22 ou 25

Feliz aniversário, Clara.

De todos os leoninos que eu pude ter o prazer de conhecer, você foi a mais literal de todos eles. Sua confiança era inspiradora, assim como sua inteligência, seu esforço. Eu sempre acreditei que você poderia tudo, que você seria a pessoa a abalar o mundo. Não duvidei um segundo sequer disso. E ainda não duvido. Mas infelizmente não tenho como saber como seria. E não tem como mais ser.

Flávia, no aniversário dela, disse que agora ela está mais velha que você e isso me assustou muito porque a gente sempre teve a mesma idade (eu mais velho, claro). Você sempre ao meu lado. A gente sempre juntos. Entre aniversários e trabalhos. Matérias da faculdade e festas.

Hoje no seu aniversário de 25 anos, eu queria te dedicar o mundo. Queria te dedicar meu mestrado. Queria te dedicar uma leitura. Uma caminhada. Queria sair em uma festa. Ou queimar um baseado. Talvez eu o faça em um futuro próximo. Até lá, eu vou manter a promessa de lembrar de você. Eu vou cuidar de nossas lembranças juntos. Eu vou lembrar de sua voz. Das suas coisas que estão comigo e das minhas coisas que lembram você.

Eu sinto muita falta de fofocar contigo. Queria falar sobre como nossos amigos mudaram. Sobre o namorado de Mateus, sobre como Mário tá de tornando um artista foda, sobre o término de Pedro… Queria saber sua opinião sobre tudo. Passar horas ouvindo você falando de World Building, sobre alguém que você não gosta ou uma dificuldade da vida que você estivesse passando. Você estaria se formando em letras esse fim de ano.

Ah, saudade que não passa.

Hoje eu vou passar o dia com Pedro, porque eu acho que é o que você gostaria de fazer. Vamos estudar juntos. Estou em uma fase complicada de minha cabeça, Clara. E espero que você entenda.

Eu continuo te amando, viu?

Continuo muito agradecido por sua presença em minha vida.

Eu hoje me arrependo de como eu fui no seu enterro. Gostaria de ter me comportado melhor. Mas eu também não conseguia pensar. Nem falar direito. Eu estava em surto ali.

Enfim.

Eu sou ateu, o que implica que, para mim, seu cérebro desligou e você derreteu na terra. Mas você não era. Por mais agnóstica que fosse, você tinha uma herança cristã forte. Bom, eu espero muito que você esteja em um lugar bom e agradável, se esse lugar existir. Se não, ao menos que o descanso eterno faça sua existência ser mais agradável para você.

Hoje, eu tenho 25 anos. Pedro tem 25. Mário, Bibs… Flávia tem 23.

E você continua com 22 anos.

Por mais que faça 25.

Força da natureza

Eu não preciso ser o diabo
Eles se destroem ante meu tato
Eu não preciso tornar a vida deles um inferno
Não me importo para o desespero eterno
Eu quero o sentimento do trabalho bem feito
Bem acabado

Eu não preciso lidar com machos
Servem para diversão, para esculachos…
Sou feito de aço inoxidável
Eu não racho
Por que estou com tanto medo desses viados???

Eu não preciso me odiar
Por não entender sentimentos
Eles florescem daqui de dentro
E transbordam à fora ao chorar

Sim, eu posso chorar
E choro mais mil vezes se preciso
Eu sinto dor, eu recebo o tiro
Eu me curo, eu me retiro
Eu crio meu próprio lar
Meu próprio abrigo

Não sou tampouco um morto
Eu respiro, eu vivo, eu morro
Todos os dias, de novo e de novo
Eu sou o algoz e eu sou o casulo
Estou dentro de um ovo procurando
Um início oportuno

Eu esqueci que sou poderoso
Eu sou mais forte que o Estado
Eu sou as ruas, eu ando por todo lado
Respiro a vida de cada coitado que vive jogado nos cantos
Sou cada canto de cada cansaço que sobreviveu a mais um dia

Sou artista, antifascista
Sou mais do que essa poesia
Porra, eu não sou magia.
Eu sou ato.

