Acordo cedo com o sol
Mais um dia lindo
Levanto da cama sorrindo
Como um peixe mordendo o azol
Café da manhã é bem rápido
Isso quando dá tempo
Comer uma besteira é mais prático
E entra mais no orçamento
Me arrumo de cima a baixo
Penteio os cabelos
Me encho de cheiros
Esperando ser notado
Contagem de itens na mochila
Faço uma lista
Chaves
Roupa extra
Carteira de motorista
Celular que espelha
E gatilhos à parte
Chego na empresa
Ninguém está à vontade
Todos odeiam de verdade
Mas não há maldade
Só negócios, ataques, defesas
Me sento e vejo o tempo passar
Uma, duas, cinco horas
Tento não desassociar
Espero ir embora
E desato a chorar
O carro se dirige na estrada
Os olhos marejados
A fuga não pode ser planejada
Responsabilidades desafiam tal ato
Frustrado e confuso
Eu aumento o som do carro
Afasto os pensamentos obscuros
E grito as músicas bem alto
Por um momento
Aquele pequeno momento
Eu não sou mais um funcionário
Eu curto minha vida adoidado
Não tem que julgue este coitado
E, se tivesse, não teria me importado
O carro se conduz pela pista
Mudando de música
Freando quando precisa
Sinto no cabelo a brisa
Carro me deixa na esquina
E aceita o plano proposto
Paro no posto
Compro uma bebida
Sigo o caminho
Menos tortuoso
Até que o carro para
Chegou onde precisava
Uns tapas no rosto para tirar a mágoa
E meu único amigo me deixa em casa
Entro, converso, faço até piada
Beijo, abraço, tomo banho
E no banho eu dou uma descansada
“Essa vida não tem ganho
Ou eu me encaixo na palhaçada
Ou eu me torno um nada”
Pensamentos estranhos…
Pensamentos comuns de banho
Quero deitar em minha cama
Dormir e não lembrar do dia
Das pessoas mal humoradas
Do que faço por quem me ama
Da violência apenas assistida
Os olhos fecham no breu da meia-noite
Como um véu
Cobrindo em preto os montes
Eu me deixo flutuar no céu escuro
Encontro a bebida que tanto procuro
A Cicuta brilha no luar eterno do mundo
Acordo cedo com o sol
Mais um dia lindo
Levanto da cama sorrindo
Como um peixe mordendo o anzol
Tag: Solidão
Não-Amável
Eu estou perdido
Eu sou desconhecido
Um mistério a ser revelado
Um amor velado por um pobre coitado
Esperando que possa ser achado
Eu
Que nunca tive medo do amor
Agora estou diante do divino esplendor
Não sei se canto
Não sei como largar o temor
Eu
Que enganei a mais de mil caras
Conhecido como um nobre vira lata
Me encontro no mato sem cachorro
Contra a parede eu peço socorro
A ameaça? Eu mesmo
Nunca fui bom de pôr armadura
E meus livros sempre foram abertos
Mas agora estranho essa nova abertura
E me sinto exposto perante o incerto
Uma ilha somente cheia de diamantes
Que é descoberta por piratas
Óbvio que saquearão num instante
Transformando a ilha num vazio no mapa
Como ter certeza de ser amado
Se minha certeza era ser enxotado
Rejeitando sempre o fato
Que eu poderia ser adorado
Preferido, querido
Como alguém para ter ao lado
A minha certeza era que eu nunca poderia me dar esse luxo
Peço perdão me ajoelhando no milho
Me humilho para esse destino absurdo
Quem diria que eu poderia viver esse mundo
De amores muitos, de amores mútuos
Volto à minha assombrosa pergunta
Que se esconde atrás de mim
E sempre que me viro, me assusta
O que é amor?
Novamente:
Estou perdido
Sou o desconhecido
O universo a ser descoberto
A biblioteca de Alexandria perdida no deserto
Eu sou a luz que viaja sem rumo
Eu sou a dor sentido por um murro
Sou o sentimento de casa e proteção
Eu sou o “não” quando não pede permissão
Sou a revolução esperando ser erguida
Sou eu, sou você e posso ser sua família
Eu sou sozinho, num mundo de solidão
Eu sou por mim, somente por mim,
Sou a minha própria opção
É, amores…
Eu quebrei certos temores
Fui disposto a abrir alguns livros
Me senti ouvido, me senti querido
Senti sentimentos abrasivos
Mas infelizmente eu não confio
Eu tenho receio de amar
Eu não consigo
A cada vez que eu abro meu coração
Algo me joga de volta no mar de solidão
A cada vez que meu confio meu coração
Alguém o vende e eu o vejo jogado no chão
Eu não deveria estar tão apegado pelo amor
Eu lutei para não sentir mais essa dor
Me fortaleci para ser por mim
Mas então por que quando algo acontece
Quando eles brincam, brigam, desaparecem,
Quando eles parecem que não me conhecem
Quando eles nem querem conhecer
Eu me sinto triste
Fraco como um germe
Mole feito espaguete
Eu me sinto
Não amável
Porta que range
Eu leio minhas cartas morto
Morto
Eu ando meu caminho torto
Torto
Às vezes me bato um louco
Louco
Mas eu continuo morto
E quando eu estou feliz dançando?
