E amanheceu
O céu está lindo
O sol sobe sorrindo
Apesar de ter que levantar cedo
Com olheiras, sem dormir direito
Sinto que hoje o dia vai dar certo
Tomo um banho demorado
Passo meus cremes
Tenho meus cuidados
Acabo me atrasando pra caralho
Cheiroso e preocupado, eu saio
O calor está gostoso
A moto corta a cidade inteira
Sinto uma dor no pescoço
Mas deve ser besteira
O trânsito tá tranquilo
Nas ruas só eu e meu amigo
O amigo é a moto desgastada
Chego no espaço
Bato meu ponto
Um alvoroço no trabalho
Ainda bem que não sou eu
Sento no meu lugarzinho
Ponho meu fone
Não falem comigo
Não falem comigo
E… Torcicolo
Maldita noite mal dormida
Preciso sair daqui logo
O sono não me deixa saída
Faço tudo muito lento
A música ajuda animando
Um metalcore arrombando
Meus tímpanos
Não falem comigo
Estou trabalhando
E o dia passa, saio às seis da tarde
Olho para o céu e a felicidade invade
Por maior a raiva que eu esteja sentindo
Por não decidir meu próprio destino
Não vou pensar nisso agora
E que se foda ir para casa
Não me importo com amanhã
Vou direto para a praia
Ver as cores do céu desvaindo…
Me deixando são
Azul, vermelho, amarelo
Verde, roxo e mais azul
Numa escuridão contínua que cresce
Que firma um elo entre si
E que também desaparece
De com a mesma felicidade que apareceu
O sol some no horizonte
Dando espaço à noite dos amantes
Mas hoje eu não tô afim
Volto para casa em fim
E faço um macarrão com ovo
Cheio de pimenta
Às vezes os melhores dias são assim
Tag: inktober
14 – O Apocalipse
Espero que deus nos salve
Quando o sertão virar mar
Quando não houver nenhum caule
Da Bahia ao Ceará
E quando todas as luzes apagarem
Quando não restar sequer o brilho de esperança
Nos olhos de uma criança
Eu nem rezarei porque ele aparecerá
E espero que ele venha
Atendendo seu próprio mal agouro
Quando o céu virar puro fogo
Enquanto a terra esquenta e esquenta
Ah, mas se ele não vir
Quando o chão começar a se partir
Talvez eu tenha alguma dúvida
Se existe deus, ou se ele não existe
E quando eu morrer
Soterrado em meio a gritos mil
No desespero do mundo febril
Sombrio
E definitivamente doentio
Caindo eternamente em discursos
Vazios
Eu espero que deus me acuda
E não esses vadios…
Pois mais fácil a terra acabar
Do que deus deixar de me amar
E onde eu vou viver?
Me diga você
Porque eu vou estar nos braços do supremo
Ser
……….
Mas… Se ele não vir
Se ele sequer não existir
Então eu terei rezado por nada
E minha morte…
Uma bela piada
Mas não vai ter quem ria
Porque todos estarão mortos
E eu serei uma piada
E meu deus não será mais nada
13 – Prótese Biônica
O que fazer quando a presença
É enganosa
E a dolorosa realidade da falta
Precisa ser sentida?
O sentimento de que tem algo errado
De que algo que deveria estar
Mas não é mais encontrado
Tão abrupto quanto um acidente
Do nada você anda e sente
Como algo que não está lá
Me dá uma dor tão contundente?
A sensação de mover
De se ter
Tão presente no passado
Agora vazio de espaço
E, por mais vazio que esteja
Nunca vazio de sentido
Sentido atribuído àquilo perdido
Oh, saudade beira o infinito
Impossível de ser substituído
Seja com um membro biônico
Ou com um novo amigo
A dor fantasma é parecida com o luto
A falta demasiada tem sentido mútuo
Seja um membro ou uma relação
A dor sentida da perda é real
E inteira, não apenas uma fração
Para aqueles que perderam um membro
A vida continua daqui e então
Para aqueles que perderam alguém ou algo
A vida continua daqui e então
12 – Violência
Eram quatro da tarde,
Mas poderiam ser da manhã
O sol de Salvador ainda arde
Tirando a paz de qualquer alma
Sã
Eu andava pela rua
Sem lenço ou carteira
Na mente um monte de besteira
Querendo ficar todo nu
A oportunidade me sorri de primeira
Viro a esquina de malandro
Sigo a rota já certeira
Vou me banhar naquele antro
Vou entrar guerreira
E sair na canseira
Vai ser um papo bem estranho
Olho ao redor para ver se tem alguém espiando
Tomo cuidado antes de só ir entrando
Pego a chave e me apronto no vestiário
Olho para frente e encontro um novo amado
E outro
E mais outro
Muitas bocas, mas pouco gosto
Devoro com uma fome insaciável
Mas nada de muito gostoso no meu prato
Cansei, preciso de um intervalo
Sentar um pouco, descansar o rosto
Me sentir menos vulnerável
Saio para a parte aberta e encontro pessoas
Dois homens bonitos sentados falando coisas
Eu sento esparramado arfando de cansaço
Eles, que não são bobos, já foram perguntando
Meu estado
A conversar flui como pedras no rio
Tem sua dificuldade, mas acaba cedindo
Um deles me chama bem pertinho
“Tem um quarto ali. Você vem, lindo?”
