19 – Desenho Japonês

E quando ninguém sobra
Eu tenho que aprender a viver
Comigo

Do que será que eu gosto?
Saio por aí sem amor
Sem destino
Procurando caminhos

Talvez uma praia
Ou um cinema sozinho
Cuidar das unhas
Mudar um pouco o estilo

Em casa eu cozinho
Faço minha comida favorita
Como assistindo desenho japonês
De noite eu leio algo que me instiga

Durmo só na cama de casal
Acordo com obrigações diárias
Tomo banho e me visto

Não é a melhor vida
Não é a pior
Apenas um dia depois do outro
Aprendendo a me amar

18 – Boca Gore

Dentes pontiagudos
Dentes cerrados
Em filas e colunas
Há algo de errado

O homem dormiu a noite
Cansado do trabalho diário
E cama, solitário, sonhou
Pesadelos nunca antes sonhados

Ele viu a terra tomada
Viu seres do espaço
Viu mutantes humanos
E se viu escravizado

Acordou se supetão
Se sentindo meio inchado
Foi ao banheiro meio zonzo
Lavou o rosto e sentiu algo de errado

Sua boca havia se transformado

Ele rapidamente abre o armário da pia
E pega o espelho de pentear cabelo
Não esperava que sentiria medo
Da imagem que viria
Coitado do homem
Coitado, não merecia…

E então a dor começou
Era só o que consegue sentir
Uma dor aguda de fato
Espalhada pelo rosto todo
Que é sentida na boca
Bochecha, pescoço, coluna e nariz

Sua baba escorre pelo corpo
Seus lábios estão cortados pelos dentes
Dentes estranhos e recentes
Dentes de bichos diferentes
Dentes de monstros e dentes de gente
Todos eles formando filas na boca
Imensa boca que rasga a bochecha
Rasgo que vai de orelha a orelha

Seu queixo guarda antenas
E seu maxilar reserva pernas novas
Finas como de aranha
E afiadas como tesouras
Elas se contorcem, anômalas

E o homem as sente
Oh, pelos deuses ele sente tudo
Sente o dentes novos, as antenas
As patas e o desejo de sangue moribundo
E simplesmente entra em surto

Procura algum remédio
Para aliviar a dor instantânea
A saliva continua pingando pelo quarto
Chão, tapetes e cama
O homem está completamente
Desesperado

De repente um desejo inesperado
*Preciso me destruir*
“Preciso acabar com minha vida
Preciso deixar de existir”

O homem corre para a cozinha
Mas não há nada ali
Tinha acabado de se mudar
Não trouxe nada ainda

Então saiu pela rua
Tinha uma loja que fechava às duas
Loja de armas no fim da esquina
Só mais um pouco e ele conseguiria

Chegou na loja sibilando
“Desculpe, senhor. Estamos fechando”
A mulher mal olhou para o coitado
Que seguiu andando

A cada passo mais inumano
Correu para um beco e se bateu com estranho
Ele estava dormindo sentado
Em meio ao lixo e aos sons de carros

Sibilando, ele investiu contra o cara
Sua boca destruindo por completo
Estourando sua cabeça e a devorando
Miolos sujam as paredes e a calçada

Cerrando seu pescoço
Os dentes trabalham sozinhos
O homem que ainda existe ali
Nada mais é além de vazio

Ele se sente assistindo a si
Devorando um corpo
Ele sente o amargo do sangue
Ele também sente o gosto
Mas não é não ruim….
Poderia viver assim….

