Cansei de meus problemas serem tratados com supérfluos quando só eu sei o que eu tô sentindo ou vivendo. Ser pensado como indivíduo característico de um grupo que não me identifico porque vocês se acham inteligentes o suficientes para me classificar e classificar minhas vivências. Quando chegamos ao ponto de pensar sobre o outro e entender a realidade como perspectivas ou de forma analítica, vocês nunca vão conseguir porque estão presos em discursos pessoais personalizantes que só falam sobre pessoas e não sobre uma realidade em comum.
Apolo é uma companhia muito boa para momentos de reflexão. Estou cansado do povo de minha faculdade.
Esta é uma carta para adiantar a despedida Eu amo você demais para pensar em te perder Então escreverei isso para me preparar logo Afinal, sei que não vou lidar bem com isso
Dói em mim pensar em deixar você ir Dói, porque você foi quem eu escolhi confiar Mas, enquanto com o tempo, nunca escolhi te amar A princípio, um estalo e eu pensei muito em paixão Pensei em mais um romance daqueles de verão
Mas não Você veio como um engavetamento de carros Inesperado, violento, barulhento e dolorido Exatamente como um acidente infeliz Irresponsável, inevitável, conflituoso e sem final feliz Eu penso sobre como nunca quis ser seu amante Penso sobre o amar como algo ainda mais facinante Queria muito continuar contigo como estamos agora Sua amizade é realmente o que me faz ter forças pra odiar o mundo Não sei o que vai ser da nossa dupla comigo sozinho
Já sinto sua falta mesmo antes de você ir embora Fofocar sobre os eventos não vai ser mais a mesma coisa Seu sorriso sarcástico pronto pra me perturbar Seu olhar de atenção quando eu tô triste tristonho Não quero perder mais um amigo, sabe? Mas eu sei que você vai conquistar sua vida por aí São Lázaro é muito pequena pra conter suas habilidades Sou sentimental e fresco, sei que você vai manter contato quando quiser
Eu não comprei o livro que você queria e me pediu Invés de comemorar ou sei lá, vou mandar essa carta Enfim, eu gosto de você, seu corno. Espero que isso não mude.
Ouvi a música “Bravado” de Lorde e fiquei pensando sobre meu Bravado. Meu grito de guerra. Minha vontade interior. Talvez o encontrar seja justamente sobre se entender, sobre ao mesmo tempo criar e explorar o que já existe dentro de você. Um baú de pólvora esperando a fagulha. Essa fagulha já existe.
Toda minha vida eu pensava Que um dia minha hora chegaria Mas eu estive mais ocupado Me preparando para a grande chegada Não construí sua estrada E agora não sabia mais se viria
Mas a maré finalmente virou Os ventos sopram ao meu favor Os fios do destino ganham entorno Não tenho entusiasmo pelo retorno Estranho demais pensar meu corpo Exposto, num palco pensando a dor Dolorido, expondo o pensador (colonizador) Eu não sei se quero para mim isso Uma vida inteira de professor
Os olhos ávidos por atenção As armas são apenas o piloto na mão A única coisa que me agarro Para manter minha sanidade É a minha determinação
A sala está cheia e barulhenta O respeito é de amigo, parceiro A reclamação é briga, esquenta Situação de discussão não é passageiro Eu não quero lidar com criança o dia inteiro
Meu grito está nas pequenas criações Gosto da independência de suas ações Vejo de bons olhos todas as questões E outros pontos que eles trazem consigo
Vejo no aluno um amigo perdido Aquele que você não fala faz anos Que faz sempre para você pedidos Mas que você sabe que para fazer acontecer São necessárias organizações, novos planos
Sei que é uma forma ruim de pensar indivíduos Mas é a única forma que me impulsiona a ir Talvez tudo que fale se torne meros resíduos Eu não me importo contanto que faça algo fluir
Eu posso tornar esse o meu chamado Transformar tudo ao meu redor que for tocado Se tivesse certeza, moveria todos meus recursos Viria com outros olhos! Traçaria logo o curso! No entanto, não sinto aquele arrepio O calafrio despertando na ponta do espinhaço Meu braço não vira o leme do barco E o mar revolto me impede de atracar nesse espaço
Então qual será o meu grande chamado? Por deus, eu não aguento mais a calmaria O caminhar a esmo sem algum guia A resposta para qualquer pergunta bastaria
Resposta cujo entendimento depende de mim Se não atingi-lo, eu estagnarei bem aqui O grande espectro da expectativa de me definir
Acho que essa foto minha tentando fazer uma pose e absolutamente tudo dando errado é a melhor representação desse texto.