Sou minha desgraça
E de quem se colocar no meu caminho
Sou a miséria imediata
Daquele que me enfrenta sozinho

E, se trouxer mais gente,
Vai ficar perdido
Colocou vocês em transe
Fodo a mente e pego a primeira saída

Eu esqueci que eu sou meu guia
Das estradas que forja sou eu
Dos milhares de caminhos trilhados
Todos meus
Assegurando que ninguém me seguia
Com uma vela na mão
e na outra
minha companhia

Somente eu posso realizar minha pesquisa

E eu posso fazer isso fácil
Sou o trono da rainha
Se existe o poder, sou eu que faço
Se existe alguma simbologia
É porque eu existo
E dou sentido para tudo isso

I’m a wanderess
I’m a one-night stand
Don’t belong to no city
Don’t belong to no man
I’m a violence in the pouring rain

I’m a hurricane


Por que eu estou rodando em círculos? Feito urubu querendo carniça. Por que eu estou agindo como se homens definissem minha vida? Eu sou uma FORÇA DA NATUREZA! Eu sou um furacão. Eu sou um terremoto. Eu ando e eles elogiam. Eu nem preciso falar para eles saberem que estão errados. Eles babam para chegar perto de mim. Eu sou mais que divino, eu sou transcendental. Imparável, eu sou uma ideia sendo pensada. Eu sou imaterial, incomprável, inadquirível. Eu sou invencível.

Hurricane – Halsey me faz me sentir assim. Recentemente eu li a música inteira e percebi que ela não é tão boa assim, mas o refrão ainda me compra muito.

Ninguém vai ler mesmo 😎🥰

É tão legal escrever poesias que ninguém nunca vai ler. Eu me sinto um deus do meu próprio mundo. Claro que às vezes eu peço para uma ou outra pessoa que eu me importo leia uma ou outra poesia, mas eu tenho mais de 200 poesias escritas e eu tenho certeza de que ninguém vai ler todas elas.

O curioso é que em cada uma dessas tem meu coração. Tem meus sentimentos. Tem significados. Tem alguns estudos rápidos. Tem esforço e tempo gasto.

Quem, em 2025, lê e escreve poesia?

Eu, eu escrevo. E eu gosto de escrever. Eu descubro mais sobre mim quando eu escrevo. Eu me exponho e desvelo meus medos, minhas crises, meus desejos, minhas maluquices. Eu me sinto um imbecil falando com a parede algumas vezes, mas geralmente eu me sinto acolhido.

Recentemente eu criei o costume de ler minhas próprias poesias. Em parte para me criticar e em parte para entender mais sobre mim. Quando eu escrevo uma poesia, é um pedaço de mim ganhando forma, saindo de mim. Quando eu leio isso de volta, é como revisitar um Ícaro do passado.

Agora especialmente estou com vergonha de mim mesmo por ter tomado algumas escolhas bobas. Por ter levado a sério. Por ter escrito uma poesia tão longa…

Mas, se foi importante para mim escrever tudo aquilo…. Foda-se. E ninguém vai ler mesmo.

Náufrago

Estou cansado
De insistir em estar errado
Subjugado
Maltratado
Machucado, ferido de fato
Perdido, no meio do mar
Largado

E sinto um náufrago
Que navegava os mares do conhecimento
Sem saber
Que subia as ondas da mente
Que pescava peixes por prazer
Peixes conscientes

Eu não saberia dizer
Não sabia que sou/são inteligentes

Me sinto um náufrago
Pois não sabia navegar esses mares
Nunca naveguei
Mas fui com a garra, cara e coragem
E naufraguei

Me perdi entre o controle do barco
E a direção que estava seguindo
Me sinto perdido no meio do caminho
Eu sei aonde quero ir…
Certo?
Agora que sendo no meio do nada
olhando as águas da praia
Nada me parece concreto

O som do mar é o que mais ouço
Eu ouço me chamar para navegar de novo
Meu barco está meio maltratado
Mas é quase novo
Eu poderia engatar
Ir para o mar sem virar o rosto
Mas meu estômago embrulha
E acaba pesando meu corpo

Que caminho eu deveria traçar?
O que seria melhor?
Já não posso desistir de velejar
Mas também não posso fazê-lo só

Estou naufragado
Com um medo retado do mar
Agitado, enevoado
Que resolvi me jogar

