14 – Caminho Tortuoso

E, para meu ato final
Eu esmoreço
Eu me destruo
Eu enlouqueço
Busco qualquer vida que possuo
E a quebro num murro

Lembro do começo
Um pé atrás do outro
Pezinhos bem fofos
Pezinhos travessos

Lembro de todo o esforço
Das pessoas me ajudando
Daqueles que me deixaram exposto
Dos primeiros momentos insano

Cresci
Amadureci
Mas os problemas ainda estão aqui

Que vida miserável
Que vida desgraçada
Se um dia eu estava estável
Hoje só penso quando não estava

Que esquecimento maldito
Atenção de centavos
Poderes reduzidos
Aumento de estragos

Eu destruo meu próprio caminho
Desfaço, crio meu prejuízo
Me afasto de qualquer cuidado
Mesmo pensando do meu lado
O egoísta que morde o próprio rabo
E acaba com o bônus de qualquer atos

Que otário
Que idiota
E quando se fode?
Chora!

Perdeu oportunidade porque não liga
Não sabe de verdade
Não se importa com a própria realidade
Não vê quando perde a hora
Perde o evento
Perde o namorado
Perde a família
Os amigos
O contrato
Perde os objetivos
Perde a vida
Nada fica

Muito pelo contrário

Se gaba tanto que tudo muda
Que tudo pode se renovar
Precisa ficar de olho, ficar na escuta
Porque mudar pode significar
cair
e quebrar

Não vou dormir hoje
Não vou comer
Cometi o maior vacilo de minha vida
E eu não queria nem nascer

13 – Medo Visceral

Ícaro caiu do céu sorrindo
Pandora viveu com esperança
Perdiz voou grandes distâncias
E Odisseu foi afinal acolhido

Os fungos decompõem a carne
O fim de amizades significa novos amigos
As roupas que não mais cabem
Podem ser doadas e caber em outros
Indivíduos

E o louva-a-deus morto terá filhos
E o mundo, mesmo com plástico
Está em seu giro contínuo
E, mesmo com as eleições no papo
Um dia o mandato acaba

Eu não me assombro com monstros
Com espíritos ou fantasmas
Eu tenho medo de humanos
Medo de algum mal me faça

A morte, que é o medo visceral
Vai chegar algum momento
O universo cresce, imortal
E o declínio vem com o tempo
Decaimento fatal



“Não há bem dure para sempre
Nem mal que nunca acabe”
Minha mãe fala em minha mente
E eu lembro como um escape

Claro que tenho meus desesperos
Meus dias vazios
Claro que choro no banheiro
Com a mente a mil

Hoje eu tenho medo do futuro
De como vou construir minha vida
Eu sinto que tenho nada em mãos
Só um passado escuro
Sem sequer ponto de partida

Perdido no céu da noite
Eu ando com a música no máximo
Fugindo dos pensamentos acumulados
Às vezes eu os deixo que me achem…

Já vi rirem de quem se assusta com os próprios pensamentos
Esses não conhecem o que é medo
Só ficam chateados
Por isso têm como entretenimento
Os derrotados

Eu não subestimo medos
Às vezes não podem ser controlados
Eu enfrento quando preciso
Me reinvento, dou meu jeito
Mas às vezes só fico parado

Marinando no próprio cansaço
Falando de nada com ninguém
Cheirando a fracasso
Sozinho me desfaço aquém de quem fui
Aquém do que eu posso e o que eu faço

Hoje o medo venceu
Amanhã eu levanto e retraço os planos
Eu só não consigo mexer meu braço

Será que palavras bonitas me salvarão?
Do fundo do poço que caio há meses
Que caio em êxtase
Que caio em vão?

Eu não sei, não.
Queria ser o Ícaro de antes
Eu acabei só sendo um vacilão.

12 – Acordo/Negociar/Lidar

Dia quente, como sempre
Tesão no tédio de manhã
Encontro você de repente
E a manhã deixa de ser vã

Tocamos mensagens uns dias
Nos outros, nos vimos
Beijamos, conversamos, transamos
Dois desejos, unimos

Com você o mundo é mágico
É compreendido e exato
O mundo é catártico
Baseado em suas construções do fato

Meu mundo não é concreto
Ele é mágico, mas incerto
Construção diária com as mãos nuas
As minhas leis são feitas nas ruas
Precisa-se ser esperto

Bom, eu não fui
Me perdi no meu mundo procurando o seu
Juntei tantos laços que ele bateu
Colidiu diretamente com sua rotina
Me deixou sem saída

Caminhei seu mundo com o meu
E a montagem era esquisita
As pessoas eram alienígenas
Geralmente amigáveis
Raros terroristas