Sua família, no entanto, amava-os. Era gato para todo lado: João, José, Maria, Nina, Bolinha, Manchado, Gatito e tudo quanto é nome dos mais variados, mas Wallace nem se esforçava em tentar saber os nomes. Quando criança era ver uma bola de pêlos perto do seu quarto que começava o escândalo seguido dos mais criativos apelidos apelidos já criados pela humanidade residente em sua cidade: “Satanás na Terra”, “Destrói Desgraças”, “Filhote do Satã”, “Inferno de Animal Lazarento” – é legal que em todos os apelidos, os animais possuem nome (Satanás, por exemplo) e sobrenome (na Terra). Certo, não eram apelidos muito criativos, mas ele já carregava consigo a herança mais preciosa de sua família: o vocabulário cristão, o que significa que era só sua mãe ouvir uma parte de um nome que lhe rendia um puxão de orelha na certa.
Como quase todo dia havia um incidente com gatos, Wallace começou a imaginar, com razão, que os próprios gatos provocassem essa reação dele. Ele cresceu com essa teoria em mente, e cada vez mais o número de gatos aumentava em casa, enquanto ele disputava o ódio pelos “arrombadinhos” e pelo amor de sua família. Era uma situação que qualquer pessoa poderia considerar constrangedora, mas para Wallace era questão de honra e dignidade: não se podia tocar no assunto “Daquele animal” perto dele que era questão de momentos para ele se transformar e começar a falar sobre sua teoria, analisada, comentada e amplamente divulgada por ele mesmo sobre como os gatos o odiavam. E podia ser incômodo para desconhecidos, mas era uma grande fonte de diversão para amigos próximos e principalmente para seus irmãos Tereza e Pedro.
E realmente existem muitos momentos em Wallace se frustrou ou se irritou com esse problema particular com os bichanos. Seus pais o colocaram num psicólogo, visitaram terapeutas esotéricos ou xamânicos e até tentaram amolecer o duro coração de aço de Wallace batizando um filhotinho como “Walla” como homenagem. Wallace, irredutível, apenas disse “Espero que seja fêmea e vocês mudem o nome”. Realmente era fêmea, mas eles doaram o bichinho todo peludinho e pequeninho para uma prima distante que continuou chamando de “Walla” ou apenas o austero e também carinhoso “Gato” mesmo. Enfim, muitos são os momentos de Wallace com gatos, mas existe um em específico que até hoje arranca boas risadas de seus parentes.
Num dia que poderia ser o de hoje como poderia ser o de ontem, Wallace estava em seu trabalho resolvendo como organizar suas planilhas no computador. É estranho, mas nada acalmava mais Wallace do que estar em seu lugar cuidando de suas coisas. De repente, seu telefone começa a tocar: é Tereza. Ele para um pouco e rapidamente se dirige à copa para poder atender a ligação.
– Oi, titio. Você vai me ouvir e não vai dar um pio – disse Tereza. O mundo no telefone estava caótico e Wallace só conseguia ouvir algumas vozes e sons estranhos de abre e fecha de portas – Você vai na minha casa hoje, depois de seu trabalho.
– Sua casa? Por quê? Eugênia… – ele parou porque Tereza começou a gritar “”Me ajuda, Marcelo!” – Você está bem?
