A chuva estava torrencial quando Yragos subia a rua e cada uma de suas passadas equivaliam a dois dos seus passos normais, revelando sua ansiedade e angústia, como se estivesse atrasado para um compromisso importante
“Espero que Ossent chegue logo.”
Suor escorria em sua têmpora e em suas mãos, mas Yragos não tinha tempo para pensar nisso. Ele precisava chegar no ponto de encontro exatamente no mesmo momento que Ossent, sua companheira de grupo, chegasse, mas por conta de tudo que estava acontecendo, ele preferiu ir mais cedo um pouco e esperava que Ossent tivesse a mesma ideia. Eram quase cinco horas da tarde, mas as nuvens pesadas no céu faziam parecer quase noite. As ruas estavam muito vazias, como de costume, afinal não era todo mundo e não era sempre que alguém precisava ir para o centro da Fortaleza. Imensas casas e torres de pedra branca, cinza e azul escuro subiam pelas ruas recém pintadas em tons amarelos, vermelhos e branco, como se tentassem animar aquele dia cinzento. Os iluminantes bastões de luz já começavam a acender, dando uma sensação um pouco fantasmagórica àquela rua fria de chuva. Yragos virava a esquina quando se bateu com um senhor carregando diversos materiais diferentes em suas mãos
“Desculpa – disse, enquanto apertava o passo, sem esperar sequer ver o rosto do senhor”.
Dali ele começava a ver o ponto de encontro: o Centro de Aperfeiçoamento e Análise do Absurdo (CAAA), uma casa gigante situada em um terreno maior ainda. Ele diminuiu o ritmo do passo para se acalmar e conseguir pensar direito. Tudo tinha que dar certo naquele dia e eles só tinham uma chance. Ao longe, Yragos via que Ossent estava quase no lugar marcado. Novamente, apertou o passo.
Eles estavam ali para uma missão que seu grupo confiou a eles. Os Sem Pátria foi um grupo criado há mais de um século por pessoas que entenderam que haviam determinados fatores que impediam a atuação do Estado ou dos grupos de apoio em determinados lugares ou o contrário: a atuação do Estado piorava determinados fatores da comunidade e, por conta disso, era necessário um grupo de iniciativa própria das pessoas ali de intervir contra àqueles problemas. E era quase natural que realmente existissem essas organizações, a ideia se espalhou e era muito comum que existisse até uma comunicação entre as SP próximas, com uma reunião a cada seis meses dos principais responsáveis. Mesmo com toda essa responsabilidade, eles nunca quiseram auxílio ou participação do governo ou de outros grupos dentro de suas ações. Às vezes eles atuavam até mesmo em segredo e muitas vezes nem mesmo os moradores sabiam quem eram os membros da organização. As queixas eram feitas a informantes que traziam para um representante da agência.
Apesar da discrição, era nada grandioso demais e pouquíssimo trabalho, afinal não tinham muitos problemas que os grupos de apoio dos trabalhadores não pudessem resolver… Até ser criada a CAAA. Ao abrirem os primeiro cinco laboratórios de testes do absurdo há cerca de trinta anos atrás começaram a surgir murmúrios de atividade suspeita na região. A princípio, os moradores alegaram que estavam ficando loucos, mas ao conversarem entre si entenderam que não: eles tinham a impressão que algumas mudanças estavam acontecendo a todo o tempo sem que percebêssemos. A cor das ruas, de dentro de suas casas, a forma de alguns objetos e até mesmo imagens de seus sonhos reaparecendo no mundo real.
Os SP não acreditaram, mas ainda sim mandaram um grupo descobrir o que estava acontecendo – e eles nunca voltaram. Isso aconteceu há uns dez anos e os SP decidiram não tocar mais no assunto e encerrar de vez a situação, no entanto cada uma das sedes fazia sua própria investigação de sua área, mesmo com a desaprovação geral do conselho dos Sem Pátria.
Naquele dia, Yragos e Ossent tinham uma missão simples, mas importante: às cinco horas e dez minutos do próximo dia de chuva foi notificado que um homem sairia com algum tipo de caixa da CAAA e entregaria a eles. Eles, com a caixa, sairiam de lá o mais rápido possível e iriam para o esconderijo dos Sem Pátria. Eles tinham que ser impecáveis e aparecer sem atraso. Se o entregador não os visse, ele iria embora. Foi lhes dito que o conteúdo da caixa responderia muitas perguntas e deixaria novas em aberto e, como eles nunca tiveram uma resposta sequer sobre o que acontece no CAAA, essa era uma oportunidade única.
E lá Ossent estava, chegando no muro do Centro. O CAAA era uma casa enorme situada em um terreno maior ainda. Diversas vinhas subiam de suas paredes marrons-terra até seu teto em formato hexagonal, como se aquela casa tivesse submergido do solo para cima. Ao longe, não podia ver direito, mas dava para dizer que embaixo de toda aquelas plantas haviam diversos símbolos e desenhos que seria muito difícil de reconhecer. O grande terreno ao redor da casa estava ocupado por grandes equipamentos tecnológicos para captações de ondas e bulbos de eletromagnetismo, o que destoava muito da arquitetura meio rústica, brutalista do resto da cidade. Um muro de um metro num tom de rosa claro detalhado em branco, um pouco desgastado, separava não o terreno da pista, mas as pessoas do terreno. No portão principal de metal de quatro metros num arco que desafiava qualquer estudioso ou construtor com desenhos de animais enfeitando suas grades havia um aviso escrito:
ATENÇÃO:
Não ultrapasse!