Caminhei seu mundo como meu
Como um bom turista
Perguntei os melhores lugares
As melhores atividades
Você me deu as costas e disse
“Aprecie a vista”

Nervoso e sozinho
Em meio a um mundo hostil
A voz só chegava para agradecer
Amar ou temer? Ou amar ao temer
Eu temia você resolver não querer mais

E quanto mais o tempo sem resolver
Mais o meu mundo colapsava
Eu sempre querendo te ver
Mesmo me sentido uma pessoa
Não-amada

Escrevia poesias sobre o mundo louco
Eu sabia que havia um ponto solto
Mas não conseguia abrir o olho

Fascinado demais neste mundo novo

Bom, o meu mundo explodiu
Minha casa, meu trabalho,
O meu amor doentio
Tudo sumiu

Eu duvidei de tudo ao redor
Duvidei do meu amor
Duvidei até se poderia ser melhor

Até hoje eu não sei

Meu mundo explodiu, sim
E com ele foram as construções
Foram as minhas regras
Explodiram até as canções piegas
minhas memórias de outra época…

Já era…

Meu mundo explodiu, é fato
Mas ainda existem pedaços quebrados
Alguns que criam machucados
Outros lembram dos machucados passados
As responsabilidades não pararam
Mas o mundo não mais existe estável

Meu mundo explodiu, todavia
Há esperança de que nasça mais vida
Criação das mãos nuas minhas
Um novo mundo se aproxima…

E então paramos de nós falar
Um mês, dois, três meses
Eu sem me importar
E então você quer
Se ver no nosso lugar

Conversar o não dito

Eu vou logo acabar com isto
Quero saber o que queres
este bendito
E porque logo comigo

Você quebra o gelo com piadas
Eu o elogio
Você fala seus motivos de distância
O que me estranha
Me confunde e percebo que me engana
Mas sinceramente?
Não impressiona

Eu concordo com as posições
O acordo foi selado
Não teremos relações
Mas com clima amigável

Meses se passaram
Meses sem contato
Uma festa, você canta
Eu fui convidado

Me diverti do meu jeito
Bebi, comi, amei com respeito
Me diverti como podia
Me senti acolhido naquele dia

Até você me beijar
E acabar com minha magia
Sem me consultar
Sem clima, sem fantasia

Acordo o caralho
Você faz o que quer
Eu não confio em você
Eu não sei quem você é

11 – Fé

Eu me toco
Eu me vejo
Sinto meus dedos no espelho
O vento passa pelos meus pêlos
Eu sinto meu corpo

Mas eu não vejo por dentro
Não sei se existe
Não vejo meus sentimentos
Não toco, não vejo
Mas eu sempre me lembro
Lembro do que disse
Palavras voando ao relento…

Não são reais,
Não servem de nada

Preencho minha taça
Líquido viscoso e gasoso
Ele escorre da garrafa bondoso
Me esquenta e me agrada

As sensações marcam a pele
Fica quente, vermelha
Fica fria, fico leve
O álcool me submerge

O que seria eu, além de deus?
Dividido entre a carne e o sentimento
Entre o agora e o adeus
A carne e o pensamento

O engano e o querer
Respostas para o vir a ser
Não sou um ou outro
Sou ambos, para seu desgosto

Sagrado e profano
Dono de um paraíso só meu
Depois da festa, desato os panos
De confete
Para descansar no sorriso de Romeu

E as elucubrações céleres
Que me arrastam do destino certo
Me deixam um pouco inquieto
Fazendo da realidade, hipérbole
E da imaginação, concreto

Pois eu que fiz a luz
Fiz os carros, fiz as terras
E em mim que tudo isso reluz
Ganha sentido, afeto
Vira moderno, se encerra

Sim, eu sou deus
E o mundo não precisa saber meu nome
Já mataram tantos como eu
E os que se gabam… Seus nomes somem

Sim, eu sou cultuado
Sou lembrado por amados
Para uns, o não nomeado
Para outro, um etéreo nunca amargo

Busco essa verdade a anos
Por debaixo do tapete
Por entre os panos

Estava procurando em outros deuses
Procurando alguém para ser meu âmo
Não reconhecia meus poderes
Mas reestruturei os planos

A imaginação existe enquanto eu existir
Ela espelha a minha realidade compartilhada
Eu sou o deus de mim
Deus da verdade ilimitada

E, quando eu tiver em meu fim
Diga a todos que eu morri por nada

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Esse ano eu passei muito dele esperando um deus, querendo assumir alguma fé. Talvez exista uma força espectral que dê um sentido nas estrutura do universo, quanto que nós decalcamos sua inteligência. Mas isso não significa que essa criatura quer nosso bem ou mal. Acho que nós devemos ser por nós. Não existe outra pessoa além de nós mesmos no fim do dia.