– Eu estou parindo, gênio! E você vai para minha casa cuidar dos meus gatos por hoje e por amanhã até Pedro poder. Ele vai dar pernoite e não poderá aparecer hoje e você é o único que eu confio para cuidar dos meus nenéns – ela falou tudo isso enquanto berrava com o Marcelo.
– Você sabe que eu…
– Eu não quero saber, Wallace. Escuta aqui e me largue, Marcelo que eu vou falar com Wallace. Não é você está sentindo uma cabeça vindo por sua buceta, Wallace. Você vai fazer o que eu disse e acabou. Vou desligar agora porque tenho que falar com a médica. Deixei a chave com o síndico.
– Mas…
E a ligação desligou.
Bom, não vou negar que a princípio ele tentou fingir que a conversa não acontecera para que não precisasse ir para a casa de Tereza, mas mais forte que um trauma de toda uma vida é uma pessoa grávida a qual você é bem conectado pedindo algo com urgência enquanto sentia contrações fortes. Ela não deu volta atrás e, portanto, Wallace se sentiu numa sinuca de bico. Ele tentou chamar algum amigo próximo para ficar no lugar dele, mas todos eles, mesmo os mais vagabundos, inventaram desculpas. Claro que queriam ver como aquilo iria acontecer. Malditos.
Dali o dia só desandou. Seu trabalho acabava só no fim do dia, mas ele não conseguiu raciocinar direito até que ele acabasse. Saiu do trabalho e quase esqueceu de pegar suas coisas no armário dos funcionários. Quando chegou no ponto, ainda sim ficou se questionando sobre porque Tereza tinha pedido logo ele de todas as pessoas da face da terra. Desde que saiu de casa ele não tinha mais contato algum com bichanos. Nem mesmo os vizinhos possuíam gatos, pois morava em um prédio que era proibido animais. Revisitar isso não estava nem perto dos planos de Wallace, mas não se pode escolher as dádivas que a vida guarda pra você e, nesse caso, a dádiva é uma casa cheirando a xixi de gato e pêlo de gato em todo o lugar inclusive no ar, principalmente no sofá e na poltrona, ambas viradas para a Televisão, ambos com mais da metade dos estofados rasgados e a outra metade já arranhados. As paredes, algumas manchadas. No chão já tinha dois copos plásticos já derrubados com algo já seco que parecia suco no chão. Isso foi só a sala, que é o primeiro cômodo, e Wallace agradeceu por ainda não ter visto nenhum tapete dentro de casa cheio de pêlo e com cheiro de xixi. Ao se virar no pequeno corredor, entre a sala e a porta de entrada, ele viu a cozinha e tomou um susto!
Dois seres absurdos e simplesmente incompreensíveis por serem tão assustadores e horripilantes, reconhecidos apenas pelo brilho dos olhos e corpos excessivamente peludos com caudas, estavam em cima da lata de lixo derrubada se banqueteando em cima da pia com o que parecia ser restos de frango assado. Aquela cena primeiro chocou Wallace e também as criaturas. Wallace ficou estático parado, enquanto as criaturas saíram se movimentando através de seus pés peludos e cheio de navalhas. Quando esses seres voltaram para a escuridão, lugar que já está diretamente associado a eles.
Ao passar pela casa, Wallace viu mais duas criaturas daquela no quarto e mais uma deitada numa almofada no chão, já desfiando. Totalizou quatro e meio – o que estava na almofada era ainda uma criaturinha mirim, mas Wallace já conseguia ver os dentes protuberantes de um assassino natural crescendo.
Mas ele não tinha tempo para perder, então começou a fazer uma faxina aquela casa. Era Wallace, um esfregão, uma vassoura, desinfetante, um balde de água e um pano contra quatro monstros e meio fazendo o possível para impedir que ele destruísse seu império maligno de vilania, pêlos e terror, ou fedor, como preferir.
