Um mundo tranquilo
Um mundo de paz
Onde todos os conflitos
Foram deixados pra trás
Ausmus está sendo criado
Para compensar as dores
Deste mundo amargo
que vivo
E, por maiores horrores
Que os ausmianos já tiveram
Enfrentado
Ainda vivem muito bem, obrigado
Não se esquecem do passado
Não, eles reconhecem todo o estrago
Mas ver o futuro de seus entes amados
Justifica as dores e perdas que dos heróis
Ainda lembrados
Este é um mundo singular
Os ganhos não são perdidos
Não se pode nem comparar
À desgraça do mundo fodido
Em que vivemos
No ar se espalha o veneno
Talvez seja sorte estar vivo
Não, é um arrependimento
Queria não ter nascido
Milhares de guerras já foram
E outras estourando agora
Esperança? Não seja idiota
Resistir é a única resposta
E as pessoas do mundo?
Bando de derrotados
Os espertos exploram os outros
E os bons vivem amedrontados
Tudo que esperam é a morte
Para mudar esse resultado
E é aí que eu entro
Para intercambiar os mundos
Entre o paraíso
E o inferno absoluto
Existem personagens de Ausmus
Para a trama começar
Existe algo por dentro do paraíso
Prestes a estourar
Cabe a elas decidirem
Como que seguirá…
Ossent sempre foi brava
Esperta e raramente ignorada
Sua voz inspirava pessoas
Dava a vida e forma para as coisas
Por mais perfeita seja a sociedade
Não existe o perfeito sem suas
Desvantagens
Ossent sabia o que poderia fazer
Mas não esperava o que iria acontecer
Com sua realidade…
De repente, ela entende a jogada
Putz e que furada que foi se meter
Não pode mais esquecer do que viu
Viu a verdade de tudo e de mais nada
De destemida, virou ameaça
De independente a uma coitada
Maldito Yragos, ou é burro ou mentiu
O importante é que ele vai fuder com tudo que existiu
Tal’laak é contemplativa
Paciente e receptiva
A idade ensinou tudo que ela precisa
Justamente com as outras sacerdotisas
Finalmente contemplada pelo trabalho
Mas… De repente algo está errado
Ela sente que não é quem costumava
Ser
Como se os deuses sussurassem
Como se tivesse ganhado algum poder
E existem personagens mundanos
Que sobrevivem no mundo de humanos
Num futuro não tão distante
Poderia ser hoje, amanhã
Como poderia também ser antes…
Larissa é uma coitada
Faz de tudo para sustentar sua casa
Trabalha em uma empresa desgraçada
Seu único conforto são seus momentos
Calada
Em sua cabeça existe o infinito
O inexplicável sentimento de conflito
Ela sabe que nada nunca vai mudar
Mas carrega consigo a esperança de ver
Um futuro mais digno…
Tem também o Luís Fernando
Conhecido como Nando dos Planos
O homem é chefe de um bando de bandido
Que rouba dados, altera fatos…
Se metem onde não deveria ser metido
Ele é um dos maiores pilantras do planeta
E, em sua última viagem, entrou em uma nova
Treta
Essa é diferente de todas as outras
Ele tem uma chance de mudar bastante
Como funcionam as coisas…
São esses quatro que protagonizam a história
O resto? Vão ter que ler para saber
O que posso contar agora
É vocês vão se surpreender
Tag: Personagem
Backstory de Baldr, o anão mago
E por que você ia querer saber disso, ein? Isso é assunto meu! Vai tratar do que você tem que tratar e deixe isso comigo! Sofrimentos passados não devem ser lembrados de forma tão fácil ou tão tranquila, imbecil.
O que eu posso dizer é que eu sou de longe daqui. As marcas e metais no meu corpo não me marcaram como o passado em que eu vim. Nasci bem, não nego. Filho de nobres anões de uma corte humana que há muito haviam desertado, eu já teria um lugar no mundo mesmo antes de me perguntarem se eu queria, mesmo antes de saber o que era o mundo.