E a referência do final foi porque o cristianismo merece acabar ou ao menos ser menos considerado. Como algo importante.

10 – Show de bateria

Acordo cedo com o sol
Mais um dia lindo
Levanto da cama sorrindo
Como um peixe mordendo o azol

Café da manhã é bem rápido
Isso quando dá tempo
Comer uma besteira é mais prático
E entra mais no orçamento

Me arrumo de cima a baixo
Penteio os cabelos
Me encho de cheiros
Esperando ser notado

Contagem de itens na mochila
Faço uma lista
Chaves
Roupa extra
Carteira de motorista
Celular que espelha
E gatilhos à parte

Chego na empresa
Ninguém está à vontade
Todos odeiam de verdade
Mas não há maldade
Só negócios, ataques, defesas

Me sento e vejo o tempo passar
Uma, duas, cinco horas
Tento não desassociar
Espero ir embora
E desato a chorar

O carro se dirige na estrada
Os olhos marejados
A fuga não pode ser planejada
Responsabilidades desafiam tal ato

Frustrado e confuso
Eu aumento o som do carro
Afasto os pensamentos obscuros
E grito as músicas bem alto

Por um momento
Aquele pequeno momento
Eu não sou mais um funcionário
Eu curto minha vida adoidado
Não tem que julgue este coitado
E, se tivesse, não teria me importado

O carro se conduz pela pista
Mudando de música
Freando quando precisa
Sinto no cabelo a brisa
Carro me deixa na esquina
E aceita o plano proposto
Paro no posto
Compro uma bebida
Sigo o caminho
Menos tortuoso

Até que o carro para
Chegou onde precisava
Uns tapas no rosto para tirar a mágoa
E meu único amigo me deixa em casa

Entro, converso, faço até piada
Beijo, abraço, tomo banho
E no banho eu dou uma descansada
“Essa vida não tem ganho
Ou eu me encaixo na palhaçada
Ou eu me torno um nada”
Pensamentos estranhos…
Pensamentos comuns de banho

Quero deitar em minha cama
Dormir e não lembrar do dia
Das pessoas mal humoradas
Do que faço por quem me ama
Da violência apenas assistida

Os olhos fecham no breu da meia-noite
Como um véu
Cobrindo em preto os montes
Eu me deixo flutuar no céu escuro
Encontro a bebida que tanto procuro
A Cicuta brilha no luar eterno do mundo

Acordo cedo com o sol
Mais um dia lindo
Levanto da cama sorrindo
Como um peixe mordendo o anzol

9 – Manga de Camisa

Eu cortei minha manga fora
Um pedaço já estragado
Comer seria insensato
E tenho comida de sobra

Eu cortei minha manga fora
Para começar o trabalho
O gosto na boca amargo
Chego e saio bem na hora

A manga do trabalho duro
Aquela que causa revolta
Tão odioso amargo fruto

Mesma fruta tão desejada
Seu doce derrete na boca
Quem a prova não a prepara

8 – Gaiola/Prisão

A violência está na frente
Só bastava eu falar
Mas eu não sei estou certo
Eu me assusto
E quando decido…
O tempo passou
Já deixei pra lá

A violência dita
A violência marcada
A violência sentida
E eu, calado
Sem mordaça
Só calado
Nem o ar escapa

A paixão está latente
Ela arrepia os pêlos
Devora minha mente
Derretendo com seu calor

Esse calor é corpulento
Uma lava que consome tudo que toca
E me toca te toco por dentro
Te sua me vicia na hora
Me cansa te alcanço do meu jeito
Me perguntando se faço direito

Essa lava, esfria em um momento
Tornando pedra todo esse acontecimento
É lindo, é forte, tem sentimento
Eu te olho, eu me importo
Mas as palavras…
Elas ficam para dentro

Palavras fáceis de escrever
Difíceis de serem ditas
Engasgam na saída
Se perdem do âmago do ser
Não podem ser atingidas

E quando o saber invade
Conhecimento de pura luta
Com pouca vaidade
Palavras que são astutas
E podem levar a alguma dignidade

Conhecimento que liberta
Que torna o engraçado, duvidoso
Que separa os certeiros dos tolos
Os cordeiros de quem faz a festa
Esse saber que te inclui nessa
E não exclui por ser oneroso
Não tem vergonha de se é escandaloso
Conhecimento que desperta

O teste vem bem na sua testa
Vem do alguém que você menos espera
Vem do sacana que você já espera
Você não fica à vontade
Mas também não nega

E a situação se multiplica
Mas pior que tá… Não fica?
Engraçado é relativo a quem?
Se você não gosta daquilo
Por que então que “magicamente” vem?

