Refaço meus passos dados

Refaço meus passos dados
Caminho para longe de todo marasmo
De todo cansaço e esculacho
Que me enfiei em busca de mim

E o que vim fazer aqui?
Continuo caminhando sem resposta
Sem destino final ou chegada
E, quando eu paro, faço uma aposta
Com os dedos cruzados nas costas
Sem saber se para sorte ou para engana-la
Eu juro
Juro que não vou tentar mais mudar
Que esse finalmente será o meu lugar

Eu faço a minha morada
Construo minha vida ao redor
Planejo o melhor para minha casa,
Para minha vida e meu futuro
Ah, mas versatilidade precisa acompanhar
O crescimento de um adulto
Quanto mais eu firmo o chão em que piso
Eu vejo a casa cair com chão e tudo junto

Rostos borrados acompanham meu fracasso
Palavras que não mudam a minha realidade
É apenas o som do relógio me acorda
“Preciso tentar de novo”

Volto ao caminho trilhado
A cada gole de água, um passo
Caminho até o sol parar de brilhar
Até minhas pernas não poderem mais aguentar
E aí eu sei que estou na metade do caminho

E continuo andando

As vistas cansam
Os olhos ardem
Os bocejos são mais de costume do que sono
E o cansaço é a dor na cabeça intensa
É a coluna gritando por piedade
E a fome torcendo a barriga de maldade

Preciso parar mais uma vez
Por mais que eu não aguente mais mudar
Ter uma vida flutuante sem certeza de amor
Ou de amigo
Vivendo debaixo de um sol
Abrasivo
Dia após dia fazendo mais
Inimigos

Eu preciso ter alguns pontos de parada
Para respirar, beber uma água
Para me sentir vivo
E construir uma nova casa
Perceber minhas mudanças
Conhecer novas caras

E talvez ser alguém melhor
Claro, com muita lágrima e suor
Não por vangloriar a dor,
Mas por saber quem sou
Será necessário sofrer
Perder amigos
Mudar e me mover
Preciso conciliar a vida
Para então não sofrer
Com a partida
Tanto minha
Quanto dos outros
É que eu continuo os amando
A cada um, um pouco

Se antes meu coração ficava com eles
Agora eles me acompanham
E a cada parada
Novos amores vão chegando
Amores de amigos
Amores de irmãos
Amores de castigos divinos
Amores que me deixam são

De repente eu terei que ir
Arrumar minhas trouxas e tralhas
E me picar daqui
Mas nunca deixarei pra trás
Todo o amor que eu senti

Nessa vida dura que me espera
Nessa viagem que é eterna
Porque dura o quanto eu existir

E eu continuarei andando

Se aqui não restar mais vida para mim

Eu me perdi

O reflexo de meu tormento
Se esconde dentro de mim
Como uma erva daninha no jardim
Eu quero arranca-lo sem ressentimento

Vejo minha criança interior
Ela chora ao se ver no futuro
Eu com toda força do ardor
Negligencio, deixo ele mudo

Mas não esperava que ela pudesse
Projetar em mim os piores medos
De fato sua força ela conhece
Tão poderosa que me vejo cedendo

E eu falhei com meu Ícaro pequeno
Sei que falhei várias vezes com ele
Ele só queria viver bem e pleno
Mas eu queria o sofrimento na pele

E o que segue um auto sacrifício
Nem sempre é algum benefício
Eu me destruí por nada esses anos
Por isso a criança continua chorando

Eu achava que estava sendo forte lutando
Estratégia que gerou resultados esperados
Mas não vale a pena continuar desmoronando
Só para eu conseguir viver minha verdade isolado

Eu agora não tenho mais nada para dar
Porque tudo já foi trocado por felicidade
Eu só tenho memórias que viram saudade
E tristezas que eu visito na porta do bar

Quais incertezas giram na cabeça de um homem feito?

Que insegurança poderá penetrar na alma de uma pessoa bem sucedida?

E sinto a fraqueza de ser alguém bom
Como uma planta que definha no jardim
E sinto que tudo agora depende de mim
Pois no fundo de cada um há um som
Que nos guia em direção ao fim

Pois acabarei sendo a criança chorando
Batendo a cabeça no chão, esperneando
Tentando lembrar ao meu eu mais presente
O que precisa para se construir dignamente

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Reflexão pré-escrita:

Ando vendo o reflexo de meu eu criança correndo atrás de mim, chorando e brincando. Eu cresci rápido demais e eu nunca quis ser adulto, mas cá estou: homem formado com o mundo de responsabilidades em cima de mim, mais do que simplesmente brincar até cansar.
E eu adoro isso. Eu realmente precisava crescer e viver tudo isso… Mas valem as perdas? Ao olhar para trás e pensar em escolhas que tomei, fases que já passei e respostas para certas perguntas que me definem até hoje eu me sinto derrotado pelo tempo que concretou meus caminhos trilhados. Certamente todos esses caminhos me formaram e eu não poderia escolher outros. Sei que foi o melhor que eu podia escolher ou ao menos o que minha cabeça considerava o melhor para mim, mas eu ainda assim não consigo me perdoar por não ter sido uma pessoa melhor.
E eu sinto tanto sua falta…
Nesses momentos em que eu estou sóbrio e dentro de uma experiência profunda, eu me encaro e vejo a criança de novo brincando. O que essa criança espera de mim? Como eu posso ser amigo dela de novo?

