Dia 30: Despair

E é assim.
É uma rígida e dedicada bailarina que,
num dia fatídico de domingo,
perdeu o movimento das pernas.
É uma inofensiva garotinha que,
com medo inexplicável de escuro,
é jogada contra o mais sombrio porão.
É o batman caindo no poço,
com a exceção de que não é o Batman
e esse poço não tem saída.
É o “adeus” que ficou em sua garganta
e, mesmo você ainda sentindo falta,
nunca mais terá a chance de dizê-lo.
É preparar toda a apresentação,
como sempre o fizera,
mas no palco simplesmente esquecer de tudo.
É a destruição do mundo aos poucos,
mesmo sabendo que é errado.
Mesmo contando os dias até a extinção.
É a perda de toda esperança.

Dia 29: Guilty

Consigo ouvir seus pés batendo no chão.
Correndo rapidamente e ofegante
Pela forma como corre não sabe onde vai.
Mas eu estou chegando.
E a cada passo meu
três passos deles.
Ainda escuto sua respiração.
Ainda sigo seu rastro.
O desconforto no fundo de sua cabeça
alimenta minha vontade de vê-lo.
E, por mais distância que ele tome,
só está perdendo tempo e fôlego.
Taquicardia leve ou pesada,
não importa.
Eu sei que, no fim dessa trilha,
eu encontrarei a mim mesmo.
Encurralado, com medo da verdade.

Dia 28: Vulnerable

No meu quarto escuro
escondo o frágil coração.
Não sou um soldado, não.
Não sou revestido de armadura.
Simplesmente sou simples e aberto
Não tem porquê não ser direto.
Ao invés de pele dura, pois,
defendo-me com a ferida exposta.
A fraqueza como escudo
fortalecendo minhas costas.
Não saberão meu segredo,
que meu sofrimento eu vivo só.
Que eu deixo passar todo mal
através dos rombos já deixados em mim.
No fim do dia, estarei no quarto.
Somente eu e meu coração.

Dia 27: Hostile

Todos reunidos à mesa
Não importa mais quem somos
Mãe? Amigos? Não mais…
Somos uma grande irmandade.
E todos nos importamos com outros
Até a primeira centelha estourar
A bomba silenciosa que paira lá.
Agora é guerra por guerra.
Dedo na cara e gritaria
E vença quem manipula mais.
A hostilidade é psicológica.
Sobrevive quem não se importa mais.
Que besteira, não?
Estamos juntos nessa
E, no final, eu os amo.

Dia 26: Loving

Você sabe me desarmar como ninguém,
logo eu, alguém tão protegido,
tão calejado das guerras por amor.
Sou sim Helena de Tróia,
Confusa com o próprio destino trágico.
Sou também Jacinto,
morto por um amor invejável, impossível.
Nessas empreitadas nunca saí ganhando.
Sou o primeiro soldado a cair.
Sou o próprio campo de guerra,
há muito mudado pelas batalhas.
Sou só. E não me faz mal ser só.
Apenas amar a mim não me satisfaz
pois transpiro amor por inteiro
Como um copo numa fonte eterna,
que transborda sem parar
em que a água não para de jorrar.
Dói sentir as gotas caírem,
mas escrever me ajuda a suportar.

Dia 25: Skeptical

Destruí suas amarras verbais
Ressignifiquei seus esquemas ilusórios
Você ri de mim por não confiar em você?
Eu rio de ti pelo papel de tolo.
Não jogo mais nenhum jogo
E eu estou feliz bem assim, como penso.
Crio minhas regras, faço meu investimento.
Sua religião não me dá sustento
E sua fé não acredita em mim
para estar e continuar bem aqui
desafiando a deuses e a ti
eu precisei questionar a todos
precisei existir como incógnita
Não confio mais em quaisquer uns
que pensam que dominam o outro.

Dia 24: Numb

O tempo passa pela janela
Aqui dentro está congelado
Eternamente atordoado pela realidade
Me encontro deitado na cama
Passaram quantos dias?
Quatro… Talvez três…
Não que isso importasse
ou que o tempo trouxesse relevância
à essa vida cansada que levo.
Dia, tarde e noite são um só,
e eu leio algo que faça sentido,
mas nada mais realmente faz sentido
e tudo bem:
não há tempo a perder.
Continuo no ciclo contínuo
e no outro dia, é o mesmo dia.

Dia 23: Threatened

A música no ar faz ferver o chão
Apenas você e o outro e a multidão
Afasta, afasta, cria a roda agora
Tem que preparar para quando chegar
A hora.
Os ânimos à flor da pele
Todos nervosos e ansiosos
Até que os músicos misericordiosos
Apitam a partida final.
E vamo se jogar pra frente.
Postura erguida, olhos atentos
Cuidado com o soco, cuidado com o outro.
O caos organizado que fazemos
Desperta a minha fé no nosso futuro.
Apesar do embate de corpos
Do mar de pessoas se jogando uma nas outras
Do suor, da respiração quente nos rostos
Eu não me sinto ameaçado nem um pouco.

Viva carnaval!!!

Dia 22: Startled

Um instinto primal avisa
Minha boca seca
Meus olhos lacrimejam
Meus pêlos eriçam
Meu corpo estremece por inteiro
Calafrios em minha barriga
Tremedeira em minhas pernas
Impossível ficar quieto
Coço minha cabeça bastante
Faço-a sangrar um pouco
Arranco cabelos sem querer.
“Icaro, o que deu em tu?”
Olho para os lados, engraçado.
Nada relevante aqui.
Mesmo assim, não acalmo
Não tenho esse luxo todo.

Dia 21: Proud

Eu acho engraçado tudo isso.
As fotos, as notícias, as marcas
Todo esse colorido impreciso
Me deixa tão irritado
me tira todo o juízo.
Não queremos seu agrado,
nunca me importei pra você
ou o que acham de mim
ou o que querem para mim.
Eu sei o que eu quero para mim
E estou disposto a lutar por isso.
Meu orgulho não depende de você
nem de suas marcas ou roupas
nem de suas cores ou falas.
Meu orgulho depende de mim,
minhas atitudes, minha vontade
Minha vida.