Eu estava beijando o amigo dele na hora
E não pensei direito em uma boa resposta
Mas estava chegando mais pessoas no lugar
Pessoas que eu já não queria pegar
Na confusão, esse cara tomou a decisão
Segurou forte minha mão e me levou
Eu não estava muito me importando com meu corpo
Mas algumas coisas me chamaram atenção
Ele trancou a porta do quarto e me olhou forte
Falou palavras de controle e me deixou imóvel
Lambeu meu corpo todo e nada fazia muito sentido
O prazer que ele sentia não dava certo comigo
Então eu comecei a falar de ir embora
Ele pediu para que eu ficasse ali
Ele era três vezes meu tamanho
Não sabia o que fazer sozinho
Percebi que só tinha a cabeça dele como arma
Então deixei que me usasse de graça
Os movimentos, jogos e risos não faziam sentido
Eu repetia os movimentos, mas às vezes nem isso
E, quando acabou, eu saí dali
Ele quis pegar o contato, mas eu menti
Pensei em pegar mais alguém,
Mas não tinha ninguém
Que pudesse me servir
Marombas de um lado
Egocêntricos do outro
Eu estava jogado
No meio dos lobos
Saí de lá
Pensando sobre viver
Sobre se eu realmente queria prazer
Ou se é algo que não poderia sentir
Mas sim apenas retribuir
Desfiz minha cabeça para a situação
Neguei que poderia ser uma aflição
Ou violência ou agressão
Neguei para mim mesmo o tempo todo
Mas não pude negar quando cheguei em casa
E fui tomar um banho
E senti meu corpo tocado
Sujo pela mão do outro
Eu limpava, esfregava e chorava sobre o cheiro dele
Um desespero terrível na própria pele
E…
Aos poucos fui apagando
A memória desse total “engano”
Não lembro do rosto do marmanjo
Ainda frequento o clube
Conheci demônios, fofos e anjos
Gente de tudo quanto é jeito
Aprendi a me cuidar e impor respeito
Mas o sentimento que senti no banheiro
De se estar sujo por inteiro
Sem conseguir se limpar
Sem conseguir se salvar daquelas mãos
Daquele sujeito
Eu nunca esqueço
Eu nunca esqueço
11 – Poder
Sabe quando você está prestes a estourar?
Quando parece que no mundo não tem mais ar?
Como se falar não fosse mais possível
Recuso me sentir tão despossuído
De mim mesmo
Quero criar meu próprio contexto
Para não depender de regras outras
Eu devo ter minhas próprias escolhas
Decidir se me coloco em tal ou qual eixo
Pois é uma decisão muito necessária
Entender que caminho seguir na estrada
Os apoios, incentivos, silêncios e vaias
A torcida pela vitória, a torcida pela falha
Pois quando escolho que caminho seguir
Me encho com normas e regras a cumprir
Pessoas me observam esperando exemplo
E novamente o sentimento de sufocamento
Eu só posso dar valor
Para o que eu me pus a dispôr
Eu só posso sentir medo
Daquilo que quero obter respeito
Eu só posso ter como desafio
O que me coloquei como caminho
Eu seleciono as brigas que eu luto
Batalho, sangro e suo no processo
Mas não tenho certeza do sucesso
Pode ser de qualquer sorte o fruto
Portanto antes de mais nada
Antes da crise ou da surtada geral
Procuro entender porque é importante para mim
A opinião de A, B ou X
E se eu me proponho uma instiga
Eu tenho que cumpri-la em suas regras
Mesmo que sufoque na mão amiga
Mesmo que isso me deixe depressivo
O poder é algo que você tem
E, por escolha, você dá para alguém
Submetendo-se às leis daquele ambiente
Estando sempre completamente ciente
Seja em um relacionamento
Ou numa escolha de vida
Você tomou a primeira partida
Cabe agora o merecimento
10 – Mentira
Quando te vejo no baile
Digo logo que te quero
Nossa história acabou
Mas vivo bem do passado
E não é um “não” que eu espero
E, é claro,
eu estava certo
Pois ele finge que me engana
E eu caio como um otário
Você, lindo e radiante,
Sorrindo, falando com todo mundo
Eu, arrumado e delirante
Esperando uma chance
Pra conversar de novo
Chego logo de junto
Encaro a tua cara
Você me vê de volta
Me puxa logo pra trás
“O que cê tá fazendo?
