Eu sou romântico

Eu brinco com meu próprio coração
A brincadeira engraçada que é o amor
E enquanto ele badala naquele calor
Meu cérebro me avisa sempre da dor
“A dor virá depois da emoção”
– avisa insistentemente para o coração

A encenação está preparada para acontecer
A noite caindo e eu bêbado, pensando em você
Quando cheguei, melhor recepção que já tive
Ali criamos nosso canto e queria que você me cative
Hoje isso só são memórias a desvanecer

Procurando você em todas as nuances
Jeitos, cores, espaços, becos, performances
Quero o ardor de ter você aqui e agora
Seu cheiro, seu gosto, seu corpo me aflora
Suas palavras deixam minha alma pra fora

O tempo sempre passa e uma hora termina
A brincadeira que antes tinha graça
Bem, ninguém falou que ela vicia, contamina
E eu procuro a você para brincar de amor
Você tira onda no insta em uma piscina
O cérebro avisa “perigo”, mas quero adrenalina

A brincadeira se tornou meu cativeiro
A todo tempo quero negar a mim
Mas eu quero sim te ter por inteiro
Uma pessoa tão incrível e bonita assim
Eu não consigo fugir dos feitiços certeiros

E eu sei que você não quer mais eu, não é?
As conversas vão e voltam como uma maré
Você não me quer e eu “aceito bem” isso
Tropeço no seu endereço, caio em seu feitiço
Você me deixa perdido
E de novo, e de novo e de novo.

Agora eu sei que a brincadeira de amar é eterna
Sei que meus amores vão comigo até o fim da terra
Sinto-me pressionado a pedir perdão pela situação…
Mas nessa caminhada, minhas memórias me deixam
São

Então não me desculpo, mas vivo os momentos
O cérebro, que antes avisou do perigo
Agora ele é o meu mais fiel amigo
Não sei se hoje conseguiria entrar num entendimento
Mas Três anos passaram e ainda estou contigo…

É, e nesses momentos finais eu o deixo só
Não estou mais aqui para você ter dó
Eu preciso seguir minha caminhada romântica
Gostar de outros, sentir novas dinâmicas

Sei que você é brilhante, te amo por isso
Mas estar aqui te vendo sem mim… não consigo.

Aceitação passo por passo

Enquanto as lágrimas secam, surge o vazio
Raramente lembram de falar sobre a aceitação
A aceitação de que tudo outrora construído, ruiu.
Ruínas que não cantam hoje a mesma canção

E agora eu que lute para seguir em frente
Sem mãos carinhosas ou algum abraço quente
A própria ideia de viver sem você já destrói a paz
Eu, que sou capricórnio, odeio mudar minha rotina
Sei que por você eu poderia fazer isso e muito mais…

E é onde mora o impiedoso sentimentos de nada
Nas palavras nunca mais ditas, nos jeitos e voz
Ouço seus áudios e sinto uma culpa danada
Poderia ter sido mais presente, ter um tempo para nós

Egoísta, eu sei.
Se tiver uma realidade depois dessa, desculpa
Estou prendendo você à sua existência antiga
Mas eu vou continuar com o sentimento de culpa
Pois egoísta que sou, ainda quero você na minha vida

Nunca tive a possibilidade de te agradecer por tudo
Você foi mais que uma amiga ou namorada, Clara
Era quem eu dividia meu secreto e silencioso mundo
Agora, já sem você, não existem mais pessoas raras
Os sabores e cheiros e sons ficam… Apenas no mudo.

Eu preciso parar de criar essa coisa à sua volta
Preciso voltar a amar você como apenas memória
Para aqueles sentimentos que me apego, solta!
Para aquelas memórias que eu tenho de você, história.

Digo História, pois é impossível de reescrevê-la
Transbordo sempre palavras, mas só vendo futuro
Não há muros que impeçam a quem nesse barco veleja
Sobre o mar desafiador de correntes fortes que rupturo
As águas feitas de realidades passadas, um suco puro

Deixar-te-ei para encontros em meus humildes textos
Preciso equilibrar o barco e setar logo um rumo
E nas tuas mãos não me parece mais seguro ou oportuno
Guardar-me da vida que ainda transforma meus eixos

Vou despertar em
3
2
1…
Amo-te, boba.

CSSCC

Ela era as minhas palavras
Quando escrita, ela era poesia
Ela era também contos, ficção
Era lindo o que ela fazia
A cada canto, sua mão
Em cada encanto, sua canção
Você estava em tudo das artes.