Se ao menos tivesse bússola
Tivesse um mapa
Tivesse ajuda
Lembro dos conselhos de um amigo
Consigo na ilha do náufrago fazer um
Abrigo
Mas não é suficiente
Eu quero sair desse lugar perdido
Esquecido por deus
E voltar para meus objetivos

Jogo meus dados
Rezando pela sorte do dia
Quando eles me derem um bom resultado
Eu erguerei novamente o barco
E seguirei meu caminho
Rumo a meu destino

Qualquer que seja esse, de fato

É difícil sentir isso

Tem algo de errado?
Não, não tem nada.
Nada, nada, nada
Fixo meus olhos na estrada
Tentando desviar meus pensamentos

Eu deixei minha mãe desolada
Chorando em casa
Enquanto voltava para meu lar
Os pensamentos voltam a embrulhar…

Nunca fui capaz de escrever sobre isso
Porque eu tinha medo de te fazer algum mal
Mas o mau está no não dito
Que corrompe a confiança
Que me deixa aflito

Eu a deixei chorando
E meus cachorros latindo
As plantas no jardim crescendo
E meu ventilador eu esqueci zunindo

Já nem sei o que sente por mim
Se é orgulho o frustração
Se sente culpa ou sente perdão
Eu me sinto confuso com tudo
Como se seu amor fosse ilusão

Sim, sinto que a senhora não me ama
Ama uma imagem que construiu de mim
E a reafirma sempre que pode
Sempre que está afim
Para as amigas sentirem inveja
E para que você possa sorrir

É um orgulho mesquinho
Dependente dos outros
Sem aproveitar com os filhos
É vazio de sentido
São muitos os rostos
Mas são poucos os amigos

Eu destruo essa lógica
O mau eu levo comigo
Guardo no bolso meus defeitos
E meus acertos eu deixo pelo caminho

Não sou o melhor do mundo
Mas sou bom em ser eu mesmo
As minhas conquistas eu mereço
E na boca dos outros sou assunto

Pois que falem

Retiro o poder de todos vocês
De escrever minha narrativa
Eu estarei escrevendo
linha por linha

Mas hoje eu não estou podendo
Pois deixei minha mãe chorando em casa
O chão estava em brasa
O calor me queimando por dentro

Eu deveria voltar
Não deveria sair de lá
Deveria abraçar ela enquanto dá
Mas não consigo

A decisão de me mudar faz tempo
Não foi nesse março e nem no outro dezembro
Peço por isso desde que me lembro
Quando pedi abrigo e recebi castigo

Nunca pude confiar em ninguém
Pessoas de uma moral densa
Um julgamento e um desdém
Sempre pode falar o que pensa
Se for com a intensão de tolher

Mas eu não pude ser vocês
Eu sou um campo de relva ao vento
Eu sou o cheiro de terra molhada de chuva
Eu sou meu próprio veneno
E eu sou minha própria ajuda

Das vezes que eu chorava no banheiro
Ou quando estávamos viajando
Das vezes que eu escondi o segredo
Ou das vezes que eu só estava amando

Eu estive sozinho

Estive só quando sofri preconceito
Pra voltar pra casa e ouvir mais do mesmo
Só era eu quando fui exposto à doenças
E escondi os remédios temendo desavenças

Das vezes que eu tive que me virar
Que aprendi nas ruas o que ninguém pôde me ensinar
Eu pude fazer muito sozinho
Tentando trilhar meu próprio caminho

Me frustra saber que eu tentei te amar
Confiar em vocês
Poxa, eu tentei muito conversar
Criar uma relação estável entre iguais
Mas o que você fez?

Você negou minha confiança
Fugiu da minha mão
Que a esperava desde criança
Nessa imagem de ícaro
A senhora não tolera o Ícaro verdadeiro
Que é sensível e é direito
Não, a senhora não suporta vê-lo

Não quero apontar dedos sem sentido
Enterro a culpa e queimo seus resquícios
Planto o amor em outro lugar
Para que floresça sem parar

Eu quero agradecer pela segurança
Por sempre me lembrar que eu posso
Ser a voz da minha esperança
Obrigado por me sustentar desde criança
Por cada refeição feita com amor
Por cada beijo e cada dor
Não há “obrigados” no mundo que possam transmitir
O que sinto pelo tempo que passou