Bem, o começo da história não é muito bonito. Eu nasci em uma vila de anões ao norte muito feliz. E aí os magos vermelhos apareceram e mataram todo mundo. Meus pais tinham dinheiro suficiente para subornar o líder daquela esquadra a me deixar sobreviver. Apenas eu… Ainda lembro os gritos de meu pai…
Bom, eles me levaram para um lugar conhecido pelo domínio de magos vermelhos. Na época eu não sabia muito sobre magos vermelhos, só sabia que eram chatos, poderosos e temidos. Eu sempre gostei da parte de ser temido, mas dos outros ali… Nunca fui muito com a cara não. Não tive tempo para deixar o trauma me corroer e busquei estudar magia desde o momento em que eu cheguei ali, pois me disseram que quanto mais poderoso eu fosse, mais me respeitariam.
Posso dizer que construir meu caminho sozinho, e o que esperar de um anão como eu? Vi muita gente que seguiu o caminho errado morrer… Aqueles que me captaram, porém, me protegeram até eu ter idade para me proteger só e, como os humanos envelhecem rápido, eu acabei tendo que defender meu espaço sozinho.
Um anão não envelhece como humanos, eu lembro meus pais explicando para mim a inferioridade deles. Quando os humanos perceberam que eu era um anão jovem, assim como quando eu percebi que humanos são fracotes, eles me deram as primeiras missões.
Os generais de mais alta casta na magocracia nos dava missões e eu sempre as completava, mas do meu jeito. Eles me mandavam destruir um vilarejo? Eu destruía as casas, mas salvava as pessoas. Traidores? Alguns mortos em minhas mãos, outros feitos como aliados para matar meus inimigos de dentro da organização. E eu já matei pessoas que estavam em meu caminho só porque eu podia. Algumas eu me arrependo, e vejo o rosto na luz das tochas à noite. Outras eu fico feliz por ter tido a oportunidade de matar, e até mesmo esqueci seus nomes.
Ainda assim, mesmo desde pequeno lá, magia foi algo muito difícil de aprender, o que me tornou a ralé da ralé lá dentro. Fez com que eu treinasse só e ficasse forte e resistente (diferente daqueles magrelos), mas também fez com que eu aprendesse magia para me defender.
Se o mundo te joga uma pedra, você não joga a pedra de volta. Você pega a pedra, entalha uma ponta afiada e tenta esfaquear o mundo.
Eu sobrevivi a este mundo.
Quando houve a cisão entre os poderosos magos, eu saí da organização. Sumi da área, fui procurar trabalhos melhores e, quem sabe, a vila de onde eu vim.
Nunca consegui achar tal vida. Acabei parando em Baldur’s gate ganhando a vida ajudando um velho sábio que, em troca, me ensinava magia. A vida era terrivelmente calma.
Até que algo aconteceu…
E você já sabe o que foi.
Explosão da cidade, o velho ficou curioso de saber e me mandou vasculhar numa caravana com outras pessoas. Achou que teria dinheiro, itens mágicos ou sei lá o que. Infelizmente eu sou mandado e sobrevivo ali, então vou fazer o que ele quiser que eu faça.
Acabou aqui a história. Feliz por saber alguma coisa de mim? Agora cala a boca, imbecil. Não quero mais ouvir nada sobre isso. Vai fazer algo útil.
