Cabeças, vivências, desejos e visões
Eu sinto que estamos separados por ilusões
Das minhas projeções de futuro
E das suas regras que moldam seu mundo

Eu construí um universo antes de você
Que foi tão expandido
Que não fazia mais sentido
Eu tinha minhas leis antes de você
Que eram tão absurdas
Não newtonianas
Que eu abri mão para te ter comigo

Criei dívidas, maltratei pessoas
Às vezes até conhecidos
Desisti do respeito que tinha
Desfiz de minha honra
E, em momentos,
Fui menos do que eu já fui um dia

Tudo isso para viver contigo
Achando que estava fazendo o que deveria…
Mas nem você respeitava essa postura de cadelinha

Preciso do espaço
Preciso criar meus mundos
Preciso viver bilhões de vidas
Preciso sentir bilhões de supernovas nos pulsos
Preciso do escuro
Preciso do frio absoluto
Preciso das vísceras a mostra

Preciso da solidão
Porque é meu elemento de autorregulação

E me desculpe por acabar com o nosso universo
Eu nunca vou me perdoar por isso
Meu amor por você é eterno
Mas, a cada palavra que digito,
Com as lágrimas nos olhos,
Eu sei que estou certo.

Como se

Quase como se o tempo parasse
Quase como se meu coração caísse
Quase como se meus olhos inundassem
Quase como se meu peito murchasse
Quase como se meus ouvidos sumissem
Quase como se meus músculos derretessem
Quase como se minha garganta um nó dasse
Quase como se meus dentes amolecessem
Quase como se meus ossos quebrassem
Quase como se a dor nunca passasse
Mas nunca será como se eu me esquecesse

Eu nunca vou esquecer

Um absurdo

Quando você se foi,
eu achei absurdo o mundo continuar girando,
As pessoas andando
E o trabalho chamando
E a vida acontecendo
Encontros, amigos…
Antropoceno
Eu, que vivo me esquecendo,
Não esqueço
Bolsonaro ainda eleito
O céu azul, o sol aceso
E eu, escrevendo meu texto
O conto que você me ajudava a escrever

Depois desse dia não fui o mesmo

Hoje faz três anos que você se foi
E o mundo realmente não parou
As pessoas continuam andando
O trabalho continua chamando
A vida continua acontecendo
Namoro, amigos…
Antropoceno
Já não vivo tão esquecido
Tenho alguém pra levar sempre comigo

Sinto sua falta quase sempre
Sinto falta da minha fiel confidente
Saudade dos momentos só a gente
E daqueles de galera reunida
Saudade ter você como melhor amiga
De brigar, chorar, me desculpar
E de rir profusamente
Igual a você não há
Nunca haverá

Não posso voltar no tempo
Não posso sequer frear
O mundo vai continuar a girar
E as pessoas vão andar
E as memórias se deteriorar…
Como a pedra e o vento…

Às vezes me pego pensando no presente
Você adoraria conhecer Ílson
E Ana Mary B
E o novo álbum da Lorde
E da Florence
Planejaríamos viajar juntos
Mas iríamos de verdade
Talvez nós nos aposentassemos
Com a mesma idade

Criei mil histórias em minha cabeça sobre nossa amizade
Mas nenhuma delas tinha sua morte prematura
Sinto muito, muito mesmo
Saudade sua.

22 ou 25

Feliz aniversário, Clara.

De todos os leoninos que eu pude ter o prazer de conhecer, você foi a mais literal de todos eles. Sua confiança era inspiradora, assim como sua inteligência, seu esforço. Eu sempre acreditei que você poderia tudo, que você seria a pessoa a abalar o mundo. Não duvidei um segundo sequer disso. E ainda não duvido. Mas infelizmente não tenho como saber como seria. E não tem como mais ser.

Flávia, no aniversário dela, disse que agora ela está mais velha que você e isso me assustou muito porque a gente sempre teve a mesma idade (eu mais velho, claro). Você sempre ao meu lado. A gente sempre juntos. Entre aniversários e trabalhos. Matérias da faculdade e festas.

Hoje no seu aniversário de 25 anos, eu queria te dedicar o mundo. Queria te dedicar meu mestrado. Queria te dedicar uma leitura. Uma caminhada. Queria sair em uma festa. Ou queimar um baseado. Talvez eu o faça em um futuro próximo. Até lá, eu vou manter a promessa de lembrar de você. Eu vou cuidar de nossas lembranças juntos. Eu vou lembrar de sua voz. Das suas coisas que estão comigo e das minhas coisas que lembram você.

Eu sinto muita falta de fofocar contigo. Queria falar sobre como nossos amigos mudaram. Sobre o namorado de Mateus, sobre como Mário tá de tornando um artista foda, sobre o término de Pedro… Queria saber sua opinião sobre tudo. Passar horas ouvindo você falando de World Building, sobre alguém que você não gosta ou uma dificuldade da vida que você estivesse passando. Você estaria se formando em letras esse fim de ano.

