Foi você que fez isso

Você tocou minha campainha
Você abriu minha porta
Sentou no meu sofá
E comeu de minha farofa

E você me esnoba
Reclama que de farofa não gosta
Que o sofá é muito macio
Que a cor da parede não é de seu feitio

Você me rouba a paciência
Deixando de refém minha bondade
Para poder voltar à vontade
Ora, eu nunca te disse não

Você que veio para a minha canção
Foi você
Que veio para a minha casa
Você que comeu de minha farofa
E deu risada
Foi você
Que escolheu sua própria desgraça
Fingindo uma amizade,
Mas não entregando nada
Pois agora eu estou com raiva

Espero que quebre seu dedo
Que tocou a campainha
Espero não ter mais sua
Companhia
Espero que não consiga abrir a porta
Espero
Que engasgue com a farofa

Você não é mais bem-vindo em minha casa

Se espera um amor fraternal
Receberá minha ira e mais nada

Guardo minha graça para os que merecem
Não sou mais o ícaro que aguenta estresse
Não é um favor, mas um comando
Saia da minha vida
E não me deixe esperando

A Fantasia de ser alguém quase me mata

Eu fico aqui
Escrevendo textos
Desenvolvendo assuntos
Tentando criar um pretexto
Um lugar pra mim nesse mundo

E o mundo gira, gira
Gira…
E o tempo passa, passa
Passa…

E eu vivo
Sim, eu vivo
Assumo responsabilidades
Crio a minha própria identidade
Desvendo novos andares
Caminhos trilhados por milhares
Mas de formas diferentes

E eu sinto
Que tem algo de errado
Algo que não faz mais sentido
Algo que eu deixei de lado

Eu me sinto errado
Como um brinquedo ficando quebrado
Como se eu mesmo não pudesse
Ser achado

Perdido no meio do mato de pedra
Eu reajo da forma que ninguém espera
Caminho torto
Aquele caminho trilhado por todos
Para ver minha imagem no reflexo
Completamente novo
Bagunçada
Melancólica
Desfigurada
Tortuoso

Sim, eu estou vivendo
Construindo-me de poesia
Mas se a poesia é uma vingança escrita
então A vida está alimentando o rancor
Rancor esse que advém de uma ira
Impulsiva e esquecida
Inalcançável
Inativa

Perdi meu Ícaro de mim
Valorizando os outros
Perdi o encanto pelo gosto
Mostro a todos como sou bondoso
Quanto mais pedem, mais me doo
Quanto mais doo, mais perco eu

E quantos me restaram?
Se eu sou eu por inteiro
Ou um trouxa de retalhos
Claro, sou parte de todos
Mas se todos já me levaram
Sou eu de todos
Ou sou eu meu único amado?

Ainda com o gosto amargo na boca
Queria poder viver vidas outras
Quebrar o limite de meu corpo
Rasgar pulmões e quebrar costelas
Abrindo espaço de dentro pra fora
Cortando meu peito
Sangrando por inteiro
Nascendo de novo
De mim mesmo

Refaço meus passos dados

Refaço meus passos dados
Caminho para longe de todo marasmo
De todo cansaço e esculacho
Que me enfiei em busca de mim

E o que vim fazer aqui?
Continuo caminhando sem resposta
Sem destino final ou chegada
E, quando eu paro, faço uma aposta
Com os dedos cruzados nas costas
Sem saber se para sorte ou para engana-la
Eu juro
Juro que não vou tentar mais mudar
Que esse finalmente será o meu lugar

Eu faço a minha morada
Construo minha vida ao redor
Planejo o melhor para minha casa,
Para minha vida e meu futuro
Ah, mas versatilidade precisa acompanhar
O crescimento de um adulto
Quanto mais eu firmo o chão em que piso
Eu vejo a casa cair com chão e tudo junto

Rostos borrados acompanham meu fracasso
Palavras que não mudam a minha realidade
É apenas o som do relógio me acorda
“Preciso tentar de novo”

Volto ao caminho trilhado
A cada gole de água, um passo
Caminho até o sol parar de brilhar
Até minhas pernas não poderem mais aguentar
E aí eu sei que estou na metade do caminho

E continuo andando

As vistas cansam
Os olhos ardem
Os bocejos são mais de costume do que sono
E o cansaço é a dor na cabeça intensa
É a coluna gritando por piedade
E a fome torcendo a barriga de maldade

Preciso parar mais uma vez
Por mais que eu não aguente mais mudar
Ter uma vida flutuante sem certeza de amor
Ou de amigo
Vivendo debaixo de um sol
Abrasivo
Dia após dia fazendo mais
Inimigos

Eu preciso ter alguns pontos de parada
Para respirar, beber uma água
Para me sentir vivo
E construir uma nova casa
Perceber minhas mudanças
Conhecer novas caras