Continuo morto
E animado pulando na chuva?
Continuo morto
E comendo uma deliciosa uva?
Continuo morto
E inspirado escrevendo poesia?
…
Quem sou eu?
Passam anos, passam dias
Passa noite, passam pessoas pelas vias
Passam vidas
E eu ainda não respondo essa pergunta
Tão fugidia quanto as próprias estrelas
Talvez eu realmente nunca me reconheça
Como posso afirmar algo sobre mim?
Tão inconsistente quanto água
Tão bonito quanto uma jasmim
Se toco na fagulha, apaga
Quando começo a história,
Já tá no fim
Não, como eu posso afirmar algo?
Se essa afirmação me impede de ser outro
Só sobra o morto
Só sobra o morto
Escorado em meu próprio corpo
Desprovido de vida
Eu acordo só pelo que me instiga
O desafio é a própria biologia
Não durmo, disassocio
Não sonho, me desafio
A cada futuro perdido, uma moeda
A cada esperança criada, uma queda
Chega um momento
Que o corpo se fragmenta
Joelhos, coração, barriga
Aquilo que me sustenta perde esforço
O alimento perde o gosto
E o sentimento é só desgosto…
A liberdade pode ser meu alimento
Ela pode me dar sustento
Mas ela é só uma palavra
Que voa com o vento…
Não tenho força para assoprar palavras
Mal tenho forças para escreve-las
Uma a uma, como uma peça de roupa
Vestindo o corpo nu do morto
É como uma porta que range muito
Um incômodo absurdo
Mas não se troca a porta conveniência
É só mais uma de muitas negligências
Que um dia proporciona a alguém
Preciso entender o que aconteceu
Entre eu e meu corpo
Preciso ficar só de novo
O cavalheiro solitário
Novamente venho relatar minha vida
Tão rara e tão destemida
Na qual a raiva protagoniza
E rivaliza com a tristeza,
Que imóvel me deixa…
Cavalheiro solitário
Que caminha as estradas pútridas
Viciado em buscar ser viciado
De problemas está sempre à procura
Em suas viagens acaba em choque
Viu uma cobra dando o bote
Coitado do rato… Não teve sorte
Segue a vida o jovem cavalheiro
Em dias bons ele encontra sombra
Nos dias ruins, faz companhia ao sol
Ou será que o sol, por pena, que lhe faz
Companhia?
Mais parece que os dois andam juntos
Em uma boa sincronia
Com tanto tempo só
O cavalheiro pode pensar sozinho
Ele pensa nas escolhas
E pensa no caminho
Caminho tortuoso e perigoso
Que agora ele anda a contragosto
O remorso na mente
Odiava pensar
Criava problema inexistente
Mas o tempo pode ser bom também
Seus olhos viam de tudo
De monstro à moço de bem
Viveu histórias que nem o diabo
Seria capaz de dizer mais a fundo
Para uns, era um imundo
Para outros, um guerreiro de outro mundo
Para ele, só um cavalheiro
Não se importava com dinheiro
Queria viver o que pudesse viver
Seu sonho era curtir sua andada pela estrada
E pagava o necessário para andar,
Pois ele não queria saber de mais nada.
Cavalheiro solitário
Andava pela estrada apedrejada
Não sabia se eram pedras comuns
Ou se eram pedras raras
Os cristais quebravam em seus pés
E as britas cortavam
O cavalheiro solitário queria novos
Sapatos
Às vezes ele perde a direção
Anda a esmo e se perde no meio do sertão
Calma, cavalheiro, segura a emoção
Perdido também é um lugar
E o sentido também importa
Para não andar em vão
Pode dar medo
Ainda mais quando chega a escuridão
Mas tenha calma, meu cavalheiro
Você é nobre, carinhoso e bom companheiro
O caminho que trilha é o certeiro
Basta confiar nas placas
E em você mesmo.