20 – Brilho
Os adultos conseguem perceber
O brilho nos olhos da criança
E, agindo como quem quer vê-lo,
Manoela já assumia a liderança
A confiança em sua atitude
Tornaram suas palavras em lei
Abençoada foi por sua virtude
Logo disse para os moradores:
“Aqui eu não morrerei”
Logo depois procurou o templo torpe
Pois via em seus sonhos suas palavras
“A guerra está chegando, então te preparas”
O coração sentia um medo uniforme
Mas a cabeça a assegurava
Não mais importavam as batalhas
Cresceu em meio a soldados da fé
Mulheres ágeis e indecorosas
Umas com cicatrizes da cabeça ao pé
Outras imponentes e misteriosas
Todas guerreiras sempre preparadas
Os inimigos precisam ser eliminados
Sejam eles reis, magos ou outros soldados
Todos arrasados após a missão dada
E Manoela se tornou Gloriosa
Das mais fortes, a furiosa
Das mais místicas, a santificada
Ajoelhem, Manoela está na estrada
Guerras não passavam de títulos
Honrarias para seu nobre espírito
Triunfos consecutivos inflamavam templos
Mas havia algo diferente em seus pensamentos
Aquilo não era o suficiente para ela
Honrarias não resolveriam o problema
Era preciso alguém investigar o dilema
Esse alguém teria que ser Manoela
Traçou rumo ao norte a carroça
Atrás dela, apenas duas cavaleiras
Alahim e Rejene, grandes escudeiras
Juntas eram as verdadeiras gloriosas
Não havia nada que Manoela não possa
Mas todo herói possui sua derrocada
O confronto começou muito cedo
Armadilhas estavam bem preparadas
E não teve mesmo jeito…
Agora presas pelos seus captores
Ainda renderam uma boa luta lá atrás
O líder, furioso, mostraria do que era capaz
Elas seriam julgadas pelos Redentores
Redentores apareceram mal vestidos
Sem metal, apenas couro e tecidos
Elas não entendiam o que estava acontecendo
Mas Manoela de alguma forma sentia arrependimento
O que eram aquelas guerras que lutavam?
Ela queria proteger os inocentes
Armas nas mãos não os fazem indigentes
Por quais entidades eles se motivaram?
Essas perguntas nunca foram bem-vindas
Elas enfraqueciam as forças de luta
Era necessária a contínua disputa
Mas neste ponto desculpas não garante a saída
Os Redentores chegam perto delas
Falam entre si numa língua nunca ouvida
E repetem em uníssono para elas:
“As trilhas seguidas pelo caminho da vida
Dependem, antes de tudo, de nossas ações
Você, Manoela, usou o poder sem remediações
Ceifou jovens, adultos e idosos como diversão
Temos ciência do erro tomado, temos noção
Portanto, tu serás recebida.
As outras, irão para a execução”.
Manoela entrou em choque por um momento
Ao abrirem as grades, ajudou as guerreiras
Não iriam matar suas companheiras
Esmurrou quem podia para parar o evento
Mas, como um transe, tudo ficou sonolento
Última vez que as cumprimenta….
Sonhou com vinhas
Uma floresta inteira em volta
Olhar pra cima não adiantava
Tentou procurar alguma rota para casa
Se perdia cada vez mais enquanto andava
Chegou misteriosamente em um vale
O rio corria fino como uma fresta
Atrás dela, ouviu uma voz na floresta
“O chamado foi escutado, mas algo deu errado.
Quero que se defenda, então fale:
O que você não tem pensado?”
O sangue gelou em seu coração
A voz era a mesma que ouvia quando menor
E se viu acenando em compreensão
Ela foi enganada por temidos charlatões
A justiça que vendiam não servia ao mundo
Mundo este que não procura confusões
Mas sim a luz que existe lá no fundo
Ao acordar, Manoela se calou
Ela estava em um gramado
Não havia ninguém
nem nada
de nenhum lado
Com fogo nos olhos, se levantou
E sabia qual era seu fardo
Refez sua vida em pouco tempo
Treinou até estar bem preparada
E então voltou àquele templo
Chegando lá, foi recebida com aplausos
Os planos de vingança já estavam arrumados
Mal esperavam pela gloriosa Manoela
Destruindo a reputação que construiu com guerras
Pediu a rendição para todos os líderes
O pedido foi negado
Seus olhos recuperaram o brilho de pequena
Sozinha, subjugou um dos arrombados
Seu nome era Zenyas, líder dos esquemas
Matou-o em nome daqueles outrora ceifados
O amor se transformou em ódio num segundo
Ela mal conseguiu sair viva daquele reduto
QSentiu toda a solidão e tristeza do mundo
Guardou esse sentimento para uso futuro
Se escondeu em uma floresta distante
Encontrou-se um druida de nome Kerpito
Que adorava ser um rato falante
Ele a ensinou o que ela havia perdido
A conexão entre ela e o divino adiante
Hoje ela visita cidades esporadicamente
Para observar as pessoas e o dia-a-dia
Comprar equipamento, falar com gente
E até que é boa nisso,
Apesar de não ser muito sabida.