Hipócrita das mãos escuras
Sangrando das palavras ditas ao sol
Supostamente astutas…
As mãos, ásperas que só
A língua, seca de dar dó
A consciência…
Vazia.

Ninguém te pede defesa
Não existe justiça
Existe a certeza
E existe hipocrisia

Minha cabeça girando com fatores
Com morte, vida, ação, amores
Não quero ser inimigo da diversão
Mas me incomoda nunca dizer um não

Estou numa prisão
Mas o lado de dentro é grande
Ele cabe amigos, amores, amantes
Nele não cabe canções

Se sair, enfrento a solidão de um homem
Se fico, a companhia de idiotas
Se saio, me prendo em outro horizonte
Se fico, se saio…
Acho que não mais importa…

Não escolho, de fato
Não escolho que me olhas
Não escolho minha casa
Não escolho que caminho contornas
Não escolho nada

Se deixo escapar um grito, é um favor
Se corro ou se ando, nada ameniza a dor

Estou dentro de mim
Berrando em plenos pulmões
Eu quero sair daqui
Quero destruir casas
Quero criar imensidões

Mas os olhos abrem
A boca mexe
E os pés sabem o caminho a seguir
Eu observo o mundo de longe
Longe…
Bem dentro de mim

My body is a cage
Tha keeps me from living the life I own
And my mind holds the key

7 – Coração

Meu coração calou profundo
Não respondeu nem de quem é
Preferiu cair no mundo
E ficou fora só quem quer

Mas eu não vou mentir
Que me fez bem assim
Viver livre e só pelo prazer
Me arrumo
Me ponho no rumo
Mas vejo você…

Meu coração
respondeu de primeira
Bateu tão forte,
Até me deu uma suadeira
E eu desci
logo a primeira ladeira
Para fugir
Que esse amor não é brincadeira

Ô rapaz, favor
Vem cá
Era só transar
Coração, que cale já
Não vou apaixonar

Envolvimento foi profundo
Sinto na sola do pé
Quando ‘cê samba eu tô no fundo
Desejo e saiba quem quiser

Eu danço pra ti
E quando chega o fim
Cansado eu volto a dizer
“Que caralho
Eu só queria ele
Pra me endoidecer”

E eu vou correr
Perco as estribeiras
Quando você
passa por mim
Eu vejo estrelas
Mas a resposta
Vem é da cabeça
Que aquele tempo Acabou
por conta das suas besteiras…

Ô Rapaz,
Deixa pra lá
Quero é me amar
Meu coração,
Vai se fechar
Mas não vou me machucar

____________________________________________________________

Era pra ser uma paródia da música “Coração Vagabundo” da Mc Thá. Tem o ritmo da música e rimas parecidas, mas tá do meu jeito. E acabei contando uma história. Talvez ela seja real kkkkk. Enfim.

6 – Reflexão

Em janeiro eu fui ingênuo
Me atribulei com atividades
Nao sabia o que estava fazendo
Não via nenhuma maldade

Em Fevereiro o mundo explodiu
Intenso como o sol de verão
Foi carnaval no Brasil
Mas os dias passaram em vão

Em Março começou o surto
O tempo passando rápido
Eu sem mover um músculo
Pávido

Abril passou dolorosamente
Os cheiros de amores como café
Amargo, energizado, quente
As vozes me mantinham de pé
Me questionei se tinha alguma fé
Naquele ponto poderia ser qualquer uma

Maio foi novos sabores
Novas pessoas, novas visões
Maio foi um mês de puras dores
Novos problemas e decepções

Junho, o mês do estrago
Ansiedade, medo e frustração
Andando juntas mão a mão
Eu me desvencilhando do buraco
Procurando um abraço bem apertado
Procurando sexo sem paixão, coitado
Mas nem isso eu acho
Como Zuko, o destino não está claro
E termino só, como sempre foi
Apenas minha sombra ao lado

Julho de redenção, fortuita
Consigo caminhar a conta gotas
A dor ainda fica por muita
Mas nascem também emoções outras
Profundas

Agosto, um ouro de tolo
Escrever se torna um absurdo
E o trabalho fica perdido no processo
Tenho medo das palavras
Medo de meu regresso
Um novo surto me abala
Então largo tudo e ando solto
Com uma mão no bolso
Pensando em não pensar em nada