Eu a vejo como inspiração
Uma mulher que não tinha nada na mão
Além de deveres, de irmãos
E de uma beleza que até hoje
Deixa marmanjo no chão
Podia na época não ter certeza
Mas a senhora conseguiu criar um império
Um reinado
Apenas com o que tinha nas mãos

A senhora é sem igual
Uma inteligência anormal
Uma certeza move montanhas
E uma dedicação sensacional

Só peço para que cuide de si
Porque não sei o que vai ser de mim
Se eu te perder um dia

Sim, sou blindado.
Sou independente, sou miserável
Mas a senhora é meu ponto fraco
E, quando a deixei chorando
Chorei também.

Por isso não me veja como fardo
Não quero ser seu objetivo
O que te faz viver
Ou o único a seu lado

A senhora vai viver muito muito mais
E eu espero que viva sempre
Pensando em seu bem
Seu, e de mais ninguém
E com a certeza
De que, mesmo dolorido
Estarei ao seu lado

Sentir-me querido

Me pergunto o que estou fazendo
Bebendo a cicuta
Provando o veneno

Me pergunto o que tô fazendo
Correndo como nunca
Sem escutar o vento
Sem senti-lo em minha nuca
Sem cansar, sem momento
De parar

Me pergunto o que tô fazendo
De cartas várias
Demonstrando sentimento
De vazios muitos
E poucos preenchimentos

Eu não sei mais o que tô fazendo
Me jogo a toda na lava fervendo
Que me engole como um todo
E depois devolve, à contragosto

Eu não sei o que tô fazendo
Continuo a beber o veneno
Mesmo sentindo seu gosto
Mesmo sabendo o destino doloroso

Por que eu estou fazendo?
Por que andar contra o vento?
Por que provar o veneno?
Pra quê derreter na lava
Noite a dentro?

Sinto não merecer o que estou fazendo
Eu me sinto ingênuo
Como em Platão, os habitantes da caverna
Vendo os desenhos
Eles tocam as sombras e não sentem tocar
Eles ouvem os barulhos e pensam imaginar
Eles sentem os cheiros…
Mas mesmo quando se viram e saem da caverna
Negam a realidade
Para sentir de novo o frescor da parede
Ante o seu toque

Eu já não sei o que estou fazendo
Se me quer
Por que não me conheces?
Se me tocas
Por que não me queres?
Se me diz amores
Por que me entristece?

Por que me deixa com medo?
por que me esquece?

Me pergunto o que estou fazendo
Se eu sou jovem demais para o agora
Ou se eu só não mereça o que sinto
E deva jogar fora.

Me sinto um idiota.

Subo bem alto
Aonde coloquei seu pedestal
Olho para baixo,
Com a pretenção de me jogar
Piso em falso
E derrubo você no lugar
Me jogo involuntário
Com a pretenção de te salvar

O que eu estou fazendo comigo?
Abro minhas asas e traço meu caminho
Plano para baixo, assisto o sol cair
Sozinho.

Eu me sinto traído por mim mesmo

Parece até piada que o pior inimigo meu tenha sido eu mesmo durante todo esse tempo.

Eu estou me destruindo. Ativamente me destruindo. Em busca de uma felicidade que não existe mais. Respirando um ar desgastado do metal de minhas correntes e delirando liberdade em meio a tolos, ignorantes e homens vis. Fui todos eles.

Resignado a me reduzir em minha própria insignificância, eu pude ser muito mais do que eu imaginava que podia. E continuei imaginando que era menos do que realmente era. Do que sou. Continuamente me degradando por reconhecer apenas esse lugar (o de degradação) como meu,. O único que reconhecia, mas não aquele que realmente eu pertencia.

Se fui plebe, agora sou Príncipe. Se fui michê, ou se ainda sou, agora questiono com poder na minha mão se ainda devo ser.  Devo ser cuidadoso nesse momento. Tão fiel a mim quanto um cão, quanto minha mãe. Tão fiel a mim mesmo quanto a fé que qualquer um tem em mim… Menos eu, pois me traí inúmeras vezes e continuo traindo.

