Ter algo

Eu não tenho chão. Não tenho casa. Não tenho emprego. Não tenho futuro. Não tenho investimentos ou amores. Não tenho ações. Não tenho bolsas ou valores. Eu não tenho amigos. Não tenho brinquedos e nem livros. Não tenho o ar que eu respiro. Não tenho a roupas que eu visto. Eu não tenho a comida que como e nem o cuspe que eu projeto. Eu não tenho meu cérebro.

Eu não tenho minha família.

Não tenho o sol que ilumina todos os dias. Eu não tenho a chuva, o calor ou o frio. Eu não tenho a expectativa, o medo ou o equilíbrio. Eu não tenho uma caneta sequer. Não tenho o papel. Não tenho o talento da escrita, do desenho ou do pincel. Eu não tenho o ímpeto. Não tenho a ação. Não tenho o “sim” e não tenho o perdão — nem o seu e nem o meu. E, muitas vezes, não tenho sequer o “não”.

Eu também não tenho o nada, pois por mais que eu não tenha tudo, ainda uso um ou outro ocasionalmente. Às vezes por tempos, outras vezes por sentimentos. Mas vão e passam, afinal eu realmente não tenho tempo e nem mais nada.

Houve um momento em que eu queria ter tudo, eu queria ser tudo. Eu precisava ter algo para ser alguém. Hoje eu sei que ter é mentira.

Esse é meu problema com a modernidade líquida e com a solidez que se desfaz como fumaça no ar. Por mais que realmente o capitalismo esteja muito dinâmico, numa velocidade que nem nós suportamos, isso não significa que estamos deteriorando. Não significa que somos piores que antes. Não significa que estamos doentes. Só significa que estamos diferentes, e o passado foi cruel e excludente. Foi insensível e imoral. O passado queria que todos tivessem o necessário, mas nós não temos nada.

Não temos.

Eu entendo isso.

Força da natureza

Eu não preciso ser o diabo
Eles se destroem ante meu tato
Eu não preciso tornar a vida deles um inferno
Não me importo para o desespero eterno
Eu quero o sentimento do trabalho bem feito
Bem acabado

Eu não preciso lidar com machos
Servem para diversão, para esculachos…
Sou feito de aço inoxidável
Eu não racho
Por que estou com tanto medo desses viados???

Eu não preciso me odiar
Por não entender sentimentos
Eles florescem daqui de dentro
E transbordam à fora ao chorar

Sim, eu posso chorar
E choro mais mil vezes se preciso
Eu sinto dor, eu recebo o tiro
Eu me curo, eu me retiro
Eu crio meu próprio lar
Meu próprio abrigo

Não sou tampouco um morto
Eu respiro, eu vivo, eu morro
Todos os dias, de novo e de novo
Eu sou o algoz e eu sou o casulo
Estou dentro de um ovo procurando
Um início oportuno

Eu esqueci que sou poderoso
Eu sou mais forte que o Estado
Eu sou as ruas, eu ando por todo lado
Respiro a vida de cada coitado que vive jogado nos cantos
Sou cada canto de cada cansaço que sobreviveu a mais um dia

Sou artista, antifascista
Sou mais do que essa poesia
Porra, eu não sou magia.
Eu sou ato.

Sou minha desgraça
E de quem se colocar no meu caminho
Sou a miséria imediata
Daquele que me enfrenta sozinho

E, se trouxer mais gente,
Vai ficar perdido
Colocou vocês em transe
Fodo a mente e pego a primeira saída

Eu esqueci que eu sou meu guia
Das estradas que forja sou eu
Dos milhares de caminhos trilhados
Todos meus
Assegurando que ninguém me seguia
Com uma vela na mão
e na outra
minha companhia

Somente eu posso realizar minha pesquisa

E eu posso fazer isso fácil
Sou o trono da rainha
Se existe o poder, sou eu que faço
Se existe alguma simbologia
É porque eu existo
E dou sentido para tudo isso

I’m a wanderess
I’m a one-night stand
Don’t belong to no city
Don’t belong to no man
I’m a violence in the pouring rain

I’m a hurricane


Por que eu estou rodando em círculos? Feito urubu querendo carniça. Por que eu estou agindo como se homens definissem minha vida? Eu sou uma FORÇA DA NATUREZA! Eu sou um furacão. Eu sou um terremoto. Eu ando e eles elogiam. Eu nem preciso falar para eles saberem que estão errados. Eles babam para chegar perto de mim. Eu sou mais que divino, eu sou transcendental. Imparável, eu sou uma ideia sendo pensada. Eu sou imaterial, incomprável, inadquirível. Eu sou invencível.

Hurricane – Halsey me faz me sentir assim. Recentemente eu li a música inteira e percebi que ela não é tão boa assim, mas o refrão ainda me compra muito.

11 – Poder

Sabe quando você está prestes a estourar?
Quando parece que no mundo não tem mais ar?
Como se falar não fosse mais possível
Recuso me sentir tão despossuído
De mim mesmo

Quero criar meu próprio contexto
Para não depender de regras outras
Eu devo ter minhas próprias escolhas
Decidir se me coloco em tal ou qual eixo

Pois é uma decisão muito necessária
Entender que caminho seguir na estrada
Os apoios, incentivos, silêncios e vaias
A torcida pela vitória, a torcida pela falha

Pois quando escolho que caminho seguir
Me encho com normas e regras a cumprir
Pessoas me observam esperando exemplo
E novamente o sentimento de sufocamento

Eu só posso dar valor
Para o que eu me pus a dispôr
Eu só posso sentir medo
Daquilo que quero obter respeito
Eu só posso ter como desafio
O que me coloquei como caminho

Eu seleciono as brigas que eu luto
Batalho, sangro e suo no processo
Mas não tenho certeza do sucesso
Pode ser de qualquer sorte o fruto

Portanto antes de mais nada
Antes da crise ou da surtada geral
Procuro entender porque é importante para mim
A opinião de A, B ou X

E se eu me proponho uma instiga
Eu tenho que cumpri-la em suas regras
Mesmo que sufoque na mão amiga
Mesmo que isso me deixe depressivo

O poder é algo que você tem
E, por escolha, você dá para alguém
Submetendo-se às leis daquele ambiente
Estando sempre completamente ciente

Seja em um relacionamento
Ou numa escolha de vida
Você tomou a primeira partida
Cabe agora o merecimento