31 – Desfecho

Sou o fim e o começo
Eu nunca desvaneço
Vários Ícaros foram escritos aqui
E todos eles continuarão a existir
Vivendo suas vidas dentro de mim

Eu sou a diaba do prazer encarnada
Eu sou a solidão conformada
Sou o fim do mundo em vão
Eu sou você, sou eu emais quantos virão

Sou a negação do amor ainda vivo
Sou eu sou a bala atravessando este maldito
Estou sendo o desnudar da alma
Em toda sua horriridade
Corporificada

Sou a completa pira sem noção
Sou a resposta para qualquer pergunta
Mas sem solução
Sou o mais genérico possível
Sou único, hereditário e invencível

Eu sou as merdas que falei dos outros
Sou o dia bonito
Natural para todos os gostos
E, quando não bonito, me animo
Pois sou o dia de ficar em casa
Escondido

Sou a preguiça que me domina
Sou a conspiração que você ouviu
Na esquina
Sou o mais inventivo o que posso ser
Eu sou eu, e você vai ser você

Você pode tentar, mas nunca vai ter
Sou o diabo e o demônio
Sugando a alma de seu ser
Sou o conhecimento profundo
Eu sou magnífico

E eu sou a poesia escrita cada dia
Sou eu, o final desse mês
Eu sou também a despedida

30 – Demônio

Eu acredito muito em histórias
Que nós nos tornamos o que vivemos
Todos nós, dos funkeiros aos emos
Hora após hora todas são nossas

São nossas escolhas
Mesmo sem chance de escolher outras
São nossos erros
Mesmo que não saibamos os defeitos

E são tantos…
Mas inúmeras são as vitórias
De conseguir um novo emprego
De comprar sua nova jóia
Também temos esse direito
De comemorar nossos acertos
Certos que nem tudo é um mar de rosas

Eu (particularmente) pego tudo para mim
As derrotas e vitórias
Dos erros mais escandalosos
Ou chinfrins
Às grandes vitórias com gosto de carmesim

Ao passar dos anos…
Você acaba ganhando saberes sobre algo
Te tornando quase inumano
Quase como se soubesse de segredos
Nunca revelados
Quase como se te concedessem poderes
Como se pudesse modelar o que acham
O que pensam
O que falam

O convencimento é uma ciência há eras
Mas talvez seja mais um dom inato
Que pode ser cultivado com determinada
Destreza
Se souber como fazer, é claro

A moral se dobra perante você
Ao passo em que a realidade te encontra
Terá que reconstruir as regras para viver
Suas regras não devem chegar prontas

Fará o que for preciso para sobreviver
Nada de julgamentos errôneos sobre o que fez
Os caminhos todos você que trilhou
Responsabilidade sua para aprender com eles
E saber o que de você restou

Comigo a história foi parecida
Conheci amores
Sofri e ganhei feridas
Aprendi que dores não são bonitas
E que flores não signicam
Que minha presença é querida

Aprendi então a usar meu dom
E encantar homens por diversão
E é muito divertido tê-los em minhas mãos
Dizê-los sim, mas muito mais o não

Homens são cachorros em busca do perdão
Eles dão a pata e latem para chamar atenção
Se você descobre isso é meio passo andado
E ao invés de sofrer por eles, consuma-os
E então largue-os de lado

Sinta o poder embriagado pelo tesão
Deixe-os te amar e, mas só de longe
Alimente a fera com paixão
Mas sempre a deixe com fome

Assim ela geme sempre seu nome
Ele sempre lembra quando sente fome

Cristianismo errou muito feio
Veem os demônios e têm tanto medo
Mal sabem que aquelas imagens estão erradas
E que o demônio vive em suas estradas diárias
E se alimenta de seus desejos

Eles não são uma figura imaginária
Coitados, rezando todos os dias por nada
Nós somos os demônios das histórias
Cada um de nós vivendo aventuras imortalizadas
Vivemos os dias como heróis em busca de glórias
Que outrora seriam inalcançáveis

Eles são os próprios demônios
Em busca de sentimentos egoístas
Clamam a deus, se fingem altruístas
Para julgar quem somos
Cagando regras que ninguém precisa

Abençoados por demônios?
Não me faça rir
Quem além de um Incubus
Faria você sorrir e se sentir assim

Sim, eu sou um destes
Um demônio que entende seus poderes
É que existem leis e normas ocultas
Que só são feitas para impossibilitar suas lutas
São regras sim, regras de merda
Regras que só servem para te prender
Em troca de uma vida eterna
Como escravo do celestial
Revestidas de “moral”