Eu perdi minha felicidade interior. Eu perdi meu amor e meu brilho nos olhos. Eu perdi a vontade e a gana de conquistar meus objetivos. E isso tem a ver com a minha criança. E adolescente. E adulto. Todos vivendo dentro de mim.
Eu quebrei e ainda não consegui consertar.

Foda.

30 – Pancadaria

Nós pessoas com pênis e meninos
Somos criados pra luta
E quando eu digo luta, é pra agredirmos
Para ganharmos logo sem disputa

Eu sofria muito quando pequeno
Sempre fui um pouco ingênuo
Os meninos batiam em mim
Eu não conseguia fugir
Olhava para o espelho
Via um gordinho estranho e feio
Difícil foi a luta daí

O tempo passou
E acredito que a luta foi contra mim
Mudei muito de lá até aqui
Venci medos, e olha onde estou
Na estaca zero
Nunca fui bom de lutar

29 – Amor

Odeio escrever sobre amor
Tudo no mundo é sobre isso
Parece que não há outro esplendor
Que só há esse feitiço

Pois eu quero quebrar essa ideia
Posso escrever sobre a vida
Não me permito viver nessa miséria
Não quero saber o que amar significa

Não preciso amar para sentir empatia
A vida já nos dá infinitas agonias
Precisamos juntos aprender a viver
Sem depender do amor, somente crescer

Crescer vendo o mundo girar
Aprendendo a ver os detalhes do dia
Aprendendo a gostar de odiar
Permitir-se destruir um lugar
Ou até mesmo gritar com a tia

Amor é uma idiotice sem tamanho
Que engana trouxa que não pensa
Faz a lógica dobrar seus panos
Algo irrelevante do nada pesa
Você não estava nos planos
E acabou.

Não se deve nada ao amor
Não vou falar mais sobre isso
Se você quer se dispôr
Boa sorte, seu estrupício

28 – Dilacerar

Quando eu te vi
Não acreditei na hora
Você tão lindo ali
Fui falar sem demora

Não sabia se você queria
E eu estava meio tonto
Mas o desejo foi meio guia
E você respondeu no ponto

Queria ficar mais um pouco
Eu me derreti todo contigo
Você falava coisas sem sentido
Me afastei me achando louco

Louco eu fui por não aproveitar
Só olhar pra você não consigo
Seu sorriso, você é tão comedido
Meu objetivo é quebrar seu juízo

Ver seu olhar ao se perder
Deslizando seu corpo no meu
Se divertindo sentindo prazer

Desejo provocar você agora
Como tu me provocas
Porque quando você está em volta
Uma fera de mim se apossa
Não consigo pensar em nada
Além de ver sua carne dilacerada

Não há mais corpos
Apenas linhas e conceitos
A consciência perde o foco
De Ícaro eu me esqueço

Os instintos imperam soberanos
Quero rasgar suas linhas
E mesmo te conhecendo faz dias
Quero você por anos

A vontade é a destruição completa
Você me arrebenta de me fuder
Eu explodo sua cabeça
Tudo que sobra sou eu e você

Babo vendo você andando
Cansado, mas me chamando
E eu vou, meu amor
Vou te dar meu calor

27 – Gótico

As forças do inimigo
Oprimem a mente do fiel
Se te envolvem em fel
Então serão meu abrigo

Jesus morreu antes de nascer
Constantino lhe deu esse prazer
Agora o espírito santo é o guia
De mentes e almas já vazias

Pois eu persigo o sonho meu
Fugindo da estagnação passada
Voando e derretendo pelo céu
Mas ao cair não me arrependo de nada

Eu me importo com os outros
E também com a vida humana
Quero ter uma vida bacana
Ver meus amigos bem soltos

Mas a atual bondade ingênua
Afoga o bem de verdade
Num mar de pura insanidade
Deixando uma quietude plena

Pois eu rasgo essa fantasia do além
E procuro entidades humanistas
Há uma beleza no sacrifício, sei bem

E refaço meus estudos
Penso em meu lugar no mundo
Dedico a minha vida aquilo
Respiro o estilo artístico.

