Faz tempo que isso não acontece

Me veio a mente uma besteira
Uma coragem desesperada
Disfarçada de brincadeira
Me deixando
Todo sem graça

Me veio a mente uma vontade-e
sanguinária
Um desejo que me cala
Que sufoca todos os outros
Me fazendo indisposto
Eternamente indisposto

Não tenho mais aonde ir
Ou o que mais a fazer
Eu não quero me iludir
Achando que posso vencer

Eu não tenho fogo,
A vontade
Perdi meu sol
Em outra viagem

E quando mais estreito
os olhos
Mais eu fico
Feliz de verdade

A minha vida é fácil
(E como é fácil)
É sim, eu sei
Eu não dependo de pai ou mãe
Não dependo
De amigo ou ex
Não vejo sorte nessa fortuna
Tudo isso fui eu que me dei

Mas se eu fosse bom assim
Saberia dizer se era minha vez…

O ar parece pesado-o-o-o
Não sinto a pressão
Meu coração bate alto-o-o-o
Mas nenhuma emoção

O pingo chega a marejar
Mas não me comovo

Ele escorre do meu olho
E molha a barba
Fico sem graça,
Mas não me comovo

Ouço por aí que sou tolo
Que sofro de bobo
Que a vida tem o melhor dos gostos

Mas eu não me comovo

A vontade de descansar é muita
Jogar a toalha
Desistir da labuta

Mas eu prometi que não o faria
Eu sei que vou ter meu dia

Fecho os olhos hoje
Imaginando como seria

Não acordar

———————————————————

Eu pensei no ritmo de “Eu tenho um nome a zelar”, de Seu Pereira e Coletivo 401. Eu não sinto esse ímpeto faz anos. Ontem ele comeu minha cabeça até eu dormir.

Não vou pra lugar algum até que eu consiga ver meu trabalho concluído aqui. Seja ele o que for.

Qual é o oposto da vida?

Acho injusto que considerem que a gente nasce já sabendo que vamos morrer. Quando me perguntam “o que é a vida?”, eu penso em tudo, inclusive na morte, mas não as vejo como rivais ou opostas. Quando eu era menor, uma criança bem teimosa e criativa, eu não conseguia conceber a ideia de morte. Para mim, morte era algo absurdo demais para ser real.

Meu primeiro contato com morte foi de um amigo de infância meu, Paulo Henrique. Ele era filho de uma amiga da minha mãe, Marlúcia, que tinha adotado o garoto — não através de papéis, mas das ruas mesmo. Ele me ensinou muito do que eu precisava saber sobre as ruas, sobre brincadeiras, pular muro e empinar pipa. Ele morreu atropelado por um caminhão e eu lembro até hoje quando minha mãe me contou. O dia estava nublado e a gente estava indo para a casa de Lúcia. Ela me disse sobre a morte e eu ouvi ela falando os detalhes com outras pessoas. Eu entendia que eu nunca mais poderia falar com Paulo Henrique de novo, o que me deixava muito triste, afinal somente uma criança homem viado sabe o quão é raro outra criança homem te considerar amigo. Eu guardei esse sentimento no meu coração e até hoje eu tenho flashes de memória brincando com ele. A mãe dele passou anos sem se cuidar direito, sem pensar direito, até que conseguiu se erguer. Que tipo de dor é essa que te imobiliza? Que te tira toda vontade de continuar? Mesmo quando morre, a pessoa ainda assim tem um impacto na vida das pessoas. Ela existe enquanto lembrança, enquanto sentimento e afins.

Depois de Paulo Henrique, acompanhei a morte em muitos outros. Alguns que eu não lembro mais, como vizinhos, conhecidos e familiares distantes, outros que eu nunca vou esquecer, como Clara, Ana Tereza, tia Nice, Bizarro e Felipe Gama, mas definitivamente todas essas foram diferentes. Foram estranhas. Foram súbitas e agonizantes. E definitivamente não acabaram no dia de sua morte.

