6 – Reflexão

Em janeiro eu fui ingênuo
Me atribulei com atividades
Nao sabia o que estava fazendo
Não via nenhuma maldade

Em Fevereiro o mundo explodiu
Intenso como o sol de verão
Foi carnaval no Brasil
Mas os dias passaram em vão

Em Março começou o surto
O tempo passando rápido
Eu sem mover um músculo
Pávido

Abril passou dolorosamente
Os cheiros de amores como café
Amargo, energizado, quente
As vozes me mantinham de pé
Me questionei se tinha alguma fé
Naquele ponto poderia ser qualquer uma

Maio foi novos sabores
Novas pessoas, novas visões
Maio foi um mês de puras dores
Novos problemas e decepções

Junho, o mês do estrago
Ansiedade, medo e frustração
Andando juntas mão a mão
Eu me desvencilhando do buraco
Procurando um abraço bem apertado
Procurando sexo sem paixão, coitado
Mas nem isso eu acho
Como Zuko, o destino não está claro
E termino só, como sempre foi
Apenas minha sombra ao lado

Julho de redenção, fortuita
Consigo caminhar a conta gotas
A dor ainda fica por muita
Mas nascem também emoções outras
Profundas

Agosto, um ouro de tolo
Escrever se torna um absurdo
E o trabalho fica perdido no processo
Tenho medo das palavras
Medo de meu regresso
Um novo surto me abala
Então largo tudo e ando solto
Com uma mão no bolso
Pensando em não pensar em nada

Setembro, o doce é um veneno
Acredite em você mesmo
Não pense pequeno
Inspiração? Olhe pro espelho
Mas não se convença por inteiro
Seja ágil como o vento
Rápido, quieto, incontrolável
Quem sabe a dor se torna suportável
Talvez você encontre poder no diálogo
Eu sei que ainda está confuso e doendo
Mas você não é mais tão fraco

Outubro, estamos aqui
Não paramos um dia
Sempre um passo a seguir
Responsabilidade que não cumpri
Outras que estão cumpridas
A racionalidade me guia
Sem ela, eu me perdi
Sentimentos nunca serão tirados de mim
Sinto muito, sou assim
Aventuras que me chamam
As tarefas que eu adianto
O mundo não para ao me ver cair
Isso também eu entendi

Eu não sei o que me aguarda
Não sei se vejo um futuro
Pela primeira vez na vida,
seguro a espada ao invés do arco
Luto de frente contra demônios do passado
Às vezes atolado no barro
Às vezes líder de um Estado

Não sei se vejo um futuro
Tateio as paredes enquanto ando
Ando e faço curvas no escuro
Cubro minhas mãos quando sangram
E fico sem saber que direção procuro
Mas não faço mais o que me mandam
Acho o labirinto mais seguro

Reflita, reflete, respiro, impede
Conflito, compele, conspícuo, compete

Não sou um ganhador
Não sou sequer um jogador
Eu sou um fazendeiro
Colhendo as mudas
Regando o dia inteiro
Comemorando as frutas
E dormindo cedo

Eu sou um leitor de livros
Que se irrita e se emociona
Com o personagem favorito
Aquele que escolhe o menos querido
E torce para que tenha um fim bem quisto

Eu sou um pesquisador
Eu colho e analiso meus dados
Observo e duvido dos fatos
Eu sou quem trabalhos inspirou
E mesmo assim eu sou ninguém
E sou o público consumidor
Sou uma senhora ou um senhor

Não sirvo para ser manipulado
Jogado de um lado pro outro
Ser mexido como uma caixa de biscoito
Consumido para um jogo de retalhos
Esquematizados
Não é de meu feitio, não é o meu caso

5 – Azul

Sou eu e o azul
Sempre fomos
Unidos pelo cordão dominical
Separados pelo sonho de estranhos

Quando criança eu via como normal
O azul estava na minha cabeça
Mas ele não poderia ser real

Eu não me sentia diferente
Porque achava que pensavam igual
O azul comovendo em montes
Meu pecado ancestral

O azul cresceu como um câncer
Se multiplicando sem parar
Tomando conta da criança
Silenciosamente, sem manifestar

Mas os outros sabiam do azul
E era de se esperar
O azul não manifestava
Mas eu o fazia se apresentar

O azul respingava de mim para fora
Em gestos, falas e formas
Os homens e crianças fugiam na hora
Tinham medo do azul pegar

Guardei o azul comigo
Eu e ele por anos a fio
O silêncio era explicativo
E o azul ficava quietinho