Na música você era a harmonia
Aquela sensação gostosa
Me provocava alegria
Podia também ser a vibração
Intensidade, o fervo, a fritação
Atravessava tudo, sem ser tediosa

Nas pinturas, a pincelada principal
Aquela que não dá pra voltar atrás
Aquela que sobressai das gerais
Gerando uma pintura colossal
Obras de arte não são você, não.
Você é o cerne da arte, meu coração.
A própria e antes encarnada inspiração.

Na dança, você era a expressão
O talento? Claro que não.
Algo tão frivolo, tão básico
Não seria seu traço.
A expressão não é algo clássico
É o fogo que queima o pulmão,
O que dá sentido ao movimento
Você é o sentimento, interpretação

E por falar em expressão
Nada seria das artes cênicas
Se você não fosse a apresentação
Você é minha década de 90
Encarnada num papel pastelão
O escritor escreve, inventa
O ator recebe a obra e a orienta
Vivendo mil vidas em cena
Você era única em todas elas.

E na ciência, você era humana
Complexa demais para um laboratório
Confusa demais para um iniciante
Criava modelos para o aleatório
Tentando entender o perfeito
Imperfeito.

Eu nunca entendi como apenas “Arte”
Pode significar diversas atividades.
Mas ao te conhecer eu percebi
Que a arte não está nas escritas
Ou nas pinturas, ou nas danças
A arte é um momento, é um sentimento
É alguém que nós amamos
Rimas também não vão ser suficientes
Erro nesse final porque a arte é imperfeita
E é por isso que é especial

Te amo, Clara. Sinto sua falta.

Você brincou comigo nesse dia, falando sobre a altura e sobre cair de lá. Eu fiquei preocupado o tempo inteiro contigo até esquecer da conversa. Eu hoje me arrependo tanto de esquecer de nossas conversas.

Do amor à solidão

Eu quero a solidão.

Eu quero me sentir novamente completo. O vento no rosto e a sensação de que o mundo existe para eu conquistar. A sensação de ser invencível, consciente de meu poder, como uma estrela prestes a explodir numa supernova. Essa é minha força e meu potencial. Eu sou um evento de máxima proporção.

Quando pequeno, odiava músicas sobre amor. Hoje eu as escuto em parte pelo ritmo contagiante e em parte como uma ideia ingênua da vida fácil. Eu não tenho a sorte de viver uma vida de depois do arco-íris. Pois se o arco-íris é uma ponte para o amor, eu moro debaixo dessa ponte. Minha morada não é somente solitária, eu aceito visitas, mas preciso de meu espaço.

Sim, eu quero a solidão. Apenas eu entendo o que eu penso, falo, vivo. Faz tanto tempo que estou só, não consigo mais me dividir. Talvez porque tenham levado o que eu deixei levar de mim, ou talvez eu nunca tenha sido essa pessoa de compartilhar eu mesmo.

Que responsabilidade tenho por amar o outro? Contanto que me faça feliz, é o que eu procuro, mas assim que intervém em mim, eu fujo para longe, deixando um pouco de mim para traz. Quantas vezes eu deixei esse pouco de mim? Amor a um já é difícil o suficiente.

Escolho a vida só. Não só para não me magoar, não me importaria de deixar mais um pouquinho com alguém que eu confie, mas especialmente para me sentir completo. A estabilidade de ser eu é muito mais querida e eu não a troco por nada. É uma escolha que também apresenta consequências, mas é a melhor para mim.

Se eu amo ou amei, continuo amando até quando puder.

Se eu quero perto ou já quis, continuo querendo, mas agora com a consciência de que eu não posso e não vou ter.

Se eu estou só, então consigo trilhar meu caminho em paz.

Peça de Baralho

Eu me sinto otário
De novo uma peça no baralho
Não combino nessa mesa
Desamparado, é a tristeza.
Essa sabe o quanto me beija…

Afogado nos sentimentos
Emergi mais uma vez sufocado
Ergui-me sobre meus cacos
Rolo os dados, destino traçado
Todos ali me vendo
Desnudo, desdentado.
Envergonhado de mim mesmo.

Ando molhado por aí
Não confio em amantes
Ou em pessoas ruins.
Só tenho meu coração
Pulsante
E um caminho a seguir.

Meu rosto é desfigurado
Beleza se torna o meu pesadelo
Luto ainda contra os medos passados
Não sei mais se consigo vence-los

Eu ao fim descanso
Numa extenuante dor,
Insignificante.
Não interessa mais aonde me lanço
Logo me vejo como peça
Num baralho gigante.

