Seu cheiro é meu perfume
Seu toque que me veste
Seu beijo me consome
Sua voz me diverte
Seu olhar me acompanha
Seu peito me aconchega
Seu ouvido me segue
E sua boca que me beija
Seus dedos que me guiam
Seus braços me protegem
Seus pés abrem caminhos
E andam para onde querem
Seu calor me faz suar
Sua carne me alimenta
Seu ardor me sufoca
Me desperta
Me orienta
Suas palavras me acalmam
Suas palavras me abravam
Suas palavras me abraçam
Suas palavras me calam
Sua saliva me derrete
Sou o doce que você precisa
Seus dentes me mastigam
Sua língua me instiga
Seu arrepio me contagia
Seus pêlos me deixam viciado…
Hipnotizado…
Como feitiçaria…
Seus movimentos de dança, meus passos
Suas saídas são meus espaços
Como o sol brilhando para a terra
Como pássaros na atmosfera
Como um descanso depois de um dia árduo
Seus roncos são meus conselhos
E sua tremida é minha piada
E meus sonhos são verdadeiros
E meu acordar é voltar para casa
E nossos agarrões são o meu respiro
Nossos momentos são o meu delírio
Nossas escolhas são o meu destino
E nossos afetos são os meus amigos
Tag: Myself
Porta que range
Eu leio minhas cartas morto
Morto
Eu ando meu caminho torto
Torto
Às vezes me bato um louco
Louco
Mas eu continuo morto
E quando eu estou feliz dançando?
Continuo morto
E animado pulando na chuva?
Continuo morto
E comendo uma deliciosa uva?
Continuo morto
E inspirado escrevendo poesia?
…
Quem sou eu?
Passam anos, passam dias
Passa noite, passam pessoas pelas vias
Passam vidas
E eu ainda não respondo essa pergunta
Tão fugidia quanto as próprias estrelas
Talvez eu realmente nunca me reconheça
Como posso afirmar algo sobre mim?
Tão inconsistente quanto água
Tão bonito quanto uma jasmim
Se toco na fagulha, apaga
Quando começo a história,
Já tá no fim
Não, como eu posso afirmar algo?
Se essa afirmação me impede de ser outro
Só sobra o morto
Só sobra o morto
Escorado em meu próprio corpo
Desprovido de vida
Eu acordo só pelo que me instiga
O desafio é a própria biologia
Não durmo, disassocio
Não sonho, me desafio
A cada futuro perdido, uma moeda
A cada esperança criada, uma queda
Chega um momento
Que o corpo se fragmenta
Joelhos, coração, barriga
Aquilo que me sustenta perde esforço
O alimento perde o gosto
E o sentimento é só desgosto…
A liberdade pode ser meu alimento
Ela pode me dar sustento
Mas ela é só uma palavra
Que voa com o vento…
Não tenho força para assoprar palavras
Mal tenho forças para escreve-las
Uma a uma, como uma peça de roupa
Vestindo o corpo nu do morto
É como uma porta que range muito
Um incômodo absurdo
Mas não se troca a porta conveniência
É só mais uma de muitas negligências
Que um dia proporciona a alguém
Preciso entender o que aconteceu
Entre eu e meu corpo
Preciso ficar só de novo