Eolo “Aelium” Losseeker
Respira fundo e continue sorrindo. Aelium sabia que, enquanto pudesse respirar, ele conseguiria construir o futuro dele. E essa frase nem era dele, mas de sua avó. Infelizmente nunca pôde conhecê-los, pois ele nasceu no mesmo dia em que seus avós morreram.
Sua familia era uma isolada familia de pescadores. Num dia onde o céu estava muito límpido e a água estava bastante calma, os anciãos insistiram em sair para pescar. Eles sabiam que havia uma tempestade das grandes vindo. Sabiam não, contavam com isso. Seus filhos não sabiam e nem precisavam saber, mas havia um segredo em sua familia: eles eram herdeiros de um benevolente Djinn. Haviam diversas histórias que foram passadas por gerações sobre como a família Windrunner foi poderosa e influenciou a história de Calimshan em determinadas cidades, seja lutando contra a corrupção ou se tornando parte dela.
Com o poder e a glória vem o reconhecimento, e os dias glorioso passam como minutos diante daqueles que os aproveita. Descobriu-se que aqueles grandes feitiços e habilidades haviam desaparecido entre as gerações perdidas, tornando cada vez mais difícil viver sob a ideia de ter a possibilidade de ser alguém com poderes do Djinn.
Preocupados com o que aconteceria, eles foram para a costa, mudaram de nome, construíram sua casa e vivem lá por gerações sendo pescadores e marinheiros. As histórias continuavam sendo passadas, mas apenas dentro do seio familiar.
Os Avós de Aelium foran diferentes: eles nunca contaram aos filhos sobre a herança que a mãe tinha, porque afinal ela havia se decepcionado pois, apesar de ter cabelos brancos por toda a vida, nunca teve nenhuma habilidade extraordinária. Portanto ela se isolou com marido e os fez nunca saber do passado de sua família.
A geração que nasceu em seguida não tinha noção dos poderes. Julian era um menino forte com olhos bem lilás e um sorriso traquinas, enquanto que Eloíse era uma garota quieta e bem reservada que se predispunha apenas para fazer o que era necessário. A Eloíse nunca manifestou os poderes, como a mãe, mas Julian… ele tinha uma característica própria: Seus saltos eram gigantescos. Ele podia pular até o telhado de uma casa, caso quisesse. Seus pais diziam que era porque ele tinha muita força nas pernas e ele deixou por isso mesmo.
E Julian cresceu e se casou com uma mulher chamada Laureen de uma vila próxima em que eles vendem peixe. Laureen era uma mulher esperta e muito alegre que via o mundo com olhos bondosos e tratava todos como iguais. Julian aprendeu muito com ela e conseguiu compreender que a vida tem mais sentido quando fazemos o bem para as pessoas em nossa volta.
Eloíse se cansou da vida de pescaria. Um dia, logo depois que completou seus 16 anos, foi para a cidade grande de Calimporto e nunca mais voltou. Julian tem notícias que ela continua lá, mas nunca mais a viu.