Yragos e Ossent (parte 2)

Ossent abriu seus grandes olhos violetas e o que viu a deixou pasma: ela via a noite ao seu redor, cobrindo-a completamente, como se estivesse em um quarto decorado com a própria escuridão. Na sua surpresa ela exasperou, mas era inaudível – qualquer palavra que falasse ou até mesmo seus movimentos eram inaudíveis. Olhou para baixo, mas apenas via escuridão. As únicas luzes que via eram dos pontos luminosos que brilhavam como os olhos de uma criança, e mais nada. Ela começou a andar e em seguida começou a correr, na tentativa de achar um limite, em que pudesse achar uma parede ou algo que entendesse para poder se ancorar, mas quanto mais corria, maior ficava o lugar, com aqueles pontos luminosos continuavam no mesmo lugar.

Ossent não era uma pessoa muito paciente ou respeitável, pois virtude foi uma palavra que ela fugiu por muito tempo, em um tempo que sequer se lembrava. Ela sabia que podia confiar no que podia ler e entender sobre o passado e apenas isso – e por isso que lutava com os Sem Pátria. No entanto, até mesmo uma pessoa que jurou para si nunca se submeter a nenhuma força tem limites e, ao perceber que não conseguia se lembrar de como havia chegado lá e de que não sabia o que era tudo aquilo, Ossent apenas ajoelhou e chorou. Ela não sabia ao certo o porquê estava chorando, mas ela não tinha mais nenhuma outra coisa para fazer ali, isolada de tudo e todos que conhecia, assim como um pedaço de pedra flutuando pela vasta noite.

Assim que se acalmou, Ossent deitou na escuridão, abriu seus braços e gritou o mais forte que podia. Gritou porque se sentia frustrada. Gritou porque, se aquilo era seu fim, ela ainda não aceitava. Gritou porque parecia certo. E gritou até não aguentar mais, e então dormiu.

Como seria mais fácil se ela não tivesse olhado dentro da caixa.

Acordou algumas vezes e dormiu novamente. Às vezes ela levantava, andava um pouco, mas não conseguia mais discernir diferenças entre o vazio do lugar em que estava e vazias impressões que tinha dele. Um dia ela acordou diferente, com mais ímpeto. Ao cuidadosamente analisar o seu arredor, Ossent viu que os pontos brilhantes haviam mudado de lugar bem drasticamente, e percebeu que agora eles pareciam mais aos pontos de que via ao céu de Ausmus. Em sua frente, ao longe, ela via algo diferente, e apesar de não conseguir reconhecer bem de primeira, avançou rapidamente para aquela direção porque sabia de alguma forma que aquilo estava tão estático quanto ela aquele infinito obscuro.

Era uma escrivaninha, uma caneta tinteiro, muita tinta e muito papel. E ela não conhecia nenhuma dessas coisas. Sentou-se à escrivaninha na cadeira acolchoada e viu tudo aquilo disposto à mesa e, subitamente, sabia o que fazer. Simplesmente sabia. Pegou o papel e começou a escrever e, enquanto escrevia, as informações entravam em sua cabeça, como quando nos esforçamos demais para lembrar de algo e nossa cabeça dói. Ela continuou a escrever e, a cada frase escrita, sua cabeça doía mais. Houve um momento, depois do que deviam ser duas horas para ela, mas na verdade eram meia hora, em que ela tentou parar de escrever e percebeu que não conseguia. Sua mão não mexia sem ela saber, não havia nenhuma outra entidade ali fazendo as anotações para ela, mas uma parte dela simplesmente se recusava a parar porque entendia que ela tinha que entender tudo aquilo. Ou melhor, uma parte dela queria passar por aquilo, quase como se tivesse sido uma escolha que já não se lembrava mais.

E escreveu. Ossent escreveu até seus dedos estarem tortos e em carne viva, até sua cabeça simplesmente não aguentar mais. E, quando parou, algo em seus olhos brilhou. Não com luz, mas com a própria energia pulsando dentro dela. Ao sentir esse impulso vindo de dentro dela, Ossent tentou reagir e segurou a cabeça mais forte que podia. A dor era imensa e intensa demais, ao ponto em que Ossent simplesmente perdeu a consciência em pé de frente à mesa.