Eu sou o inferno na terra
Eu sou o fim
Você concorda que é certa a minha guerra
Então não questione meus métodos
Pois existem sempre fins

29 – Ciborgue

Eu me fodi demais esse ano
Prometi coisas que não cumpri
Saí e entrei de novo pelo cano
Se me ver por aí me abrace, mano
Que eu tô precisando

Eu tava pensando em desistir de sentir
Em só fazer o que apontarem pra mim
Pensei em fortalecer minha armadura
Substituir meu coração de carne
Por um coração com fechadura

Criarei um código de ética
Para revisar meu afazeres
Ouvir de forma cética
Certos dizeres

Classificando e ordenando
Todos os seres que vivo me encantando
Colocando-os fechados em outro plano
Estranho é ocupar todo meu ano
Quando poderia deixar de pensar nesses hunanos

Minha pele poderia ser de metal
Pararia de sentir o calor da pele dos outros
Não sentir mais febre de tesão
Ao provar diferentes gostos
Evitaria ser sentimental
Se alguém pegasse em minha mão
E fosse um “namorado” ideal

E eu poderia analisar as vozes deles
Sentir o que significam pela frequência
Saber se tudo é verdade ou só aparência
Saber mentiras, ocultações de seus dizeres

Queria ser eterno e indestrutível
Viver para sempre e fazer o impossível
Aprender tudo que puder no tempo infinito
Queria estar para sempre seguindo

Mas não posso correr de meu destino
Sou fiel apenas a mim e quem estiver comigo
Sofro porque sim e tenho sofrido
Não vai mudar nunca isso

E eu não quero que mude nada
Vou continuar nessa dura batalha
De sentir num mundo virtual
De não saber diferenciar a mensagem
E o real

26 – Personagem Original

Um mundo tranquilo
Um mundo de paz
Onde todos os conflitos
Foram deixados pra trás

Ausmus está sendo criado
Para compensar as dores
Deste mundo amargo
que vivo
E, por maiores horrores
Que os ausmianos já tiveram
Enfrentado
Ainda vivem muito bem, obrigado

Não se esquecem do passado
Não, eles reconhecem todo o estrago
Mas ver o futuro de seus entes amados
Justifica as dores e perdas que dos heróis
Ainda lembrados

Este é um mundo singular
Os ganhos não são perdidos
Não se pode nem comparar
À desgraça do mundo fodido
Em que vivemos

No ar se espalha o veneno
Talvez seja sorte estar vivo
Não, é um arrependimento
Queria não ter nascido

Milhares de guerras já foram
E outras estourando agora
Esperança? Não seja idiota
Resistir é a única resposta

E as pessoas do mundo?
Bando de derrotados
Os espertos exploram os outros
E os bons vivem amedrontados

Tudo que esperam é a morte
Para mudar esse resultado

E é aí que eu entro
Para intercambiar os mundos
Entre o paraíso
E o inferno absoluto

Existem personagens de Ausmus
Para a trama começar
Existe algo por dentro do paraíso
Prestes a estourar
Cabe a elas decidirem
Como que seguirá…

Ossent sempre foi brava
Esperta e raramente ignorada
Sua voz inspirava pessoas
Dava a vida e forma para as coisas
Por mais perfeita seja a sociedade
Não existe o perfeito sem suas
Desvantagens
Ossent sabia o que poderia fazer
Mas não esperava o que iria acontecer
Com sua realidade…

De repente, ela entende a jogada
Putz e que furada que foi se meter
Não pode mais esquecer do que viu
Viu a verdade de tudo e de mais nada
De destemida, virou ameaça
De independente a uma coitada
Maldito Yragos, ou é burro ou mentiu
O importante é que ele vai fuder com tudo que existiu

Tal’laak é contemplativa
Paciente e receptiva
A idade ensinou tudo que ela precisa
Justamente com as outras sacerdotisas

Finalmente contemplada pelo trabalho
Mas… De repente algo está errado
Ela sente que não é quem costumava
Ser
Como se os deuses sussurassem
Como se tivesse ganhado algum poder

E existem personagens mundanos
Que sobrevivem no mundo de humanos
Num futuro não tão distante
Poderia ser hoje, amanhã
Como poderia também ser antes…

Larissa é uma coitada
Faz de tudo para sustentar sua casa
Trabalha em uma empresa desgraçada
Seu único conforto são seus momentos
Calada