É algo conflitante em mim admitir que eu não vou ter mais lembranças com a pessoa, que eu não vou mais poder ouvir ela falar suas ideias. Não vou mais poder brincar com elas, perturbar, sair junto e enfim. Mas eu aceito isso. É realmente a partida para uma viagem sem volta. Mas quando eu olho a vida dessas pessoas, eu sei que para muitos não significa muito, mas para mim é um infinito. A história de cada uma dessas pessoas é tão interessante, tão intricada, tão bem ajeitada que um universo nela mesma. E é impossível saber das intenções, dos objetivos, aspirações, medos e vícios. O que torna para nós, que ficamos, um mistério insolúvel. Não é como uma casa abandonada, que cai aos pedaços pela falta de moradia, mas como uma foto antiga que sempre tem um detalhe novo que você não tinha visto. 

Claro que eu sinto falta de cada uma dessas pessoas e vou sentir falta das outras que se vão logo logo, esse não é o ponto. O ponto é que toda história tem começo e fim. Isso não faz o começo ser oposto do fim, só é a configuração da história. Se me perguntasse qual é o oposto do começo, seria o não-começar. Se só temos uma vida, se só podemos ter uma expectativa de como as coisas podem se desenvolver, por que escolheríamos não viver nossa vida com o máximo que pudermos, com a intensidade de mil sóis? Cada dia, cada respiro, cada passo mais próximo da morte é um novo dia para viver ainda mais, para ser feliz, para ser triste, para ter azar, para chegar no fundo do poço, para conhecer novas pessoas e fazer amizades. 

A vida não é a morte. A vida é viver até a morte. Como eu posso explicar… Por exemplo: a diferença entre qualquer conto de fada está no desenvolvimento da história. Todos os contos de fada começam, terminam feliz, o protagonista ou a protagonista recebem ajuda, sempre tem vilão ou vilões, enfim. O que difere os contos de fadas são as diferentes trajetórias que os personagens precisam traçar. Todos os começos e finais são parecidos, mas a história é que é importante.

É isto.

Ninguém vai ler mesmo 😎🥰

É tão legal escrever poesias que ninguém nunca vai ler. Eu me sinto um deus do meu próprio mundo. Claro que às vezes eu peço para uma ou outra pessoa que eu me importo leia uma ou outra poesia, mas eu tenho mais de 200 poesias escritas e eu tenho certeza de que ninguém vai ler todas elas.

O curioso é que em cada uma dessas tem meu coração. Tem meus sentimentos. Tem significados. Tem alguns estudos rápidos. Tem esforço e tempo gasto.

Quem, em 2025, lê e escreve poesia?

Eu, eu escrevo. E eu gosto de escrever. Eu descubro mais sobre mim quando eu escrevo. Eu me exponho e desvelo meus medos, minhas crises, meus desejos, minhas maluquices. Eu me sinto um imbecil falando com a parede algumas vezes, mas geralmente eu me sinto acolhido.

Recentemente eu criei o costume de ler minhas próprias poesias. Em parte para me criticar e em parte para entender mais sobre mim. Quando eu escrevo uma poesia, é um pedaço de mim ganhando forma, saindo de mim. Quando eu leio isso de volta, é como revisitar um Ícaro do passado.

Agora especialmente estou com vergonha de mim mesmo por ter tomado algumas escolhas bobas. Por ter levado a sério. Por ter escrito uma poesia tão longa…

Mas, se foi importante para mim escrever tudo aquilo…. Foda-se. E ninguém vai ler mesmo.

Eros e Anteros

Das bênçãos que deuses possuem
Nenhuma delas é mais forte que Eros
Aquela que prendeu Apolo a Jacinto
Dionísio e Ampelo
Aquiles e Patróclus
A história e Homero

Nenhuma representa como me sinto
Mas mostra como sentimentos são poderosos
Coitado de Jacinto
Mas mostra que o poder dos deuses é finito

Esta data pra mim significa isso
Entre o amor e a morte
Entre o silêncio e o suplício
Não é que não me importe
Mas eu vejo padrões nesses ritos

O quão podemos vê-los diferentes?
A morte só dói para aquele que sente
Que viveu um amor que ninguém explica
Que pode ser dessa ou de outra vida