Para com isso agora!”
Ele fala na hora
E eu entendo logo o recado
Às duas o povo vibra
O som no talo estoura
Galera doida na droga
Me retiro devagar
Você na porta espera
Cheiro de diamba braba
Eu falo que tô pronto
Você não espera e se manda
…
Meu bem eu quero mais
Mas sei que não vou conseguir
Se uma noite te satisfaz
Vou servir todas que você vir
Eu quero é ser feliz!
Já conversamos antes
Quando eu tava na sua
Namoro impressionante
Mas nada te impressionou
Entediado estava
Hora nunca passava
E eu apaixonado
Não via nada de errado
E então nós terminamos
Você saiu na porta
Vacilou por um instante
E nós transamos de novo
E naquela noite
Você diz que me ama
Chamando por meu nome
Mas soou tão… Errado
Meu bem, eu sei bem mais
Quem ama quem aqui
E bem pode me usar
E mentir por aí
Dizendo que me odeia
…
Dizendo que minha pica
É feia
…
Eu quero é ser feliz!
E quando te ver no baile
Saiba logo que te quero
A nossa história acabou,
Mas não ligo pra ninguém
Você me usa pra sexo
E saí falando que só eu te quero
Bom, eu não me importo
Se te fizer bem…
Meu deus, eu quero mais
Do que tem aqui
Do morro até o cais
Eu quero é ser feliz
____________________________________
Foi escrito pensando na música 2H (O BAILE), de DESGRAÇA.
9 – Repudiar
Eu proíbo seu gosto
Proíbo sua cara
Apago a memória
De tu cheirando meu pescoço
Reescrevo sua história
Em minha cabeça
Estou disposto
Quero que tu me esqueças
E eu ignoro as mensagens
Desvalorizo sua imagem
Assim como fez comigo
Não é algo infantil como castigo
É só uma “fase”
Fase do luto pela morte do que tínhamos
Deixo secar o sangue
Litros que dariam para encher um tanque
Jorrando de cortes em meu coração
Cortes de momentos todos
Que me dispus em outras mãos
Sou besta, não?
Descobri que você é minha fraqueza
Que pode causar minha destruição
Mas você sabia disso antes de mim
E eu, bobo, não tinha nenhuma noção
Agora eu sei o que estava acontecendo
Dependente de todo mal disfarçado
Me alimentando de restos esfarelados
De um amor que nunca foi meu
Você estava numa boa
No melhor de todos os mundos
Então espero um dia que me perdoa
Mas hoje não mais te permito
Limito seu abraço e comentários
Não quero falar contigo
Seu rosto não vai estar nos procurados
Não te vejo como um bandido
Mas essa noite
E nas próximas que vierem
Eu te repudio.
Dia 8: Um murro bem dado
Cala a boca, otário
Porra de falar de sentimento
Não quero saber disso
Não vou ter conhecimento
Olho sério ao meu oponente
Respiro forte para amedrontar
Já sinto o sangue pingar
Pelos meus dentes
Agora somos um par
Só tenho ele em minha mente
Vamos brigar
Boto a base
Grito com toda força
Preparo o ataque
Desfiro antes que ele corra
Mas ele não corre
Mais sangue pinga no chão
Vermelho, espesso, escorre
Um dente perdido na mão
Chegou minha vez
E eu não vou recuar
Ele vai me arrebentar
Pior do que antes já fez
E POW
AI!
DÓI PRA CARALHO!
Caio no chão estirado
O gosto forte metálico
Mas ainda não estou desacordado
Eu ainda tenho energia
Para mais um murro
Se eu conseguir levantar…
É ele que cai duro!
Ouço meu coração bater
O tempo para num segundo
Som alto, claro, eu escuto
Era o que eu precisava
Vou fazer BA-RU-LHO
Eu levanto!
Grito de volta para o mundo
Eles gritam de volta
Mesmo que eu os escute em mudo
Fico de cara-a-cara
Fito o vagabundo
Corpo suado, cara surrada
E um sorriso vermelho imundo
Eu respiro fundo
O silêncio toma conta de mim
Fecho os olhos
E não estou mais ali
“Ícaro! Ícaro!
Diga o que veio fazer a seguir!”