Na adolescência, o azul voltou
Mas estava diferente,
Era um azul com bordô…
Um roxo que ferve a gente
Entorpece e escorre em amor

Fui roxo, fui vermelho
O azul olhando com medo
Esperando sua vez
Talvez ficasse por dias
Talvez só um mês

E, como nunca se fez
Eu libertei o azul
Um azul cortez
que tomou tudo
No começo, recuo

Depois, o culto

O azul preencheu o vazio
Era o normal verdadeiro
Aquilo que não se ouviu
Escondido dentro do mundo sombrio

Viciante
O azul é um perigo constante
Entorpece os sentidos
Me faz desaparecer por instantes
Tomando conta
Assumindo o volante…

Eu não tinha como fugir
Já estava entregue
Deixando o azul fluir em meu corpo inerte

Como explicar que a doença contagiante
Era o sabor da vida adiante?
Como eu poderia me sentir
Depois de guardar o azul tanto tempo dentro de mim?

O azul transbordou
Ele não era mais eu ou meu
O azul estava nos outros
Mesmo sendo azul, era calor

O azul foram vários outros
O azul me machucou
Eu fechei os olhos para ele
Porque, depois de sê-lo
Transborda-lo em meu corpo
Não queria ver o que se tornou

Azul cor do céu
Dos mares, dos olhos
Das mochilas e do meu fel

Eu chorei, e como chorei
Para o azul, era um eterno replay
Um castigo e uma emoção
E uma esperança e uma ilusão

O azul perdeu a noção

Preciso controlar essa pulsão
Administrar o azul do meu coração
Ele importa, mas não pode escurecer a visão
Borrando meus sentidos
Me escravizando
Me silenciando
Em sua mão

Como o fiz
Quando não tinha noção de como amar
Era bom

4 – Carregador de Tocha

Nada lhe prepara do fardo
Do azar premeditado
Do conhecer sem saber de fato
O que o futuro tem reservado

Nada lhe prepara para o fardo
O amigo aponto e disse “otário”
A mãe querendo estar ao lado
A irmã procurando como ajudá-lo

Nada lhe prepara para o fardo
Você, se sentindo preparado
Fica de joelhos já antecipado
Sua cabeça girando e pensando
“Eu deveria ter remediado”

O fardo é muito pesado
É um peso diferenciado
Que assusta o halterofilista mais bombado
Que deixa o estrategista noites acordado

Mas o fardo precisa ser carregado
Todos os dias um novo ato
Uma nova carne, um novo palhaço
Pronto para atender ao recado
E carregar o fardo por onde tem andado

A tocha do conhecimento
O caminho de quem sabe
Porque já estava por dentro
A tecnologia e o investimento
Unidos para seu divertimento

Um cavalo de Tróia
Corrompendo a mente
Mudando o rumo da história
Deixando o ciente
Inconsciente
Temendo imagens falsas
Desmentidas toda hora

O peso de conhecer a mentira
E ouvir as confusões bem acometidas
Eu tento avisar e aliviar corações apertados
Mas a internet possui laços mais afetados

Imunidade de rebanho
Vira vulnerabilidade de rebanho
A democracia punitiva
E o autoritarismo é regra do dia

Pensei estar quebrando barreiras
Pensando em anarquia
Mas aí eu destruo o Estado
Para melhora a mais-valia?

Exploração da agonia
Dia apos dia em telas
Vendo vídeos que nem interessa a ela
Cansada em sintonia
Não quer pensar que culpa é dela
Da vida fugidia
Dk destino de tabela

A fuga parece ser uma necessidade
Antes feita em conjunto nos bares
Agora é única e bem específica
Não mais sonham com a vida idílica

Sonham com nada
Vivem dia por dia
Fazendo caminhada pro trabalho
Sendo datificados por companhias

A tocha do conhecimento é pesada
Mas ela não traz a solução
Se saber não resolve a situação
A verdade acaba sendo renovada

Conservo meus ideais
E massifico para quem vai ouvir
Eu acredito na vida que lutamos
Eu acredito que você pode existir

Eu não sou muito mais que um garoto
Tentando entender esse mundo de louco
Mas eu sei que precisamos nos juntar
Viver pelos outros, para melhorar

A humanidade não é o erro
Não deveríamos ser extintos
O regime econômico é o erro
E deveríamos ser mais combativos

Pense por você, por favor

3 – Linha

Meu corpo no limite
Eu estico os braços para apanhar
O que me Permitem tocar, apreciar…
Mas sempre do lado de lá
Nunca posso viver o Shangrilá
Sou demais para poder amar
Ah, na verdade sou de menos
Sou instável, sou fácil
Sou cozinhado pra depois
Assar…