E eles foram navegar. Disseram que iam pescar, mas eles sabiam que aquele não era um bom dia de pesca. Quando o mar está calmo é porque uma grande tempestade está por vir e quando essa tempestade vem, o pior lugar que devemos estar é dentro de uma canoa com varas de pescar tentando fisgar uns malditos. Mas aquela não era uma viagem de pesca.
Do âmago do seu ser, Lorena sentia que devia ir de encontro a esta tempestade. Ela nunca havia sentido isso em toda sua vida: na verdade, no auge dos seus atuais 68 anos, ela não sabia mais se não havia despertado os poderes ou se simplesmente não deixou que eles chegassem a ela. Sempre ríspida e autoritária, nunca deu espaço para brincadeiras e sempre esteve estressada em cada momento de sua vida. Mas, naquele momento, ela estava calma. E sabia que havia chegado a hora.
Falou a Julian tudo que precisava falar: que o amava, que amava o neto que iria ter, que a vida pode ser muito mais significativa e ampla do que qualquer horizonte pode oferecer e que, para descobrir sobre isso, era necessário se desprender daquilo que mais nos atormenta. Respirar e entender que, enquanto respirarmos, podemos viver e transformar nossas vidas. Ser leve para entender as injustiças do mundo e ser forte para traçar nosso caminho por elas.
Julian não entendeu direito porque sua mãe falou tanto e tantas coisas do nada, mas ouviu e assimilou cada palavra, afinal Dona Lorena nunca tinha sido tão clara e simpática na vida como naquele momento.
E eles foram. Quando eles foram pescar, como qualquer dia, Julian foi à vila comprar utensílios para ajudar no parto de sua mulher. Uma banheira, panos… Está chovendo? Ele olhou na rua e vê que o céu está acinzentado violentamente e leves pingos de chuva começam a cair, mas ele sente que os pesados estão a caminho. Com sua esposa, ele começa a ficar agitado em preocupação com os pais no mar – coincidência ou não que eles estão numa tempestade? Os dois eram muito experientes para cometer esse erro.
Quando a chuva ficou mais forte a preocupação virou desespero e ele não tinha mais paciência para comprar as coisas. Agilizou Laureen para ir aos cavalos e foi direto para casa.
Chegando em casa ele não tinha mais visão do barco dos pais, então pensou que foram para casa – macacos velhos não cometem erros – e, assim que ajudou Laureen a descer do cavalo, a bolsa estourou. Novamente desesperado, ele a colocou na bamheira dentro de casa e foi a casa dos pais, que ficava perto… Mas não tinha ninguém. Sem se preocupar com o que aquilo significava no momento, afinal ele não parou para ligar os fatos, ele saiu pela vizinhança procurando alguém que ajudasse. Depois de uns 20 minutos ele achou uma mulher que, apesar de nunca ter realizado de outra pessoa, tinha 6 filhos e sabia como funcionava um parto.
Julian esquentou a água, e a colocou na banheira. A mulher se chamava Fabíola e ela só tinha olhos para Laureen, que estava se derretendo de força e desespero. “Respira, respira e EMPURRE!” dizia Fabíola, enquanto Julian segurava a mão de Laureen, rezando aos céus que tudo desse certo. Pedindo todo o bem para aquele parto, para que seu filho nascesse tão forte quanto a tempestade que assolava sua casa de madeira naquele momento. E seu desejo foi eventualmente realizado. Laureen conseguiu dar à luz a um menino com a pele escura e olhos lilás igual a Julian, mas com os cabelos brancos quase transparentes da sua avó. Lembrando das palavras de sua mãe, eles decidem colocar o nome de Aelium “Éolo”, para que ele seja sempre leve e consiga andar na corda bamba da vida.
No entanto, Eolo e nem Julian conseguiram contar para Lorena sobre o nome.