A primeira batalha foi fácil, a batalha da Cozinha, ou como foi dito, a Guerra Entregue. As aberrações horrendas apenas observaram de longe planejando estrategicamente a perda de território enquanto Wallace fazia sua parte conquistando cada centímetro que podia. Aconteceram algumas expedições inimigas, mas o esfregão foi o suficiente para parar o avanço inimigo. Quando acabou a cozinha eram nove horas e Wallace se perguntou como o tempo poderia passar tão devagar. Ele ligou para Tereza, mas não obteve resposta. Ligou, então, para Marcelo.
– E aí? Já sou tio?
– Err… Um minuto… Não. Estamos buscando uma sala. Calma, amor! Preciso desligar.
E ele desligou. Isso preocupou um pouco Wallace, primeiro porque ela está sem ser atendida no hospital! Que horrível! A outra é que aquilo significava que ele ainda ia passar muito tempo ali. E agora vamos reavaliar a estratégia.
Existiam duas opções agora para iniciar uma guerra: a sala ou os quartos. Primeiramente Wallace inspecionou a sala e a situação estava tão ruim quanto se ele podia imaginar, mas infelizmente aquilo não era sua imaginação. Para poupar mais do seu cérebro, já derretido somente por conta de lidar com aqueles demônios que inclusive estavam estranhamente quietos. Ele se dirigiu para o quarto de hóspedes com seu kit de guerra.
Entrou no quarto e antes ele estava tão assustado com os gatos que não tinha percebido: aquele era o quarto de Eugênia. Ali havia uma cômoda verde, com alguns produtos como perfume de bebê, lenços umedecidos e óleo para a pele do bebê. Parece que esse era o quarto que menos tinha pêlo de gato. Alguns quadros prendiam na parede com imagens de foguetes e dinossauros esculpidas em madeira. No outro canto do quarto, um berço com forro de cama verde e um véu cobrindo-o. Intocado. Ao lado do berço, algumas fotos de Tereza e Marcelo pequenos e Wallace logo reconheceu as fotos de sua irmã. Ela em seus seis anos com os dentes da frente nascendo ainda enquanto sorria sem parar para a câmera, Wallace lembrou que um desses dentes ele a ajudou amarrando com fio dental e puxando. Ela em seus onze anos tímida batendo parabéns com os amigos, e Wallace conseguiu ouvir ainda hoje os gritos e bater de palmas. Tereza com quinze anos sorrindo e escondendo o rosto estouradíssimo de espinhas, e Wallace no fundo da foto com a cara amarrada. Ele voltou para a foto do aniversário e não conseguiu se achar e lembrou que nesse momento ele estava no seu quarto trancado por conta dos gatos. Na foto Quindim, um gato de sua mãe já falecido, faz presença atrás de uma das garotas da foto.
Tinham outras fotos, mas aquela deixou Wallace pensando. Quantos momentos da vida dele, dos irmãos e da família ele deixou de viver por conta de seu medo? Hoje em dia ele vive bem e sustenta sua vida tranquilamente sem ter que lidar com gatos, mas agora olhando para aquela foto, ele não tem certeza se suas reações fazem sentido. Se toda aquela lógica algum momento sequer fez sentido. Ele trancou a porta e deitou no chão ao lado do berço e notou que ali tinha um tapete – sorte que os gatos ainda não descobriram porque estava com doce cheiro de amaciante. E ali Wallace ficou por um tempo enquanto pensou no tempo perdido. Lembrou de cada um desses momentos com gatos dentro de sua família. Lembrou de quando sua vó lhe mostrou o gato dela, Pepinho – e ele empurrou a mão de sua vó e saiu correndo. Agora falecida, ele gostaria de conversar com ela sobre Pepinho ou sobre qualquer coisa. Ver Quindim na foto também não foi fácil, pois a lembrança de sua mãe veio extremamente forte e a última vez que a vira Wallace disse coisas muito duras para ela e sumiu. Apenas manteve contato com os irmãos que, pessoalmente, sabia que a mantinha informada sobre ele, mas nunca conversaram sobre isso. Toda essa história triste por culpa desses Filhotes de Satã.