17 – Gótica

Porra de gótica, minha filha
Você toda rosa, toda patricinha
Entra na roda e toda hora se humilha
Ninguém merece você
Nem a gente, nem o céu e nem sua família

Se seus pais falam “A” contra o estilo
Você respeita pela religião
Aí sustenta a carona de fodona na rua
Mas em casa é “pois sim, pois não”

Todo mundo aqui tem problema
Fodidos que infelizmente enfrentam
O sistema
Mas você? Você não
Tem dinheiro, tem amigos, tem fama
Tem carrão
Tem comida, tem família, tem gente dando em cima
E fica procurando mais e mais atenção

Eu não aguento mais ouvir de você
De quantos otários você quer fuder
De quantas otárias você deixou na mão
E fica brincando por aí com os nomes deles
Ao invés de só dizer “não” pra eles

Eu não aguento mais seu egocentrismo
De controlar a conversa inteira
Como se o mundo fosse seu umbigo
Como se eu quisesse saber sobre os segredos
De sua beleza

Minha irmã, você não é gótica
Você só é uma menina mimada
Que vive chateada por nada
Que come caviar
E fica triste pelos pobres na estrada
E quando chega um morador de rua
Vira a cara
E quando aparece uma ONG pedindo auxílio
Não dá um mísero real
Porque papai vai ver no cartão
E vai “ficar de mal”

Na moral

Fica longe de mim
Leva sua bota longa preta
Sua bolsa da fenty
E seu casaco de couro daqui

Cansei de ser bonzinho
De ser só um amigo gentil
Vou beber meu vinho barato gelado
E vou pro cemitério com a galera do lado
E os chatos de galocha como tu
Não estão convidados

16 – Anomalia Quântica

Há milhares de mim
Bilhares
Se escondendo na minha pele
Em minhas unhas
Nos meus olhares

Eu sou composto de ferro
De água, fogo e tesão
Ando por aí porque posso
Dificilmente aceito fácil um “não”

Eu sou a voz em sua cabeça
Dizendo que você quer ousar
Eu sou a lembrança perdida
E envergonhada
Pedindo para entrar

Sou o acerto e o erro
Sou o secreto desejo
Não podes se esconder
Eu sei quem é você

Eu sou também seu cérebro,
Pulsando em energia
Queimando seus neurônios
Acreditando em magia

Eu sou cada parte de quem sou
Milhões, bilhares de células
Sou cada uma delas
Multitude sobre a tela

Se fervo em febre
Me livro do mal interior
Se entro em transe
Usando droga ou por amor
Eu me curo com poesia
Ou com a dor

Pequenos seres incontroláveis
Comendo sem parar
Gerando outros milhares

Posso não conseguir ver
Posso não pegar, cheirar ou lamber
Mas eu sei que estão aqui
Me montando Tintim por Tintim

Pois sou responsável por todos
E tais são responsáveis por mim
Eles querem viver como loucos
E eu quero apenas curtir

Não há nada de errado
Em ser composto por nano-arrombados
Que seguem suas próprias regras
Que vivem ou não vivem de fato

Eu não tenho as minhas?
Vivo pelo que acredito
Bebo água porque preciso
Bagaço um podrão
Como um delicioso marido
Não meu, dos outros
E sigo minha vida sendo
O perigo

Eu sinto a energia surgir
Num salto entre camadas
A cada salto
Um novo de mim
A cada salto
Entre os infinitos de saltos
De incontáveis de elétrons
Pulsa Ícaro dentro de mim

E, por mais antigo que isso seja
Que seja deus ou parte da natureza
Ainda assim é novo para minha vida
E mudarei, mudarei e continuarei mudando
Até a minha partida

15 – Estranhamente bonito

E amanheceu
O céu está lindo
O sol sobe sorrindo
Apesar de ter que levantar cedo
Com olheiras, sem dormir direito
Sinto que hoje o dia vai dar certo

Tomo um banho demorado
Passo meus cremes
Tenho meus cuidados
Acabo me atrasando pra caralho
Cheiroso e preocupado, eu saio

O calor está gostoso
A moto corta a cidade inteira
Sinto uma dor no pescoço
Mas deve ser besteira
O trânsito tá tranquilo
Nas ruas só eu e meu amigo
O amigo é a moto desgastada