Depois de falar com seu filho sem falar da herança Djinn, ela posteriormente iria se arrepender disto. Antes de falar com seu filho, ela teve conversou com seu marido sobre a situação: “Romildo, acho que devemos ir ao mar hoje.” E contou sobre ter sonhado sobre uma grande tempestade se aproximando, sobre sentir que precisavam ir de encontro a ela e sobre como ela entendia aquilo como sua sina. Ao invés de impedí-la, Romildo a apoiou. No auge dos seus 75 anos, ele apenas disse “Já vivi 46 anos contigo. Qualquer lugar que você for, eu irei. Sou seu amor e nunca deixaria você sozinha”. E eles foram, no pequeno barco improvisado – não iam desperdiçar o melhor barco que tinham para isto – e foram pescar. Eles realmente pescaram no meio tempo que a tempestade não vinha, e conversaram como se conheceram, como criaram seus filhos, como Julian agora teria um filho e apenas conseguiram se sentir honrados. Claro, Eloíse havia desaparecido e Lorena foi muito mais dura do que ela queria ser durante a criação dos dois, mas aquele não era um momento para se arrepender. Lembraram das primeiras palavras dos dois, lembraram do primeiro sexo que tiveram, de como o peixe cozido de Lorena havia melhorado com o tempo e como haviam aprendido a pescar. Lembraram de seus pais e lembraram das histórias. Quando menos esperavam, as ondas estavam gigantescas e eles mal conseguiam se segurar no barco. Olharam aos céus e agora no horizonte contrário a costa havia um furacão.
Ao ver o furacão, Lorena entendeu o significado e começou a remar até ele, mas Romildo a impediu. Disse que era suicídio e que, se morresse, ao menos esperava ser encontrado. Um furacão arrancaria a pele de seus ossos e simplesmente o esfacelaria. Mas Lorena sabia que aquilo era o que ela sempre buscou e precisava ir de encontro a ele. “Se você quiser deixar o bote, eu não o julgarei, mas eu preciso ir até lá”. E então Romildo pede desculpas e salta do bote, sendo engolfado pelas ondas violentas tentando chegar à margem.
Dona Lorena julgou a covardia de seu marido e se sentiu traída, no entanto não pensou muito sobre isto. Diante uma tempestade furiosa, ela remou. Enfrentou ondas enormes, ventos cortantes e um frio torrencial sozinha. Quando estava chegando perto do furacão, uma onda do tamanho de uma torre a afundou e destruiu seu barco. Ela teve apenas o tempo de segurar o ar antes de cair do barco e afundar. E afundou.
Ela se perguntava quanto tempo duraria até perder o ar de seus pulmões e começar a sufocar com a água, mas já havia passado 10 minutos e isso não havia acontecido. Ali em baixo a visão era maravilhosa: o mar revolto acima, os peixes, a escuridão em volta, o silêncio. Aquilo inspirava Lorena. E o tempo passou enquanto ela afundava, mas então ela entendei que não era o seu fim e desistiu de afundar: comecou a nadar.
Não entendia porque, mas não perdia o fôlego – será que essa foi sua herança? 65 anos de ódio por ser nada além de uma mulher de cabelo branco para saber que seus esporros eram bem dados porque ela tinha fôlego infinito.
Chegando na superfície, ela respirou novamente e percebeu estar no olho da tempestade, uma área aberta e sem chuva no meio de muito caos e demonstração da força dos ventos. Neste meio, ela vê um pequeno ser no alto do céu, mas não é avistada por ele e nem consegue saber se aquilo era real ou só coisas de sua cabeça perturbada. E, quando tenta ver melhor, é engolido por uma nova onda. Esta a pegou de surpresa e é sucedida de muitas outras. Mas a velhinha se preparou para isto por toda sua vida: lutar contra os ventos era seu destino. Infelizmente, era uma luta unilateral e bastou sua cabeça bater numa pedra para perder a consciência e morrer no mar. Seu corpo nunca foi achado. Romildo conseguiu sobreviver, mas, por medo do julgamento doloroso de seu filho, forjou sua morte com a esposa e fugiu para outra cidade.

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