Dia 7: Imperfeição

E os pássaros voam no céu
Uns maís rápidos e ferozes
Outros espertos e fugazes

Não meço quem melhor voa
Mas posso ver daqueles pássaros
Quem vive numa boa
E sobrevive em seus próprios
Passos

E você que vive de etapas
Emprego? Check
Carro? Check
Agora é a namorada

E aquele que se mede por outros
E ignora o próprio esforço
Coitado do pobre tolo
Se não morre de estafa,
Vai ser de desgosto

Tem também o desistente
Aquele que nem sequer mente
Já toma para si a derrota
eminente
Mesmo que sua história
Indique diferente

Quase esqueço do perfeito
Que se foca em algo
Se cobra de todo o jeito
Seu ego depende do trabalho
Autoestima atrelada ao esforço
No entanto o vazio preenche
O seu rosto…

Vazio de viver o lado de fora
Vazio de vontade do chamado de agora
Vazio, pois a perfeição não é natural
Assim como pássaros voando em teu
Quintal

Falta sede do desconhecido
Sede do que foge ao seu poder
De não ter aquilo na mão e a mão naquilo
E “aquilo” seria seu próprio viver

E falta o impulsivo
O doido e repulsivo
Aquele que vai onde ninguém iria
Para experimentar uma liberdade
Fugidia

Há muito para se falar sobre o impulsivo
Sobre o desistente ou até o comparativo
Mas nunca falam do perfeito
Porque todos têm medo
De viver em seu direito

Se prendem a regras particulares
Vivem vidas vividas por milhares
Não procuram saber de se entender
Querem viver só por viver

Quando na adolescência
O professor de filosofia fala:
“Cada um é diferente de cada”
Ele não tava brincando com nossa
Inocência…

Porque aí cresce…
Olha para trás de si mesmo
E não vê nada além de um espelho
Refletindo todas as falhas e acertos
Que não necessariamente o fazem inteiro

Perfeição não nos merece
Ela é tão momentânea como a paixão
Deixa-nos obcecados, nos adoece
Só para alguém dizer “sim”,
Enquanto outros diriam “não”

Façam-me rir intelectuais,
Lideres religiosos ou municipais
Quem vos dá poder sou eu
Quando descumpro compromisso meu
Quando mando para a puta que pariu
E, o segundo seguinte, jamais sequer existiu

Não somos burros
Ou sentimentais
Não se chame de fraco
Ou incapaz

Eu sou a nota oito de dez
Me esforço pelo que corro atrás
Eu sei que tenho meus limites
Mas só viver por viver não me satisfaz

É preciso correr o risco
E até ser imprevisível

A vida joga caminhos,
não limões para um suco bater
Cabe a gente segui-los
e não nos espremer

Dia 6: Fantasmas Virtuais

Sandice minha pensar
Que algum dia poderia amar
Alguém de mediocridade o bastante
Para não reconhecer minha superioridade

Estávamos nós conversando
Conversa séria sobre alguns planos
Me abro pra ti
Confesso que eu te amo
Desisto de fugir do amor
Depois de tantos anos…

E vou para cima
Refaço minha rotina
Dia-a-dia comendo contigo
Cruzando as linhas
Quem diria que um dia
As Parcas cansariam de nossa
Parceria

Monotonia eu sei que não foi
Fomos agitados do começo ao fim
Festas, bares, encontros e afins
Mesmo quando estava só por mim
Ainda assim não parava de ver nossas fotos

Te amando sem propósito
Não vi a tragédia chegando
Coitado de mim, leviano
Ingênuo achando que estava tudo resolvido

Que o amor não estava só comigo
Ah, mas esse erro é antigo.
É pré-histórico!

Um bobo da corte sem maquiagem
Sem alarme de aviso
Só tenho uma plateia comigo
E, é claro, o seu riso

Eu não consigo acreditar em camaradagem
Não vejo nenhuma coragem
Na real eu sinto raiva disso
E pena do cansado menino

Enfim, de volta aos finalmentes
Vou-lhes contar o que aconteceu
Estávamos juntos quando o dia anoiteceu
E amanheci só de repente

Sozinho, amores.
Só.
Como um caminhoneiro na estrada
Toda irregular e esburacada
Sem volta do destino que escolheu
Mas até sem entender o que aconteceu
E sem poder reclamar de nada…

Eu tentei conversar com ele
Por mais de um dia seguido
Mas ele se escafedeu
Sumiu sem deixar vestígios

Eu insisti
Pois eu sou confiante
Eu sei que sou belo
Não mereço um tratante
Mereço o mais honesto

Bobajada minha…
Além de mal me responder
Ele mentia…

Eu devo ter sido o diabo
O inferno para ele
Ou só mais um otário

Não saberia dizer

Muito fácil dar ghost
Fugir dos problemas
Deixar pra depois
Deixar os outros presos
E criar novos esquemas
Longe do outro
Mas sempre tendo o otário na gaveta

E eu já fui muito otário
Cansei, velho… Cansei.