Acordou. Novamente ali. Novamente tudo escuro, com exceção dos pontos brilhantes, mas ela sentia que algo não estava ali. Uma leve dor de cabeça a acompanhava enquanto cambaleava em meio à noite eterna. Em sua frente, sua visão meio turva viu algo distante e andou o mais rápido possível para chegar ali. 

Quando chegou, não entendia o que estava vendo. Pela escuridão do chão, algo escuro e viscoso estava impregnado. Ela conseguia enxergar a sombra de algumas coisas, mas não tinha luz suficiente para saber o que era. Em sua frente, a escrivaninha, a caneta e os infinitos papéis. Sentou-se à escrivaninha na cadeira acolchoada e viu tudo aquilo disposto à mesa e, subitamente, sabia o que fazer. Simplesmente sabia. Ao escrever a primeira linha, lembrou o que havia acontecido, mas novamente uma sensação de certeza tomou conta de seu corpo e continuou a escrever. Era tanta informação correndo para sua cabeça que não conseguia controlar entender seus traços – ela sabia o que era e o que não era, mas não entendia o que significava tudo aquilo, como uma pequena criança aprendendo o alfabeto pela primeira vez. 

Desta vez ela continuou escrevendo. Mesmo sentindo o sangue descendo por seus dedos, mesmo que a fatiga tomasse conta de seus braços, mesmo que sua cabeça quisesse derreter, nada mais importava além daquilo e era uma única chance.

E então tudo se apagou.

Isso se repetiu mais quatro vezes até Ossent entender que a cada vez que fazia aquilo, sua cabeça explodia. Ela fugiu da mesa, correndo mais longe possível, mas tudo e nada não significavam naquele lugar. Apenas ela e a mesa existiam. Irônico, pois o desejo de toda a vida de Ossent era ser imortal para conseguir viver o mundo, ver o tempo passar, conhecer tudo que podia. E agora ela tinha todo o conhecimento nas mãos, mas tinha medo da consequência. 

Passou mais um tempo apenas dormindo e acordando, tentando recordar o que escrevera- se tinha realmente tocado naquela caneta – , talvez até mesmo semana, mas não conseguia achar outra resposta. Sua mente ainda estava destruída pensando naquela revelação, mas o desespero falou mais alto. Então voltou à mesa e vasculhou tudo sob a sombra, mas não conseguia ver nada direito, nem mesmo as palavras que tinha escrito naquelas diversas folhas em sua frente, agora meio sujas também de pedaços de carne que ela julgava que fosse sua cabeça.

Pegou as folhas limpas, a caneta e tentou traçar uma linha. Automaticamente seu corpo sentou-se à escrivaninha na cadeira acolchoada e viu tudo aquilo disposto à mesa, até mesmo os detritos de sua antiga cabeça, e mesmo assim começou a escrever. Dessa vez, ela lembrou que havia feito um plano com as informações que tinha traçado: as informações a revelaram que existem padrões que o tudo respeita e que Ossent poderia utilizar ao seu favor, e já sabia alguns padrões, mas não por completo – e também não sabia como realizá-los ou qual era o específico que a tiraria dali, mesmo que a sedução daquela caneta fosse muito maior do que sua efetiva vontade de sair dali. Conseguiu traçar uma linha de raciocínio, mas era já tarde demais. A dor em sua cabeça estava insuportável. E tudo se apagou.

Dessa vez a mesa estava muito distante e, ao chegar à mesa, quase vomitou com a cena que viu, mas não tinha nada em seu corpo então só saiu suco gástrico, saliva e dor. Tudo completamente sujo de sangue e restos humanos jogados para todo lado. A mesa parecia algum altar anti-humanos. Ela limpou um pouco da sujeira na cadeira e sentou-se à escrivaninha na cadeira acolchoada e, ao começar novamente sua viagem, dessa vez não hesitou. Continuou assim por incontáveis dias. Algumas vezes demoravam mais ou menos para voltar, mas sempre voltava a escrever.

Até que um dia conseguiu tirar uma conclusão sólida sobre o que tinha acontecido com ela. Segurou a caneta mais forte e, logo antes de seu cérebro desligar por conta da dor excruciante, ela usou seu outro braço para afundar a caneta na madeira da mesa, o que fez a caneta quebrar e jorrar tinta por cima dela, enquanto ela olhava para um ponto luminoso específico que sabia que ficava em Ausmus e recitou a canção.

“Estradas desertas não oferecem caminhos ou escolhas

Crianças choram com o aprender

Galáxias são estrelas dos olhos

E o silêncio é o meu saber

E a escuridão é o grito dos olhos.

