Deuses da encruzilhada

De amores muitos, de amores mútuos
Quem diria que eu estaria no seu caminho?
Ainda não sabem como as Parcas tecem seus fios
Mas sabemos que eles precisam ficar juntos

Não procuro resposta no acaso,
Assim como não procuro um espelho no escuro
Ao contrário: eu aceito esse laço fortuito
E derrubo minhas barreiras e muros
Por uma possibilidade de futuro

Mas como saber o futuro certo?
Volto à alegoria de Hécate e Janos
Entre o futuro incerto e o passado quieto
Há uma encruzilhada de planos
De destinos, de caminhos abertos
Como saber aonde vamos?

A resposta é: não sabemos

Janos é o deus das possibilidades
Do fim ao começo, das passagens
Não há inércia, não há impasse
A escolha é uma necessidade

Hécate é a protetora da encruzilhada
Ela oferece a luz, a mochila e a navalha
Mas ela não aponta a direção de nada
Estende a mão de ajuda, calada

A alegoria nos faz pensar sobre decisões
Para Janos, o fim é um novo começo
É uma trilha que se constrói consigo mesmo
Com Força, coragem dignos de canções
Não precisa ser um acerto, mas sim
Ações.
Feitos.

Para Hécate, o caminho precisa ser trilhado
Mas com o devido preparo
A devida inteligência
Andamos na trilha com consciência
É a prudência que proporciona o valor
Conquistado

Estivemos por muito tempo encruzilhados
Tempo o suficiente para não saber o que é futuro
E o que é passado
Os caminhos sempre cruzados
Tomados por susto, pelo acaso
Eu gosto dele,
Mas prefiro o caminho planejado

Demos o passo de sermos namorados
Amo você com o que posso
E sei que posso contar contigo ao meu lado
Não estamos caminhando no espaço
A confiança é a solidez debaixo de nossos passos

Olhando em seus olhos
Andamos juntos cada passo dado

Talvez carnaval seja o acaso,
Mas um ano é escolha
Talvez a paixão saia do ato,
Mas o amor se escreve numa nova folha

E se não soubermos como amar?
A gente inventa
E se houver algum problema?
A gente enfrenta

Fui bobo
Achei que o começo do namoro encerraria a encruzilhada
Mas o amor é muito mais do que uma escolha certa
Comedida
Encorajada
Ou intelectualizada
É um caminho contínuo
É uma escolha continuada

E eu te escolho todos os dias, amor
Nessa jornada
Pedra por pedra,
Camada por camada
Um trabalho duro que nunca acaba

Muito mais gratificante do que transar (o que já é divino)
É saber que independente de onde eu vá
A nossa estrada é o meu lar, lugar para onde voltar

E eu não a trocaria por nada.

Não-Amável

Eu estou perdido
Eu sou desconhecido
Um mistério a ser revelado
Um amor velado por um pobre coitado
Esperando que possa ser achado

Eu
Que nunca tive medo do amor
Agora estou diante do divino esplendor
Não sei se canto
Não sei como largar o temor

Eu
Que enganei a mais de mil caras
Conhecido como um nobre vira lata
Me encontro no mato sem cachorro
Contra a parede eu peço socorro


A ameaça? Eu mesmo

Nunca fui bom de pôr armadura
E meus livros sempre foram abertos
Mas agora estranho essa nova abertura
E me sinto exposto perante o incerto

Uma ilha somente cheia de diamantes
Que é descoberta por piratas
Óbvio que saquearão num instante
Transformando a ilha num vazio no mapa

Como ter certeza de ser amado
Se minha certeza era ser enxotado
Rejeitando sempre o fato
Que eu poderia ser adorado
Preferido, querido
Como alguém para ter ao lado

A minha certeza era que eu nunca poderia me dar esse luxo

Peço perdão me ajoelhando no milho
Me humilho para esse destino absurdo
Quem diria que eu poderia viver esse mundo
De amores muitos, de amores mútuos

Volto à minha assombrosa pergunta
Que se esconde atrás de mim
E sempre que me viro, me assusta

O que é amor?

Novamente:
Estou perdido
Sou o desconhecido
O universo a ser descoberto
A biblioteca de Alexandria perdida no deserto

Eu sou a luz que viaja sem rumo
Eu sou a dor sentido por um murro
Sou o sentimento de casa e proteção
Eu sou o “não” quando não pede permissão

Sou a revolução esperando ser erguida
Sou eu, sou você e posso ser sua família
Eu sou sozinho, num mundo de solidão
Eu sou por mim, somente por mim,
Sou a minha própria opção

É, amores…
Eu quebrei certos temores
Fui disposto a abrir alguns livros
Me senti ouvido, me senti querido
Senti sentimentos abrasivos

Mas infelizmente eu não confio
Eu tenho receio de amar
Eu não consigo

A cada vez que eu abro meu coração
Algo me joga de volta no mar de solidão
A cada vez que meu confio meu coração
Alguém o vende e eu o vejo jogado no chão

Eu não deveria estar tão apegado pelo amor
Eu lutei para não sentir mais essa dor
Me fortaleci para ser por mim
Mas então por que quando algo acontece
Quando eles brincam, brigam, desaparecem,
Quando eles parecem que não me conhecem

Quando eles nem querem conhecer

Eu me sinto triste
Fraco como um germe
Mole feito espaguete
Eu me sinto

Não amável