E quando ninguém sobra
Eu tenho que aprender a viver
Comigo
Do que será que eu gosto?
Saio por aí sem amor
Sem destino
Procurando caminhos
Talvez uma praia
Ou um cinema sozinho
Cuidar das unhas
Mudar um pouco o estilo
Em casa eu cozinho
Faço minha comida favorita
Como assistindo desenho japonês
De noite eu leio algo que me instiga
Durmo só na cama de casal
Acordo com obrigações diárias
Tomo banho e me visto
Não é a melhor vida
Não é a pior
Apenas um dia depois do outro
Aprendendo a me amar
Tag: Daily
18 – Boca Gore
Dentes pontiagudos
Dentes cerrados
Em filas e colunas
Há algo de errado
O homem dormiu a noite
Cansado do trabalho diário
E cama, solitário, sonhou
Pesadelos nunca antes sonhados
Ele viu a terra tomada
Viu seres do espaço
Viu mutantes humanos
E se viu escravizado
Acordou se supetão
Se sentindo meio inchado
Foi ao banheiro meio zonzo
Lavou o rosto e sentiu algo de errado
Sua boca havia se transformado
Ele rapidamente abre o armário da pia
E pega o espelho de pentear cabelo
Não esperava que sentiria medo
Da imagem que viria
Coitado do homem
Coitado, não merecia…
E então a dor começou
Era só o que consegue sentir
Uma dor aguda de fato
Espalhada pelo rosto todo
Que é sentida na boca
Bochecha, pescoço, coluna e nariz
Sua baba escorre pelo corpo
Seus lábios estão cortados pelos dentes
Dentes estranhos e recentes
Dentes de bichos diferentes
Dentes de monstros e dentes de gente
Todos eles formando filas na boca
Imensa boca que rasga a bochecha
Rasgo que vai de orelha a orelha
Seu queixo guarda antenas
E seu maxilar reserva pernas novas
Finas como de aranha
E afiadas como tesouras
Elas se contorcem, anômalas
E o homem as sente
Oh, pelos deuses ele sente tudo
Sente o dentes novos, as antenas
As patas e o desejo de sangue moribundo
E simplesmente entra em surto
Procura algum remédio
Para aliviar a dor instantânea
A saliva continua pingando pelo quarto
Chão, tapetes e cama
O homem está completamente
Desesperado
De repente um desejo inesperado
*Preciso me destruir*
“Preciso acabar com minha vida
Preciso deixar de existir”
O homem corre para a cozinha
Mas não há nada ali
Tinha acabado de se mudar
Não trouxe nada ainda
Então saiu pela rua
Tinha uma loja que fechava às duas
Loja de armas no fim da esquina
Só mais um pouco e ele conseguiria
Chegou na loja sibilando
“Desculpe, senhor. Estamos fechando”
A mulher mal olhou para o coitado
Que seguiu andando
A cada passo mais inumano
Correu para um beco e se bateu com estranho
Ele estava dormindo sentado
Em meio ao lixo e aos sons de carros
Sibilando, ele investiu contra o cara
Sua boca destruindo por completo
Estourando sua cabeça e a devorando
Miolos sujam as paredes e a calçada
Cerrando seu pescoço
Os dentes trabalham sozinhos
O homem que ainda existe ali
Nada mais é além de vazio
Ele se sente assistindo a si
Devorando um corpo
Ele sente o amargo do sangue
Ele também sente o gosto
Mas não é não ruim….
Poderia viver assim….