30 – Pancadaria

Nós pessoas com pênis e meninos
Somos criados pra luta
E quando eu digo luta, é pra agredirmos
Para ganharmos logo sem disputa

Eu sofria muito quando pequeno
Sempre fui um pouco ingênuo
Os meninos batiam em mim
Eu não conseguia fugir
Olhava para o espelho
Via um gordinho estranho e feio
Difícil foi a luta daí

O tempo passou
E acredito que a luta foi contra mim
Mudei muito de lá até aqui
Venci medos, e olha onde estou
Na estaca zero
Nunca fui bom de lutar

29 – Amor

Odeio escrever sobre amor
Tudo no mundo é sobre isso
Parece que não há outro esplendor
Que só há esse feitiço

Pois eu quero quebrar essa ideia
Posso escrever sobre a vida
Não me permito viver nessa miséria
Não quero saber o que amar significa

Não preciso amar para sentir empatia
A vida já nos dá infinitas agonias
Precisamos juntos aprender a viver
Sem depender do amor, somente crescer

Crescer vendo o mundo girar
Aprendendo a ver os detalhes do dia
Aprendendo a gostar de odiar
Permitir-se destruir um lugar
Ou até mesmo gritar com a tia

Amor é uma idiotice sem tamanho
Que engana trouxa que não pensa
Faz a lógica dobrar seus panos
Algo irrelevante do nada pesa
Você não estava nos planos
E acabou.

Não se deve nada ao amor
Não vou falar mais sobre isso
Se você quer se dispôr
Boa sorte, seu estrupício

28 – Dilacerar

Quando eu te vi
Não acreditei na hora
Você tão lindo ali
Fui falar sem demora

Não sabia se você queria
E eu estava meio tonto
Mas o desejo foi meio guia
E você respondeu no ponto

Queria ficar mais um pouco
Eu me derreti todo contigo
Você falava coisas sem sentido
Me afastei me achando louco

Louco eu fui por não aproveitar
Só olhar pra você não consigo
Seu sorriso, você é tão comedido
Meu objetivo é quebrar seu juízo

Ver seu olhar ao se perder
Deslizando seu corpo no meu
Se divertindo sentindo prazer

Desejo provocar você agora
Como tu me provocas
Porque quando você está em volta
Uma fera de mim se apossa
Não consigo pensar em nada
Além de ver sua carne dilacerada

Não há mais corpos
Apenas linhas e conceitos
A consciência perde o foco
De Ícaro eu me esqueço

Os instintos imperam soberanos
Quero rasgar suas linhas
E mesmo te conhecendo faz dias
Quero você por anos

A vontade é a destruição completa
Você me arrebenta de me fuder
Eu explodo sua cabeça
Tudo que sobra sou eu e você

Babo vendo você andando
Cansado, mas me chamando
E eu vou, meu amor
Vou te dar meu calor

27 – Gótico

As forças do inimigo
Oprimem a mente do fiel
Se te envolvem em fel
Então serão meu abrigo

Jesus morreu antes de nascer
Constantino lhe deu esse prazer
Agora o espírito santo é o guia
De mentes e almas já vazias

Pois eu persigo o sonho meu
Fugindo da estagnação passada
Voando e derretendo pelo céu
Mas ao cair não me arrependo de nada

Eu me importo com os outros
E também com a vida humana
Quero ter uma vida bacana
Ver meus amigos bem soltos

Mas a atual bondade ingênua
Afoga o bem de verdade
Num mar de pura insanidade
Deixando uma quietude plena

Pois eu rasgo essa fantasia do além
E procuro entidades humanistas
Há uma beleza no sacrifício, sei bem

E refaço meus estudos
Penso em meu lugar no mundo
Dedico a minha vida aquilo
Respiro o estilo artístico.