Mesmo que tente muito não chegará a você”.

E, como se fosse um piscar de olhos, ela estava ali na rua de novo. Seus olhos marejados, sua boca seca, sua cabeça prestes a explodir de tanta dor. Falou algumas palavras que nem lembrava direito para Yragos, que seguiu em frente, enquanto ela esmorecia na rua até desmaiar.

A verdade é que Ossent não lembrava o que acontecera antes de estar naquele silêncio absoluto, e na verdade nunca saberá, mas ela quis algo e assim foi feito. O que há dentro da caixa é um portal, mas ainda é muito cedo para dizer alguma coisa. De qualquer forma, Ossent tinha certeza de uma coisa: toda a vida e até mesmo o mundo e os deuses são uma piada para o que a CAAA está mexendo e, se continuar assim, nada mais vai importar.

Essa é minha mão. Imaginando se eu tivesse no lugar de Ossent.

Yragos e Ossent (Parte 1)

A chuva estava torrencial quando Yragos subia a rua e cada uma de suas passadas equivaliam a dois dos seus passos normais, revelando sua ansiedade e angústia, como se estivesse atrasado para um compromisso importante

“Espero que Ossent chegue logo.”

Suor escorria em sua têmpora e em suas mãos, mas Yragos não tinha tempo para pensar nisso. Ele precisava chegar no ponto de encontro exatamente no mesmo momento que Ossent, sua companheira de grupo, chegasse, mas por conta de tudo que estava acontecendo, ele preferiu ir mais cedo um pouco e esperava que Ossent tivesse a mesma ideia. Eram quase cinco horas da tarde, mas as nuvens pesadas no céu faziam parecer quase noite. As ruas estavam muito vazias, como de costume, afinal não era todo mundo e não era sempre que alguém precisava ir para o centro da Fortaleza. Imensas casas e torres de pedra branca, cinza e azul escuro subiam pelas ruas recém pintadas em tons amarelos, vermelhos e branco, como se tentassem animar aquele dia cinzento. Os iluminantes bastões de luz já começavam a acender, dando uma sensação um pouco fantasmagórica àquela rua fria de chuva. Yragos virava a esquina quando se bateu com um senhor carregando diversos materiais diferentes em suas mãos

“Desculpa – disse, enquanto apertava o passo, sem esperar sequer ver o rosto do senhor”.

Dali ele começava a ver o ponto de encontro: o Centro de Aperfeiçoamento e Análise do Absurdo (CAAA), uma casa gigante situada em um terreno maior ainda. Ele diminuiu o ritmo do passo para se acalmar e conseguir pensar direito. Tudo tinha que dar certo naquele dia e eles só tinham uma chance. Ao longe, Yragos via  que Ossent estava quase no lugar marcado. Novamente, apertou o passo.

Eles estavam ali para uma missão que seu grupo confiou a eles. Os Sem Pátria foi um grupo criado há mais de um século por pessoas que entenderam que haviam determinados fatores que impediam a atuação do Estado ou dos grupos de apoio em determinados lugares ou o contrário: a atuação do Estado piorava determinados fatores da comunidade e, por conta disso, era necessário um grupo de iniciativa própria das pessoas ali de intervir contra àqueles problemas. E era quase natural que realmente existissem essas organizações, a ideia se espalhou e era muito comum que existisse até uma comunicação entre as SP próximas, com uma reunião a cada seis meses dos principais responsáveis. Mesmo com toda essa responsabilidade, eles nunca quiseram auxílio ou participação do governo ou de outros grupos dentro de suas ações. Às vezes eles atuavam até mesmo em segredo e muitas vezes nem mesmo os moradores sabiam quem eram os membros da organização. As queixas eram feitas a informantes que traziam para um representante da agência.

Apesar da discrição, era nada grandioso demais e pouquíssimo trabalho, afinal não tinham muitos problemas que os grupos de apoio dos trabalhadores não pudessem resolver… Até ser criada a CAAA. Ao abrirem os primeiro cinco laboratórios de testes do absurdo há cerca de trinta anos atrás começaram a surgir murmúrios de atividade suspeita na região. A princípio, os moradores alegaram que estavam ficando loucos, mas ao conversarem entre si entenderam que não: eles tinham a impressão que algumas mudanças estavam acontecendo a todo o tempo sem que percebêssemos. A cor das ruas, de dentro de suas casas, a forma de alguns objetos e até mesmo imagens de seus sonhos reaparecendo no mundo real.