17 – Gótica
Porra de gótica, minha filha
Você toda rosa, toda patricinha
Entra na roda e toda hora se humilha
Ninguém merece você
Nem a gente, nem o céu e nem sua família
Se seus pais falam “A” contra o estilo
Você respeita pela religião
Aí sustenta a carona de fodona na rua
Mas em casa é “pois sim, pois não”
Todo mundo aqui tem problema
Fodidos que infelizmente enfrentam
O sistema
Mas você? Você não
Tem dinheiro, tem amigos, tem fama
Tem carrão
Tem comida, tem família, tem gente dando em cima
E fica procurando mais e mais atenção
Eu não aguento mais ouvir de você
De quantos otários você quer fuder
De quantas otárias você deixou na mão
E fica brincando por aí com os nomes deles
Ao invés de só dizer “não” pra eles
Eu não aguento mais seu egocentrismo
De controlar a conversa inteira
Como se o mundo fosse seu umbigo
Como se eu quisesse saber sobre os segredos
De sua beleza
Minha irmã, você não é gótica
Você só é uma menina mimada
Que vive chateada por nada
Que come caviar
E fica triste pelos pobres na estrada
E quando chega um morador de rua
Vira a cara
E quando aparece uma ONG pedindo auxílio
Não dá um mísero real
Porque papai vai ver no cartão
E vai “ficar de mal”
Na moral
Fica longe de mim
Leva sua bota longa preta
Sua bolsa da fenty
E seu casaco de couro daqui
Cansei de ser bonzinho
De ser só um amigo gentil
Vou beber meu vinho barato gelado
E vou pro cemitério com a galera do lado
E os chatos de galocha como tu
Não estão convidados
16 – Anomalia Quântica
Há milhares de mim
Bilhares
Se escondendo na minha pele
Em minhas unhas
Nos meus olhares
Eu sou composto de ferro
De água, fogo e tesão
Ando por aí porque posso
Dificilmente aceito fácil um “não”
Eu sou a voz em sua cabeça
Dizendo que você quer ousar
Eu sou a lembrança perdida
E envergonhada
Pedindo para entrar
Sou o acerto e o erro
Sou o secreto desejo
Não podes se esconder
Eu sei quem é você
Eu sou também seu cérebro,
Pulsando em energia
Queimando seus neurônios
Acreditando em magia
Eu sou cada parte de quem sou
Milhões, bilhares de células
Sou cada uma delas
Multitude sobre a tela
Se fervo em febre
Me livro do mal interior
Se entro em transe
Usando droga ou por amor
Eu me curo com poesia
Ou com a dor
Pequenos seres incontroláveis
Comendo sem parar
Gerando outros milhares
Posso não conseguir ver
Posso não pegar, cheirar ou lamber
Mas eu sei que estão aqui
Me montando Tintim por Tintim
Pois sou responsável por todos
E tais são responsáveis por mim
Eles querem viver como loucos
E eu quero apenas curtir
Não há nada de errado
Em ser composto por nano-arrombados
Que seguem suas próprias regras
Que vivem ou não vivem de fato
Eu não tenho as minhas?
Vivo pelo que acredito
Bebo água porque preciso
Bagaço um podrão
Como um delicioso marido
Não meu, dos outros
E sigo minha vida sendo
O perigo
Eu sinto a energia surgir
Num salto entre camadas
A cada salto
Um novo de mim
A cada salto
Entre os infinitos de saltos
De incontáveis de elétrons
Pulsa Ícaro dentro de mim
E, por mais antigo que isso seja
Que seja deus ou parte da natureza
Ainda assim é novo para minha vida
E mudarei, mudarei e continuarei mudando
Até a minha partida
15 – Estranhamente bonito
E amanheceu
O céu está lindo
O sol sobe sorrindo
Apesar de ter que levantar cedo
Com olheiras, sem dormir direito
Sinto que hoje o dia vai dar certo
Tomo um banho demorado
Passo meus cremes