25 – Paranormal

Há uma sombra vermelha
Pairando pelo mundo
Uma ameaça a tudo
Apagando a centelha
Corrompendo o futuro
O imundo virará rei
E o rei perderá prestígio
A violência eu herdei
Minha resposta é homicídio
Não prometo vida boa
A vagabundo pé rapado
Vai segurar teu fardo
Não importa o quão árduo
Eu sou sua patroa
Seu patrão, seu dono
Mando e desmando
E assim eu me imponho
Resposta não tô aceitando
Mas esses comunistas são demais
Que absurdo falarem sobre paz
A lei da vida já está dada por aqui
Alguns humanos só servem pra servir
Eu não sou como esses outros
Também vem de minha família
O apreço, a norma, os gostos
Somos como uma matilha
Correndo entre os nossos
Degolando cordeiros
Isso tudo é verdadeiro!
Nossa força depende de seus esforços
Então não morra, bobo.
Trabalhe que nem louco
E no final de tudo isso
O problema é o fantasma do comunismo

24 – Fantasia

Acordo de manhã
Mais um dia na rotina
Banho para aguentar a sabatina
Café, pão, carinho no cão
E partida

Um caminho longo e tortuoso
Perguntando “por que saí de casa?”
Saio cedo e para meu desgosto
O transporte ainda me atrasa

Chego no lugar e começo minha função
Calado sempre pra não chamar atenção
Falo com meu colega uma piada besta
Ele não entende e eu volto meu corpo à mesa

Passo o dia envolvido em problema
Meus, dos outros
E de quem mais me conheça
Fujo e caio em mais esquema
Desejo que todo mundo desapareça

O dia acabando e só humilhação
Vou tentar beijar um gatinho pançudo
Ele me encara com um terror absurdo
Eu me retiro rapidamente logo então

Voltando para casa e eu estou cansado
Mais um dia em que fui humilhado
No celular mil mensagens do meu lado
Finjo-me de abestalhado

A viagem de volta é pior que a ida
Pessoas perderam sua fé na humanidade
Já desistiram de suas vidas
Tratam aos outros com sincera maldade
Eu só quero chegar no meu local de saída

Chegando em casa e tudo apagado
Ligo as luzes e ponho comida no prato
O cão pede sempre um pedaço
Tomo um banho e subo para o quarto

O meu dia existiu e foi sem parar
Eu não quero viver o mesmo lugar
O mesmo minuto, o mesmo real
Eu quero um mundo mais igual
Um espaço que eu sinta paz para ficar
A depressão de viver o real me é fatal
Não consigo mais me suportar

E é quando os sonhos aparecem
A fantasia, os segredos, o mundo celeste
Um escapismo para um lugar bom
Em que eu possa criar conforme meu dom

E você sente que é capaz de suportar
E sente que o presente é uma dádiva
Que você pode e deve transformar
Para não se afogar em lástima

Por favor, mergulhe na fantasia
Destrua seus muros literários
Soma esse mundo ao mundo imaginário
Alguém precisa parar a hipocrisia
De que sonhos são para crianças
E o real não pode ter magia

23 – Gore

Uma agulha entrando na córnea
A respiração automática parando
Tem algo que tá incomodando
Logo embaixo de sua unha

Corpo queimado aos poucos
O sol não é suficiente para meu receio
Deixe-me pensar em um jeito novo
De roteirizar sofrimento alheio

Vísceras explodindo em sua frente
Geralmente garotas sendo fatiadas
Brincar com corpos graças a internet
Vamos ver qual morte será mais falada

Eu parei de ver graça no gore
Não acho muito interessante
Existe outras formas telling a story
Não precisa de agonia incessante

22 – Emo

I don’t mind where you come from
As long as you come to me
I don’t like illusions I can’t see
Them clearly

O sentimento de vazio
Sentimento de solidão
Um Sofrimento bem cristão
Como se um buraco abrisse
E engolisse o sentimento bom
Como se a terra não tivesse perdão

Sofrer por viver é inevitável
Então porque não tornar isso claro?
Demonstrando sempre que estou revoltado
Viver pelo que sinto sem limite exato
A opinião dos outros… Jogo no saco

Roupa preta e maquiagem barata
As unhas bem mal pintadas
Um fone que salva o mundo
Não pode dar vazão aos absurdos

A cabeça toda complexada
Absurdo é o que não falta
Aonde estamos indo, ente?
Não nos calaremos a barbárie
Seremos sempre irreverentes

Mas o objetivo não é o mundo
Mas salvar a nós mesmos
Que sabemos lá no fundo
A guerra transformou tudo em esmo

Não há mais verdade
Que emita confiança
Nem mais um futuro
Que possa servir como esperança
O que temos hoje é nós
A arte que gostamos
Um artista e sua voz

Mergulhamos na autodestruição
Procurando um sentido da vida
Em meio a mentiras e enganação
Mas esse desafio parece não ter saída

Uma gota é uma enchente
E uma brisa se iguala a furacão
Não tem como um adolescente
Amadurecer rápido e com noção

Finalmente, digo o que é emo
É sentir o gosto do veneno
Viver a noite no sereno
Românticos se sentem plenos
Sabendo que pegamos seu lugar

O veneno é letal, mas não se assuste
É necessário entender a morte que ruge
As crises existenciais assombram a noite
Cada um com as técnicas, evitando a foice

Porém alguns não a evitam
Cedem ao desejo dos demônios
Sussurrando em cada ouvido
Dedicam àquela vida um último suspiro
Esses são os mais fortes
Os destemidos

Mas cabe aos emos segurar
O peso de sentir o sofrimento
Estuda-lo e entrar em consenso
Com os fantasmas a te puxar

Estes, os emos, são guardiões
Que guardam para os vivos
Os pesados e imensos portões
Entre o “definho” ou “sobrevivo”