26 – Apocalipse

Talvez nos enganamos
E se fomos nós os deuses?
Nossos poderes criamos
E transformamos todas as vezes

Transformamos a terra e o céu
Transformamos as cores
Nós recriamos as flores em papel
Retiramos o mel e o transformamos
Em valores

Talvez sejamos deuses da destruição
Levando nosso mundo a extinção
Vidas inocentes, fauna e flora
Não são uma grande preocupação
Em comparação ao lucro que vira agora

Deuses que potencializam seu poder
Para poder se materem melhor
Consideram a morte vencer
O preço da vitória grava na terra o seu pior

E se somos deuses menores?
Cada um com sua função divina
Uns para lutar, outros para escrita
Artes que nós fizemos virar scores…

Podemos ser deuses, acredito.
Deuses de criação, eu ainda me permito.
Deuses que usam a imaginação
E transformação em realização
Deuses que lêem o mundo
Criam determinada opinião
Querem determinado estudo
Para transcender entre os seus
Dominar o poder como deus

Se o mundo acabar como falam
E os humanos derreterem no asfalto
Prevejo, apesar de ser contrário
Que alguém desejou todo esse estrago

25 – Paranormal

Há uma sombra vermelha
Pairando pelo mundo
Uma ameaça a tudo
Apagando a centelha
Corrompendo o futuro
O imundo virará rei
E o rei perderá prestígio
A violência eu herdei
Minha resposta é homicídio
Não prometo vida boa
A vagabundo pé rapado
Vai segurar teu fardo
Não importa o quão árduo
Eu sou sua patroa
Seu patrão, seu dono
Mando e desmando
E assim eu me imponho
Resposta não tô aceitando
Mas esses comunistas são demais
Que absurdo falarem sobre paz
A lei da vida já está dada por aqui
Alguns humanos só servem pra servir
Eu não sou como esses outros
Também vem de minha família
O apreço, a norma, os gostos
Somos como uma matilha
Correndo entre os nossos
Degolando cordeiros
Isso tudo é verdadeiro!
Nossa força depende de seus esforços
Então não morra, bobo.
Trabalhe que nem louco
E no final de tudo isso
O problema é o fantasma do comunismo

24 – Fantasia

Acordo de manhã
Mais um dia na rotina
Banho para aguentar a sabatina
Café, pão, carinho no cão
E partida

Um caminho longo e tortuoso
Perguntando “por que saí de casa?”
Saio cedo e para meu desgosto
O transporte ainda me atrasa

Chego no lugar e começo minha função
Calado sempre pra não chamar atenção
Falo com meu colega uma piada besta
Ele não entende e eu volto meu corpo à mesa

Passo o dia envolvido em problema
Meus, dos outros
E de quem mais me conheça
Fujo e caio em mais esquema
Desejo que todo mundo desapareça

O dia acabando e só humilhação
Vou tentar beijar um gatinho pançudo
Ele me encara com um terror absurdo
Eu me retiro rapidamente logo então

Voltando para casa e eu estou cansado
Mais um dia em que fui humilhado
No celular mil mensagens do meu lado
Finjo-me de abestalhado

A viagem de volta é pior que a ida
Pessoas perderam sua fé na humanidade
Já desistiram de suas vidas
Tratam aos outros com sincera maldade
Eu só quero chegar no meu local de saída

Chegando em casa e tudo apagado
Ligo as luzes e ponho comida no prato
O cão pede sempre um pedaço
Tomo um banho e subo para o quarto

O meu dia existiu e foi sem parar
Eu não quero viver o mesmo lugar
O mesmo minuto, o mesmo real
Eu quero um mundo mais igual
Um espaço que eu sinta paz para ficar
A depressão de viver o real me é fatal
Não consigo mais me suportar

E é quando os sonhos aparecem
A fantasia, os segredos, o mundo celeste
Um escapismo para um lugar bom
Em que eu possa criar conforme meu dom

E você sente que é capaz de suportar
E sente que o presente é uma dádiva
Que você pode e deve transformar
Para não se afogar em lástima

Por favor, mergulhe na fantasia
Destrua seus muros literários
Soma esse mundo ao mundo imaginário
Alguém precisa parar a hipocrisia
De que sonhos são para crianças
E o real não pode ter magia

23 – Gore

Uma agulha entrando na córnea
A respiração automática parando
Tem algo que tá incomodando
Logo embaixo de sua unha

Corpo queimado aos poucos
O sol não é suficiente para meu receio
Deixe-me pensar em um jeito novo
De roteirizar sofrimento alheio

Vísceras explodindo em sua frente
Geralmente garotas sendo fatiadas
Brincar com corpos graças a internet
Vamos ver qual morte será mais falada

Eu parei de ver graça no gore
Não acho muito interessante
Existe outras formas telling a story
Não precisa de agonia incessante