18 – Boca Gore

Dentes pontiagudos
Dentes cerrados
Em filas e colunas
Há algo de errado

O homem dormiu a noite
Cansado do trabalho diário
E cama, solitário, sonhou
Pesadelos nunca antes sonhados

Ele viu a terra tomada
Viu seres do espaço
Viu mutantes humanos
E se viu escravizado

Acordou se supetão
Se sentindo meio inchado
Foi ao banheiro meio zonzo
Lavou o rosto e sentiu algo de errado

Sua boca havia se transformado

Ele rapidamente abre o armário da pia
E pega o espelho de pentear cabelo
Não esperava que sentiria medo
Da imagem que viria
Coitado do homem
Coitado, não merecia…

E então a dor começou
Era só o que consegue sentir
Uma dor aguda de fato
Espalhada pelo rosto todo
Que é sentida na boca
Bochecha, pescoço, coluna e nariz

Sua baba escorre pelo corpo
Seus lábios estão cortados pelos dentes
Dentes estranhos e recentes
Dentes de bichos diferentes
Dentes de monstros e dentes de gente
Todos eles formando filas na boca
Imensa boca que rasga a bochecha
Rasgo que vai de orelha a orelha

Seu queixo guarda antenas
E seu maxilar reserva pernas novas
Finas como de aranha
E afiadas como tesouras
Elas se contorcem, anômalas

E o homem as sente
Oh, pelos deuses ele sente tudo
Sente o dentes novos, as antenas
As patas e o desejo de sangue moribundo
E simplesmente entra em surto

Procura algum remédio
Para aliviar a dor instantânea
A saliva continua pingando pelo quarto
Chão, tapetes e cama
O homem está completamente
Desesperado

De repente um desejo inesperado
*Preciso me destruir*
“Preciso acabar com minha vida
Preciso deixar de existir”

O homem corre para a cozinha
Mas não há nada ali
Tinha acabado de se mudar
Não trouxe nada ainda

Então saiu pela rua
Tinha uma loja que fechava às duas
Loja de armas no fim da esquina
Só mais um pouco e ele conseguiria

Chegou na loja sibilando
“Desculpe, senhor. Estamos fechando”
A mulher mal olhou para o coitado
Que seguiu andando

A cada passo mais inumano
Correu para um beco e se bateu com estranho
Ele estava dormindo sentado
Em meio ao lixo e aos sons de carros

Sibilando, ele investiu contra o cara
Sua boca destruindo por completo
Estourando sua cabeça e a devorando
Miolos sujam as paredes e a calçada

Cerrando seu pescoço
Os dentes trabalham sozinhos
O homem que ainda existe ali
Nada mais é além de vazio

Ele se sente assistindo a si
Devorando um corpo
Ele sente o amargo do sangue
Ele também sente o gosto
Mas não é não ruim….
Poderia viver assim….