Meu corpo está no limite
Sei que tem pouco que devo provar
Mas lidar com os outros
Impondo o que me atinge
Parece que não me compensará

Minha mente está no limite
Eu tento me esforçar
Dou duro pelos compromissos
Mas mesmo assim não consigo chegar

Minha mente está no limite
Vocês querem que eu vos imite
Mas eu sempre fui quem vos fala
E sei quem quero me tornar

Estou cansado do mundo em volta
Cansado de abaixarem minha bola
Sinto o menosprezo nas atitudes silenciosas
Eu tento muito
Mas não consigo ir embora

Eu estou em meu limite
A linha já não segura o equilibrista
Ele rebola e se assusta com a altura
A platéia ri e o aplaude lá em cima
Ele sabe que, se cair… Não tem cura

A linha foi cortada
Os limites ultrapassados
As mentiras contadas
E o amor…
O amor foi revogado

Eu preciso revogá-lo
Preciso, pois é tudo que me resta
Decido, por não querer um papel nessa peça
Convido, para curtimos a seresta
Converso, o que realmente interessa
Dividido, entre o sentimento, a razão
E a promessa

Promessa de me colocar na frente
Me proteger do perigo eminente
De construir uma casa pra gente
Quando devo seguir meu próprio caminho

Ah, eu me sinto vazio
Uma solidão que não aquece o frio
Que congela o coração palpitante
Que me distancia do que é querido

Consequências de se ter o limite
Traído
E fazer o lamento
Tardio

2 – Cortinas

Escrevi palavras
E seguem mentindo

Mantenho um sorriso
Traço meu caminho

Mentiras saem pela culatra
Cabe a mim rever a estrada

Mais uma pegada
Inimigo ou namorada?

Eu beijo o espelho
E me sinto inteiro

Corro para dentro de casa
Onde o perigo não passa

Deito no sofá e abraço as pernas
Abraço a almofada
Espero o clima dar uma melhorada

O silêncio também possui
Palavras…

Abro uma fresta na cortina
Para ver o que espera
Minha carne latina

Mentiras escorrem na janela
Nublando o dia quente
Esfriando meu coração
Que bate inclemente

Penso em versos de canção
A emoção mais adolescente

Subitamente desvio o olhar
Fecho a cortina
Volto pro sofá

Eu e eu, sempre comigo
O silêncio absurdo zune meu ouvido
Eu e eu, comigo
Namorados eternos
Eternos vadios

Mas eu não omiti
Eu não minto
Se o mundo sumisse
Ainda seria eu
Meu único amigo

A cortina bate em casa
Eu vou ver a rua

Não é nada

Fecho a janela
Penso se devo a espera
Olho pela fresta

Nunca houve nada…

1 – Sol

Deixe o sol brilhar…

A lagarta comeu a planta
A planta do jacarandá
Mas a árvore tinha muitas folhas
E o sol continuou a brilhar

A pedra quebrou no monte
Causou uma terrível avalanche
Por sorte, caiu no mar
E o sol continua a brilhar

Quis ir pra praia hoje
Céu azul
o sol a brilhar
Meu amor no buzu
Melhor não poderia ficar
Mas o céu cinzou do nada
E a chuva caiu, desajeitada
Toda torta só pra nos molhar
Mas, mesmo com o cinza do céu
Ou a água que pudesse pingar
O sol estava brilhando
Esperando a nuvem passar

Meu pai construiu uma prisão
Bem parecia uma longa casa
Um labirinto sem volta ou perdão
Sem teto, o sol passava

E eu estava estudando
Estava nervoso, no meu canto
Digitando sem parar
Olho pela janela e lembro
O sol vibrando no fim da tarde
O céu cheio de cores
A natureza fazendo arte
O sol, é claro
Protagonista
fazendo sua parte

Foi dia de briga
Corri até quando não aguentava
Respirei fundo
Tentei acalmar minhas passadas
O sol na cabeça doía a casca
E o calor nos pés queimavam como brasa
Violento, mas resoluto
Ele assistia sem passar nada
Assistiu meu luto
Assistia minha raiva
Perto o suficiente
Para iluminar a caminhada
Longe o suficiente
Para me deixar na mágoa

Mas, independente de minha opinião
Sentimentos
Desejos
Obsessão

O sol brilhava

Hipnotizando quem se interessava
Transformando amor em ardor
Eu o reconheço de vidas passadas
Eu corro para alcança-lo
Me estico por completo
Pulo acima do mar aberto
Estico minhas asas