Tenho meus cuidados
Acabo me atrasando pra caralho
Cheiroso e preocupado, eu saio
O calor está gostoso
A moto corta a cidade inteira
Sinto uma dor no pescoço
Mas deve ser besteira
O trânsito tá tranquilo
Nas ruas só eu e meu amigo
O amigo é a moto desgastada
Chego no espaço
Bato meu ponto
Um alvoroço no trabalho
Ainda bem que não sou eu
Sento no meu lugarzinho
Ponho meu fone
Não falem comigo
Não falem comigo
E… Torcicolo
Maldita noite mal dormida
Preciso sair daqui logo
O sono não me deixa saída
Faço tudo muito lento
A música ajuda animando
Um metalcore arrombando
Meus tímpanos
Não falem comigo
Estou trabalhando
E o dia passa, saio às seis da tarde
Olho para o céu e a felicidade invade
Por maior a raiva que eu esteja sentindo
Por não decidir meu próprio destino
Não vou pensar nisso agora
E que se foda ir para casa
Não me importo com amanhã
Vou direto para a praia
Ver as cores do céu desvaindo…
Me deixando são
Azul, vermelho, amarelo
Verde, roxo e mais azul
Numa escuridão contínua que cresce
Que firma um elo entre si
E que também desaparece
De com a mesma felicidade que apareceu
O sol some no horizonte
Dando espaço à noite dos amantes
Mas hoje eu não tô afim
Volto para casa em fim
E faço um macarrão com ovo
Cheio de pimenta
Às vezes os melhores dias são assim
14 – O Apocalipse
Espero que deus nos salve
Quando o sertão virar mar
Quando não houver nenhum caule
Da Bahia ao Ceará
E quando todas as luzes apagarem
Quando não restar sequer o brilho de esperança
Nos olhos de uma criança
Eu nem rezarei porque ele aparecerá
E espero que ele venha
Atendendo seu próprio mal agouro
Quando o céu virar puro fogo
Enquanto a terra esquenta e esquenta
Ah, mas se ele não vir
Quando o chão começar a se partir
Talvez eu tenha alguma dúvida
Se existe deus, ou se ele não existe
E quando eu morrer
Soterrado em meio a gritos mil
No desespero do mundo febril
Sombrio
E definitivamente doentio
Caindo eternamente em discursos
Vazios
Eu espero que deus me acuda
E não esses vadios…
Pois mais fácil a terra acabar
Do que deus deixar de me amar
E onde eu vou viver?
Me diga você
Porque eu vou estar nos braços do supremo
Ser
……….
Mas… Se ele não vir
Se ele sequer não existir
Então eu terei rezado por nada
E minha morte…
Uma bela piada
Mas não vai ter quem ria
Porque todos estarão mortos
E eu serei uma piada
E meu deus não será mais nada
13 – Prótese Biônica
O que fazer quando a presença
É enganosa
E a dolorosa realidade da falta
Precisa ser sentida?
O sentimento de que tem algo errado
De que algo que deveria estar
Mas não é mais encontrado
Tão abrupto quanto um acidente
Do nada você anda e sente
Como algo que não está lá
Me dá uma dor tão contundente?
A sensação de mover
De se ter
Tão presente no passado
Agora vazio de espaço
E, por mais vazio que esteja
Nunca vazio de sentido
Sentido atribuído àquilo perdido
Oh, saudade beira o infinito
Impossível de ser substituído
Seja com um membro biônico
Ou com um novo amigo
A dor fantasma é parecida com o luto
A falta demasiada tem sentido mútuo
Seja um membro ou uma relação
A dor sentida da perda é real
E inteira, não apenas uma fração
Para aqueles que perderam um membro
A vida continua daqui e então
Para aqueles que perderam alguém ou algo
A vida continua daqui e então
11 – Poder
Sabe quando você está prestes a estourar?
Quando parece que no mundo não tem mais ar?
