Qual é o oposto da vida?

Acho injusto que considerem que a gente nasce já sabendo que vamos morrer. Quando me perguntam “o que é a vida?”, eu penso em tudo, inclusive na morte, mas não as vejo como rivais ou opostas. Quando eu era menor, uma criança bem teimosa e criativa, eu não conseguia conceber a ideia de morte. Para mim, morte era algo absurdo demais para ser real.

Meu primeiro contato com morte foi de um amigo de infância meu, Paulo Henrique. Ele era filho de uma amiga da minha mãe, Marlúcia, que tinha adotado o garoto — não através de papéis, mas das ruas mesmo. Ele me ensinou muito do que eu precisava saber sobre as ruas, sobre brincadeiras, pular muro e empinar pipa. Ele morreu atropelado por um caminhão e eu lembro até hoje quando minha mãe me contou. O dia estava nublado e a gente estava indo para a casa de Lúcia. Ela me disse sobre a morte e eu ouvi ela falando os detalhes com outras pessoas. Eu entendia que eu nunca mais poderia falar com Paulo Henrique de novo, o que me deixava muito triste, afinal somente uma criança homem viado sabe o quão é raro outra criança homem te considerar amigo. Eu guardei esse sentimento no meu coração e até hoje eu tenho flashes de memória brincando com ele. A mãe dele passou anos sem se cuidar direito, sem pensar direito, até que conseguiu se erguer. Que tipo de dor é essa que te imobiliza? Que te tira toda vontade de continuar? Mesmo quando morre, a pessoa ainda assim tem um impacto na vida das pessoas. Ela existe enquanto lembrança, enquanto sentimento e afins.

Depois de Paulo Henrique, acompanhei a morte em muitos outros. Alguns que eu não lembro mais, como vizinhos, conhecidos e familiares distantes, outros que eu nunca vou esquecer, como Clara, Ana Tereza, tia Nice, Bizarro e Felipe Gama, mas definitivamente todas essas foram diferentes. Foram estranhas. Foram súbitas e agonizantes. E definitivamente não acabaram no dia de sua morte.

É algo conflitante em mim admitir que eu não vou ter mais lembranças com a pessoa, que eu não vou mais poder ouvir ela falar suas ideias. Não vou mais poder brincar com elas, perturbar, sair junto e enfim. Mas eu aceito isso. É realmente a partida para uma viagem sem volta. Mas quando eu olho a vida dessas pessoas, eu sei que para muitos não significa muito, mas para mim é um infinito. A história de cada uma dessas pessoas é tão interessante, tão intricada, tão bem ajeitada que um universo nela mesma. E é impossível saber das intenções, dos objetivos, aspirações, medos e vícios. O que torna para nós, que ficamos, um mistério insolúvel. Não é como uma casa abandonada, que cai aos pedaços pela falta de moradia, mas como uma foto antiga que sempre tem um detalhe novo que você não tinha visto. 

Claro que eu sinto falta de cada uma dessas pessoas e vou sentir falta das outras que se vão logo logo, esse não é o ponto. O ponto é que toda história tem começo e fim. Isso não faz o começo ser oposto do fim, só é a configuração da história. Se me perguntasse qual é o oposto do começo, seria o não-começar. Se só temos uma vida, se só podemos ter uma expectativa de como as coisas podem se desenvolver, por que escolheríamos não viver nossa vida com o máximo que pudermos, com a intensidade de mil sóis? Cada dia, cada respiro, cada passo mais próximo da morte é um novo dia para viver ainda mais, para ser feliz, para ser triste, para ter azar, para chegar no fundo do poço, para conhecer novas pessoas e fazer amizades. 

A vida não é a morte. A vida é viver até a morte. Como eu posso explicar… Por exemplo: a diferença entre qualquer conto de fada está no desenvolvimento da história. Todos os contos de fada começam, terminam feliz, o protagonista ou a protagonista recebem ajuda, sempre tem vilão ou vilões, enfim. O que difere os contos de fadas são as diferentes trajetórias que os personagens precisam traçar. Todos os começos e finais são parecidos, mas a história é que é importante.

É isto.

A Fantasia de ser alguém quase me mata

Eu fico aqui
Escrevendo textos
Desenvolvendo assuntos
Tentando criar um pretexto
Um lugar pra mim nesse mundo

E o mundo gira, gira
Gira…
E o tempo passa, passa
Passa…

E eu vivo
Sim, eu vivo
Assumo responsabilidades
Crio a minha própria identidade
Desvendo novos andares
Caminhos trilhados por milhares
Mas de formas diferentes

E eu sinto
Que tem algo de errado
Algo que não faz mais sentido
Algo que eu deixei de lado

Eu me sinto errado
Como um brinquedo ficando quebrado
Como se eu mesmo não pudesse
Ser achado

Perdido no meio do mato de pedra
Eu reajo da forma que ninguém espera
Caminho torto
Aquele caminho trilhado por todos
Para ver minha imagem no reflexo
Completamente novo
Bagunçada
Melancólica
Desfigurada
Tortuoso

Sim, eu estou vivendo
Construindo-me de poesia
Mas se a poesia é uma vingança escrita
então A vida está alimentando o rancor
Rancor esse que advém de uma ira
Impulsiva e esquecida
Inalcançável
Inativa

Perdi meu Ícaro de mim
Valorizando os outros
Perdi o encanto pelo gosto
Mostro a todos como sou bondoso
Quanto mais pedem, mais me doo
Quanto mais doo, mais perco eu

E quantos me restaram?
Se eu sou eu por inteiro
Ou um trouxa de retalhos
Claro, sou parte de todos
Mas se todos já me levaram
Sou eu de todos
Ou sou eu meu único amado?