Voo, por cima do mar Egeu
Voo, porque ele tem de ser meu
Voo, pois não me esqueço dela
Voo, uma nova chance me espera

De cima eu vejo eles pequenos
De baixo, o pequeno sou eu
Subo até perde-los de vista
Me perdendo por inteiro
O que dói meu peito
E volto a ser artista

O sol se queixa de minha chegada
“Faça com que eu seja lembrada”
E caiu de lá de cima
Como um cometa-escriba
Com a cauda desenfreada

Recorro a minhas rimas
Palavras usualmente sem graças
Caio em meio a minha desgraça
E o sol sorri de lá de cima

Continuo a minha jornada

_____________________________________________

Sol é um assunto complicado pra mim. Foi difícil escrever esse.

É pena

É pena que eu não consegui mais ver esse teu olhado
Rindo ao seu lado
Momentos de brilhantismo e história
Que foram e são muitos
E os guardo agora como memória

É pena não mais ouvir de sua vida
Eu fiquei impactado de saber sobre sua ida
Essa cidade traz dificuldade pelas esquinas
Imagino que tenha saudade de São Paulo
Mas não deixa fácil sua partida

É pena não mais contar minhas coisas
Passar as noites explicando bobagens
Ou conhecendo novas pessoas
Descobrindo diferentes expressões de arte
Tendo a sorte de estar com sua pessoa

É pena estar distante
Estar indisponível pelo trabalho
Ocupado em cada instante
Mas é que eu ando meio atrapalhado
Ando realmente dividido
Esse ano foi difícil achar tempo para mim
Comigo
Essa distância foi amigável

É pena que esteja distante
Queria conversar contigo
Falar uns pontos que são relevantes
Queria ainda ser um amigo

É pena não curtir mais a presença
As noites de dança na sala
O carteado e a provocação intensa
A recompensa no suor de madrugada

Como disse,
A memória tem vida própria
Ela lembra, ela mostra
Agora eu sinto pena dela
Porque eu sei que não volta

É pena de mim naquele são João
Noite que ela sempre evoca
Da dança tímida
e do licor de paçoca
Última vez que toquei sua mão

Eu não imaginava a proporção
Não, eu não tinha nenhuma noção
E depois o amargo na boca
Subindo aos poucos
Como conta-gota

Eu vejo os erros e assumo os caminhos
Mas assumo também a confusão
E sei que conversa justa teria resolvido
Não uma forte discussão e um sermão

A história e a memória andam me perseguindo…
Pedindo uma solução
pra esse dilema infinito
Mas o tempo, maior que elas
Não se rende ao póstumo perdão
E nem ao sermão duplamente compelido
Eu ou você certos ou perdidos…
Cansado e traído,
O tempo absoluto regra nosso destino

É pena não ter mais tempo
Fico feliz que o mundo girou a seu favor
Vejo as peças, sei de seu primor
Um dia eu apareço, juro!
Quero saber de tudo tudo tudo

É pena.
Não é fim
Não é ódio
Não é temor.
Não é o romântico amor.
Também não é um pódio
Ou promoção.
Só dizer que apertaria novamente sua mão

Inktober

Decidi fazer o inktober. Eu a princípio ia fazer com uma amiga, mas meu tempo tá muito puxado e não conseguiríamos sincronizar. Vou fazer sozinho com o Cliquetober. “Clique” são os fãs de 21 Pilots, como eu.  Fizeram um de desenhos e eu vou pegar pra fazer de poesia.

Estou um pouco atrasado, mas eu consigo adiantar, acho.

Mar

Barulho alto
Muito alto
Sinal da vida em brasa

Fogo se espalha
Chamas fortes
Chamas altas
Queimam a cabeça
Consomem a beleza
Distorcem, deixa fraca
Deixa instável
Mesmo a pessoa mais calma

Corro para cima
Corro para baixo
Abro minhas asas
E salto
Torcendo pela alçada
Não sabendo se voarei
Ou se farei a chegada

Eu não voo
Bato as asas
Sinto o vento no corpo
Mas não voo
O corpo treme perante o esforço
As asas fraquejam cansadas
E eu volto ao meu posto
Andando como um louco
Buscando algo que desfaça
Algo que acabe com a fumaça
Com o fogo, com a brasa
Que me queimam todo
Que me desgraça

até que acostuma
A dor é contínua
Ela acumula
Pinga de gota a gota
Ela inunda
E, de tão molhado
Meu corpo afunda…

Debaixo da água
O som é abafado
Se ouve chiados
Te ouço assustado
Não se assuste não

Nada mais normal
Do que afogar o fogo da aflição
Nos mares da apatia e frustração

Esses mares não são revoltos
Eles são pacientes
São lindos, são soltos…
São mais profundos que nenhum outro
Eles atenuam o fogo
Águas quentes
Mares que puxam aos poucos…

Pisca-se os olhos
E seja pelo mar
Seja pelo olho
Seja pela ira
Ou pelo que irá acontecer
De novo

Você afunda, morto
Sem respirar
Mergulhado em desgosto

Ou fica molhado
Ou pega fogo

Só pode um dos dois.

