10 – Show de bateria

Acordo cedo com o sol
Mais um dia lindo
Levanto da cama sorrindo
Como um peixe mordendo o azol

Café da manhã é bem rápido
Isso quando dá tempo
Comer uma besteira é mais prático
E entra mais no orçamento

Me arrumo de cima a baixo
Penteio os cabelos
Me encho de cheiros
Esperando ser notado

Contagem de itens na mochila
Faço uma lista
Chaves
Roupa extra
Carteira de motorista
Celular que espelha
E gatilhos à parte

Chego na empresa
Ninguém está à vontade
Todos odeiam de verdade
Mas não há maldade
Só negócios, ataques, defesas

Me sento e vejo o tempo passar
Uma, duas, cinco horas
Tento não desassociar
Espero ir embora
E desato a chorar

O carro se dirige na estrada
Os olhos marejados
A fuga não pode ser planejada
Responsabilidades desafiam tal ato

Frustrado e confuso
Eu aumento o som do carro
Afasto os pensamentos obscuros
E grito as músicas bem alto

Por um momento
Aquele pequeno momento
Eu não sou mais um funcionário
Eu curto minha vida adoidado
Não tem que julgue este coitado
E, se tivesse, não teria me importado

O carro se conduz pela pista
Mudando de música
Freando quando precisa
Sinto no cabelo a brisa
Carro me deixa na esquina
E aceita o plano proposto
Paro no posto
Compro uma bebida
Sigo o caminho
Menos tortuoso

Até que o carro para
Chegou onde precisava
Uns tapas no rosto para tirar a mágoa
E meu único amigo me deixa em casa

Entro, converso, faço até piada
Beijo, abraço, tomo banho
E no banho eu dou uma descansada
“Essa vida não tem ganho
Ou eu me encaixo na palhaçada
Ou eu me torno um nada”
Pensamentos estranhos…
Pensamentos comuns de banho

Quero deitar em minha cama
Dormir e não lembrar do dia
Das pessoas mal humoradas
Do que faço por quem me ama
Da violência apenas assistida

Os olhos fecham no breu da meia-noite
Como um véu
Cobrindo em preto os montes
Eu me deixo flutuar no céu escuro
Encontro a bebida que tanto procuro
A Cicuta brilha no luar eterno do mundo

Acordo cedo com o sol
Mais um dia lindo
Levanto da cama sorrindo
Como um peixe mordendo o anzol

9 – Manga de Camisa

Eu cortei minha manga fora
Um pedaço já estragado
Comer seria insensato
E tenho comida de sobra

Eu cortei minha manga fora
Para começar o trabalho
O gosto na boca amargo
Chego e saio bem na hora

A manga do trabalho duro
Aquela que causa revolta
Tão odioso amargo fruto

Mesma fruta tão desejada
Seu doce derrete na boca
Quem a prova não a prepara

5 – Azul

Sou eu e o azul
Sempre fomos
Unidos pelo cordão dominical
Separados pelo sonho de estranhos

Quando criança eu via como normal
O azul estava na minha cabeça
Mas ele não poderia ser real

Eu não me sentia diferente
Porque achava que pensavam igual
O azul comovendo em montes
Meu pecado ancestral

O azul cresceu como um câncer
Se multiplicando sem parar
Tomando conta da criança
Silenciosamente, sem manifestar

Mas os outros sabiam do azul
E era de se esperar
O azul não manifestava
Mas eu o fazia se apresentar

O azul respingava de mim para fora
Em gestos, falas e formas
Os homens e crianças fugiam na hora
Tinham medo do azul pegar

Guardei o azul comigo
Eu e ele por anos a fio
O silêncio era explicativo
E o azul ficava quietinho

Na adolescência, o azul voltou
Mas estava diferente,
Era um azul com bordô…
Um roxo que ferve a gente
Entorpece e escorre em amor

Fui roxo, fui vermelho
O azul olhando com medo
Esperando sua vez
Talvez ficasse por dias
Talvez só um mês

E, como nunca se fez
Eu libertei o azul
Um azul cortez
que tomou tudo
No começo, recuo

Depois, o culto

O azul preencheu o vazio
Era o normal verdadeiro
Aquilo que não se ouviu
Escondido dentro do mundo sombrio

Viciante
O azul é um perigo constante
Entorpece os sentidos
Me faz desaparecer por instantes
Tomando conta
Assumindo o volante…

Eu não tinha como fugir
Já estava entregue
Deixando o azul fluir em meu corpo inerte

Como explicar que a doença contagiante
Era o sabor da vida adiante?
Como eu poderia me sentir
Depois de guardar o azul tanto tempo dentro de mim?