Como se falar não fosse mais possível
Recuso me sentir tão despossuído
De mim mesmo
Quero criar meu próprio contexto
Para não depender de regras outras
Eu devo ter minhas próprias escolhas
Decidir se me coloco em tal ou qual eixo
Pois é uma decisão muito necessária
Entender que caminho seguir na estrada
Os apoios, incentivos, silêncios e vaias
A torcida pela vitória, a torcida pela falha
Pois quando escolho que caminho seguir
Me encho com normas e regras a cumprir
Pessoas me observam esperando exemplo
E novamente o sentimento de sufocamento
Eu só posso dar valor
Para o que eu me pus a dispôr
Eu só posso sentir medo
Daquilo que quero obter respeito
Eu só posso ter como desafio
O que me coloquei como caminho
Eu seleciono as brigas que eu luto
Batalho, sangro e suo no processo
Mas não tenho certeza do sucesso
Pode ser de qualquer sorte o fruto
Portanto antes de mais nada
Antes da crise ou da surtada geral
Procuro entender porque é importante para mim
A opinião de A, B ou X
E se eu me proponho uma instiga
Eu tenho que cumpri-la em suas regras
Mesmo que sufoque na mão amiga
Mesmo que isso me deixe depressivo
O poder é algo que você tem
E, por escolha, você dá para alguém
Submetendo-se às leis daquele ambiente
Estando sempre completamente ciente
Seja em um relacionamento
Ou numa escolha de vida
Você tomou a primeira partida
Cabe agora o merecimento
9 – Repudiar
Eu proíbo seu gosto
Proíbo sua cara
Apago a memória
De tu cheirando meu pescoço
Reescrevo sua história
Em minha cabeça
Estou disposto
Quero que tu me esqueças
E eu ignoro as mensagens
Desvalorizo sua imagem
Assim como fez comigo
Não é algo infantil como castigo
É só uma “fase”
Fase do luto pela morte do que tínhamos
Deixo secar o sangue
Litros que dariam para encher um tanque
Jorrando de cortes em meu coração
Cortes de momentos todos
Que me dispus em outras mãos
Sou besta, não?
Descobri que você é minha fraqueza
Que pode causar minha destruição
Mas você sabia disso antes de mim
E eu, bobo, não tinha nenhuma noção
Agora eu sei o que estava acontecendo
Dependente de todo mal disfarçado
Me alimentando de restos esfarelados
De um amor que nunca foi meu
Você estava numa boa
No melhor de todos os mundos
Então espero um dia que me perdoa
Mas hoje não mais te permito
Limito seu abraço e comentários
Não quero falar contigo
Seu rosto não vai estar nos procurados
Não te vejo como um bandido
Mas essa noite
E nas próximas que vierem
Eu te repudio.
Dia 8: Um murro bem dado
Cala a boca, otário
Porra de falar de sentimento
Não quero saber disso
Não vou ter conhecimento
Olho sério ao meu oponente
Respiro forte para amedrontar
Já sinto o sangue pingar
Pelos meus dentes
Agora somos um par
Só tenho ele em minha mente
Vamos brigar
Boto a base
Grito com toda força
Preparo o ataque
Desfiro antes que ele corra
Mas ele não corre
Mais sangue pinga no chão
Vermelho, espesso, escorre
Um dente perdido na mão
Chegou minha vez
E eu não vou recuar
Ele vai me arrebentar
Pior do que antes já fez
E POW
AI!
DÓI PRA CARALHO!
Caio no chão estirado
O gosto forte metálico
Mas ainda não estou desacordado
Eu ainda tenho energia
Para mais um murro
Se eu conseguir levantar…
É ele que cai duro!
Ouço meu coração bater
O tempo para num segundo
Som alto, claro, eu escuto
Era o que eu precisava
Vou fazer BA-RU-LHO
Eu levanto!
Grito de volta para o mundo
Eles gritam de volta
Mesmo que eu os escute em mudo
Fico de cara-a-cara
Fito o vagabundo
Corpo suado, cara surrada
E um sorriso vermelho imundo
Eu respiro fundo
O silêncio toma conta de mim
Fecho os olhos
E não estou mais ali
“Ícaro! Ícaro!
Diga o que veio fazer a seguir!”
Abro meus olhos
Estava lutando contra a ansiedade
E eu perdi