É óbvio que estou triste: eu estou em aceitação pelos piores momentos desses dois anos. Das violências que acometeram a mim e que eu acometi a mim. Das despersonalizações que procurei para deixar de ser eu em momentos difíceis. Dos amigos que me usaram em momentos de fragilidade. Dos homens que se forçaram em meu caminho. 

E é por isso que eu preciso mudar.

Não vai ser de uma hora para a outra. Mas é importante que exista um primeiro passo.

O que mais me incomoda é que eu achava que estava ganhando, e talvez eu tivesse. Eu achava que estava dominando. Eu estava acima daqueles que sexualmente me veneravam. Que falam sobre mim. Que me “enalteciam” ativamente. 

Lobo bobo, foi a ovelha o tempo todo.

Voltemos ao amor

O que é o amor para mim?

Eu tinha tanta dificuldade de pensar sobre amor. Quando pequeno, eu não achava isso importante porque em parte eu achava que era algo natural e que vem instantaneamente, então eu não precisava me preocupar com isso.
Quando eu cresci mais um pouco, percebi que amor é algo que se pode conquistar e brincar. Seria como um objeto que se joga, se rouba, se guarda e se doa.
Ao crescer mais, eu fui descobrindo que o amor está vivo. Ele é criado pelas pessoas. Ele respira, fala, anda e cresce. Ele precisa ser cuidado e precisa de atenção. Quanto maior o amor, maior o trabalho. E, nesse momento, eu me questionei se era bom amar. Se tamanha responsabilidade fazia sentido ter. Pois, por estar vivo, o amor também erra. Ele também machuca. E, quanto maior fica, também mais perigoso fica. Assustado, tranquei meu coração. Nunca sentiria amor de verdade. Essa parte da vida é muito perigosa, que demanda muita responsabilidade. Isso não é para mim

E eu vivi por mim. E vivi muito.
Cruzei mares e rios. Bebi como um louco.
Beijei diversas bocas. Trancei-me com diversos corpos.
Fudi gostoso demais.
Fudi horroroso também, e segui demonstrando ser capaz.
Capaz de viver, de me amar, de simplesmente não pensar na possibilidade de parar para amar.

Mas aí o amor me pegou. Eu percebi que viver é cansativo demais, e demanda uma rede de conforto. Demanda atenção. Demanda carência. Demanda vontade de escrever algo, de cuidar de alguém. De ser presente e lembrado, e de lembrar e presentear.

E então vivi o amor. Intenso como um raio e veloz como tal. O rombo que o raio faz no que toca, o amor deixou em mim. E o fogo que o raio causou… Queimando quase sem fim.

Até que um dia enfim se extinguiu.  E então eu pensei que deveria voltar a quem eu era antes: afinal o amor só se mostrou ser um desvirtuador de objetivos, amargador de bocas, destruidor de corações. É muito poder envolvido. Poder que eu não quero dar de graça. E Air Catcher de Twenty One Pilots que me perdoe, mas confiar não é possível.

Bom, eu pensei assim.
Hoje eu entendo que estou sendo bobo.
Eu amo músicas. Eu amo artistas.
Eu amo as cores do pôr do sol.
Eu amo minha comida. Eu amo comer besteira.
Eu amo passar tempo com amigos.
Eu amo também passar tempo sozinho.
Vendo o mar, escrevendo bobisses, bebendo vinho.
Adoro conhecer gente nova.
E adoro uma loucura.
Eu tenho muitos amores. Eu sou pra sempre meu.
Eu me amo mil e muitas vezes.
E, assim como eu me amo, eu consigo amar os outros. Eu consigo criar amor por arte e por meus amigos.
Por quem é próximo de mim e quer meu bem.
Eu sei que esse amor existe e eu posso confiar nele.

A partir disso, eu sei que também é possível que eu me apaixone. Que eu caia no conto de alguém. Que eu me permita criar algo por alguém que seja bonito e que me deixe feliz. Porque eu não mereço me limitar por conta de nada, nem de meus traumas e nem pelos outros. Porque antes de vos amar, eu me amo. E amo meus amigos. E minhas coisas favoritas.
Meu coração está recheado de amor e eu não posso ter medo ou vergonha disso porque, no final, eu não viverei de verdade.

Vou continuar sendo o Ícaro que não acha que “Amor vence tudo”, mas eu sou também o Ícaro que se permite a amar. Aos poucos.
Aos poucos.
Eu vou me soltando.
E aos poucos.
Aos poucos.
Eu posso amar de novo.