Em sua cabeça existe o infinito
O inexplicável sentimento de conflito
Ela sabe que nada nunca vai mudar
Mas carrega consigo a esperança de ver
Um futuro mais digno…

Tem também o Luís Fernando
Conhecido como Nando dos Planos
O homem é chefe de um bando de bandido
Que rouba dados, altera fatos…
Se metem onde não deveria ser metido

Ele é um dos maiores pilantras do planeta
E, em sua última viagem, entrou em uma nova
Treta
Essa é diferente de todas as outras
Ele tem uma chance de mudar bastante
Como funcionam as coisas…

São esses quatro que protagonizam a história
O resto? Vão ter que ler para saber
O que posso contar agora
É vocês vão se surpreender

25 – Ocultismo Publicitário

Existe algo por aí
Algo que eles fazem
Eles estão de malandragem
Não querem ver-nos agir

Eles estão dentro dos lares
Estão por toda massa
Estão pelos celulares
Estamos sob tuas asas

Ditam o que podemos falar
O que deve ser pensado
E o que deixar pra lá
Esquecido, abandonado

Eles têm seu sangue
Do tal “teste de grau genético”
Eles têm o seu afeto
Com obras de artes automáticas
Eles estão na big data
E você ainda fazendo taboada
Pra aprender matemática…

Ironia ou piada?

Não me surpreende nada
Que eles são donos da parada
Ricos, famosos, desconhecidos
Pilantras e magnatas

Mas não os deixe saber
Que, dentro da vida cotidiana
Ainda existe o prazer
Existe a calmaria de ser só
Existe o final do dia
Com o pôr do sol
A companhia das pessoas amadas
E a derradeira queda na cachaçada

A dor é real
O sofrimento é sentido
Mas se não dermos motivo
Se não criarmos nosso destino
As funções perdem sentido
Não há batalha
Só tem um escravo…
Seguindo…
E seguindo…

Cada dia criando nós mesmos
Desenvolvendo nossos gostos
Questionamos o que é proposto
E reviramos os planos por inteiro!

Eles podem ditar as regras
Podem nos fazer ir à merda
Mas se eles são uns fudidos
Nós somos mais fudido ainda
Se eles são maus
Nós somos os piores
Se eles são desgraçados
Nós somos os abandonados
Somos a voz que só é ouvida por nós
E projetamos o futuro que vier
Seja o de liberdade
Seja o de mil e um sóis

24 – Monstruosidade

Extra! Extra!
Menino mata a mãe e foge de casa!
“O mundo está perdido!”
“Isso não é criança, é bandido!!”
“Morto pra mim não diferenciava”

Extra! Extra!
A mãe maltratava muito seu filho!
Foi em legítima defesa!
“Bem feito para essa desgraçada”
“Mexer com o querido não foi moleza”
“Ainda bem que morreu, degenerada!”

Extra! Extra!
Três crianças morreram numa tragédia!
A infraestrutura da cidade é a culpada!
“Malditos governantes! Não fazem nada!”
“O país não vai pra frente e a gente ainda
É roubada!”
“O Estado não perdoa em nada…”

Extra! Extra!
Joãozinho da Firma foi eleito de novo
Agora está há 8 anos cuidando do povo
“Esse é o meu prefeito!
Fala de família e de empresa,
Tem meu respeito”

Extra! Extra!
Um novo assassino está nas ruas
Essa é a cara dele:
E essas vítimas ensanguentadas e mortas
são suas:
“A polícia não se importa conosco!”
“A polícia é inútil, meu comparsa”
“Nós temos que fazer algo!
Pegar em armas!
Levar justiça de verdade para esses
Canalhas”

Extra! Extra!
A notícia se espalha!
Mataram o assassino
Er… Mas era o suposto…
Um inocente acabou morto
“Mas tem que ser assim, não?”
“Justiça por nossas mãos!”
“Mas era um menino inocente…”
“Você não sabe o que passava por aquela
Mente”

Nessa bagunça eu acabo confundindo
Os monstros

23 – Coringa Baiano

Nascido do fundo de Cajazeiras
As crianças já maneiravam nas brincadeiras
Arthur era um garoto sem limite
Saía de casa e voltava
Cheio de cicatrizes

Os pais adoravam aquilo
Diziam sempre
“Ah, isso é coisa de menino”
E parabenizavam o querido filho

A vizinhança, no entanto
Comentava sem muito encanto
Falar em “Arthur” era falar desgraça
As comadres sempre falando
“Esse daí não vai dar em nada”