E talvez ser alguém melhor
Claro, com muita lágrima e suor
Não por vangloriar a dor,
Mas por saber quem sou
Será necessário sofrer
Perder amigos
Mudar e me mover
Preciso conciliar a vida
Para então não sofrer
Com a partida
Tanto minha
Quanto dos outros
É que eu continuo os amando
A cada um, um pouco

Se antes meu coração ficava com eles
Agora eles me acompanham
E a cada parada
Novos amores vão chegando
Amores de amigos
Amores de irmãos
Amores de castigos divinos
Amores que me deixam são

De repente eu terei que ir
Arrumar minhas trouxas e tralhas
E me picar daqui
Mas nunca deixarei pra trás
Todo o amor que eu senti

Nessa vida dura que me espera
Nessa viagem que é eterna
Porque dura o quanto eu existir

E eu continuarei andando

Se aqui não restar mais vida para mim

O Diabo

quando estava pra ser concebido
logo fui abençoado
o próprio diabo me disse
que eu seria como ele, viado

minha vida seria amarga
em volta de anjos sagrados
meu pai me mostraria cedo
a dor de ser rejeitado

na escola, me xingariam
em casa eu apanharia
ninguém me daria ouvidos
pra completar a profecia

o diabo também me disse:
cuidado com quem se diz santo
pois a maldade do homem de bem
te causará espanto

aqueles mais próximos de ti
são os que mais te farão sofrer
fora de casa, sentirás dor
mas dentro dela irás morrer

o homem abençado
viverá em abundância
enquanto tu, viado
sofrerás desde a infância

mas a verdade é o que o diabo
estava um pouco equivocado
pois foi antes mesmo de ter nascido
que comecei a ser violado

será que meu pai pressentiu
a ameaça do feminino
quando eu era apenas um feto
no útero, inquilino?

o diabo me alertou
pois comigo se preocupa
sabe que a vida é injusta
e que deus só traz culpa

a profecia estava certa
tudo foi concretizado
a verdade pode ser vista
atrás dos meus olhos cansados

nunca quis ser concebido
pra ser tão injustiçado
ser gay num mundo machista
é como ser amaldiçoado

o meu corpo todo se treme
com a memória do masculino
pois foi o fálico narcisismo
que matou meu menino

já vivi coisa demais
pra ter alguma expectativa
homens bem intencionados
tem as ações mais destrutivas

a vida é boa pro homem
e seu falo imaculado
mas não há justiça no mundo
pra quem nasce viado

não vejo sentido na vida
não tenho fé na humanidade
não creio em justiça divina
e nem na eternidade

a morte, temida por tantos
já foi minha maior esperança
abrir mão da vida sofrida
é meu desejo desde criança

mas joguei fora toda culpa
de ser homem afeminado
sei que meu lugar é no inferno
com o diabo ao meu lado

apesar dessa injustiça
aceito bem o meu destino
se pro homem, ser bixa é pecado
então no inferno me torno divino

____________________________________________________

Eu escrevi esse há muito tempo. Esses sentimentos ainda permanecem comigo, mas mais maduros. Eu gosto de como o diabo é algo que assusta os cristãos.

O problema

Saí correndo da caverna
O dia mais temido chegou
Eu olho para frente espantado
alguns até pensam “é teatro”
Não sabem como eu estou
Me tremo igual um idoso doente
vejo a linha no horizonte
Ali estava o perigo iminente
corro, digo “se esconde!”
para o besouro, o rato, uma lady
Mas todos eles… Inertes
Um desafio cada vez mais crescente
Ao passo que crescia, ficava quente
As cores simulavam o fim de tudo
Sei que não tem nada mais absurdo
Nascer na caverna tem suas vantagens
viver até agora isolado foi legal
mas nada dali me deu tal coragem
para peitar algo tão monumental
E a criatura sai de sua alcova
tão grande quanto o mundo
tão assustador quanto a escuridão
Mas era pior: num movimento surdo
a criatura toma sua posição
A luz tomava tudo que tocava
Ao ver, meus olhos deram uma lacrimejada
Procurei alguém, mas não restara
Andei a esmo na direção contrária
Calor aumentando visivelmente
suor na pele a gente logo sente
Acostumar com o Sol foi uma canseira retada.