Chego no espaço
Bato meu ponto
Um alvoroço no trabalho
Ainda bem que não sou eu
Sento no meu lugarzinho
Ponho meu fone
Não falem comigo
Não falem comigo

E… Torcicolo
Maldita noite mal dormida
Preciso sair daqui logo
O sono não me deixa saída

Faço tudo muito lento
A música ajuda animando
Um metalcore arrombando
Meus tímpanos
Não falem comigo
Estou trabalhando

E o dia passa, saio às seis da tarde
Olho para o céu e a felicidade invade
Por maior a raiva que eu esteja sentindo
Por não decidir meu próprio destino
Não vou pensar nisso agora

E que se foda ir para casa
Não me importo com amanhã
Vou direto para a praia
Ver as cores do céu desvaindo…
Me deixando são

Azul, vermelho, amarelo
Verde, roxo e mais azul
Numa escuridão contínua que cresce
Que firma um elo entre si
E que também desaparece

De com a mesma felicidade que apareceu
O sol some no horizonte
Dando espaço à noite dos amantes
Mas hoje eu não tô afim
Volto para casa em fim
E faço um macarrão com ovo
Cheio de pimenta

Às vezes os melhores dias são assim

14 – O Apocalipse

Espero que deus nos salve
Quando o sertão virar mar
Quando não houver nenhum caule
Da Bahia ao Ceará

E quando todas as luzes apagarem
Quando não restar sequer o brilho de esperança
Nos olhos de uma criança
Eu nem rezarei porque ele aparecerá

E espero que ele venha
Atendendo seu próprio mal agouro
Quando o céu virar puro fogo
Enquanto a terra esquenta e esquenta

Ah, mas se ele não vir
Quando o chão começar a se partir
Talvez eu tenha alguma dúvida
Se existe deus, ou se ele não existe

E quando eu morrer
Soterrado em meio a gritos mil
No desespero do mundo febril
Sombrio
E definitivamente doentio
Caindo eternamente em discursos
Vazios

Eu espero que deus me acuda
E não esses vadios…

Pois mais fácil a terra acabar
Do que deus deixar de me amar
E onde eu vou viver?
Me diga você
Porque eu vou estar nos braços do supremo
Ser

……….

Mas… Se ele não vir
Se ele sequer não existir
Então eu terei rezado por nada
E minha morte…
Uma bela piada

Mas não vai ter quem ria
Porque todos estarão mortos
E eu serei uma piada
E meu deus não será mais nada

13 – Prótese Biônica

O que fazer quando a presença
É enganosa
E a dolorosa realidade da falta
Precisa ser sentida?

O sentimento de que tem algo errado
De que algo que deveria estar
Mas não é mais encontrado
Tão abrupto quanto um acidente
Do nada você anda e sente
Como algo que não está lá
Me dá uma dor tão contundente?

A sensação de mover
De se ter
Tão presente no passado
Agora vazio de espaço

E, por mais vazio que esteja
Nunca vazio de sentido
Sentido atribuído àquilo perdido
Oh, saudade beira o infinito
Impossível de ser substituído
Seja com um membro biônico
Ou com um novo amigo

A dor fantasma é parecida com o luto
A falta demasiada tem sentido mútuo
Seja um membro ou uma relação
A dor sentida da perda é real
E inteira, não apenas uma fração

Para aqueles que perderam um membro
A vida continua daqui e então

Para aqueles que perderam alguém ou algo
A vida continua daqui e então

11 – Poder

Sabe quando você está prestes a estourar?
Quando parece que no mundo não tem mais ar?
Como se falar não fosse mais possível
Recuso me sentir tão despossuído
De mim mesmo

Quero criar meu próprio contexto
Para não depender de regras outras
Eu devo ter minhas próprias escolhas
Decidir se me coloco em tal ou qual eixo

Pois é uma decisão muito necessária
Entender que caminho seguir na estrada
Os apoios, incentivos, silêncios e vaias
A torcida pela vitória, a torcida pela falha