Pois Arthur cresceu demoníaco
Era o pior dos piores entre os amigos
Aliás, se é que posso chamá-los assim
Já que andavam com Arthur por medo
Ou porque ninguém se metia com o pivetin

Até o dia chegou
Era seu aniversário e ele comemorou
Foi pra rua, chamou quem podia
Pagou a bebida e comida
Música alta durante todo o dia

Chegando a noite,
ele queria mais
Nenhum deles era mais capaz
Então saiu sozinho testando a sorte
Foi chamado pra um paredão
Lá mais pro norte
A galera que chamou não era confiável
Mas Arthur sempre foi intocável

E ele chegou na rua
Notou logo as casas
Aquela não era área sua
Mas bêbado e sedento por festa
Ouviu a galera dizendo
“É niuma”
E caiu dentro do paredão

E ela gente bonita
Música alta
Galera só bebendo no copão
Os caras trajados vendo as minas jogando
E as minas pique patricinha
Encarando os manos babando

Arthur estava jogando com tudo
Igual pinto no lixo
Não mexia com ninguém,
Não tolerava vacilo
Não tinha nome ainda
Estava tranquilo

Até que a galera chamou ele
Os seus parceiros não entenderam
Quiseram ir de frente, mas não puderam
Dois caras de “peça” na mão
Medo os impuseram

“Fedelhos”, pensou Arthur

Puxaram-no para uma rua próxima
Eram três caras, mais um chefão
E o guarda-costas
Arthur notou toda a situação
Calculou a força e intensidade
Entendeu que Inês já estava morta
E ele era depois

Então não esperou muito
Quando o guarda afrouxou a mão,
Ele pulou em cima do grandalhão
Subjugou-o em seguida
Pegando a arma dele e apontando para a dupla
Esquisita

Os assustados ficaram
Chocados
Enquanto Arthur matava o líder e o outro
Otário armado
De repente o sangue explodia em Arthur
Que ria achando engraçado
O evento maluco

Naquele momento ele fez um discurso
Chamou todos os vagabundos
Os mercadores e pecadores
Impôs seu respeito pela dor
Pela sua falta de sensibilidade com o mundo
Pelo seu riso absurdo

Então foi lembrado assim
Com o sorriso enlouquecido
Mas sagaz até o fim

22 – Punk Genérico

Como você é bobo, Ícaro
Acha mesmo que beleza é importante?
Que respeito esses bonitões querem?
Eles não querem alguém como você
Querem aqueles que têm medo
Medo de mudar os velhos termos
Que você mal sabe qual é

Eles querem sua confirmação
De que eles são o topo da pirâmide
Querem que você dê poder a eles
E tente se encaixar em seus planos

Como você é pequeno, Ícaro
E ingênuo
Acha mesmo que esses nerds te ouvem?
Ególatras amantes de puxa-sacos
Podem controlar você e seu trabalho
Mas seu espírito continua livre

Não ceda à pressão de ser mais um
Seja quem você quer ser no futuro
Um executivo atrapalhado
Ou um arruaceiro descarado
O importante é ser você mesmo

E o jogo vai ser jogado
Por mais errado que seja,
Você vai perder batalhas
E se fingir de conformado
Mas nunca se esqueça
Que você sempre é livre para viver
Para experimentar novos ares

Para ser tudo que você quiser

Então que seja arruaceiro
Bata em desgraçados
Furte itens básicos e junte dinheiro
Grite com quem gritar contigo
Tenha o controle e a parcimônia
Para mandar em seu próprio umbigo
Seja responsável consigo e seus artigos

Sobre os bonitões?
Eles realmente importam?
E sobre os nerds?
Você vai deixar eles te destruírem?

Você é a rua, Ícaro
É a música alta do vizinho de noite
É o bêbado tropeçando na calçada
É a galera curtindo uma balada
Eles passam por você
Falam palavras de pena,
Sentem prazer
Você é a lua e também a noite nublada
Você é o escuro e o deserto da rua
E você andando com mais ninguém
E mais nada

É você andando na rua escura e deserta
Só você
E mais nada

21 – A guerra contra si mesmo

Você se esconde em meu cabelo
Sussurra em meu ouvido
Eu penso que é inofensivo
Erro meu, é um ínfero vivo

Fama? Poder? Glória?
Não me amola…
Não tenho isso como objetivo
Eu gosto do trabalho bem feito
Organizado
Diretivo.