Setembro, o doce é um veneno
Acredite em você mesmo
Não pense pequeno
Inspiração? Olhe pro espelho
Mas não se convença por inteiro
Seja ágil como o vento
Rápido, quieto, incontrolável
Quem sabe a dor se torna suportável
Talvez você encontre poder no diálogo
Eu sei que ainda está confuso e doendo
Mas você não é mais tão fraco

Outubro, estamos aqui
Não paramos um dia
Sempre um passo a seguir
Responsabilidade que não cumpri
Outras que estão cumpridas
A racionalidade me guia
Sem ela, eu me perdi
Sentimentos nunca serão tirados de mim
Sinto muito, sou assim
Aventuras que me chamam
As tarefas que eu adianto
O mundo não para ao me ver cair
Isso também eu entendi

Eu não sei o que me aguarda
Não sei se vejo um futuro
Pela primeira vez na vida,
seguro a espada ao invés do arco
Luto de frente contra demônios do passado
Às vezes atolado no barro
Às vezes líder de um Estado

Não sei se vejo um futuro
Tateio as paredes enquanto ando
Ando e faço curvas no escuro
Cubro minhas mãos quando sangram
E fico sem saber que direção procuro
Mas não faço mais o que me mandam
Acho o labirinto mais seguro

Reflita, reflete, respiro, impede
Conflito, compele, conspícuo, compete

Não sou um ganhador
Não sou sequer um jogador
Eu sou um fazendeiro
Colhendo as mudas
Regando o dia inteiro
Comemorando as frutas
E dormindo cedo

Eu sou um leitor de livros
Que se irrita e se emociona
Com o personagem favorito
Aquele que escolhe o menos querido
E torce para que tenha um fim bem quisto

Eu sou um pesquisador
Eu colho e analiso meus dados
Observo e duvido dos fatos
Eu sou quem trabalhos inspirou
E mesmo assim eu sou ninguém
E sou o público consumidor
Sou uma senhora ou um senhor

Não sirvo para ser manipulado
Jogado de um lado pro outro
Ser mexido como uma caixa de biscoito
Consumido para um jogo de retalhos
Esquematizados
Não é de meu feitio, não é o meu caso

5 – Azul

Sou eu e o azul
Sempre fomos
Unidos pelo cordão dominical
Separados pelo sonho de estranhos

Quando criança eu via como normal
O azul estava na minha cabeça
Mas ele não poderia ser real

Eu não me sentia diferente
Porque achava que pensavam igual
O azul comovendo em montes
Meu pecado ancestral

O azul cresceu como um câncer
Se multiplicando sem parar
Tomando conta da criança
Silenciosamente, sem manifestar

Mas os outros sabiam do azul
E era de se esperar
O azul não manifestava
Mas eu o fazia se apresentar

O azul respingava de mim para fora
Em gestos, falas e formas
Os homens e crianças fugiam na hora
Tinham medo do azul pegar

Guardei o azul comigo
Eu e ele por anos a fio
O silêncio era explicativo
E o azul ficava quietinho

Na adolescência, o azul voltou
Mas estava diferente,
Era um azul com bordô…
Um roxo que ferve a gente
Entorpece e escorre em amor

Fui roxo, fui vermelho
O azul olhando com medo
Esperando sua vez
Talvez ficasse por dias
Talvez só um mês

E, como nunca se fez
Eu libertei o azul
Um azul cortez
que tomou tudo
No começo, recuo

Depois, o culto

O azul preencheu o vazio
Era o normal verdadeiro
Aquilo que não se ouviu
Escondido dentro do mundo sombrio

Viciante
O azul é um perigo constante
Entorpece os sentidos
Me faz desaparecer por instantes
Tomando conta
Assumindo o volante…

Eu não tinha como fugir
Já estava entregue
Deixando o azul fluir em meu corpo inerte

Como explicar que a doença contagiante
Era o sabor da vida adiante?
Como eu poderia me sentir
Depois de guardar o azul tanto tempo dentro de mim?

O azul transbordou
Ele não era mais eu ou meu
O azul estava nos outros
Mesmo sendo azul, era calor

O azul foram vários outros
O azul me machucou
Eu fechei os olhos para ele
Porque, depois de sê-lo
Transborda-lo em meu corpo
Não queria ver o que se tornou

Azul cor do céu
Dos mares, dos olhos
Das mochilas e do meu fel

Eu chorei, e como chorei
Para o azul, era um eterno replay
Um castigo e uma emoção
E uma esperança e uma ilusão

O azul perdeu a noção

Preciso controlar essa pulsão
Administrar o azul do meu coração
Ele importa, mas não pode escurecer a visão
Borrando meus sentidos
Me escravizando
Me silenciando
Em sua mão

Como o fiz
Quando não tinha noção de como amar
Era bom