Amargurado

Deixei acontecer
Malditos!
Eu deixei acontecer!

Talvez tenha sido a bebida
Ou talvez a erva
Pode ter sido as amizades
Ou então as responsabilidades…

Não, fui eu
Eu deixei o mundo me engolir

Quando adolescente
Escrevi uma história
Que um mundo de monstros
Me seguia mundo afora
O mais estranho
É que eu fazia parte
Do mundo de monstros
Ao mesmo tempo que os monstros
Corriam de mim
Eu corria dele

Deixei o mundo me engolir

E aí o amor não deu certo
E daí que o amor não deu certo?
Então eu perdi o passo da pesquisa
Cadê então aquela força precisa?
A força que sempre tive
Que lutei durante o luto
Que me joguei sozinho contra o mundo

E venci milhares de vezes

Cadê meu Ícaro calejado?
Aquele que nunca precisou ser
Cuidado
O malandro,
Nunca o otário
Aquele que se permite ser desejado

Me sentindo rejeitado
Contrariei as minhas ordens
para ser amado

Criando limites para o outro
Novas diretrizes para mim
Eu me faço com esforço
Argila, carne e osso

Demora tempo
Tenho que ter paciência com isso
O Ícaro antigo não existe mais
E o novo não pode mais existir
Preciso de algo novo
De novo

Me sinto a ouroboros
Num ciclo infinito de meu rostos
Muitos outros Ícaros soltos
Já não tenho mais ideia
De quem sou eu

No entanto não serei mais assim
Amargurado, com medo de mim
Fugindo da sombra de quem fui
A vergonha e o medo não me constitui

Eu sou esperto como o malandro
Sou forte como um furacão
Sou destemido como o punk
Não abaixo a cabeça pra doido não
Sou cuidadoso como o professor
E destruidor como o demônio

Eu fui e sou tudo isso
E eu serei muito mais