Desde quando isso acontece mesmo? Wallace não lembrava direito, mas não tinha nenhum problema de saúde envolvido. Engraçado pensar nisso agora, depois de tanto tempo correndo do medo, agora nem sabe direito o motivo do medo, somente que ele acontece e como deve prosseguir. Como uma sequência de códigos, ou uma lista de afazeres em suas planilhas. Dia após dia somente dizendo motivos e argumentando respostas que sequer tem sentido. O medo não é mais o causador de suas frustrações, mas suas atitudes que fizeram com que o medo continuasse a viver em sua memória. Desde pequeno, todos em sua volta dispostos a ajudar, e Wallace preferiu se esconder em seu quarto para que não pudesse enfrentar seu problema de frente. Não queria fazer o grande esforço de encarar sua família, de voltar atrás em sua palavra, de conciliar seus amigos, de reconhecer que gatos não são necessariamente maus. Nunca precisou diretamente de um motivo porque as aparições de gatos era muito recorrente em sua vida desde pequeno, mesmo se o gato só quisesse carinho ou paciência, a verdade é que Wallace não queria aquilo.
É comum não gostar de gatos, não? Porque isso não foi respeitado por sua família? Por que Wallace sempre precisou gostar de gatos para poder participar das festas, conversar com familiares, estar em conjunto? Por alguns minutos, Wallace grunhiu, enquanto criava uma lista em sua cabeça de culpados: os próprios gatos, sua mãe que o batia, seus irmãos que riam da cara dele, seus amigos que raramente o apoiavam sobre ir contra os gatos. Wallace queria queimar tudo naquele momento, queria pedir demissão, queria pedir desculpas à sua mãe, mas não conseguia falar mais. Tudo parecia tão alto em sua cabeça que ele não conseguia mais pensar direito. As lágrimas vinham em seus olhos, mas elas não caíam. Virou-se de lado e esperou o tempo passar enquanto sentia o fofo do tapete em seu rosto e o frio do chão de piso em seus pés.
Demorou um pouco, mas logo ele sentiu algo no seu rosto e uma vontade involuntária de espirar. O pequenino monstro que estava deitado na almofada desse quarto e Wallace nem se deu conta estava agora em cima dele. Seus grandes olhos o encaravam ameaçadoramente enquanto ele se preparava para dar uma investida fatal com as garras em seu nariz. Wallace se afastou o que pôde, fazendo a criaturinha tropeçar. Mas ela não desistiu e vinha com mais uma. Wallace levantou, pegou a pequena besta por trás e a colocou na almofada de novo e ela aninhou e voltou a dormir. Vendo aquela cena, ele lembrou do porquê que estava ali na casa de sua irmã: Eugênia.
Eugênia tinha uma vida pela frente e a seguir. Ela tinha suas próprias escolhas, um ponto de partida, um marco zero, mesmo sem saber disso. Ela podia viver sem pensar sobre quais são seus medos do passado, porque ela não tem nenhum. Ao pensar nisso, Wallace não sentiu inveja ou tristeza, ele sentiu esperança. Esperança porque ele sentia a mudança vir com ela e sentia que poderia crescer de novo. Ele não esperava que seus erros do passado fossem perdoados, nem queria perdoar as pessoas pelo que fizeram. Ele queria começar de novo, um passo de cada vez, assim como Eugênia. Ele podia aprender a não odiar gatos, para variar.
Um novo início, não é?
Essas são Selena e Demi, gatas de uma pessoa que eu gosto. Eu dedico isso aqui para todos que possuem gatos e falaram comigo. Foi material suficiente, já que eu não tenho.
