Consigo ouvir seus pés batendo no chão.
Correndo rapidamente e ofegante
Pela forma como corre não sabe onde vai.
Mas eu estou chegando.
E a cada passo meu
três passos deles.
Ainda escuto sua respiração.
Ainda sigo seu rastro.
O desconforto no fundo de sua cabeça
alimenta minha vontade de vê-lo.
E, por mais distância que ele tome,
só está perdendo tempo e fôlego.
Taquicardia leve ou pesada,
não importa.
Eu sei que, no fim dessa trilha,
eu encontrarei a mim mesmo.
Encurralado, com medo da verdade.
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Dia 28: Vulnerable
No meu quarto escuro
escondo o frágil coração.
Não sou um soldado, não.
Não sou revestido de armadura.
Simplesmente sou simples e aberto
Não tem porquê não ser direto.
Ao invés de pele dura, pois,
defendo-me com a ferida exposta.
A fraqueza como escudo
fortalecendo minhas costas.
Não saberão meu segredo,
que meu sofrimento eu vivo só.
Que eu deixo passar todo mal
através dos rombos já deixados em mim.
No fim do dia, estarei no quarto.
Somente eu e meu coração.
Dia 27: Hostile
Todos reunidos à mesa
Não importa mais quem somos
Mãe? Amigos? Não mais…
Somos uma grande irmandade.
E todos nos importamos com outros
Até a primeira centelha estourar
A bomba silenciosa que paira lá.
Agora é guerra por guerra.
Dedo na cara e gritaria
E vença quem manipula mais.
A hostilidade é psicológica.
Sobrevive quem não se importa mais.
Que besteira, não?
Estamos juntos nessa
E, no final, eu os amo.
Dia 26: Loving
Você sabe me desarmar como ninguém,
logo eu, alguém tão protegido,
tão calejado das guerras por amor.
Sou sim Helena de Tróia,
Confusa com o próprio destino trágico.
Sou também Jacinto,
morto por um amor invejável, impossível.
Nessas empreitadas nunca saí ganhando.
Sou o primeiro soldado a cair.
Sou o próprio campo de guerra,
há muito mudado pelas batalhas.
Sou só. E não me faz mal ser só.
Apenas amar a mim não me satisfaz
pois transpiro amor por inteiro
Como um copo numa fonte eterna,
que transborda sem parar
em que a água não para de jorrar.
Dói sentir as gotas caírem,
mas escrever me ajuda a suportar.
Dia 25: Skeptical
Destruí suas amarras verbais
Ressignifiquei seus esquemas ilusórios
Você ri de mim por não confiar em você?
Eu rio de ti pelo papel de tolo.
Não jogo mais nenhum jogo
E eu estou feliz bem assim, como penso.
Crio minhas regras, faço meu investimento.
Sua religião não me dá sustento
E sua fé não acredita em mim
para estar e continuar bem aqui
desafiando a deuses e a ti
eu precisei questionar a todos
precisei existir como incógnita
Não confio mais em quaisquer uns
que pensam que dominam o outro.
Dia 23: Threatened
A música no ar faz ferver o chão
Apenas você e o outro e a multidão
Afasta, afasta, cria a roda agora
Tem que preparar para quando chegar
A hora.
Os ânimos à flor da pele
Todos nervosos e ansiosos
Até que os músicos misericordiosos
Apitam a partida final.
E vamo se jogar pra frente.
Postura erguida, olhos atentos
Cuidado com o soco, cuidado com o outro.
O caos organizado que fazemos
Desperta a minha fé no nosso futuro.
Apesar do embate de corpos
Do mar de pessoas se jogando uma nas outras
Do suor, da respiração quente nos rostos
Eu não me sinto ameaçado nem um pouco.
Viva carnaval!!!
Dia 22: Startled
Um instinto primal avisa
Minha boca seca
Meus olhos lacrimejam
Meus pêlos eriçam
Meu corpo estremece por inteiro
Calafrios em minha barriga
Tremedeira em minhas pernas
Impossível ficar quieto
Coço minha cabeça bastante
Faço-a sangrar um pouco
Arranco cabelos sem querer.
“Icaro, o que deu em tu?”
Olho para os lados, engraçado.
Nada relevante aqui.
Mesmo assim, não acalmo
Não tenho esse luxo todo.
Dia 21: Proud
Eu acho engraçado tudo isso.
As fotos, as notícias, as marcas
Todo esse colorido impreciso
Me deixa tão irritado
me tira todo o juízo.
Não queremos seu agrado,
nunca me importei pra você
ou o que acham de mim
ou o que querem para mim.
Eu sei o que eu quero para mim
E estou disposto a lutar por isso.
Meu orgulho não depende de você
nem de suas marcas ou roupas
nem de suas cores ou falas.
Meu orgulho depende de mim,
minhas atitudes, minha vontade
Minha vida.
Dia 20: Rejected
Você pode não acreditar em mim,
Talvez achar que sou louco,
Mas eu juro para você:
Existe um monstro no meu quarto.
Eu o vejo quase sempre,
mas, esperto, ele se esconde.
Quando amanhece, ele vai dormir.
Quando anoitece, ele sai da toca.
Toda noite aterrorizando a mim,
criando terrores e assombrações
minha imaginação não seria capaz.
Ele é esguio, como um espantalho.
Ao vestir as roupas, ele ganha poder.
Seu poder é o maior possível:
Enjaula-me dentro dele.
E, por mais que eu pense,
não acho saídas dali.
Talvez Ícaro esteja perto de mim
Talvez seja agora o monstro a digitar
Não duvidaria de nenhum assim,
Caso alguém fosse me perguntar.
De qualquer forma, sou dramático
O que seria viver sem intensidade?
Mas cá no fundo, não sou enigmático
Nem sempre tenho uma finalidade
Essa história eu criei bem assustado
Porque não consigo mais viver esse medo
Sem avisar quem está ao meu lado
Mas não quero ajuda ou palavras de conforto
Quero cuidar disso comigo mesmo
Quero ser meu próprio porto.
Dia 19: Hesitant
Sei exatamente o que dizer
Conheço meus sentimentos
Escrever é o de menos
As palavras fluem para o texto.
No enanto eu demoro tanto
Mas tanto para me libertar
Dessas dores acumuladas,
Desse desespero pessoal.
Sendo que é só eu escrever aqui
E tudo vira ilusão menor.
Se eu só escrever o que penso,
eu não preciso sofrer tanto.
Mas cruel é a lua da noite com poetas
Entendo, pela única vez, Göete
Que segurou tão forte
uma sensação tão fútil
Tal qual eu, com minha tristeza
E sentiu-a.
Sentiu até que não sobrasse nada.
Somos reféns dessa dor,
Agonizante e gostosa,
Porque precisamos sentir algo
Para viver, escrever.