O azul transbordou
Ele não era mais eu ou meu
O azul estava nos outros
Mesmo sendo azul, era calor

O azul foram vários outros
O azul me machucou
Eu fechei os olhos para ele
Porque, depois de sê-lo
Transborda-lo em meu corpo
Não queria ver o que se tornou

Azul cor do céu
Dos mares, dos olhos
Das mochilas e do meu fel

Eu chorei, e como chorei
Para o azul, era um eterno replay
Um castigo e uma emoção
E uma esperança e uma ilusão

O azul perdeu a noção

Preciso controlar essa pulsão
Administrar o azul do meu coração
Ele importa, mas não pode escurecer a visão
Borrando meus sentidos
Me escravizando
Me silenciando
Em sua mão

Como o fiz
Quando não tinha noção de como amar
Era bom

4 – Carregador de Tocha

Nada lhe prepara do fardo
Do azar premeditado
Do conhecer sem saber de fato
O que o futuro tem reservado

Nada lhe prepara para o fardo
O amigo aponto e disse “otário”
A mãe querendo estar ao lado
A irmã procurando como ajudá-lo

Nada lhe prepara para o fardo
Você, se sentindo preparado
Fica de joelhos já antecipado
Sua cabeça girando e pensando
“Eu deveria ter remediado”

O fardo é muito pesado
É um peso diferenciado
Que assusta o halterofilista mais bombado
Que deixa o estrategista noites acordado

Mas o fardo precisa ser carregado
Todos os dias um novo ato
Uma nova carne, um novo palhaço
Pronto para atender ao recado
E carregar o fardo por onde tem andado

A tocha do conhecimento
O caminho de quem sabe
Porque já estava por dentro
A tecnologia e o investimento
Unidos para seu divertimento

Um cavalo de Tróia
Corrompendo a mente
Mudando o rumo da história
Deixando o ciente
Inconsciente
Temendo imagens falsas
Desmentidas toda hora

O peso de conhecer a mentira
E ouvir as confusões bem acometidas
Eu tento avisar e aliviar corações apertados
Mas a internet possui laços mais afetados

Imunidade de rebanho
Vira vulnerabilidade de rebanho
A democracia punitiva
E o autoritarismo é regra do dia

Pensei estar quebrando barreiras
Pensando em anarquia
Mas aí eu destruo o Estado
Para melhora a mais-valia?

Exploração da agonia
Dia apos dia em telas
Vendo vídeos que nem interessa a ela
Cansada em sintonia
Não quer pensar que culpa é dela
Da vida fugidia
Dk destino de tabela

A fuga parece ser uma necessidade
Antes feita em conjunto nos bares
Agora é única e bem específica
Não mais sonham com a vida idílica

Sonham com nada
Vivem dia por dia
Fazendo caminhada pro trabalho
Sendo datificados por companhias

A tocha do conhecimento é pesada
Mas ela não traz a solução
Se saber não resolve a situação
A verdade acaba sendo renovada

Conservo meus ideais
E massifico para quem vai ouvir
Eu acredito na vida que lutamos
Eu acredito que você pode existir

Eu não sou muito mais que um garoto
Tentando entender esse mundo de louco
Mas eu sei que precisamos nos juntar
Viver pelos outros, para melhorar

A humanidade não é o erro
Não deveríamos ser extintos
O regime econômico é o erro
E deveríamos ser mais combativos

Pense por você, por favor

3 – Linha

Meu corpo no limite
Eu estico os braços para apanhar
O que me Permitem tocar, apreciar…
Mas sempre do lado de lá
Nunca posso viver o Shangrilá
Sou demais para poder amar
Ah, na verdade sou de menos
Sou instável, sou fácil
Sou cozinhado pra depois
Assar…

