Tem algo de errado?
Não, não tem nada.
Nada, nada, nada
Fixo meus olhos na estrada
Tentando desviar meus pensamentos
Eu deixei minha mãe desolada
Chorando em casa
Enquanto voltava para meu lar
Os pensamentos voltam a embrulhar…
Nunca fui capaz de escrever sobre isso
Porque eu tinha medo de te fazer algum mal
Mas o mau está no não dito
Que corrompe a confiança
Que me deixa aflito
Eu a deixei chorando
E meus cachorros latindo
As plantas no jardim crescendo
E meu ventilador eu esqueci zunindo
Já nem sei o que sente por mim
Se é orgulho o frustração
Se sente culpa ou sente perdão
Eu me sinto confuso com tudo
Como se seu amor fosse ilusão
Sim, sinto que a senhora não me ama
Ama uma imagem que construiu de mim
E a reafirma sempre que pode
Sempre que está afim
Para as amigas sentirem inveja
E para que você possa sorrir
É um orgulho mesquinho
Dependente dos outros
Sem aproveitar com os filhos
É vazio de sentido
São muitos os rostos
Mas são poucos os amigos
Eu destruo essa lógica
O mau eu levo comigo
Guardo no bolso meus defeitos
E meus acertos eu deixo pelo caminho
Não sou o melhor do mundo
Mas sou bom em ser eu mesmo
As minhas conquistas eu mereço
E na boca dos outros sou assunto
Pois que falem
Retiro o poder de todos vocês
De escrever minha narrativa
Eu estarei escrevendo
linha por linha
Mas hoje eu não estou podendo
Pois deixei minha mãe chorando em casa
O chão estava em brasa
O calor me queimando por dentro
Eu deveria voltar
Não deveria sair de lá
Deveria abraçar ela enquanto dá
Mas não consigo
A decisão de me mudar faz tempo
Não foi nesse março e nem no outro dezembro
Peço por isso desde que me lembro
Quando pedi abrigo e recebi castigo
Nunca pude confiar em ninguém
Pessoas de uma moral densa
Um julgamento e um desdém
Sempre pode falar o que pensa
Se for com a intensão de tolher
Mas eu não pude ser vocês
Eu sou um campo de relva ao vento
Eu sou o cheiro de terra molhada de chuva
Eu sou meu próprio veneno
E eu sou minha própria ajuda
Das vezes que eu chorava no banheiro
Ou quando estávamos viajando
Das vezes que eu escondi o segredo
Ou das vezes que eu só estava amando
Eu estive sozinho
Estive só quando sofri preconceito
Pra voltar pra casa e ouvir mais do mesmo
Só era eu quando fui exposto à doenças
E escondi os remédios temendo desavenças
Das vezes que eu tive que me virar
Que aprendi nas ruas o que ninguém pôde me ensinar
Eu pude fazer muito sozinho
Tentando trilhar meu próprio caminho
Me frustra saber que eu tentei te amar
Confiar em vocês
Poxa, eu tentei muito conversar
Criar uma relação estável entre iguais
Mas o que você fez?
Você negou minha confiança
Fugiu da minha mão
Que a esperava desde criança
Nessa imagem de ícaro
A senhora não tolera o Ícaro verdadeiro
Que é sensível e é direito
Não, a senhora não suporta vê-lo
Não quero apontar dedos sem sentido
Enterro a culpa e queimo seus resquícios
Planto o amor em outro lugar
Para que floresça sem parar
Eu quero agradecer pela segurança
Por sempre me lembrar que eu posso
Ser a voz da minha esperança
Obrigado por me sustentar desde criança
Por cada refeição feita com amor
Por cada beijo e cada dor
Não há “obrigados” no mundo que possam transmitir
O que sinto pelo tempo que passou
Eu a vejo como inspiração
Uma mulher que não tinha nada na mão
Além de deveres, de irmãos
E de uma beleza que até hoje
Deixa marmanjo no chão
Podia na época não ter certeza
Mas a senhora conseguiu criar um império
Um reinado
Apenas com o que tinha nas mãos
A senhora é sem igual
Uma inteligência anormal
Uma certeza move montanhas
E uma dedicação sensacional
Só peço para que cuide de si
Porque não sei o que vai ser de mim
Se eu te perder um dia
Sim, sou blindado.
Sou independente, sou miserável
Mas a senhora é meu ponto fraco
E, quando a deixei chorando
Chorei também.
Por isso não me veja como fardo
Não quero ser seu objetivo
O que te faz viver
Ou o único a seu lado
A senhora vai viver muito muito mais
E eu espero que viva sempre
Pensando em seu bem
Seu, e de mais ninguém
E com a certeza
De que, mesmo dolorido
Estarei ao seu lado