Ah, saudade que não passa.

Hoje eu vou passar o dia com Pedro, porque eu acho que é o que você gostaria de fazer. Vamos estudar juntos. Estou em uma fase complicada de minha cabeça, Clara. E espero que você entenda.

Eu continuo te amando, viu?

Continuo muito agradecido por sua presença em minha vida.

Eu hoje me arrependo de como eu fui no seu enterro. Gostaria de ter me comportado melhor. Mas eu também não conseguia pensar. Nem falar direito. Eu estava em surto ali.

Enfim.

Eu sou ateu, o que implica que, para mim, seu cérebro desligou e você derreteu na terra. Mas você não era. Por mais agnóstica que fosse, você tinha uma herança cristã forte. Bom, eu espero muito que você esteja em um lugar bom e agradável, se esse lugar existir. Se não, ao menos que o descanso eterno faça sua existência ser mais agradável para você.

Hoje, eu tenho 25 anos. Pedro tem 25. Mário, Bibs… Flávia tem 23.

E você continua com 22 anos.

Por mais que faça 25.

28 – Trauma

Ouvir sua voz nos áudios me emociona
Eu não sei se deveria fazer isso
Ouvir a galera falar sobre você me emociona
Mas eu evito demonstrar a nossos amigos

Já se passou quase um ano e meio
Sem nossas brigas e avisos
Sem conversar contigo

Não foi só eu que esmoreci
Amigos e familiares seus
Também estão assim
Mas muita gente já se adaptou
E claro, com razão e seu devido
Valor

Precisamos continuar sem você
Por mais que não faça sentido
Por mais que sua falta seja esmagadora
E pelo tempo já perdido
Chorando, reclamando escondido
Pensando em teorias infinitas
Para explicar o acontecido

Eu nunca vou saber
E eu sei que já acabou o tempo
Eu sei que você não está lá
Ou aqui
Ou nem mesmo em minhas memórias
Direito
Queria muito te abraçar
Te ver de novo
E dizer que lamento
Ter esse último momento contigo
Conversar sobre qualquer coisa
Ou só curtir esse momento

Desculpa por trazer tristeza em sua memória
Eu amei você e todas nossas histórias
Queria que você tivesse aqui
Para comemorarmos suas vitórias

Acho que é o único sentimento que vou sentir para sempre
É sua falta

Por isso ainda ouço seu áudio as vezes
Leio as mensagens
Rio sozinho pela rua ou na cama
Só você me entendia de verdade

Eu poderia escrever pra sempre sobre sua falta
Mas eu não quero mais
Perpetuar o sentimento de tristeza
Não vai me satisfazer jamais

Eu parei de visitar o seu túmulo
Deixei seu corpo em paz
Pois sua alma está fora desse mundo
E alcança-la eu não serei capaz

Mas manterei minha promessa
De nunca te esquecer
Repassarei suas palavras
Enquanto eu viver
Envelhecendo e lembrando…

Enfim.
Tchau.

Luto, dor e saudade

E os dias passam inclementes
Quem disse que o tempo cura
Ou só morreu com a dor imatura
Ou não sofreu o suficiente

A dor está no subconsciente
Vicejando em minha mente
Espreitando em meu ouvido
Mudo rapidamente de sentido

Se em uma hora feliz sorrio
Na outra hora lembro do vazio
Se esqueço da dor no momento
Aflora no meu peito desagradável
Sentimento

“Sinta tudo que puder, amigo
Não esconda o que sente.
É a melhor forma do presente
De criar para si um abrigo”
Mas eu não consigo

Talvez amanhã eu acorde bem
O mundo esteja girando de novo
E eu siga o fluxo também

Talvez amanhã eu acorde triste
E não consiga prosseguir
Por mais rápido que o mundo gire

8 – Glitch

Era uma tarde de sol forte
O céu azul assim como agora
A inspiração guiando o norte
Sem nem mesmo olhar pra fora
A imaginação guiando o caminho
Aí como é bom estar sozinho
Somente eu e a folha e minha mente
Celular toca, mas não é conveniente
Continuo a escrever, pois era o momento
Cada brilho do sol refletia o sentimento
Como é bom estar vivo e escrevendo
E o celular toca novamente
Eu só não sabia que essa fantasia
Acabaria tão de repente
O dia de sol já estava me avisando
Mas como pode uma notícia tão direta
Não condizer com a realidade?
O futuro que eu planejei tinha ela
Por que agora ela não está mais?
Algum erro de informação ou programação
E agora não existe mais futuro ou realização
Um problema do mundo ou da dimensão?
Não… Não… Não!