31 – Desfecho

Sou o fim e o começo
Eu nunca desvaneço
Vários Ícaros foram escritos aqui
E todos eles continuarão a existir
Vivendo suas vidas dentro de mim

Eu sou a diaba do prazer encarnada
Eu sou a solidão conformada
Sou o fim do mundo em vão
Eu sou você, sou eu emais quantos virão

Sou a negação do amor ainda vivo
Sou eu sou a bala atravessando este maldito
Estou sendo o desnudar da alma
Em toda sua horriridade
Corporificada

Sou a completa pira sem noção
Sou a resposta para qualquer pergunta
Mas sem solução
Sou o mais genérico possível
Sou único, hereditário e invencível

Eu sou as merdas que falei dos outros
Sou o dia bonito
Natural para todos os gostos
E, quando não bonito, me animo
Pois sou o dia de ficar em casa
Escondido

Sou a preguiça que me domina
Sou a conspiração que você ouviu
Na esquina
Sou o mais inventivo o que posso ser
Eu sou eu, e você vai ser você

Você pode tentar, mas nunca vai ter
Sou o diabo e o demônio
Sugando a alma de seu ser
Sou o conhecimento profundo
Eu sou magnífico

E eu sou a poesia escrita cada dia
Sou eu, o final desse mês
Eu sou também a despedida

30 – Demônio

Eu acredito muito em histórias
Que nós nos tornamos o que vivemos
Todos nós, dos funkeiros aos emos
Hora após hora todas são nossas

São nossas escolhas
Mesmo sem chance de escolher outras
São nossos erros
Mesmo que não saibamos os defeitos

E são tantos…
Mas inúmeras são as vitórias
De conseguir um novo emprego
De comprar sua nova jóia
Também temos esse direito
De comemorar nossos acertos
Certos que nem tudo é um mar de rosas

Eu (particularmente) pego tudo para mim
As derrotas e vitórias
Dos erros mais escandalosos
Ou chinfrins
Às grandes vitórias com gosto de carmesim

Ao passar dos anos…
Você acaba ganhando saberes sobre algo
Te tornando quase inumano
Quase como se soubesse de segredos
Nunca revelados
Quase como se te concedessem poderes
Como se pudesse modelar o que acham
O que pensam
O que falam

O convencimento é uma ciência há eras
Mas talvez seja mais um dom inato
Que pode ser cultivado com determinada
Destreza
Se souber como fazer, é claro

A moral se dobra perante você
Ao passo em que a realidade te encontra
Terá que reconstruir as regras para viver
Suas regras não devem chegar prontas

Fará o que for preciso para sobreviver
Nada de julgamentos errôneos sobre o que fez
Os caminhos todos você que trilhou
Responsabilidade sua para aprender com eles
E saber o que de você restou

Comigo a história foi parecida
Conheci amores
Sofri e ganhei feridas
Aprendi que dores não são bonitas
E que flores não signicam
Que minha presença é querida

Aprendi então a usar meu dom
E encantar homens por diversão
E é muito divertido tê-los em minhas mãos
Dizê-los sim, mas muito mais o não

Homens são cachorros em busca do perdão
Eles dão a pata e latem para chamar atenção
Se você descobre isso é meio passo andado
E ao invés de sofrer por eles, consuma-os
E então largue-os de lado

Sinta o poder embriagado pelo tesão
Deixe-os te amar e, mas só de longe
Alimente a fera com paixão
Mas sempre a deixe com fome

Assim ela geme sempre seu nome
Ele sempre lembra quando sente fome

Cristianismo errou muito feio
Veem os demônios e têm tanto medo
Mal sabem que aquelas imagens estão erradas
E que o demônio vive em suas estradas diárias
E se alimenta de seus desejos

Eles não são uma figura imaginária
Coitados, rezando todos os dias por nada
Nós somos os demônios das histórias
Cada um de nós vivendo aventuras imortalizadas
Vivemos os dias como heróis em busca de glórias
Que outrora seriam inalcançáveis

Eles são os próprios demônios
Em busca de sentimentos egoístas
Clamam a deus, se fingem altruístas
Para julgar quem somos
Cagando regras que ninguém precisa

Abençoados por demônios?
Não me faça rir
Quem além de um Incubus
Faria você sorrir e se sentir assim

Sim, eu sou um destes
Um demônio que entende seus poderes
É que existem leis e normas ocultas
Que só são feitas para impossibilitar suas lutas
São regras sim, regras de merda
Regras que só servem para te prender
Em troca de uma vida eterna
Como escravo do celestial
Revestidas de “moral”

Eu sou o inferno na terra
Eu sou o fim
Você concorda que é certa a minha guerra
Então não questione meus métodos
Pois existem sempre fins

29 – Ciborgue

Eu me fodi demais esse ano
Prometi coisas que não cumpri
Saí e entrei de novo pelo cano
Se me ver por aí me abrace, mano
Que eu tô precisando

Eu tava pensando em desistir de sentir
Em só fazer o que apontarem pra mim
Pensei em fortalecer minha armadura
Substituir meu coração de carne
Por um coração com fechadura

Criarei um código de ética
Para revisar meu afazeres
Ouvir de forma cética
Certos dizeres

