29 – Ciborgue

Eu me fodi demais esse ano
Prometi coisas que não cumpri
Saí e entrei de novo pelo cano
Se me ver por aí me abrace, mano
Que eu tô precisando

Eu tava pensando em desistir de sentir
Em só fazer o que apontarem pra mim
Pensei em fortalecer minha armadura
Substituir meu coração de carne
Por um coração com fechadura

Criarei um código de ética
Para revisar meu afazeres
Ouvir de forma cética
Certos dizeres

Classificando e ordenando
Todos os seres que vivo me encantando
Colocando-os fechados em outro plano
Estranho é ocupar todo meu ano
Quando poderia deixar de pensar nesses hunanos

Minha pele poderia ser de metal
Pararia de sentir o calor da pele dos outros
Não sentir mais febre de tesão
Ao provar diferentes gostos
Evitaria ser sentimental
Se alguém pegasse em minha mão
E fosse um “namorado” ideal

E eu poderia analisar as vozes deles
Sentir o que significam pela frequência
Saber se tudo é verdade ou só aparência
Saber mentiras, ocultações de seus dizeres

Queria ser eterno e indestrutível
Viver para sempre e fazer o impossível
Aprender tudo que puder no tempo infinito
Queria estar para sempre seguindo

Mas não posso correr de meu destino
Sou fiel apenas a mim e quem estiver comigo
Sofro porque sim e tenho sofrido
Não vai mudar nunca isso

E eu não quero que mude nada
Vou continuar nessa dura batalha
De sentir num mundo virtual
De não saber diferenciar a mensagem
E o real

28 – Trauma

Ouvir sua voz nos áudios me emociona
Eu não sei se deveria fazer isso
Ouvir a galera falar sobre você me emociona
Mas eu evito demonstrar a nossos amigos

Já se passou quase um ano e meio
Sem nossas brigas e avisos
Sem conversar contigo

Não foi só eu que esmoreci
Amigos e familiares seus
Também estão assim
Mas muita gente já se adaptou
E claro, com razão e seu devido
Valor

Precisamos continuar sem você
Por mais que não faça sentido
Por mais que sua falta seja esmagadora
E pelo tempo já perdido
Chorando, reclamando escondido
Pensando em teorias infinitas
Para explicar o acontecido

Eu nunca vou saber
E eu sei que já acabou o tempo
Eu sei que você não está lá
Ou aqui
Ou nem mesmo em minhas memórias
Direito
Queria muito te abraçar
Te ver de novo
E dizer que lamento
Ter esse último momento contigo
Conversar sobre qualquer coisa
Ou só curtir esse momento

Desculpa por trazer tristeza em sua memória
Eu amei você e todas nossas histórias
Queria que você tivesse aqui
Para comemorarmos suas vitórias

Acho que é o único sentimento que vou sentir para sempre
É sua falta

Por isso ainda ouço seu áudio as vezes
Leio as mensagens
Rio sozinho pela rua ou na cama
Só você me entendia de verdade

Eu poderia escrever pra sempre sobre sua falta
Mas eu não quero mais
Perpetuar o sentimento de tristeza
Não vai me satisfazer jamais

Eu parei de visitar o seu túmulo
Deixei seu corpo em paz
Pois sua alma está fora desse mundo
E alcança-la eu não serei capaz

Mas manterei minha promessa
De nunca te esquecer
Repassarei suas palavras
Enquanto eu viver
Envelhecendo e lembrando…

Enfim.
Tchau.

27 – Faz o que você quiser

Por aqui
Um abismo me invade
Sem fim
Me toma toda a vontade
De vir
De me abrir pra outro
Para sentir
Que o sentimento foi todo
Morto

Deixando as diferenças
Na porta
Para conversar contigo
De volta
Estranho não sentir mais sua falta
Não incomoda
Mas ainda sinto o frio das palavras
Que cortam
Ou cortaram quando me importava

Estou à toa
Ando na rua sem esperança
Cai a garoa
Me molho pensando na infância
Vida boa
Mas sempre distante daqueles presentes
Tempo voa
Consigo ainda sentir o amor quente
Mas decadente
Não sei se é amor ou vínculo dependente…

