Eu paro no meio da rua
Olho para os lados
Vejo pouco além da lua
Algumas casas, e insetos
“É aqui que eu me acabo”
E um grito se vai
Esse muito muxoxo
Mas sofrido demais
Estremeço o osso
Então outro grito se solta
E agora não tem mais volta
Sinto uma criatura dentro de mim
Pronta para me explodir
Grito ainda mais alto
Agora eu sinto a dor
Sinto o amargor em cada segundo
E continuo, apto a cair no chão
E é isso que faço,
O som fica um pouco abafado
A voz trêmula entoa o chamado
O grito se tona um chamariz de otário
E é nessa hora que o show começa
O meu corpo não aguenta a pressão
Já no chão, começa a contorção
A água ali da rua é suor e lágrimas
Se tiver tempo, então que se despeça
Explodo em mil pedaços
Minha carne, meu sangue, minha pele
Por todos os lados
Não sinto mais o que me impede
O passado não faz mais sentido
Não tem mais futuro perdido
Eu me desgraço completamente
Eviscerado, verdadeira carnificina
O sangue no chão não mente
Ele corre, espesso, até a esquina
A carne está maravilhosa
E os insetos estão festejando
Ratos, pombos, algumas idosas…
E até a mosca moribunda
Jantando alegria absurda
Os vizinhos olham assustados
“Ô dó, não pude fazer nada”
Assistindo, fotografando a desgraça
Amanhã os outros serão informados
Fofoca correndo solta na língua de um
E no ouvido da outra
E o que sobrou na rua?
O sangue embaçado, o brilho da lua
A memória de um ato visceral
E a minha coluna vertebral