Respira fundo e continue sorrindo. Aelium sabia que, enquanto pudesse respirar, ele conseguiria construir o futuro dele. E essa frase nem era dele, mas de sua avó. Infelizmente nunca pôde conhecê-los, pois ele nasceu no mesmo dia em que seus avós morreram.
Sua familia era uma isolada familia de pescadores. Num dia onde o céu estava muito límpido e a água estava bastante calma, os anciãos insistiram em sair para pescar. Eles sabiam que havia uma tempestade das grandes vindo. Sabiam não, contavam com isso. Seus filhos não sabiam e nem precisavam saber, mas havia um segredo em sua familia: eles eram herdeiros de um benevolente Djinn. Haviam diversas histórias que foram passadas por gerações sobre como a família Windrunner foi poderosa e influenciou a história de Calimshan em determinadas cidades, seja lutando contra a corrupção ou se tornando parte dela.
Com o poder e a glória vem o reconhecimento, e os dias glorioso passam como minutos diante daqueles que os aproveita. Descobriu-se que aqueles grandes feitiços e habilidades haviam desaparecido entre as gerações perdidas, tornando cada vez mais difícil viver sob a ideia de ter a possibilidade de ser alguém com poderes do Djinn.
Preocupados com o que aconteceria, eles foram para a costa, mudaram de nome, construíram sua casa e vivem lá por gerações sendo pescadores e marinheiros. As histórias continuavam sendo passadas, mas apenas dentro do seio familiar.
Os Avós de Aelium foran diferentes: eles nunca contaram aos filhos sobre a herança que a mãe tinha, porque afinal ela havia se decepcionado pois, apesar de ter cabelos brancos por toda a vida, nunca teve nenhuma habilidade extraordinária. Portanto ela se isolou com marido e os fez nunca saber do passado de sua família.
A geração que nasceu em seguida não tinha noção dos poderes. Julian era um menino forte com olhos bem lilás e um sorriso traquinas, enquanto que Eloíse era uma garota quieta e bem reservada que se predispunha apenas para fazer o que era necessário. A Eloíse nunca manifestou os poderes, como a mãe, mas Julian… ele tinha uma característica própria: Seus saltos eram gigantescos. Ele podia pular até o telhado de uma casa, caso quisesse. Seus pais diziam que era porque ele tinha muita força nas pernas e ele deixou por isso mesmo.
E Julian cresceu e se casou com uma mulher chamada Laureen de uma vila próxima em que eles vendem peixe. Laureen era uma mulher esperta e muito alegre que via o mundo com olhos bondosos e tratava todos como iguais. Julian aprendeu muito com ela e conseguiu compreender que a vida tem mais sentido quando fazemos o bem para as pessoas em nossa volta.
Eloíse se cansou da vida de pescaria. Um dia, logo depois que completou seus 16 anos, foi para a cidade grande de Calimporto e nunca mais voltou. Julian tem notícias que ela continua lá, mas nunca mais a viu.
E eles foram navegar. Disseram que iam pescar, mas eles sabiam que aquele não era um bom dia de pesca. Quando o mar está calmo é porque uma grande tempestade está por vir e quando essa tempestade vem, o pior lugar que devemos estar é dentro de uma canoa com varas de pescar tentando fisgar uns malditos. Mas aquela não era uma viagem de pesca.
Do âmago do seu ser, Lorena sentia que devia ir de encontro a esta tempestade. Ela nunca havia sentido isso em toda sua vida: na verdade, no auge dos seus atuais 68 anos, ela não sabia mais se não havia despertado os poderes ou se simplesmente não deixou que eles chegassem a ela. Sempre ríspida e autoritária, nunca deu espaço para brincadeiras e sempre esteve estressada em cada momento de sua vida. Mas, naquele momento, ela estava calma. E sabia que havia chegado a hora.