Voltemos ao gregos
Como eles podem explicar nossas vidas?
Que já viveram de tudo por inteiros
As dores e as delícias
Os amores e as feridas
Não me parece justo o amor parecer fácil
Como se atravessar uma avenida
Como querer um beijo da pessoa mais bonita

Mas a verdade é que é fácil
Como atravessar a rua pela primeira vez
Como pedalar sem rodinhas
Como assumir o que você fez
Não necessariamente andar em uma linha

Gosto de pensar sobre as Parcas
Costurando o grande tapete da vida
Cruzando destinos em linhas
Moldando pessoas em casa chegada e partida

Pessoas são tudo aquilo que foram
Seu passado não deixa de existir
Pessoas são aquilo que são
Pois podem moldar que destino seguir
Pessoas serão algo
Independente de que caminho ir

Pessoas não são coisas que seguramos por aí

Jacinto não era de Apolo
Assim como a uva não é de Dionísio
E como a morte não é de Aquiles
E Homero quase que foi esquecido

O que não se pode negar são essas raízes
Conexões que vão além do Elísio
Essas conexões vivem como fios
Tecendo o tapete da gente
Enquanto que procuramos sermos felizes

E do Elísio,
às vezes nos alcançam no mundo mortal
Pois Enquanto existir Eros
Esse ciclo não haverá final
Peço a bênção de Anteros
Para esses versos finais

O mundo gira com força
Ao passo em que o fios toram do tapete
O tempo não vai parar pelo seu amor doente
Faça um favor e me ouça
Viva seu amor, pense em você
Se resolva!
Seja feliz da forma em que possa
Não dependa de outra pessoa.

Não-Amável

Eu estou perdido
Eu sou desconhecido
Um mistério a ser revelado
Um amor velado por um pobre coitado
Esperando que possa ser achado

Eu
Que nunca tive medo do amor
Agora estou diante do divino esplendor
Não sei se canto
Não sei como largar o temor

Eu
Que enganei a mais de mil caras
Conhecido como um nobre vira lata
Me encontro no mato sem cachorro
Contra a parede eu peço socorro


A ameaça? Eu mesmo

Nunca fui bom de pôr armadura
E meus livros sempre foram abertos
Mas agora estranho essa nova abertura
E me sinto exposto perante o incerto

Uma ilha somente cheia de diamantes
Que é descoberta por piratas
Óbvio que saquearão num instante
Transformando a ilha num vazio no mapa

Como ter certeza de ser amado
Se minha certeza era ser enxotado
Rejeitando sempre o fato
Que eu poderia ser adorado
Preferido, querido
Como alguém para ter ao lado

A minha certeza era que eu nunca poderia me dar esse luxo

Peço perdão me ajoelhando no milho
Me humilho para esse destino absurdo
Quem diria que eu poderia viver esse mundo
De amores muitos, de amores mútuos

Volto à minha assombrosa pergunta
Que se esconde atrás de mim
E sempre que me viro, me assusta

O que é amor?

Novamente:
Estou perdido
Sou o desconhecido
O universo a ser descoberto
A biblioteca de Alexandria perdida no deserto

Eu sou a luz que viaja sem rumo
Eu sou a dor sentido por um murro
Sou o sentimento de casa e proteção
Eu sou o “não” quando não pede permissão

Sou a revolução esperando ser erguida
Sou eu, sou você e posso ser sua família
Eu sou sozinho, num mundo de solidão
Eu sou por mim, somente por mim,
Sou a minha própria opção

É, amores…
Eu quebrei certos temores
Fui disposto a abrir alguns livros
Me senti ouvido, me senti querido
Senti sentimentos abrasivos

Mas infelizmente eu não confio
Eu tenho receio de amar
Eu não consigo

A cada vez que eu abro meu coração
Algo me joga de volta no mar de solidão
A cada vez que meu confio meu coração
Alguém o vende e eu o vejo jogado no chão

Eu não deveria estar tão apegado pelo amor
Eu lutei para não sentir mais essa dor
Me fortaleci para ser por mim
Mas então por que quando algo acontece
Quando eles brincam, brigam, desaparecem,
Quando eles parecem que não me conhecem

