Dia 3: Três Cavalos Fumando

Uma fazenda abandonada
Grilos estavam cantando
Não acontecia nada
Se tivessem olhando

Verdade não contada
Não segure espanto
Mas a fazenda pacata
Escondia animais semi-humanos

Atentos aos meandros
Quietos, espertos, malandros
Pisando fofas patas
Criando sua Arcádia

Paraíso dos falantes
Sejam pequenos, grandes
Todos dão entrada
Satisfeitos da jornada

E eles cantando!
E ainda dançando!
Coelhos e vacas
Ratos e cabras

Imitando filmes mexicanos
Atuando o “Super-Pasta”
Mudando algumas falas
Rindo e chorando

Parece besteira falando
Eu não acreditava
Quebrei a cara
Mas fui fotografando

Olha aqui:

Três cavalos fumando
Não, não era engano
E não, eu não estou brincando!

Eram três cavalos fumando!

E um deles estava montado
Era montado por outro cavalo
Sim, eram dois cavalos malhados
E um cavalgando em cima dos outros
Abestalhados

Aonde eu os vi você pergunta?
Foi logo ali
Naquela fazendo maluca
Uma grande espelunca

Mato cobrindo todo lugar
Exceto o curral, celeiros e a casa
Espertos bichos encrenqueiros
Vou acabar com essa farra já!

Pois subo cerca
Invado a propriedade
O controle que me perca
Vou revelar a verdade

Embrenho-me no mato
Arranco plantas como posso
Encontro alguns ossos
Rastejo para passar silencioso
Vou pegá-los no ato

Cada vez mais difícil passar
Dou meu máximo por cá
A primeira vez foi mais fácil
Sinto algo de errado pelo ar

A noite cai ao chão
Escuridão me devora
Uma mísera minhoca me apavora
Sigo na mesma direção

De alguma forma, perdi-me nessa ida
Não consigo achar a passagem
Perdi a entrada e a saída
Sentindo-me Bobo e selvagem

Um cheiro forte de medo
De suor, dor e peito
Cheiro fétido que indica direção
Sigo, já querendo sair da escuridão

Vejo a fazenda
Em um ângulo diferente
Tudo parece maior, e imponente
Domino o lugar
Sigo em frente

E o que estou fazendo?
O que farei?
Estou tanto incomodada
Devo encarar a bicharada

Entro no celeiro
Vejo a turma
De repente, enrubreço
Uma voz: “Continua!”

Música desperta tocando
Todos na balada
Sigo eles balançando
Esqueci da bobajada

Quero mais viver
Sem continuar julgando
Rua é Saber
Ela está chamando

Encurralado

Me tirem o prazer
Tirem o amor e a simpatia
Tirem a simplicidade do lazer
Tirem tudo o que eu precisaria
Tirem, mas deixem a covardia

E retirem o orgulho
Levem para longe meu ego
Tornem-no absurdo
Mergulhem-o no mais profundo inferno
Até a timidez tomar conta de tudo
Até não existir mais um lado certo

E continue tirando
Tirem minha inteligência
Subjuguem-na e tomem comando
Defendam a doce inocência
E aos poucos vou atrofiando
E me acostumando à leniência

Pois agora que levem de mim
Levem a confiança para longe daqui
A honra, o poder, a vontade
Podem arrancar com toda liberdade

Deitado depois de meses a fio
Comendo o mesmo prato [literalmente]
Me sentindo vazio [figurado]
Reflito o que ficou comigo
Depois desse amargurado Ícaro
Desistiu dele e do que acreditava
Para não sofrer mais represália

Não sobrou nada
Não sobrou nada

Sempre odiaram que eu fosse livre
O sexo que eu fazia tinha que ter limite
E o que eu falava era burrice
E quando eu opinava, sandice

Estudar é liberdade para quem?
Porque não tira as cordas do refém
Amarrado nas próprias palavras
Refém preso por quem eu amava

E não tô falando de namorada

Por isso eu quero muito fugir
Conhecer outros lugares
Sair daqui
Vivenciar novos milagres

Acreditar que posso ser eu
Completo
Totalmente novo
Sem medo de ser insano
Sem medo dos outros

7 – Sangue

Já nasci predestinado, pré-querido
Sem nem mesmo saber disso.
O que seria ter um destino?
Mas nunca foi sobre mim, né?
E quando estávamos como família…
Tempos de ouro, outra vida…
Ah, para. Termine com isso. Termina!
Agora eu sei que o que destino é
Preciosidade nunca vista antes
Que me engloba o mundo e o todo
Faz-me tomar decisões,
Escolher instantes.
Quiseram um dia roubar o futuro de mim
Grossos e irredutíveis, bem assim
Não com uma arma de fogo ou lanças
Mas com uma de argumentos fajutos
Armadurados com uma moral obsoleta
Quiseram falar o que ninguém rejeita…
Mas eu rejeitei esses nobres com escudos
Dizem que a família é só o que temos
Pois eu digo que só temos a nós mesmos
E não há motivos para temermos
O destino reserva apenas o que é nosso por direito!