Pois quando escolho que caminho seguir
Me encho com normas e regras a cumprir
Pessoas me observam esperando exemplo
E novamente o sentimento de sufocamento

Eu só posso dar valor
Para o que eu me pus a dispôr
Eu só posso sentir medo
Daquilo que quero obter respeito
Eu só posso ter como desafio
O que me coloquei como caminho

Eu seleciono as brigas que eu luto
Batalho, sangro e suo no processo
Mas não tenho certeza do sucesso
Pode ser de qualquer sorte o fruto

Portanto antes de mais nada
Antes da crise ou da surtada geral
Procuro entender porque é importante para mim
A opinião de A, B ou X

E se eu me proponho uma instiga
Eu tenho que cumpri-la em suas regras
Mesmo que sufoque na mão amiga
Mesmo que isso me deixe depressivo

O poder é algo que você tem
E, por escolha, você dá para alguém
Submetendo-se às leis daquele ambiente
Estando sempre completamente ciente

Seja em um relacionamento
Ou numa escolha de vida
Você tomou a primeira partida
Cabe agora o merecimento

9 – Repudiar

Eu proíbo seu gosto
Proíbo sua cara
Apago a memória
De tu cheirando meu pescoço
Reescrevo sua história
Em minha cabeça
Estou disposto
Quero que tu me esqueças

E eu ignoro as mensagens
Desvalorizo sua imagem
Assim como fez comigo
Não é algo infantil como castigo

É só uma “fase”
Fase do luto pela morte do que tínhamos

Deixo secar o sangue
Litros que dariam para encher um tanque
Jorrando de cortes em meu coração
Cortes de momentos todos
Que me dispus em outras mãos

Sou besta, não?

Descobri que você é minha fraqueza
Que pode causar minha destruição
Mas você sabia disso antes de mim
E eu, bobo, não tinha nenhuma noção

Agora eu sei o que estava acontecendo
Dependente de todo mal disfarçado
Me alimentando de restos esfarelados
De um amor que nunca foi meu

Você estava numa boa
No melhor de todos os mundos
Então espero um dia que me perdoa
Mas hoje não mais te permito

Limito seu abraço e comentários
Não quero falar contigo
Seu rosto não vai estar nos procurados
Não te vejo como um bandido

Mas essa noite
E nas próximas que vierem
Eu te repudio.

Dia 8: Um murro bem dado

Cala a boca, otário
Porra de falar de sentimento
Não quero saber disso
Não vou ter conhecimento

Olho sério ao meu oponente
Respiro forte para amedrontar
Já sinto o sangue pingar
Pelos meus dentes
Agora somos um par
Só tenho ele em minha mente
Vamos brigar

Boto a base
Grito com toda força
Preparo o ataque
Desfiro antes que ele corra

Mas ele não corre
Mais sangue pinga no chão
Vermelho, espesso, escorre
Um dente perdido na mão

Chegou minha vez
E eu não vou recuar
Ele vai me arrebentar
Pior do que antes já fez

E POW

AI!
DÓI PRA CARALHO!
Caio no chão estirado
O gosto forte metálico
Mas ainda não estou desacordado

Eu ainda tenho energia
Para mais um murro
Se eu conseguir levantar…
É ele que cai duro!

Ouço meu coração bater
O tempo para num segundo
Som alto, claro, eu escuto
Era o que eu precisava
Vou fazer BA-RU-LHO

Eu levanto!
Grito de volta para o mundo
Eles gritam de volta
Mesmo que eu os escute em mudo

Fico de cara-a-cara
Fito o vagabundo
Corpo suado, cara surrada

E um sorriso vermelho imundo

Eu respiro fundo
O silêncio toma conta de mim
Fecho os olhos
E não estou mais ali

“Ícaro! Ícaro!
Diga o que veio fazer a seguir!”

Abro meus olhos
Estava lutando contra a ansiedade
E eu perdi