Os SP não acreditaram, mas ainda sim mandaram um grupo descobrir o que estava acontecendo – e eles nunca voltaram. Isso aconteceu há uns dez anos e os SP decidiram não tocar mais no assunto e encerrar de vez a situação, no entanto cada uma das sedes fazia sua própria investigação de sua área, mesmo com a desaprovação geral do conselho dos Sem Pátria.

Naquele dia, Yragos e Ossent tinham uma missão simples, mas importante: às cinco horas e dez minutos do próximo dia de chuva foi notificado que um homem sairia com algum tipo de caixa da CAAA e entregaria a eles. Eles, com a caixa, sairiam de lá o mais rápido possível e iriam para o esconderijo dos Sem Pátria. Eles tinham que ser impecáveis e aparecer sem atraso. Se o entregador não os visse, ele iria embora. Foi lhes dito que o conteúdo da caixa responderia muitas perguntas e deixaria novas em aberto e, como eles nunca tiveram uma resposta sequer sobre o que acontece no CAAA, essa era uma oportunidade única.

E lá Ossent estava, chegando no muro do Centro. O CAAA era uma casa enorme situada em um terreno maior ainda. Diversas vinhas subiam de suas paredes marrons-terra até seu teto em formato hexagonal, como se aquela casa tivesse submergido do solo para cima. Ao longe, não podia ver direito, mas dava para dizer que embaixo de toda aquelas plantas haviam diversos símbolos e desenhos que seria muito difícil de reconhecer. O grande terreno ao redor da casa estava ocupado por grandes equipamentos tecnológicos para captações de ondas e bulbos de eletromagnetismo, o que destoava muito da arquitetura meio rústica, brutalista do resto da cidade. Um muro de um metro num tom de rosa claro detalhado em branco, um pouco desgastado, separava não o terreno da pista, mas as pessoas do terreno. No portão principal de metal de quatro metros num arco que desafiava qualquer estudioso ou construtor com desenhos de animais enfeitando suas grades havia um aviso escrito:

ATENÇÃO:

Não ultrapasse!

Área restrita

Trabalhadores, favor evitar passar por aqui.

Os bulbos e os medidores podem ser perigosos e são muito sensíveis!

Os dois foram escolhidos para a missão porque os dois moravam perto. Yragos morava há duas esquinas dali e Ossent morava na direção contrária por um ou dois quarteirões. E lá estava Yragos chegando. Ossent estava com sua jaqueta usual e suas botas sujas com a chuva.

“Quase se atrasa, como pode?” – diz ela, sem nenhum receio ou intervalo, já se apressando para chegar no Portão

“Um senhor me atrasou, e a gente chegou cedo demais. Será que vão suspeitar ou alguma coisa?”

“Dificilmente. Ninguém vem aqui, pelo que pude ver nos últimos dias. Essa área da cidade realmente é bem abandonada. Nem mesmo os funcionários entram por aqui. Talvez existam gravadores de vídeo, mas com a chuva eles provavelmente estão embaçados. Muitas variáveis hoje e minha primeira pergunta é: como ele, ou ela ou elu ou sei lá, sabia que conseguiria fazer isso num dia de chuva e que esse dia seria próximo?”

“Talvez estude clima e tempo. Talvez esse seja o absurdo: a aleatoriedade do clima!”

“Talvez você seja muito burro.”

Eles chegaram no portão às 5:08 e esperaram cada minuto como se fosse uma hora. Cinco e nove. Cinco e dez. O minuto inteiro passando e os dois tentando enxergar se havia algum movimento dentro daquele mausoléu ao longe, mas nada mudou. Continuava com o aspecto de abandonado e distante. De repente, um trovão e um clarão atingiu o céu e, no momento em que os dois piscaram no meio daquela chuva, um reflexo passou pelos olhos de Yragos. Atrás dele, uma pessoa meio metro menor que eles dois grunhiu limpando a garganta.

“Com licença, senhores. Isto aqui é para vocês.”

A pessoa que se tratava provavelmente era uma estudiosa. Seus vestes eram pesados com diversos bolsos, a maioria ocupado com algum tipo de pequena engenhoca e a outra parte era com escrituras, estavam cobertas por uma capa de chuva bem maior que seu corpo, o que sugere que foi emprestada por outra pessoa. Um sorriso malicioso e um brilho diferente no olhar foram as únicas feições que Yragos conseguiu lembrar daquilo que estava em sua frente.

