Eram quatro da tarde,
Mas poderiam ser da manhã
O sol de Salvador ainda arde
Tirando a paz de qualquer alma
Sã
Eu andava pela rua
Sem lenço ou carteira
Na mente um monte de besteira
Querendo ficar todo nu
A oportunidade me sorri de primeira
Viro a esquina de malandro
Sigo a rota já certeira
Vou me banhar naquele antro
Vou entrar guerreira
E sair na canseira
Vai ser um papo bem estranho
Olho ao redor para ver se tem alguém espiando
Tomo cuidado antes de só ir entrando
Pego a chave e me apronto no vestiário
Olho para frente e encontro um novo amado
E outro
E mais outro
Muitas bocas, mas pouco gosto
Devoro com uma fome insaciável
Mas nada de muito gostoso no meu prato
Cansei, preciso de um intervalo
Sentar um pouco, descansar o rosto
Me sentir menos vulnerável
Saio para a parte aberta e encontro pessoas
Dois homens bonitos sentados falando coisas
Eu sento esparramado arfando de cansaço
Eles, que não são bobos, já foram perguntando
Meu estado
A conversar flui como pedras no rio
Tem sua dificuldade, mas acaba cedindo
Um deles me chama bem pertinho
“Tem um quarto ali. Você vem, lindo?”
Eu estava beijando o amigo dele na hora
E não pensei direito em uma boa resposta
Mas estava chegando mais pessoas no lugar
Pessoas que eu já não queria pegar
Na confusão, esse cara tomou a decisão
Segurou forte minha mão e me levou
Eu não estava muito me importando com meu corpo
Mas algumas coisas me chamaram atenção
Ele trancou a porta do quarto e me olhou forte
Falou palavras de controle e me deixou imóvel
Lambeu meu corpo todo e nada fazia muito sentido
O prazer que ele sentia não dava certo comigo
Então eu comecei a falar de ir embora
Ele pediu para que eu ficasse ali
Ele era três vezes meu tamanho
Não sabia o que fazer sozinho
Percebi que só tinha a cabeça dele como arma
Então deixei que me usasse de graça
Os movimentos, jogos e risos não faziam sentido
Eu repetia os movimentos, mas às vezes nem isso
E, quando acabou, eu saí dali
Ele quis pegar o contato, mas eu menti
Pensei em pegar mais alguém,
Mas não tinha ninguém
Que pudesse me servir
Marombas de um lado
Egocêntricos do outro
Eu estava jogado
No meio dos lobos
Saí de lá
Pensando sobre viver
Sobre se eu realmente queria prazer
Ou se é algo que não poderia sentir
Mas sim apenas retribuir
Desfiz minha cabeça para a situação
Neguei que poderia ser uma aflição
Ou violência ou agressão
Neguei para mim mesmo o tempo todo
Mas não pude negar quando cheguei em casa
E fui tomar um banho
E senti meu corpo tocado
Sujo pela mão do outro
Eu limpava, esfregava e chorava sobre o cheiro dele
Um desespero terrível na própria pele
E…
Aos poucos fui apagando
A memória desse total “engano”
Não lembro do rosto do marmanjo
Ainda frequento o clube
Conheci demônios, fofos e anjos
Gente de tudo quanto é jeito
Aprendi a me cuidar e impor respeito
Mas o sentimento que senti no banheiro
De se estar sujo por inteiro
Sem conseguir se limpar
Sem conseguir se salvar daquelas mãos
Daquele sujeito
Eu nunca esqueço
Eu nunca esqueço