Os adultos conseguem perceber
O brilho nos olhos da criança
E, agindo como quem quer vê-lo,
Manoela já assumia a liderança
A confiança em sua atitude
Tornaram suas palavras em lei
Abençoada foi por sua virtude
Logo disse para os moradores:
“Aqui eu não morrerei”
Logo depois procurou o templo torpe
Pois via em seus sonhos suas palavras
“A guerra está chegando, então te preparas”
O coração sentia um medo uniforme
Mas a cabeça a assegurava
Não mais importavam as batalhas
Cresceu em meio a soldados da fé
Mulheres ágeis e indecorosas
Umas com cicatrizes da cabeça ao pé
Outras imponentes e misteriosas
Todas guerreiras sempre preparadas
Os inimigos precisam ser eliminados
Sejam eles reis, magos ou outros soldados
Todos arrasados após a missão dada
E Manoela se tornou Gloriosa
Das mais fortes, a furiosa
Das mais místicas, a santificada
Ajoelhem, Manoela está na estrada
Guerras não passavam de títulos
Honrarias para seu nobre espírito
Triunfos consecutivos inflamavam templos
Mas havia algo diferente em seus pensamentos
Aquilo não era o suficiente para ela
Honrarias não resolveriam o problema
Era preciso alguém investigar o dilema
Esse alguém teria que ser Manoela
Traçou rumo ao norte a carroça
Atrás dela, apenas duas cavaleiras
Alahim e Rejene, grandes escudeiras
Juntas eram as verdadeiras gloriosas
Não havia nada que Manoela não possa
Mas todo herói possui sua derrocada
O confronto começou muito cedo
Armadilhas estavam bem preparadas
E não teve mesmo jeito…
Agora presas pelos seus captores
Ainda renderam uma boa luta lá atrás
O líder, furioso, mostraria do que era capaz
Elas seriam julgadas pelos Redentores
Redentores apareceram mal vestidos
Sem metal, apenas couro e tecidos
Elas não entendiam o que estava acontecendo
Mas Manoela de alguma forma sentia arrependimento
O que eram aquelas guerras que lutavam?
Ela queria proteger os inocentes
Armas nas mãos não os fazem indigentes
Por quais entidades eles se motivaram?
Essas perguntas nunca foram bem-vindas
Elas enfraqueciam as forças de luta
Era necessária a contínua disputa
Mas neste ponto desculpas não garante a saída
Os Redentores chegam perto delas
Falam entre si numa língua nunca ouvida
E repetem em uníssono para elas:
“As trilhas seguidas pelo caminho da vida
Dependem, antes de tudo, de nossas ações
Você, Manoela, usou o poder sem remediações
Ceifou jovens, adultos e idosos como diversão
Temos ciência do erro tomado, temos noção
Portanto, tu serás recebida.
As outras, irão para a execução”.
Manoela entrou em choque por um momento
Ao abrirem as grades, ajudou as guerreiras
Não iriam matar suas companheiras
Esmurrou quem podia para parar o evento
Mas, como um transe, tudo ficou sonolento
Última vez que as cumprimenta….
Sonhou com vinhas
Uma floresta inteira em volta
Olhar pra cima não adiantava
Tentou procurar alguma rota para casa
Se perdia cada vez mais enquanto andava
Chegou misteriosamente em um vale
O rio corria fino como uma fresta
Atrás dela, ouviu uma voz na floresta
“O chamado foi escutado, mas algo deu errado.
Quero que se defenda, então fale:
O que você não tem pensado?”
O sangue gelou em seu coração
A voz era a mesma que ouvia quando menor
E se viu acenando em compreensão
Ela foi enganada por temidos charlatões
A justiça que vendiam não servia ao mundo
Mundo este que não procura confusões
Mas sim a luz que existe lá no fundo
Ao acordar, Manoela se calou
Ela estava em um gramado
Não havia ninguém
nem nada
de nenhum lado
Com fogo nos olhos, se levantou
E sabia qual era seu fardo
Refez sua vida em pouco tempo
Treinou até estar bem preparada
E então voltou àquele templo
Chegando lá, foi recebida com aplausos
Os planos de vingança já estavam arrumados
Mal esperavam pela gloriosa Manoela
Destruindo a reputação que construiu com guerras
Pediu a rendição para todos os líderes
O pedido foi negado
Seus olhos recuperaram o brilho de pequena
Sozinha, subjugou um dos arrombados
Seu nome era Zenyas, líder dos esquemas
Matou-o em nome daqueles outrora ceifados
O amor se transformou em ódio num segundo
Ela mal conseguiu sair viva daquele reduto
QSentiu toda a solidão e tristeza do mundo
Guardou esse sentimento para uso futuro
Se escondeu em uma floresta distante
Encontrou-se um druida de nome Kerpito
Que adorava ser um rato falante
Ele a ensinou o que ela havia perdido
A conexão entre ela e o divino adiante
Hoje ela visita cidades esporadicamente
Para observar as pessoas e o dia-a-dia
Comprar equipamento, falar com gente
E até que é boa nisso,
Apesar de não ser muito sabida.