Meu corpo está no limite
Sei que tem pouco que devo provar
Mas lidar com os outros
Impondo o que me atinge
Parece que não me compensará

Minha mente está no limite
Eu tento me esforçar
Dou duro pelos compromissos
Mas mesmo assim não consigo chegar

Minha mente está no limite
Vocês querem que eu vos imite
Mas eu sempre fui quem vos fala
E sei quem quero me tornar

Estou cansado do mundo em volta
Cansado de abaixarem minha bola
Sinto o menosprezo nas atitudes silenciosas
Eu tento muito
Mas não consigo ir embora

Eu estou em meu limite
A linha já não segura o equilibrista
Ele rebola e se assusta com a altura
A platéia ri e o aplaude lá em cima
Ele sabe que, se cair… Não tem cura

A linha foi cortada
Os limites ultrapassados
As mentiras contadas
E o amor…
O amor foi revogado

Eu preciso revogá-lo
Preciso, pois é tudo que me resta
Decido, por não querer um papel nessa peça
Convido, para curtimos a seresta
Converso, o que realmente interessa
Dividido, entre o sentimento, a razão
E a promessa

Promessa de me colocar na frente
Me proteger do perigo eminente
De construir uma casa pra gente
Quando devo seguir meu próprio caminho

Ah, eu me sinto vazio
Uma solidão que não aquece o frio
Que congela o coração palpitante
Que me distancia do que é querido

Consequências de se ter o limite
Traído
E fazer o lamento
Tardio

1 – Sol

Deixe o sol brilhar…

A lagarta comeu a planta
A planta do jacarandá
Mas a árvore tinha muitas folhas
E o sol continuou a brilhar

A pedra quebrou no monte
Causou uma terrível avalanche
Por sorte, caiu no mar
E o sol continua a brilhar

Quis ir pra praia hoje
Céu azul
o sol a brilhar
Meu amor no buzu
Melhor não poderia ficar
Mas o céu cinzou do nada
E a chuva caiu, desajeitada
Toda torta só pra nos molhar
Mas, mesmo com o cinza do céu
Ou a água que pudesse pingar
O sol estava brilhando
Esperando a nuvem passar

Meu pai construiu uma prisão
Bem parecia uma longa casa
Um labirinto sem volta ou perdão
Sem teto, o sol passava

E eu estava estudando
Estava nervoso, no meu canto
Digitando sem parar
Olho pela janela e lembro
O sol vibrando no fim da tarde
O céu cheio de cores
A natureza fazendo arte
O sol, é claro
Protagonista
fazendo sua parte

Foi dia de briga
Corri até quando não aguentava
Respirei fundo
Tentei acalmar minhas passadas
O sol na cabeça doía a casca
E o calor nos pés queimavam como brasa
Violento, mas resoluto
Ele assistia sem passar nada
Assistiu meu luto
Assistia minha raiva
Perto o suficiente
Para iluminar a caminhada
Longe o suficiente
Para me deixar na mágoa

Mas, independente de minha opinião
Sentimentos
Desejos
Obsessão

O sol brilhava

Hipnotizando quem se interessava
Transformando amor em ardor
Eu o reconheço de vidas passadas
Eu corro para alcança-lo
Me estico por completo
Pulo acima do mar aberto
Estico minhas asas

Voo, por cima do mar Egeu
Voo, porque ele tem de ser meu
Voo, pois não me esqueço dela
Voo, uma nova chance me espera

De cima eu vejo eles pequenos
De baixo, o pequeno sou eu
Subo até perde-los de vista
Me perdendo por inteiro
O que dói meu peito
E volto a ser artista

O sol se queixa de minha chegada
“Faça com que eu seja lembrada”
E caiu de lá de cima
Como um cometa-escriba
Com a cauda desenfreada

Recorro a minhas rimas
Palavras usualmente sem graças
Caio em meio a minha desgraça
E o sol sorri de lá de cima

Continuo a minha jornada

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Sol é um assunto complicado pra mim. Foi difícil escrever esse.