Por isso eu considero tanto a liberdade,
A escuta,
A vontade de estar ao meu lado
Isso nunca muda
Pois para amar eu sou controlado
Meticuloso
Tento me basear em fatos dados
Não nos outros
E por isso é tão doloroso pra mim
E confuso
Quando sou enganado de novo
E de novo
Por sentimentos obtusos

Não resta nada
Mas já foi o encanto amoroso
Não resta nada
E os momentos gostosos
Não resta nada
E a saudade das lembranças juntos
Não resta nada
E você sendo tão afetuoso comigo
Não resta nada
Mesmo o sentimento odioso
Não resta nada
A mágoa ou a chuva que caiu
E caem
Lavaram o sentimento
Sumiu
E não resta nada…

Não se perdoe
Não tenta voltar ao que era
Não me magoe
Não finja que você não sabia na época

Talvez eu te veja
Saindo com seus amigos por aí
Bebendo cerveja
Eu te olhe e nossos olhares cruzem
Você vai saber
Que o que eu sentia por você

Acabou.

26 – Personagem Original

Um mundo tranquilo
Um mundo de paz
Onde todos os conflitos
Foram deixados pra trás

Ausmus está sendo criado
Para compensar as dores
Deste mundo amargo
que vivo
E, por maiores horrores
Que os ausmianos já tiveram
Enfrentado
Ainda vivem muito bem, obrigado

Não se esquecem do passado
Não, eles reconhecem todo o estrago
Mas ver o futuro de seus entes amados
Justifica as dores e perdas que dos heróis
Ainda lembrados

Este é um mundo singular
Os ganhos não são perdidos
Não se pode nem comparar
À desgraça do mundo fodido
Em que vivemos

No ar se espalha o veneno
Talvez seja sorte estar vivo
Não, é um arrependimento
Queria não ter nascido

Milhares de guerras já foram
E outras estourando agora
Esperança? Não seja idiota
Resistir é a única resposta

E as pessoas do mundo?
Bando de derrotados
Os espertos exploram os outros
E os bons vivem amedrontados

Tudo que esperam é a morte
Para mudar esse resultado

E é aí que eu entro
Para intercambiar os mundos
Entre o paraíso
E o inferno absoluto

Existem personagens de Ausmus
Para a trama começar
Existe algo por dentro do paraíso
Prestes a estourar
Cabe a elas decidirem
Como que seguirá…

Ossent sempre foi brava
Esperta e raramente ignorada
Sua voz inspirava pessoas
Dava a vida e forma para as coisas
Por mais perfeita seja a sociedade
Não existe o perfeito sem suas
Desvantagens
Ossent sabia o que poderia fazer
Mas não esperava o que iria acontecer
Com sua realidade…

De repente, ela entende a jogada
Putz e que furada que foi se meter
Não pode mais esquecer do que viu
Viu a verdade de tudo e de mais nada
De destemida, virou ameaça
De independente a uma coitada
Maldito Yragos, ou é burro ou mentiu
O importante é que ele vai fuder com tudo que existiu

Tal’laak é contemplativa
Paciente e receptiva
A idade ensinou tudo que ela precisa
Justamente com as outras sacerdotisas

Finalmente contemplada pelo trabalho
Mas… De repente algo está errado
Ela sente que não é quem costumava
Ser
Como se os deuses sussurassem
Como se tivesse ganhado algum poder

E existem personagens mundanos
Que sobrevivem no mundo de humanos
Num futuro não tão distante
Poderia ser hoje, amanhã
Como poderia também ser antes…

Larissa é uma coitada
Faz de tudo para sustentar sua casa
Trabalha em uma empresa desgraçada
Seu único conforto são seus momentos
Calada

Em sua cabeça existe o infinito
O inexplicável sentimento de conflito
Ela sabe que nada nunca vai mudar
Mas carrega consigo a esperança de ver
Um futuro mais digno…

Tem também o Luís Fernando
Conhecido como Nando dos Planos
O homem é chefe de um bando de bandido
Que rouba dados, altera fatos…
Se metem onde não deveria ser metido

Ele é um dos maiores pilantras do planeta
E, em sua última viagem, entrou em uma nova
Treta
Essa é diferente de todas as outras
Ele tem uma chance de mudar bastante
Como funcionam as coisas…