Quando eles nem querem conhecer

Eu me sinto triste
Fraco como um germe
Mole feito espaguete
Eu me sinto

Não amável

Paixão nascente

O cheiro de perfume em seu cangote quase me faz esquecer do mundo

Faz calar profundo
Para o tempo em que estamos
Me leva para outro mundo

Seu sorriso é precioso
Eu fico como Smeagle
Meio doido
Tentando preservar momentos duradouros

Ah, e seu olhar doce e carinhoso
Tão fofo que eu olharia de novo
E de novo e de novo
Olhando curiosos olhos a mim
Eu, parado, admirando sem querer fugir

Fico muito bobo quando eu percebo
Que passou um mês,
Passaram atrasos
Passaram anseios
E eu tive a sorte de ter você
Em meu meio
A sorte de dormir contigo
Por inteiro

Que eu tenha sido abençoado por Anteros
E todo Eros que sinto seja eterno
Que sabor que explode na boca
Com a beleza de mil sóis
Eu, com a mente louca,
Escrevo hoje isso sobre nós

O tempo não me permite ser perfeito
Erro em tempo, mas erro direito
Se não fosse o atraso de Rita Lee,
Como eu poderia ter certeza
que eu queria estar contigo ali?

Os outros atrasos não têm desculpa
Eu vou tentar melhorar mesmo
Às vezes é o tempo que não ajuda
Ou sou meu eu querendo agarrar o mundo inteiro
Sem receio
Sem plano
E sem esquerdo ou direito…

Talvez eu seja muito bobo mesmo
Que me esparramo no chão para sentir o desejo
Mas eu quero que você saiba
Ao passo que essa poesia se acaba
Que me coração balança quando te vejo

Cartas para queridos#9

Eu percebi ontem
Enquanto estava no metrô
Carregando uma mochila imensa
Assistindo uns minutos da vida passar
Sem resistência

Que nós não íamos dar certo

Eu vejo sua foto na rede social
Eu encaro seu match no app de relacionamento
Eu lembro de estar deitado em seu peito
Da pizza, da série, do beijo
Noite sensacional

Eu lembro de nossas conversas
Das diferentes estratégias
Para nos vermos mais uma vez

Eu lembro de conversar sobre nossos ex
Lembro de dar carinho em sua gata
De você falar sobre mágica
Mas agora o encanto se desfez

Eu sei que você não vai ler esse texto
Sei que, caso leia
Não saberá que é sobre você
Mas eu sei em meu peito
Que eu queria te ter

O que me confunde a cabeça
Me torce o esqueleto
Chacoalha o mar da incerteza
Quebra de vez o espelho

Acho que eu não quero essa vida
Não sou feito para monogamia
Das vezes que tentei não deram certo
E das vezes que falaram comigo
Eu não entendia todo o mistério…

Não entendo até hoje
O que tem de bom no ter
O que tem de bom na distorção
O que é legal na restrição
Enfim, posse é pra se fuder…

Eu quero amar alguém infinito
Quero amar todos os meus amigos
Quero amar minha familia sempre
Quero que meus afetos sejam presentes
Estejam presentes
Sejam cientes
Que eu quero alcançar o infinito

Eu quero alguém do meu lado
Alguém que me conheça de fato
Que fale comigo o certo
E fale comigo do errado
Que confie em mim em todos os casos
Eu quero amar um homem dedicado
Um homem que tenha desejos máximos
Que corra atrás de seus sonhos
Eu quero um eterno namorado
Romântico e agradável

E você é quase isso tudo, meu caro…
Você é quase isso tudo.

Você é a chance da vida comum
Da normatividade
Da vida fácil e tranquilidade
Dos dois se tornando um

Você é o matrimônio
O sonho de qualquer gay romântico
Você é o constante presente
A certeza de um futuro decente…

E por isso que não damos certo

Eu sou o caos na terra
A fagulha que o sol espera
Para acender seu calor
Eu sou todo seu ardor

Sou o futuro sem medo
Aquele que cospe na cara do direito
Eu sou filho do desejo
Repartido para cada homem da esquina
Eu sou a adrenalina
A bagunça que se organiza sozinha