Sombra

Sombras só acompanham. Eu sou feito de carne e história. Eu tenho vida própria e, por maior que sejam meus medos, eu tenho sonhos. Não me cabe ser sombra.

____________________________________________________________

Um fantoche pisado
Andando pra todo lado
Repete os gestos
Mas a voz é muda
Não há chiado

Andar contra maré é errado
Já não sabe quantas regras
Tem quebrado…
“Ah, não se faça de coitado”
Disseram
“Você lembra do que fez verão passado…
Ou foi no inverno?”

Fantoche pisado
Brincando de amar
Sem ser amado
Movendo seus braços
Achando que escolhe o passo
Não passa de um otário

O tempo voa
E o fantoche cresce
Fica maior do que se pensava
E se assusta, esmorece

Ele não é o único assustado
Os outros vêem o tamanho
São pegos desarmados
Não esperavam um tão grande
Otário

O fantoche não é deixado
Continua com seu trabalho árduo
Tudo para seu amado
Tudo pelos seus amados

A noite chega
A escuridão limita seus passos
Eles deixam de pisar
Mas eles também não são encontrados

O fantoche procura cada brecha
Cada poste, vela, lanterna erguida
Ele precisa de regras, de sentido
Sem uma luz, sem tremular
Uma sombra não pode ser vista

Ele vira copo
Vira planta,
Vira presença querida
Vira comida, tv
Vira até uma moça bonita
E Quando as luzes se apagam
A sombra vira escuridão infinita

O prazer é a maldição
Sombra pode ser tudo
Dentro na escuridão
Acontece que o tudo é absurdo
E a sombra nunca teve muita sorte
De escolher o que fazer
De se dar um norte
Ela se espalha sobre a casa
Refletindo somente suas falhas
Esperando ser de novo
O Fantoche

A luz chega forte
Quando acorda, oh sombra
Você precisa que alguém te escolte
Calada na cama, imóvel
Até que alguém acorde

A rotina se repete
O fantoche se diverte
Ele ama apresentar imitações
De gato a inteligente,
Várias opções
Esperando o mestre
O mestre negligente
Ser clemente
Para dar ordens padrões

Um dia a vida esquece
A sombra existe
Mas não mais se repete
Como um borrão cinzento no chão
Seu mestre já decide
“Vá, sombra. Sua serventia passou
Do limite”

Sombra corre pelo chão
Vira poste, vira roupa
Mas ninguém a dá atenção

A sombra anda o dia inteiro
Sem direção, o Fantoche é só meio
Desesperada ela ajoelha
Olha para o céu
E vê saltar poucas estrelas

Naturalmente ela cresce
E, agora, vê o mundo da rua
Passou tanto tempo sendo sombra
De outros
Refletida por qualquer luz escura
Que esqueceu quem era

A sombra se levanta
E, com ela, a noite se espanta
Um apagão no meio da cidade
Para que a sombra refletisse sua imagem

O sol que antes era majestoso
Agora só restava a lembrança das cores
A Lua era gigante, brilhante
Vibrando mais do que os amores

Sombra nunca foi o nada
Nem mesmo um fantoche
Não era a vela, o copo
E nem o poste.

Sombra era a força da luz
Era a visão possibilitada
Sombra era tudo que reluz
Sombra não tinha corpo
Não tinha identidade
E muito menos desgosto

Sombra era maior que eles todos

Um mundo inteiro era menor que sombra
Que nesse momento refletia a vida
O sentimento de partida
A lei inevitável da morte
Aquilo que se move
E os imóveis

Sombra era eterna
Tal como a luz
Pois irmãs eram
Brilhando e escurecendo de onde vieram
Simplesmente flui

Entendia porque a viam como fantoche
Como copo, roupa ou mascote
Eles não sabiam o que é uma entidade
Que flui pelo universo
Que vive tantas eternidades
Que acaba parando sua vida

Vendo no lugar de bobo
A única saída