São esses quatro que protagonizam a história
O resto? Vão ter que ler para saber
O que posso contar agora
É vocês vão se surpreender

25 – Ocultismo Publicitário

Existe algo por aí
Algo que eles fazem
Eles estão de malandragem
Não querem ver-nos agir

Eles estão dentro dos lares
Estão por toda massa
Estão pelos celulares
Estamos sob tuas asas

Ditam o que podemos falar
O que deve ser pensado
E o que deixar pra lá
Esquecido, abandonado

Eles têm seu sangue
Do tal “teste de grau genético”
Eles têm o seu afeto
Com obras de artes automáticas
Eles estão na big data
E você ainda fazendo taboada
Pra aprender matemática…

Ironia ou piada?

Não me surpreende nada
Que eles são donos da parada
Ricos, famosos, desconhecidos
Pilantras e magnatas

Mas não os deixe saber
Que, dentro da vida cotidiana
Ainda existe o prazer
Existe a calmaria de ser só
Existe o final do dia
Com o pôr do sol
A companhia das pessoas amadas
E a derradeira queda na cachaçada

A dor é real
O sofrimento é sentido
Mas se não dermos motivo
Se não criarmos nosso destino
As funções perdem sentido
Não há batalha
Só tem um escravo…
Seguindo…
E seguindo…

Cada dia criando nós mesmos
Desenvolvendo nossos gostos
Questionamos o que é proposto
E reviramos os planos por inteiro!

Eles podem ditar as regras
Podem nos fazer ir à merda
Mas se eles são uns fudidos
Nós somos mais fudido ainda
Se eles são maus
Nós somos os piores
Se eles são desgraçados
Nós somos os abandonados
Somos a voz que só é ouvida por nós
E projetamos o futuro que vier
Seja o de liberdade
Seja o de mil e um sóis

24 – Monstruosidade

Extra! Extra!
Menino mata a mãe e foge de casa!
“O mundo está perdido!”
“Isso não é criança, é bandido!!”
“Morto pra mim não diferenciava”

Extra! Extra!
A mãe maltratava muito seu filho!
Foi em legítima defesa!
“Bem feito para essa desgraçada”
“Mexer com o querido não foi moleza”
“Ainda bem que morreu, degenerada!”

Extra! Extra!
Três crianças morreram numa tragédia!
A infraestrutura da cidade é a culpada!
“Malditos governantes! Não fazem nada!”
“O país não vai pra frente e a gente ainda
É roubada!”
“O Estado não perdoa em nada…”

Extra! Extra!
Joãozinho da Firma foi eleito de novo
Agora está há 8 anos cuidando do povo
“Esse é o meu prefeito!
Fala de família e de empresa,
Tem meu respeito”

Extra! Extra!
Um novo assassino está nas ruas
Essa é a cara dele:
E essas vítimas ensanguentadas e mortas
são suas:
“A polícia não se importa conosco!”
“A polícia é inútil, meu comparsa”
“Nós temos que fazer algo!
Pegar em armas!
Levar justiça de verdade para esses
Canalhas”

Extra! Extra!
A notícia se espalha!
Mataram o assassino
Er… Mas era o suposto…
Um inocente acabou morto
“Mas tem que ser assim, não?”
“Justiça por nossas mãos!”
“Mas era um menino inocente…”
“Você não sabe o que passava por aquela
Mente”

Nessa bagunça eu acabo confundindo
Os monstros

23 – Coringa Baiano

Nascido do fundo de Cajazeiras
As crianças já maneiravam nas brincadeiras
Arthur era um garoto sem limite
Saía de casa e voltava
Cheio de cicatrizes

Os pais adoravam aquilo
Diziam sempre
“Ah, isso é coisa de menino”
E parabenizavam o querido filho

A vizinhança, no entanto
Comentava sem muito encanto
Falar em “Arthur” era falar desgraça
As comadres sempre falando
“Esse daí não vai dar em nada”

Pois Arthur cresceu demoníaco
Era o pior dos piores entre os amigos
Aliás, se é que posso chamá-los assim
Já que andavam com Arthur por medo
Ou porque ninguém se metia com o pivetin

Até o dia chegou
Era seu aniversário e ele comemorou
Foi pra rua, chamou quem podia
Pagou a bebida e comida
Música alta durante todo o dia