Súplica de amor

Eu gosto da ideia de que meu coração é grande. E de que nós amamos até onde ou quando nosso coração pode chegar com o amor. Recebendo e dando.

Meu coração há muito tempo não absorve o amor que recebe. De fato, venho continuamente desistindo do amor batendo em minha porta. Dos mais belos aos mais toscos, dos mais profundos aos mais rasos, eu fugi de todos, temendo o sofrimento que é amar alguém. Entretanto, ao passo em que eu degustava esses amores, algo sempre ficava para trás, como um quarto vazio acumulando tranqueira, como um coração acumulando espinhos. Tolo, pensei que seria o suficiente para saciar a fome de amor, quando na verdade eu não sentia fome – eu sentia solidão.

Por que eu preciso sofrer ao amar?

Por que o amor tem que significar dor?

A cada mordida em um fruto da árvore do amor, meu coração afundava ainda mais num precipício sem fundo. Tudo, absolutamente tudo, pesava em meu coração, que afundava descompassadamente. As palavras que soavam absurdas eram ditas e as ações que me guiavam eram comedidas.

E, por mais que o tempo passasse, eu não conseguia me acostumar a viver dolorido. Sempre surgia uma fada da esperança em meus ombros me convencendo a confiar, me instigando a não hesitar. Logo mais eu a via voando para longe, rindo em escárnio enquanto eu chorava no banheiro. Afundando em mim mesmo…

Ao toque, espetava como espinhos.

Ao som, agonizava como metal contra metal.

Ao cheiro, embriagava como bêbados.

Ao gosto, azedava como umbu.

Ao olhar, ardia como pimenta.

Do menino que não gostava de usar a palavra “amor” em vão, tornei-me um escravo da paixão. A brincadeira de se envolver sem amar se tornou fácil e acabei desaprendendo a dar significado à palavra por conta de tanto tempo sem usar.

Interesse sem significado, vontades vazias, carne batendo na carne e o calor sem vida.

Sem identidade.

Sem pessoalidade.

Sem amor.

Dentre tantas outras bocas, onde foi que eu perdi meu beijo?

Dentre tantas histórias em que me humilhei, onde eu deixei meu orgulho?

Meu auto cuidado…

Não estava esperando me apaixonar de verdade.
Até você chegar.
E agora eu tenho medo de te perder.
E me afundar de novo.
Eu sei que me coração é grande e sei que ele não tem limites para amar, mas isso não significa muito e não responde as perguntas que fiz até agora. Se puder, eu quero sua paciência. Eu quero sua presença. E te peço por seu amor. Daqui, eu vou me esforçar para desvendar essa infinidade contigo. Para mergulhar no que é novo e, portanto, desafiador.

Isso é muito difícil para mim também, eu quero que entenda que meus sentimentos são de vidro e quebram muito fácil, mas eu vou deixar a guarda baixa e vou te dar as armas para dar xeque em meu coração.

Por favor, não me deixe.

Desabafos de um dezembro confuso

Todo dia eu peço aos céus para que as coisas que eu estou vivendo agora não signifiquem nada no futuro. Para que as pessoas, as experiências, os momentos passem. Para que eu possa respirar e viver uma vida digna de verdade, digna de mim. Viver do reflexo de meu passado é como viver uma vida que não é minha. É como renascer todos os dias com memória das vidas passadas.
Não me arrependo de nada e tampouco sinto vergonha ou medo. Eu só queria me permitir mudar, crescer, quebrar esse casulo que me prende ao passado e desabrochar numa linda borboleta ou numa feiosa mariposa. Só quero poder mudar e deixar para trás o ontem.
No entanto, a vida é cheia de truques e, quanto mais eu tento seguir um caminho a frente, mais eu percebo estar andando no caminho contrário. Quanto mais me mexo para sair, mais afundo na areia movediça. Quanto mais eu corro dos problemas para me sentir bem, mais eu volto aos mesmos problemas.

A maior armadilha de todas: afeto e proteção em troca a de controle, chantagem, manipulação, humilhação. Ela é eficiente porque combina o afeto com a humilhação, o que pode parecer confuso, mas um complementa o outro.