Falou a Julian tudo que precisava falar: que o amava, que amava o neto que iria ter, que a vida pode ser muito mais significativa e ampla do que qualquer horizonte pode oferecer e que, para descobrir sobre isso, era necessário se desprender daquilo que mais nos atormenta. Respirar e entender que, enquanto respirarmos, podemos viver e transformar nossas vidas. Ser leve para entender as injustiças do mundo e ser forte para traçar nosso caminho por elas.
Julian não entendeu direito porque sua mãe falou tanto e tantas coisas do nada, mas ouviu e assimilou cada palavra, afinal Dona Lorena nunca tinha sido tão clara e simpática na vida como naquele momento.
E eles foram. Quando eles foram pescar, como qualquer dia, Julian foi à vila comprar utensílios para ajudar no parto de sua mulher. Uma banheira, panos… Está chovendo? Ele olhou na rua e vê que o céu está acinzentado violentamente e leves pingos de chuva começam a cair, mas ele sente que os pesados estão a caminho. Com sua esposa, ele começa a ficar agitado em preocupação com os pais no mar – coincidência ou não que eles estão numa tempestade? Os dois eram muito experientes para cometer esse erro. Quando a chuva ficou mais forte a preocupação virou desespero e ele não tinha mais paciência para comprar as coisas. Agilizou Laureen para ir aos cavalos e foi direto para casa.
Chegando em casa ele não tinha mais visão do barco dos pais, então pensou que foram para casa – macacos velhos não cometem erros – e, assim que ajudou Laureen a descer do cavalo, a bolsa estourou. Novamente desesperado, ele a colocou na bamheira dentro de casa e foi a casa dos pais, que ficava perto… Mas não tinha ninguém. Sem se preocupar com o que aquilo significava no momento, afinal ele não parou para ligar os fatos, ele saiu pela vizinhança procurando alguém que ajudasse. Depois de uns 20 minutos ele achou uma mulher que, apesar de nunca ter realizado de outra pessoa, tinha 6 filhos e sabia como funcionava um parto.
Julian esquentou a água, e a colocou na banheira. A mulher se chamava Fabíola e ela só tinha olhos para Laureen, que estava se derretendo de força e desespero. “Respira, respira e EMPURRE!” dizia Fabíola, enquanto Julian segurava a mão de Laureen, rezando aos céus que tudo desse certo. Pedindo todo o bem para aquele parto, para que seu filho nascesse tão forte quanto a tempestade que assolava sua casa de madeira naquele momento. E seu desejo foi eventualmente realizado. Laureen conseguiu dar à luz a um menino com a pele escura e olhos lilás igual a Julian, mas com os cabelos brancos quase transparentes da sua avó. Lembrando das palavras de sua mãe, eles decidem colocar o nome de Aelium “Éolo”, para que ele seja sempre leve e consiga andar na corda bamba da vida.
No entanto, Eolo e nem Julian conseguiram contar para Lorena sobre o nome.
Depois de falar com seu filho sem falar da herança Djinn, ela posteriormente iria se arrepender disto. Antes de falar com seu filho, ela teve conversou com seu marido sobre a situação: “Romildo, acho que devemos ir ao mar hoje.” E contou sobre ter sonhado sobre uma grande tempestade se aproximando, sobre sentir que precisavam ir de encontro a ela e sobre como ela entendia aquilo como sua sina. Ao invés de impedí-la, Romildo a apoiou. No auge dos seus 75 anos, ele apenas disse “Já vivi 46 anos contigo. Qualquer lugar que você for, eu irei. Sou seu amor e nunca deixaria você sozinha”. E eles foram, no pequeno barco improvisado – não iam desperdiçar o melhor barco que tinham para isto – e foram pescar. Eles realmente pescaram no meio tempo que a tempestade não vinha, e conversaram como se conheceram, como criaram seus filhos, como Julian agora teria um filho e apenas conseguiram se sentir honrados. Claro, Eloíse havia desaparecido e Lorena foi muito mais dura do que ela queria ser durante a criação dos dois, mas aquele não era um momento para se arrepender. Lembraram das primeiras palavras dos dois, lembraram do primeiro sexo que tiveram, de como o peixe cozido de Lorena havia melhorado com o tempo e como haviam aprendido a pescar. Lembraram de seus pais e lembraram das histórias. Quando menos esperavam, as ondas estavam gigantescas e eles mal conseguiam se segurar no barco. Olharam aos céus e agora no horizonte contrário a costa havia um furacão.