Chegando a noite,
ele queria mais
Nenhum deles era mais capaz
Então saiu sozinho testando a sorte
Foi chamado pra um paredão
Lá mais pro norte
A galera que chamou não era confiável
Mas Arthur sempre foi intocável

E ele chegou na rua
Notou logo as casas
Aquela não era área sua
Mas bêbado e sedento por festa
Ouviu a galera dizendo
“É niuma”
E caiu dentro do paredão

E ela gente bonita
Música alta
Galera só bebendo no copão
Os caras trajados vendo as minas jogando
E as minas pique patricinha
Encarando os manos babando

Arthur estava jogando com tudo
Igual pinto no lixo
Não mexia com ninguém,
Não tolerava vacilo
Não tinha nome ainda
Estava tranquilo

Até que a galera chamou ele
Os seus parceiros não entenderam
Quiseram ir de frente, mas não puderam
Dois caras de “peça” na mão
Medo os impuseram

“Fedelhos”, pensou Arthur

Puxaram-no para uma rua próxima
Eram três caras, mais um chefão
E o guarda-costas
Arthur notou toda a situação
Calculou a força e intensidade
Entendeu que Inês já estava morta
E ele era depois

Então não esperou muito
Quando o guarda afrouxou a mão,
Ele pulou em cima do grandalhão
Subjugou-o em seguida
Pegando a arma dele e apontando para a dupla
Esquisita

Os assustados ficaram
Chocados
Enquanto Arthur matava o líder e o outro
Otário armado
De repente o sangue explodia em Arthur
Que ria achando engraçado
O evento maluco

Naquele momento ele fez um discurso
Chamou todos os vagabundos
Os mercadores e pecadores
Impôs seu respeito pela dor
Pela sua falta de sensibilidade com o mundo
Pelo seu riso absurdo

Então foi lembrado assim
Com o sorriso enlouquecido
Mas sagaz até o fim

22 – Punk Genérico

Como você é bobo, Ícaro
Acha mesmo que beleza é importante?
Que respeito esses bonitões querem?
Eles não querem alguém como você
Querem aqueles que têm medo
Medo de mudar os velhos termos
Que você mal sabe qual é

Eles querem sua confirmação
De que eles são o topo da pirâmide
Querem que você dê poder a eles
E tente se encaixar em seus planos

Como você é pequeno, Ícaro
E ingênuo
Acha mesmo que esses nerds te ouvem?
Ególatras amantes de puxa-sacos
Podem controlar você e seu trabalho
Mas seu espírito continua livre

Não ceda à pressão de ser mais um
Seja quem você quer ser no futuro
Um executivo atrapalhado
Ou um arruaceiro descarado
O importante é ser você mesmo

E o jogo vai ser jogado
Por mais errado que seja,
Você vai perder batalhas
E se fingir de conformado
Mas nunca se esqueça
Que você sempre é livre para viver
Para experimentar novos ares

Para ser tudo que você quiser

Então que seja arruaceiro
Bata em desgraçados
Furte itens básicos e junte dinheiro
Grite com quem gritar contigo
Tenha o controle e a parcimônia
Para mandar em seu próprio umbigo
Seja responsável consigo e seus artigos

Sobre os bonitões?
Eles realmente importam?
E sobre os nerds?
Você vai deixar eles te destruírem?

Você é a rua, Ícaro
É a música alta do vizinho de noite
É o bêbado tropeçando na calçada
É a galera curtindo uma balada
Eles passam por você
Falam palavras de pena,
Sentem prazer
Você é a lua e também a noite nublada
Você é o escuro e o deserto da rua
E você andando com mais ninguém
E mais nada

É você andando na rua escura e deserta
Só você
E mais nada

21 – A guerra contra si mesmo

Você se esconde em meu cabelo
Sussurra em meu ouvido
Eu penso que é inofensivo
Erro meu, é um ínfero vivo

Fama? Poder? Glória?
Não me amola…
Não tenho isso como objetivo
Eu gosto do trabalho bem feito
Organizado
Diretivo.