Com um movimento, a pessoa deixou uma caixa feita de um material muito curioso no chão e desceu a rua. Yragos e Ossent já haviam tratado de alguns assuntos mais estranhos que pegar uma caixa na mão de um estranho naqueles lugares, mas aquilo foi tão abrupto que eles ficaram sem reação. Yragos podia jurar que o homem passou por eles debaixo do muro para a calçada, mas era impossível alguém ser tão rápido. Piscou mais uma vez e viu Ossent andando, ou melhor cambaleando.

“Siga aquilo agora, eu fico com a Caixa. – dizia ela, e parecia dar urgência ao que dizia, mas sua voz perdera todo o tom energético de alguns minutos atrás.”

Yragos olhou ao redor, mas a chuva tinha ficado mais forte ali, fazendo ficar cada vez mais difícil enxergar mais do que alguns metros à sua frente. Ele já teria perdido quem o entregou a caixa.

Olhou para Ossent novamente e ela havia caído no chão. Seu rosto estava pálido e seus olhos estavam arregalados. Ela olhava para dentro da caixa. Yragos logo puxou Ossent para cima e a segurou contra o muro para que ficasse em pé, mas ela parecia em choque. Não se movia e nem fazia muito movimento além de respirar fundo.

“Deixe-me aqui. Leve a caixa para a sede e não olhe para dentro. – dizia Ossent, tentando se mover para se soltar de Yragos. – Eu vou ficar bem. Saia daqui com a caixa agora!”

E com esse grito que parece que levou toda a força que Ossent ainda tinha, Yragos a soltou no muro em que ela já tinha se equilibrado para segurar e manter-se em pé. Ele pegou a caixa com um de seus braços e desatou a correr pela rua.

Primeiro quarteirão. Segundo quarteirão. Ele se sentia mais confuso a cada passo. Quem era aquilo e por que ele sentia que não era de Ausmus? O que tinha naquela caixa? Por que Ossent agiu daquela forma? O que quer que fosse que estivesse na caixa, estava balançando bastante na corrida. Não parecia nada mais do que um pacote pequeno de ração de comida e Yragos naquele ponto já estava cansado de levar algo que ele nem sabia o que era. Não entendia porque Ossent tinha sido tão incisiva com o não olhar para dentro. Ia dar só uma espiada e continuaria indo para a sede. Quase estava lá. Não ficava tão longe de sua casa… Era uma corrida tão tranquila…

No terceiro quarteirão Yragos não pôde mais segurar a curiosidade. Parou de frente para um beco, entrou na beirada e olhou para a caixa. Ela era áspera, em um formato retangular, meio verde e bege. Havia uma abertura na frente dela, uma fresta com uma grade. Yragos pegou a caixa com as duas mãos e virou a fresta para seu rosto e…

Continua.

A chuva é muito molhada. Adoro chuva.

Nascimento do Universo de Ausmus

Antes até mesmo de existir qualquer coisa, existia a Ordem. Antes do tempo, das cores, das curvas, das pontas e formas. Não havia energia ou equilíbrio. Não havia nada e também tudo. Havia apenas Ordem. Ordem era algo. Ordem era singular e regrada. Era a lógica pura em contínua ação, criando e traçando a física como jogos mentais de uma mente fértil de criança que não existia. Nem mesmo a imaginação. Somente existia Ordem. E, ao passo em que era singular, pois singular também era sua completude, era além do perfeito, pois limites não poderiam mensurar suas capacidades. Em suas análises contínuas e eternas, eventualmente houve uma dissonância, uma disparidade, uma desassociação que fez a Ordem entrar em choque. Desse choque, rachaduras começaram a existir e a Ordem começou a se desfazer em farelos, cacos, pedaços que eram engolfados pelo novo nada ao redor. O Nada, por outro lado, cresceu por entre esses cacos, como um líquido viscoso escorrendo na superfície de um vidro. Assim nasceu o Caos.

Errático, instável, imprevisível. O Caos não calcula ou age – Caos simplesmente é, simplesmente surge. É a resposta à Ordem, a sua antítese, ou melhor: a resposta, a dúvida, a afirmação, a negação e a conclusão. 

