Em janeiro eu fui ingênuo
Me atribulei com atividades
Nao sabia o que estava fazendo
Não via nenhuma maldade
Em Fevereiro o mundo explodiu
Intenso como o sol de verão
Foi carnaval no Brasil
Mas os dias passaram em vão
Em Março começou o surto
O tempo passando rápido
Eu sem mover um músculo
Pávido
Abril passou dolorosamente
Os cheiros de amores como café
Amargo, energizado, quente
As vozes me mantinham de pé
Me questionei se tinha alguma fé
Naquele ponto poderia ser qualquer uma
Maio foi novos sabores
Novas pessoas, novas visões
Maio foi um mês de puras dores
Novos problemas e decepções
Junho, o mês do estrago
Ansiedade, medo e frustração
Andando juntas mão a mão
Eu me desvencilhando do buraco
Procurando um abraço bem apertado
Procurando sexo sem paixão, coitado
Mas nem isso eu acho
Como Zuko, o destino não está claro
E termino só, como sempre foi
Apenas minha sombra ao lado
Julho de redenção, fortuita
Consigo caminhar a conta gotas
A dor ainda fica por muita
Mas nascem também emoções outras
Profundas
Agosto, um ouro de tolo
Escrever se torna um absurdo
E o trabalho fica perdido no processo
Tenho medo das palavras
Medo de meu regresso
Um novo surto me abala
Então largo tudo e ando solto
Com uma mão no bolso
Pensando em não pensar em nada
Setembro, o doce é um veneno
Acredite em você mesmo
Não pense pequeno
Inspiração? Olhe pro espelho
Mas não se convença por inteiro
Seja ágil como o vento
Rápido, quieto, incontrolável
Quem sabe a dor se torna suportável
Talvez você encontre poder no diálogo
Eu sei que ainda está confuso e doendo
Mas você não é mais tão fraco
Outubro, estamos aqui
Não paramos um dia
Sempre um passo a seguir
Responsabilidade que não cumpri
Outras que estão cumpridas
A racionalidade me guia
Sem ela, eu me perdi
Sentimentos nunca serão tirados de mim
Sinto muito, sou assim
Aventuras que me chamam
As tarefas que eu adianto
O mundo não para ao me ver cair
Isso também eu entendi
Eu não sei o que me aguarda
Não sei se vejo um futuro
Pela primeira vez na vida,
seguro a espada ao invés do arco
Luto de frente contra demônios do passado
Às vezes atolado no barro
Às vezes líder de um Estado
Não sei se vejo um futuro
Tateio as paredes enquanto ando
Ando e faço curvas no escuro
Cubro minhas mãos quando sangram
E fico sem saber que direção procuro
Mas não faço mais o que me mandam
Acho o labirinto mais seguro
Reflita, reflete, respiro, impede
Conflito, compele, conspícuo, compete
Não sou um ganhador
Não sou sequer um jogador
Eu sou um fazendeiro
Colhendo as mudas
Regando o dia inteiro
Comemorando as frutas
E dormindo cedo
Eu sou um leitor de livros
Que se irrita e se emociona
Com o personagem favorito
Aquele que escolhe o menos querido
E torce para que tenha um fim bem quisto
Eu sou um pesquisador
Eu colho e analiso meus dados
Observo e duvido dos fatos
Eu sou quem trabalhos inspirou
E mesmo assim eu sou ninguém
E sou o público consumidor
Sou uma senhora ou um senhor
Não sirvo para ser manipulado
Jogado de um lado pro outro
Ser mexido como uma caixa de biscoito
Consumido para um jogo de retalhos
Esquematizados
Não é de meu feitio, não é o meu caso
Tag: Reflexão
Ter algo
Eu não tenho chão. Não tenho casa. Não tenho emprego. Não tenho futuro. Não tenho investimentos ou amores. Não tenho ações. Não tenho bolsas ou valores. Eu não tenho amigos. Não tenho brinquedos e nem livros. Não tenho o ar que eu respiro. Não tenho a roupas que eu visto. Eu não tenho a comida que como e nem o cuspe que eu projeto. Eu não tenho meu cérebro.
Eu não tenho minha família.
Não tenho o sol que ilumina todos os dias. Eu não tenho a chuva, o calor ou o frio. Eu não tenho a expectativa, o medo ou o equilíbrio. Eu não tenho uma caneta sequer. Não tenho o papel. Não tenho o talento da escrita, do desenho ou do pincel. Eu não tenho o ímpeto. Não tenho a ação. Não tenho o “sim” e não tenho o perdão — nem o seu e nem o meu. E, muitas vezes, não tenho sequer o “não”.
Eu também não tenho o nada, pois por mais que eu não tenha tudo, ainda uso um ou outro ocasionalmente. Às vezes por tempos, outras vezes por sentimentos. Mas vão e passam, afinal eu realmente não tenho tempo e nem mais nada.
Houve um momento em que eu queria ter tudo, eu queria ser tudo. Eu precisava ter algo para ser alguém. Hoje eu sei que ter é mentira.
Esse é meu problema com a modernidade líquida e com a solidez que se desfaz como fumaça no ar. Por mais que realmente o capitalismo esteja muito dinâmico, numa velocidade que nem nós suportamos, isso não significa que estamos deteriorando. Não significa que somos piores que antes. Não significa que estamos doentes. Só significa que estamos diferentes, e o passado foi cruel e excludente. Foi insensível e imoral. O passado queria que todos tivessem o necessário, mas nós não temos nada.
Não temos.
Eu entendo isso.