Mas quando chega esse demônio
Uma pequena distração
Se torna um eterno vício
Prendendo-me como se fosse feitiço
Derretendo minha mente
Fazendo-me seu refém
Impedindo-me de ir além
E eu não consigo lutar contra isso

Sinto grilhões me prendendo ao chão
Pesos que quase esmagam meus músculos
Sinto um topor absoluto
O tempo passa num segundo
E tudo que eu tenho pra fazer….

Acaba insolúvel…

Perco chances,
Perco encontros
Por conta de um maldito
Demônio
Perco momentos de qualidade
Perco amigos, perco vantagens
Por conta desse MALDITO
DEMÔNIO

E, ao passo em que escrevo,
Sinto meu corpo preso
Como se eu tivesse em cimento
Como tivesse sendo esmagado
Contra o tempo
E a demanda

E, antes de fazer qualquer coisa,
Tudo já me cansa
Me cansa pensar sobre o que fazer
E, por mais que faça algo
Nunca é suficientemente bom
Ou interessante
Ou sei lá mais o quê

As vozes são altas de mais
E o calor me sufoca
O cansaço vai ganhando
E mais um dia sem girar a roda

É um ciclo vicioso
Adoecedor e delicioso
Sair dele é como tirar um micro espinho
É como se acalmar enquanto se afoga
É como sempre saber o melhor caminho
É como saber a hora de ir embora

É muito difícil para mim
E eu estou cansado demais
Mas não vou desistir aqui
Pelo mínimo que eu me mexo
Eu contigo me erguer e fugir

Faço um trato com o demônio
Para que não me perturbe por horas
Foco na atividade e me perco
Faço sem parar
Até não poder continuar

E então ele volta.

Ainda sonho de me livrar do demônio
Talvez um dia ele simplesmente suma…

Quem eu tô querendo enganar,
Não será fácil.
É preciso disciplina minha
E é preciso um pouco de ritalina sua.

20 – Biomecânico

Eu pego meu coração
E o parto em seguida
Eu devoro a minha alma lívida

Seguindo o destino,
Eu parto em seguida
Fujo de minha sina
Meu corpo não é meu
Estou me livrando de minha alma
Cativa

Expulso os outros demônios
Não quero que venham ao meu encontro
Sou poderoso, sou mais de mil
Sou a canção e sou
O sorriso juvenil

Agora sem alma procuro um espelho
Vejo tudo, vejo o céu e a parede
Mas não me vejo

E o desejo aumenta
Quero saciar minha vontade
Eu quero liberdade
Eu quero liberdade

Busco a faca na cozinha
Aquela de cortar pão
Raspo a pele de minha carne
Faço isso com minhas próprias mãos

Um formigamento na ponta dos dedos
A dor intensa, fervendo
O prazer tão violento que dá medo
E eu só comecei a fazê-lo

Assim como uma farpa debaixo da unha
A agonia é chata e intermitente
Ela enche meu peito por dentro
E devolve ao mundo o meu verdadeiro ser

A pele começa a deixar meu corpo
Debaixo dela há algo estranho, eu acho
Muito engenhoso, talvez problemático
Pois onde sangro, também eu fortaleço

Não escorre vermelho sangue,
Escorre cinza vazio
Meus olhos não brilham inocência
Brilham um vermelho frio

Prateado como a faca que me esfola
Eu sinto finalmente sair
Sair algo de dentro
Como que nascesse um novo esqueleto

A faca não é o suficiente
Busco, então, uma lixa
Lixa de parede para pintores
Lixo fora todas as dores

Com a pele, se vão minha inibições
Incertezas e aflições

Mas os medos continuam aqui dentro
Empurrando a coragem pra fora
Me dando discernimento

Também ficam os bons sentimentos
Ficam a alegria e a amizade
A paixão, consideração e lealdade
Retiro de mim a humanidade
Aquela que reflete apenas a vaidade,
Sem contemplar eu mesmo
Sem contemplar meus defeitos

Me olho no espelho novamente
Enxergo sangue, enxergo medo
Algo amorfo sem cor ou cabelo
Vejo seu o grande medo em seu corpo definhado
Seu peito desnudo metálico
Deformado

Como deveria aparentar um robô?
Como um humano gostoso
Ou uma esfera com motor
Por mais que robôs não pensem,
Eu penso
E por mais que não sintam
Eu sinto
Que dúvida inquietante!

Quando foi que eu perdi
A diferença entre ser um robô
E ser um menino?