Ao ver o furacão, Lorena entendeu o significado e começou a remar até ele, mas Romildo a impediu. Disse que era suicídio e que, se morresse, ao menos esperava ser encontrado. Um furacão arrancaria a pele de seus ossos e simplesmente o esfacelaria. Mas Lorena sabia que aquilo era o que ela sempre buscou e precisava ir de encontro a ele. “Se você quiser deixar o bote, eu não o julgarei, mas eu preciso ir até lá”. E então Romildo pede desculpas e salta do bote, sendo engolfado pelas ondas violentas tentando chegar à margem.
Dona Lorena julgou a covardia de seu marido e se sentiu traída, no entanto não pensou muito sobre isto. Diante uma tempestade furiosa, ela remou. Enfrentou ondas enormes, ventos cortantes e um frio torrencial sozinha. Quando estava chegando perto do furacão, uma onda do tamanho de uma torre a afundou e destruiu seu barco. Ela teve apenas o tempo de segurar o ar antes de cair do barco e afundar. E afundou.
Ela se perguntava quanto tempo duraria até perder o ar de seus pulmões e começar a sufocar com a água, mas já havia passado 10 minutos e isso não havia acontecido. Ali em baixo a visão era maravilhosa: o mar revolto acima, os peixes, a escuridão em volta, o silêncio. Aquilo inspirava Lorena. E o tempo passou enquanto ela afundava, mas então ela entendei que não era o seu fim e desistiu de afundar: comecou a nadar.
Não entendia porque, mas não perdia o fôlego – será que essa foi sua herança? 65 anos de ódio por ser nada além de uma mulher de cabelo branco para saber que seus esporros eram bem dados porque ela tinha fôlego infinito.
Chegando na superfície, ela respirou novamente e percebeu estar no olho da tempestade, uma área aberta e sem chuva no meio de muito caos e demonstração da força dos ventos. Neste meio, ela vê um pequeno ser no alto do céu, mas não é avistada por ele e nem consegue saber se aquilo era real ou só coisas de sua cabeça perturbada. E, quando tenta ver melhor, é engolido por uma nova onda. Esta a pegou de surpresa e é sucedida de muitas outras. Mas a velhinha se preparou para isto por toda sua vida: lutar contra os ventos era seu destino. Infelizmente, era uma luta unilateral e bastou sua cabeça bater numa pedra para perder a consciência e morrer no mar. Seu corpo nunca foi achado. Romildo conseguiu sobreviver, mas, por medo do julgamento doloroso de seu filho, forjou sua morte com a esposa e fugiu para outra cidade.
Essa é uma arte de nosso mestre de RPG para lembrarmos de nosso grupo. Aelium tem cabelos brancos que se desfazem no ar nas pontas como fumaça. Sua pele é bem escura, quase disfarçando o fato de que é azul. Ele mede mais ou menos 1,80 e gosta de roupas bonitas. É um feiticeiro genasi do ar. (Para verem mais artes dele visitem o @mario.exe no instagram).
O perfume das flores já acabou. Aquele beijo em meio as árvores só existe no passado. Aquelas conversas inspiradoras se tornaram cinza. O sentimento agora murchou. Mas agora não sou mais o que eu era antes e duvido que você seja também, o que só significa que o perfume das flores daquele dia acabou. Por mais que eu me recorde da vividez das cores, da rigidez do caule, dos seus olhos olhando os meus naquela tarde, essa cena nunca mais vai acontecer. E eu nunca mais vou sentir o seu cheiro.