Não pode ser real isso tudo.
Não acredito no que está acontecendo
Não posso criar o meu mundo
Não quero sem você estar por dentro

A partir do “não” construo minha fantasia
Dimensão nova, a antiga não mais me continha
Sei que é sua escolha e não a minha
Refaço os passos, tento reentrar na linha
Mesmo nada mais fazendo sentido
Versos pobres, sem rimas ou caminhos
Isso é um sintoma do novo real aqui
Quando eu deixei você partir

3 – Vírus

Uma sensação estranha na cabeça
Familiar e diferente de tudo de antes
Infecta profundo você e em instantes
Você quer que ela permaneça.
Por favor, que ela fique sempre!
A saudade eu deixo que entre
Todo dia pelo menos um pouquinho
Eu quero te ter no meu caminho…
A visita indesejada do sentimento
Seu sintoma é quebrar sua rotina no meio
Fazer você voltar a cabeça no tempo
Querer lembrar e viver aquele momento
Mas eu me sinto cansado também…
E o amor não é mais encantado
O tempo não traz mais nostalgia
E viver sem você não tem aquela magia
O vírus do luto é pior que o do amor.

Aceitação passo por passo

Enquanto as lágrimas secam, surge o vazio
Raramente lembram de falar sobre a aceitação
A aceitação de que tudo outrora construído, ruiu.
Ruínas que não cantam hoje a mesma canção

E agora eu que lute para seguir em frente
Sem mãos carinhosas ou algum abraço quente
A própria ideia de viver sem você já destrói a paz
Eu, que sou capricórnio, odeio mudar minha rotina
Sei que por você eu poderia fazer isso e muito mais…

E é onde mora o impiedoso sentimentos de nada
Nas palavras nunca mais ditas, nos jeitos e voz
Ouço seus áudios e sinto uma culpa danada
Poderia ter sido mais presente, ter um tempo para nós

Egoísta, eu sei.
Se tiver uma realidade depois dessa, desculpa
Estou prendendo você à sua existência antiga
Mas eu vou continuar com o sentimento de culpa
Pois egoísta que sou, ainda quero você na minha vida

Nunca tive a possibilidade de te agradecer por tudo
Você foi mais que uma amiga ou namorada, Clara
Era quem eu dividia meu secreto e silencioso mundo
Agora, já sem você, não existem mais pessoas raras
Os sabores e cheiros e sons ficam… Apenas no mudo.

Eu preciso parar de criar essa coisa à sua volta
Preciso voltar a amar você como apenas memória
Para aqueles sentimentos que me apego, solta!
Para aquelas memórias que eu tenho de você, história.

Digo História, pois é impossível de reescrevê-la
Transbordo sempre palavras, mas só vendo futuro
Não há muros que impeçam a quem nesse barco veleja
Sobre o mar desafiador de correntes fortes que rupturo
As águas feitas de realidades passadas, um suco puro

Deixar-te-ei para encontros em meus humildes textos
Preciso equilibrar o barco e setar logo um rumo
E nas tuas mãos não me parece mais seguro ou oportuno
Guardar-me da vida que ainda transforma meus eixos

Vou despertar em
3
2
1…
Amo-te, boba.

CSSCC

Ela era as minhas palavras
Quando escrita, ela era poesia
Ela era também contos, ficção
Era lindo o que ela fazia
A cada canto, sua mão
Em cada encanto, sua canção
Você estava em tudo das artes.

Na música você era a harmonia
Aquela sensação gostosa
Me provocava alegria
Podia também ser a vibração
Intensidade, o fervo, a fritação
Atravessava tudo, sem ser tediosa

Nas pinturas, a pincelada principal
Aquela que não dá pra voltar atrás
Aquela que sobressai das gerais
Gerando uma pintura colossal
Obras de arte não são você, não.
Você é o cerne da arte, meu coração.
A própria e antes encarnada inspiração.

Na dança, você era a expressão
O talento? Claro que não.
Algo tão frivolo, tão básico
Não seria seu traço.
A expressão não é algo clássico
É o fogo que queima o pulmão,
O que dá sentido ao movimento
Você é o sentimento, interpretação

E por falar em expressão
Nada seria das artes cênicas
Se você não fosse a apresentação
Você é minha década de 90
Encarnada num papel pastelão
O escritor escreve, inventa
O ator recebe a obra e a orienta
Vivendo mil vidas em cena
Você era única em todas elas.

E na ciência, você era humana
Complexa demais para um laboratório
Confusa demais para um iniciante
Criava modelos para o aleatório
Tentando entender o perfeito
Imperfeito.

Eu nunca entendi como apenas “Arte”
Pode significar diversas atividades.
Mas ao te conhecer eu percebi
Que a arte não está nas escritas
Ou nas pinturas, ou nas danças
A arte é um momento, é um sentimento
É alguém que nós amamos
Rimas também não vão ser suficientes
Erro nesse final porque a arte é imperfeita
E é por isso que é especial

Te amo, Clara. Sinto sua falta.

Você brincou comigo nesse dia, falando sobre a altura e sobre cair de lá. Eu fiquei preocupado o tempo inteiro contigo até esquecer da conversa. Eu hoje me arrependo tanto de esquecer de nossas conversas.