Mas quando chega esse demônio
Uma pequena distração
Se torna um eterno vício
Prendendo-me como se fosse feitiço
Derretendo minha mente
Fazendo-me seu refém
Impedindo-me de ir além
E eu não consigo lutar contra isso

Sinto grilhões me prendendo ao chão
Pesos que quase esmagam meus músculos
Sinto um topor absoluto
O tempo passa num segundo
E tudo que eu tenho pra fazer….

Acaba insolúvel…

Perco chances,
Perco encontros
Por conta de um maldito
Demônio
Perco momentos de qualidade
Perco amigos, perco vantagens
Por conta desse MALDITO
DEMÔNIO

E, ao passo em que escrevo,
Sinto meu corpo preso
Como se eu tivesse em cimento
Como tivesse sendo esmagado
Contra o tempo
E a demanda

E, antes de fazer qualquer coisa,
Tudo já me cansa
Me cansa pensar sobre o que fazer
E, por mais que faça algo
Nunca é suficientemente bom
Ou interessante
Ou sei lá mais o quê

As vozes são altas de mais
E o calor me sufoca
O cansaço vai ganhando
E mais um dia sem girar a roda

É um ciclo vicioso
Adoecedor e delicioso
Sair dele é como tirar um micro espinho
É como se acalmar enquanto se afoga
É como sempre saber o melhor caminho
É como saber a hora de ir embora

É muito difícil para mim
E eu estou cansado demais
Mas não vou desistir aqui
Pelo mínimo que eu me mexo
Eu contigo me erguer e fugir

Faço um trato com o demônio
Para que não me perturbe por horas
Foco na atividade e me perco
Faço sem parar
Até não poder continuar

E então ele volta.

Ainda sonho de me livrar do demônio
Talvez um dia ele simplesmente suma…

Quem eu tô querendo enganar,
Não será fácil.
É preciso disciplina minha
E é preciso um pouco de ritalina sua.

20 – Biomecânico

Eu pego meu coração
E o parto em seguida
Eu devoro a minha alma lívida

Seguindo o destino,
Eu parto em seguida
Fujo de minha sina
Meu corpo não é meu
Estou me livrando de minha alma
Cativa

Expulso os outros demônios
Não quero que venham ao meu encontro
Sou poderoso, sou mais de mil
Sou a canção e sou
O sorriso juvenil

Agora sem alma procuro um espelho
Vejo tudo, vejo o céu e a parede
Mas não me vejo

E o desejo aumenta
Quero saciar minha vontade
Eu quero liberdade
Eu quero liberdade

Busco a faca na cozinha
Aquela de cortar pão
Raspo a pele de minha carne
Faço isso com minhas próprias mãos

Um formigamento na ponta dos dedos
A dor intensa, fervendo
O prazer tão violento que dá medo
E eu só comecei a fazê-lo

Assim como uma farpa debaixo da unha
A agonia é chata e intermitente
Ela enche meu peito por dentro
E devolve ao mundo o meu verdadeiro ser

A pele começa a deixar meu corpo
Debaixo dela há algo estranho, eu acho
Muito engenhoso, talvez problemático
Pois onde sangro, também eu fortaleço

Não escorre vermelho sangue,
Escorre cinza vazio
Meus olhos não brilham inocência
Brilham um vermelho frio

Prateado como a faca que me esfola
Eu sinto finalmente sair
Sair algo de dentro
Como que nascesse um novo esqueleto

A faca não é o suficiente
Busco, então, uma lixa
Lixa de parede para pintores
Lixo fora todas as dores

Com a pele, se vão minha inibições
Incertezas e aflições

Mas os medos continuam aqui dentro
Empurrando a coragem pra fora
Me dando discernimento

Também ficam os bons sentimentos
Ficam a alegria e a amizade
A paixão, consideração e lealdade
Retiro de mim a humanidade
Aquela que reflete apenas a vaidade,
Sem contemplar eu mesmo
Sem contemplar meus defeitos

Me olho no espelho novamente
Enxergo sangue, enxergo medo
Algo amorfo sem cor ou cabelo
Vejo seu o grande medo em seu corpo definhado
Seu peito desnudo metálico
Deformado

Como deveria aparentar um robô?
Como um humano gostoso
Ou uma esfera com motor
Por mais que robôs não pensem,
Eu penso
E por mais que não sintam
Eu sinto
Que dúvida inquietante!

Quando foi que eu perdi
A diferença entre ser um robô
E ser um menino?