Abro meus olhos
Estava lutando contra a ansiedade
E eu perdi
Dia 7: Imperfeição
E os pássaros voam no céu
Uns maís rápidos e ferozes
Outros espertos e fugazes
Não meço quem melhor voa
Mas posso ver daqueles pássaros
Quem vive numa boa
E sobrevive em seus próprios
Passos
E você que vive de etapas
Emprego? Check
Carro? Check
Agora é a namorada
E aquele que se mede por outros
E ignora o próprio esforço
Coitado do pobre tolo
Se não morre de estafa,
Vai ser de desgosto
Tem também o desistente
Aquele que nem sequer mente
Já toma para si a derrota
eminente
Mesmo que sua história
Indique diferente
Quase esqueço do perfeito
Que se foca em algo
Se cobra de todo o jeito
Seu ego depende do trabalho
Autoestima atrelada ao esforço
No entanto o vazio preenche
O seu rosto…
Vazio de viver o lado de fora
Vazio de vontade do chamado de agora
Vazio, pois a perfeição não é natural
Assim como pássaros voando em teu
Quintal
Falta sede do desconhecido
Sede do que foge ao seu poder
De não ter aquilo na mão e a mão naquilo
E “aquilo” seria seu próprio viver
E falta o impulsivo
O doido e repulsivo
Aquele que vai onde ninguém iria
Para experimentar uma liberdade
Fugidia
Há muito para se falar sobre o impulsivo
Sobre o desistente ou até o comparativo
Mas nunca falam do perfeito
Porque todos têm medo
De viver em seu direito
Se prendem a regras particulares
Vivem vidas vividas por milhares
Não procuram saber de se entender
Querem viver só por viver
Quando na adolescência
O professor de filosofia fala:
“Cada um é diferente de cada”
Ele não tava brincando com nossa
Inocência…
Porque aí cresce…
Olha para trás de si mesmo
E não vê nada além de um espelho
Refletindo todas as falhas e acertos
Que não necessariamente o fazem inteiro
Perfeição não nos merece
Ela é tão momentânea como a paixão
Deixa-nos obcecados, nos adoece
Só para alguém dizer “sim”,
Enquanto outros diriam “não”
Façam-me rir intelectuais,
Lideres religiosos ou municipais
Quem vos dá poder sou eu
Quando descumpro compromisso meu
Quando mando para a puta que pariu
E, o segundo seguinte, jamais sequer existiu
Não somos burros
Ou sentimentais
Não se chame de fraco
Ou incapaz
Eu sou a nota oito de dez
Me esforço pelo que corro atrás
Eu sei que tenho meus limites
Mas só viver por viver não me satisfaz
É preciso correr o risco
E até ser imprevisível
A vida joga caminhos,
não limões para um suco bater
Cabe a gente segui-los
e não nos espremer
Dia 6: Fantasmas Virtuais
Sandice minha pensar
Que algum dia poderia amar
Alguém de mediocridade o bastante
Para não reconhecer minha superioridade
Estávamos nós conversando
Conversa séria sobre alguns planos
Me abro pra ti
Confesso que eu te amo
Desisto de fugir do amor
Depois de tantos anos…
E vou para cima
Refaço minha rotina
Dia-a-dia comendo contigo
Cruzando as linhas
Quem diria que um dia
As Parcas cansariam de nossa
Parceria
Monotonia eu sei que não foi
Fomos agitados do começo ao fim
Festas, bares, encontros e afins
Mesmo quando estava só por mim
Ainda assim não parava de ver nossas fotos
Te amando sem propósito
Não vi a tragédia chegando
Coitado de mim, leviano
Ingênuo achando que estava tudo resolvido
Que o amor não estava só comigo
Ah, mas esse erro é antigo.
É pré-histórico!
Um bobo da corte sem maquiagem
Sem alarme de aviso
Só tenho uma plateia comigo
E, é claro, o seu riso
Eu não consigo acreditar em camaradagem
Não vejo nenhuma coragem
Na real eu sinto raiva disso
E pena do cansado menino
Enfim, de volta aos finalmentes
Vou-lhes contar o que aconteceu
Estávamos juntos quando o dia anoiteceu
E amanheci só de repente
Sozinho, amores.
Só.
Como um caminhoneiro na estrada
Toda irregular e esburacada
Sem volta do destino que escolheu
Mas até sem entender o que aconteceu
E sem poder reclamar de nada…
Eu tentei conversar com ele
Por mais de um dia seguido
Mas ele se escafedeu
Sumiu sem deixar vestígios
Eu insisti
Pois eu sou confiante
Eu sei que sou belo
Não mereço um tratante
Mereço o mais honesto
Bobajada minha…
Além de mal me responder
Ele mentia…
Eu devo ter sido o diabo
O inferno para ele
Ou só mais um otário
Não saberia dizer
Muito fácil dar ghost
Fugir dos problemas
Deixar pra depois
Deixar os outros presos
E criar novos esquemas
Longe do outro
Mas sempre tendo o otário na gaveta
E eu já fui muito otário
Cansei, velho… Cansei.