Ainda com o gosto amargo na boca
Queria poder viver vidas outras
Quebrar o limite de meu corpo
Rasgar pulmões e quebrar costelas
Abrindo espaço de dentro pra fora
Cortando meu peito
Sangrando por inteiro
Nascendo de novo
De mim mesmo

Refaço meus passos dados

Refaço meus passos dados
Caminho para longe de todo marasmo
De todo cansaço e esculacho
Que me enfiei em busca de mim

E o que vim fazer aqui?
Continuo caminhando sem resposta
Sem destino final ou chegada
E, quando eu paro, faço uma aposta
Com os dedos cruzados nas costas
Sem saber se para sorte ou para engana-la
Eu juro
Juro que não vou tentar mais mudar
Que esse finalmente será o meu lugar

Eu faço a minha morada
Construo minha vida ao redor
Planejo o melhor para minha casa,
Para minha vida e meu futuro
Ah, mas versatilidade precisa acompanhar
O crescimento de um adulto
Quanto mais eu firmo o chão em que piso
Eu vejo a casa cair com chão e tudo junto

Rostos borrados acompanham meu fracasso
Palavras que não mudam a minha realidade
É apenas o som do relógio me acorda
“Preciso tentar de novo”

Volto ao caminho trilhado
A cada gole de água, um passo
Caminho até o sol parar de brilhar
Até minhas pernas não poderem mais aguentar
E aí eu sei que estou na metade do caminho

E continuo andando

As vistas cansam
Os olhos ardem
Os bocejos são mais de costume do que sono
E o cansaço é a dor na cabeça intensa
É a coluna gritando por piedade
E a fome torcendo a barriga de maldade

Preciso parar mais uma vez
Por mais que eu não aguente mais mudar
Ter uma vida flutuante sem certeza de amor
Ou de amigo
Vivendo debaixo de um sol
Abrasivo
Dia após dia fazendo mais
Inimigos

Eu preciso ter alguns pontos de parada
Para respirar, beber uma água
Para me sentir vivo
E construir uma nova casa
Perceber minhas mudanças
Conhecer novas caras

E talvez ser alguém melhor
Claro, com muita lágrima e suor
Não por vangloriar a dor,
Mas por saber quem sou
Será necessário sofrer
Perder amigos
Mudar e me mover
Preciso conciliar a vida
Para então não sofrer
Com a partida
Tanto minha
Quanto dos outros
É que eu continuo os amando
A cada um, um pouco

Se antes meu coração ficava com eles
Agora eles me acompanham
E a cada parada
Novos amores vão chegando
Amores de amigos
Amores de irmãos
Amores de castigos divinos
Amores que me deixam são

De repente eu terei que ir
Arrumar minhas trouxas e tralhas
E me picar daqui
Mas nunca deixarei pra trás
Todo o amor que eu senti

Nessa vida dura que me espera
Nessa viagem que é eterna
Porque dura o quanto eu existir

E eu continuarei andando

Se aqui não restar mais vida para mim

Dia 3: Três Cavalos Fumando

Uma fazenda abandonada
Grilos estavam cantando
Não acontecia nada
Se tivessem olhando

Verdade não contada
Não segure espanto
Mas a fazenda pacata
Escondia animais semi-humanos

Atentos aos meandros
Quietos, espertos, malandros
Pisando fofas patas
Criando sua Arcádia

Paraíso dos falantes
Sejam pequenos, grandes
Todos dão entrada
Satisfeitos da jornada

E eles cantando!
E ainda dançando!
Coelhos e vacas
Ratos e cabras

Imitando filmes mexicanos
Atuando o “Super-Pasta”
Mudando algumas falas
Rindo e chorando

Parece besteira falando
Eu não acreditava
Quebrei a cara
Mas fui fotografando

Olha aqui:

Três cavalos fumando
Não, não era engano
E não, eu não estou brincando!

Eram três cavalos fumando!

E um deles estava montado
Era montado por outro cavalo
Sim, eram dois cavalos malhados
E um cavalgando em cima dos outros
Abestalhados

Aonde eu os vi você pergunta?
Foi logo ali
Naquela fazendo maluca
Uma grande espelunca

Mato cobrindo todo lugar
Exceto o curral, celeiros e a casa
Espertos bichos encrenqueiros
Vou acabar com essa farra já!

Pois subo cerca
Invado a propriedade
O controle que me perca
Vou revelar a verdade

Embrenho-me no mato
Arranco plantas como posso
Encontro alguns ossos
Rastejo para passar silencioso
Vou pegá-los no ato

Cada vez mais difícil passar
Dou meu máximo por cá
A primeira vez foi mais fácil
Sinto algo de errado pelo ar

A noite cai ao chão
Escuridão me devora
Uma mísera minhoca me apavora
Sigo na mesma direção

De alguma forma, perdi-me nessa ida
Não consigo achar a passagem
Perdi a entrada e a saída
Sentindo-me Bobo e selvagem

Um cheiro forte de medo
De suor, dor e peito
Cheiro fétido que indica direção
Sigo, já querendo sair da escuridão

Vejo a fazenda
Em um ângulo diferente
Tudo parece maior, e imponente
Domino o lugar
Sigo em frente

E o que estou fazendo?
O que farei?
Estou tanto incomodada
Devo encarar a bicharada

Entro no celeiro
Vejo a turma
De repente, enrubreço
Uma voz: “Continua!”

Música desperta tocando
Todos na balada
Sigo eles balançando
Esqueci da bobajada

Quero mais viver
Sem continuar julgando
Rua é Saber
Ela está chamando