Sou um, sou dois, sou três, sou todos
Sou seu marido, o amante e o corno
Eu sou o que te tira o chapéu
Te leva para o céu
E te beija o rosto
Sou aquele que te amará até no além
Sou seu corvo

Sou a fofoca quente do fim do dia
Sou a impaciência no meio da padaria
Sou a pichação em meio a rua
Eu chamo atenção, mas a vida continua

Eu digo isso tudo com tristeza
Porque é realmente mais fácil
sua forma de beleza
Mas devo ser franqueza
Onde há sentimentos meus sobre a mesa

Dois mundos
Dois amores
Dois futuros
Dois temores

Te deixo ir
Sempre com um espaço aqui
Para, sei lá, poder voltar
Para sei lá
Te amar

Da minha forma.

Morto-vivo

Você me rasga a pele
Corta com a língua
Definha meu corpo
Você me humilha

Você detona meu cabelo
Finge que dá conselho
Você é meu escárnio
O dedo grudento de alho
Você é nojento pra caralho

Você destrói minha autoestima
Me faz passar fome
Você me finge e me xinga
Me morde cru e me come

Devora inteiro meu rosto
Boca, pés, pêlos, pescoço
Maltrata até mesmo o morto
Você não respeita a paz do outro

Já se tornou comum ser odioso
Não se importa sobre quem será
E sobre quem pode ser
Apenas importa causar desconforto
Ser o inimigo do meu prazer

E quando olho de novo pra você
Olho com um ódio no seu olho
Percebo que nunca foi o outro
E vejo minha imagem, no espelho
Esmorecer

O que há de errado com ela?
Por que está tão sem brio?
Ela deveria ser agradecida
Ele não deveria ser tão sombrio
Agradecida pelas oportunidades
Da vida
Como sempre, olhar gentil…

O morto-vivo que nunca desistiu
Incansável na sua procura
Sem sede, sem fome, sem vontade
Confundindo usura com vaidade
Sem pensar…
Não pensa a criatura

Só segue em frente
Sempre na busca
Com a fome de mente
Faminto pela busca
Não cuida de si e nem mais sente
Só cuida da busca
Morreu no meio dela
Numa determinação tão potente
Que o segue no pós vida

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Eu não estou sendo muito agradável comigo esses tempos. Eu preciso de um terapeuta novo e novos objetivos de vida. E me perdoar.

Amargurado

Deixei acontecer
Malditos!
Eu deixei acontecer!

Talvez tenha sido a bebida
Ou talvez a erva
Pode ter sido as amizades
Ou então as responsabilidades…

Não, fui eu
Eu deixei o mundo me engolir

Quando adolescente
Escrevi uma história
Que um mundo de monstros
Me seguia mundo afora
O mais estranho
É que eu fazia parte
Do mundo de monstros
Ao mesmo tempo que os monstros
Corriam de mim
Eu corria dele

Deixei o mundo me engolir

E aí o amor não deu certo
E daí que o amor não deu certo?
Então eu perdi o passo da pesquisa
Cadê então aquela força precisa?
A força que sempre tive
Que lutei durante o luto
Que me joguei sozinho contra o mundo

E venci milhares de vezes

Cadê meu Ícaro calejado?
Aquele que nunca precisou ser
Cuidado
O malandro,
Nunca o otário
Aquele que se permite ser desejado

Me sentindo rejeitado
Contrariei as minhas ordens
para ser amado

Criando limites para o outro
Novas diretrizes para mim
Eu me faço com esforço
Argila, carne e osso

Demora tempo
Tenho que ter paciência com isso
O Ícaro antigo não existe mais
E o novo não pode mais existir
Preciso de algo novo
De novo

Me sinto a ouroboros
Num ciclo infinito de meu rostos
Muitos outros Ícaros soltos
Já não tenho mais ideia
De quem sou eu

No entanto não serei mais assim
Amargurado, com medo de mim
Fugindo da sombra de quem fui
A vergonha e o medo não me constitui

Eu sou esperto como o malandro
Sou forte como um furacão
Sou destemido como o punk
Não abaixo a cabeça pra doido não
Sou cuidadoso como o professor
E destruidor como o demônio

Eu fui e sou tudo isso
E eu serei muito mais