Classificando e ordenando
Todos os seres que vivo me encantando
Colocando-os fechados em outro plano
Estranho é ocupar todo meu ano
Quando poderia deixar de pensar nesses hunanos

Minha pele poderia ser de metal
Pararia de sentir o calor da pele dos outros
Não sentir mais febre de tesão
Ao provar diferentes gostos
Evitaria ser sentimental
Se alguém pegasse em minha mão
E fosse um “namorado” ideal

E eu poderia analisar as vozes deles
Sentir o que significam pela frequência
Saber se tudo é verdade ou só aparência
Saber mentiras, ocultações de seus dizeres

Queria ser eterno e indestrutível
Viver para sempre e fazer o impossível
Aprender tudo que puder no tempo infinito
Queria estar para sempre seguindo

Mas não posso correr de meu destino
Sou fiel apenas a mim e quem estiver comigo
Sofro porque sim e tenho sofrido
Não vai mudar nunca isso

E eu não quero que mude nada
Vou continuar nessa dura batalha
De sentir num mundo virtual
De não saber diferenciar a mensagem
E o real

28 – Trauma

Ouvir sua voz nos áudios me emociona
Eu não sei se deveria fazer isso
Ouvir a galera falar sobre você me emociona
Mas eu evito demonstrar a nossos amigos

Já se passou quase um ano e meio
Sem nossas brigas e avisos
Sem conversar contigo

Não foi só eu que esmoreci
Amigos e familiares seus
Também estão assim
Mas muita gente já se adaptou
E claro, com razão e seu devido
Valor

Precisamos continuar sem você
Por mais que não faça sentido
Por mais que sua falta seja esmagadora
E pelo tempo já perdido
Chorando, reclamando escondido
Pensando em teorias infinitas
Para explicar o acontecido

Eu nunca vou saber
E eu sei que já acabou o tempo
Eu sei que você não está lá
Ou aqui
Ou nem mesmo em minhas memórias
Direito
Queria muito te abraçar
Te ver de novo
E dizer que lamento
Ter esse último momento contigo
Conversar sobre qualquer coisa
Ou só curtir esse momento

Desculpa por trazer tristeza em sua memória
Eu amei você e todas nossas histórias
Queria que você tivesse aqui
Para comemorarmos suas vitórias

Acho que é o único sentimento que vou sentir para sempre
É sua falta

Por isso ainda ouço seu áudio as vezes
Leio as mensagens
Rio sozinho pela rua ou na cama
Só você me entendia de verdade

Eu poderia escrever pra sempre sobre sua falta
Mas eu não quero mais
Perpetuar o sentimento de tristeza
Não vai me satisfazer jamais

Eu parei de visitar o seu túmulo
Deixei seu corpo em paz
Pois sua alma está fora desse mundo
E alcança-la eu não serei capaz

Mas manterei minha promessa
De nunca te esquecer
Repassarei suas palavras
Enquanto eu viver
Envelhecendo e lembrando…

Enfim.
Tchau.

27 – Faz o que você quiser

Por aqui
Um abismo me invade
Sem fim
Me toma toda a vontade
De vir
De me abrir pra outro
Para sentir
Que o sentimento foi todo
Morto

Deixando as diferenças
Na porta
Para conversar contigo
De volta
Estranho não sentir mais sua falta
Não incomoda
Mas ainda sinto o frio das palavras
Que cortam
Ou cortaram quando me importava

Estou à toa
Ando na rua sem esperança
Cai a garoa
Me molho pensando na infância
Vida boa
Mas sempre distante daqueles presentes
Tempo voa
Consigo ainda sentir o amor quente
Mas decadente
Não sei se é amor ou vínculo dependente…

Por isso eu considero tanto a liberdade,
A escuta,
A vontade de estar ao meu lado
Isso nunca muda
Pois para amar eu sou controlado
Meticuloso
Tento me basear em fatos dados
Não nos outros
E por isso é tão doloroso pra mim
E confuso
Quando sou enganado de novo
E de novo
Por sentimentos obtusos

Não resta nada
Mas já foi o encanto amoroso
Não resta nada
E os momentos gostosos
Não resta nada
E a saudade das lembranças juntos
Não resta nada
E você sendo tão afetuoso comigo
Não resta nada
Mesmo o sentimento odioso
Não resta nada
A mágoa ou a chuva que caiu
E caem
Lavaram o sentimento
Sumiu
E não resta nada…

Não se perdoe
Não tenta voltar ao que era
Não me magoe
Não finja que você não sabia na época

Talvez eu te veja
Saindo com seus amigos por aí
Bebendo cerveja
Eu te olhe e nossos olhares cruzem
Você vai saber
Que o que eu sentia por você

Acabou.