Com o nascimento do Caos, a Ordem perdeu um pouco de sua força, enquanto que o Caos se aproveitou do espaço dado pela Ordem para avançar pela eternidade afundo. A cada espaço conquistado pelo Caos, a Ordem perdia, como o crescimento de uma rachadura que não poderia ser impedido de nenhuma forma. Quando o Caos se tornou equiparável com a Ordem, esta já estava preparada e afundou-se no Caos simplesmente – porque assim planejara. Ordem não tinha mais como impedir o Caos, mas também agora as nuances e possibilidades de seus cálculos eram muito maiores considerando o espaço de nada, tudo, infinito que vos foi dado. Ao cair dentro do nada, Ordem começou a se dissipar e se transformar em resíduos e se tornou a própria Lógica. Como Lógica, ela agora poderia Ordenar o Vazio do Caos, poderia trazer controle e equilíbrio do nada. Transformá-lo finalmente em algo… Mas a falta de consciência de ambos não direcionava suas ações, então ainda não havia um “algo” para a Lógica trabalhar. Foi o cálculo de Ordem. Seus resíduos friccionaram com o Caos criando a Matéria. A Matéria e a Lógica, as duas nascidas de Ordem e do Caos, buscariam transformar o Caos em algo diferente que simples nada. A Matéria, ao existir, chocou o Caos, que dilatou seu corpo infinito ainda mais numa explosão tão intensa e impossível que jamais um ser humano poderia sequer entender sua magnitude. Essa explosão foi o suficiente para que a Lógica e a Matéria pudessem assimilar as funcionalidades do Caos e também foi o suficiente para que o Caos criasse o que a Lógica e a Matéria precisavam para começar a desenvolver o universo: a Energia. Assim, a Energia, a Matéria e a Lógica trabalharam juntas criando o universo.

Essas três nunca foram seres. Todos estes eram além da própria existência, transcendendo perguntas sobre “Pensar” ou “Saber” e suas funcionalidades eram seus cernes. Entes da criação, poderosos e imperiosos, a razão não poderia segurar tamanho poder irrestrito, transformando tudo em sincronia dada pela Lógica, com intervenções contínuas do Caos reagindo  ao desenvolvimento contínuo de mutações dentro dele. Dentro dessas intervenções do Caos, fez-se possível existir vida no Planeta Ausmus. 

Como existe magia nesse universo? Qual a história de Ausmus? Questões muito interessantes para serem respondidas tão rapidamente.

O fim e o início :(:

Eu completei o desafio! Para quem não sabe, eu estava num desafio de escrever uma poesia por dia com um tema específico dado por um artista do twitter que eu admiro muito (@Pitchcanker). Obrigado a todas, todos, todes que acompanharam. Eu mesmo não acreditei que consegui escrever e publicar aqui no blog cada texto em cada dia. 

Para o futuro eu tenho novos planos! Infelizmente vão ser mais raras e espaçadas as poesias, mas eu queria focar em um projeto pessoal muito importante para mim que está martelando na minha cabeça: 

Eu estou trabalhando em um mundo pessoal chamado Ausmus. Um mundo com humanos, mas com uma sociedade diferente. Lá em Ausmus, a tecnologia e a natureza caminham juntas. As guerras cessaram há muitos séculos e agora as múltiplas sociedades decidem entre si através de grupos, conselhos, assembleias e afins. Os cidadãos comuns só vivem continuamente suas vidas, com as pessoas que aprenderam a viver, com as funções que mais consideram agradáveis, no entanto ainda há muitos mistérios nesse mundo e alguns problemas endêmicos desse mundo autogerido.

Enfim, é só umas coisas que eu pensei até aqui. Já mandei um texto aqui faz algum tempo e planejo mandar um semanal sobre esse mundo que eu estou criando, para dar forma e eu fixar bem o que eu quero criar. Como é algo muito caseiro, pessoal e não profissional, eu peço desculpas de antemão caso a história mude com o tempo. Já mudei muitas coisas desde que eu comecei a escrever.

Enfim, novamente muito obrigado por terem se juntado aos meus seguimores ^^. 

Eu vou continuar escrevendo, podem acreditar.

👍👍👍👍👍👍👍

Dia 31: Playful

É um desafio
É um jogo antiquado
num mundo e em tempos bem distantes
com nobres e monstros para lutar
(nada pode te deter além do mestre!)
Role playing game!
Faça seu personagem
você tem que ser alerta!
Cada movimento crucial
Te separa da morte certa!
A batalha é decisiva,
Você tem que pensar bem.
Você precisa fazer isso pra não morrer!
RPG! ROLE PLAYING GAME!
A chance para ganhar está em suas mãos
Trabalhe com sua equipe para vencer!
Role playing game!
(Inspirada na Abertura de Diamante e Pérola – Pokemon)