Mil outras linhas soltas
Pouco a pouco
Limitam eu
Mil e muitas outras
Linhas soltas
Pouco a pouco
Apagam eu
Um bicho na selva rara
Espreito ávido de fome
A fera sabe dizer meu nome
E olha bem na minha cara
Me destituo de medo
De ódio ou de respeito
A fome devora os sentimentos por inteiro
Eu a encaro de volta
E faço reconhecer minha cara de revolta
Mas ela não se importa
E volta a andar pela mata
Persigo,
Agora com fome e com raiva
Caço minha presa tentando não afasta-la
Mas, quanto mais ando…
Mais me perco na selva fechada…
Agora, com fome e sozinho,
A raiva ofusca o meu caminho
Me encontro na mata fechada
Apenas com um facão, uma mochila
E minha alma desgarrada
Culpar a fera não mostrará o caminho de casa
Planejo próximos passos
Refaço o caminho andado
E me assusto com o rastro:
A destruição que fiz no passado
As plantas que tive dizimado
Os pequenos animais esmagados
Humanos que matei sem pensar
E aqueles que deixei sangrando de lado
Eu que sou o culpado
De repente, o sentido perde sentido
Norte ou Sul, frente ou costas
Futuro ou passado não mais esquecido
De repente, essa trilha não mais se mostra
Não estou perdido
Eu não tenho caminho a seguir
Sento no chão de folhas mortas
Respiro o ar tóxico de natureza
Tento concentrar o que realmente importa
Fecho os olhos
Busco franqueza
O facão pesa em minha mão
Jogo-o no chão
Me desarmo em meio a mata
Mas o medo não mais me empata
Não me pega de supetão
Depois, deixo a mochila cair
Roupas, mapas, canetas, cadernos
Não servirão para mim
Me prendem em lombos eternos
A minha alma desgarrada
Está olhando de longe
Quieta, acuada
Eu a olho de volta, em meio à mata
Com olhos de raiva
Ela corre e se esconde
Retomo a caçada