Área restrita
Trabalhadores, favor evitar passar por aqui.
Os bulbos e os medidores podem ser perigosos e são muito sensíveis!
Os dois foram escolhidos para a missão porque os dois moravam perto. Yragos morava há duas esquinas dali e Ossent morava na direção contrária por um ou dois quarteirões. E lá estava Yragos chegando. Ossent estava com sua jaqueta usual e suas botas sujas com a chuva.
“Quase se atrasa, como pode?” – diz ela, sem nenhum receio ou intervalo, já se apressando para chegar no Portão
“Um senhor me atrasou, e a gente chegou cedo demais. Será que vão suspeitar ou alguma coisa?”
“Dificilmente. Ninguém vem aqui, pelo que pude ver nos últimos dias. Essa área da cidade realmente é bem abandonada. Nem mesmo os funcionários entram por aqui. Talvez existam gravadores de vídeo, mas com a chuva eles provavelmente estão embaçados. Muitas variáveis hoje e minha primeira pergunta é: como ele, ou ela ou elu ou sei lá, sabia que conseguiria fazer isso num dia de chuva e que esse dia seria próximo?”
“Talvez estude clima e tempo. Talvez esse seja o absurdo: a aleatoriedade do clima!”
“Talvez você seja muito burro.”
Eles chegaram no portão às 5:08 e esperaram cada minuto como se fosse uma hora. Cinco e nove. Cinco e dez. O minuto inteiro passando e os dois tentando enxergar se havia algum movimento dentro daquele mausoléu ao longe, mas nada mudou. Continuava com o aspecto de abandonado e distante. De repente, um trovão e um clarão atingiu o céu e, no momento em que os dois piscaram no meio daquela chuva, um reflexo passou pelos olhos de Yragos. Atrás dele, uma pessoa meio metro menor que eles dois grunhiu limpando a garganta.
“Com licença, senhores. Isto aqui é para vocês.”
A pessoa que se tratava provavelmente era uma estudiosa. Seus vestes eram pesados com diversos bolsos, a maioria ocupado com algum tipo de pequena engenhoca e a outra parte era com escrituras, estavam cobertas por uma capa de chuva bem maior que seu corpo, o que sugere que foi emprestada por outra pessoa. Um sorriso malicioso e um brilho diferente no olhar foram as únicas feições que Yragos conseguiu lembrar daquilo que estava em sua frente.
Com um movimento, a pessoa deixou uma caixa feita de um material muito curioso no chão e desceu a rua. Yragos e Ossent já haviam tratado de alguns assuntos mais estranhos que pegar uma caixa na mão de um estranho naqueles lugares, mas aquilo foi tão abrupto que eles ficaram sem reação. Yragos podia jurar que o homem passou por eles debaixo do muro para a calçada, mas era impossível alguém ser tão rápido. Piscou mais uma vez e viu Ossent andando, ou melhor cambaleando.
“Siga aquilo agora, eu fico com a Caixa. – dizia ela, e parecia dar urgência ao que dizia, mas sua voz perdera todo o tom energético de alguns minutos atrás.”
Yragos olhou ao redor, mas a chuva tinha ficado mais forte ali, fazendo ficar cada vez mais difícil enxergar mais do que alguns metros à sua frente. Ele já teria perdido quem o entregou a caixa.
Olhou para Ossent novamente e ela havia caído no chão. Seu rosto estava pálido e seus olhos estavam arregalados. Ela olhava para dentro da caixa. Yragos logo puxou Ossent para cima e a segurou contra o muro para que ficasse em pé, mas ela parecia em choque. Não se movia e nem fazia muito movimento além de respirar fundo.
“Deixe-me aqui. Leve a caixa para a sede e não olhe para dentro. – dizia Ossent, tentando se mover para se soltar de Yragos. – Eu vou ficar bem. Saia daqui com a caixa agora!”
E com esse grito que parece que levou toda a força que Ossent ainda tinha, Yragos a soltou no muro em que ela já tinha se equilibrado para segurar e manter-se em pé. Ele pegou a caixa com um de seus braços e desatou a correr pela rua.
Primeiro quarteirão. Segundo quarteirão. Ele se sentia mais confuso a cada passo. Quem era aquilo e por que ele sentia que não era de Ausmus? O que tinha naquela caixa? Por que Ossent agiu daquela forma? O que quer que fosse que estivesse na caixa, estava balançando bastante na corrida. Não parecia nada mais do que um pacote pequeno de ração de comida e Yragos naquele ponto já estava cansado de levar algo que ele nem sabia o que era. Não entendia porque Ossent tinha sido tão incisiva com o não olhar para dentro. Ia dar só uma espiada e continuaria indo para a sede. Quase estava lá. Não ficava tão longe de sua casa… Era uma corrida tão tranquila…
No terceiro quarteirão Yragos não pôde mais segurar a curiosidade. Parou de frente para um beco, entrou na beirada e olhou para a caixa. Ela era áspera, em um formato retangular, meio verde e bege. Havia uma abertura na frente dela, uma fresta com uma grade. Yragos pegou a caixa com as duas mãos e virou a fresta para seu rosto e…
Continua.
