20 – Biomecânico

Eu pego meu coração
E o parto em seguida
Eu devoro a minha alma lívida

Seguindo o destino,
Eu parto em seguida
Fujo de minha sina
Meu corpo não é meu
Estou me livrando de minha alma
Cativa

Expulso os outros demônios
Não quero que venham ao meu encontro
Sou poderoso, sou mais de mil
Sou a canção e sou
O sorriso juvenil

Agora sem alma procuro um espelho
Vejo tudo, vejo o céu e a parede
Mas não me vejo

E o desejo aumenta
Quero saciar minha vontade
Eu quero liberdade
Eu quero liberdade

Busco a faca na cozinha
Aquela de cortar pão
Raspo a pele de minha carne
Faço isso com minhas próprias mãos

Um formigamento na ponta dos dedos
A dor intensa, fervendo
O prazer tão violento que dá medo
E eu só comecei a fazê-lo

Assim como uma farpa debaixo da unha
A agonia é chata e intermitente
Ela enche meu peito por dentro
E devolve ao mundo o meu verdadeiro ser

A pele começa a deixar meu corpo
Debaixo dela há algo estranho, eu acho
Muito engenhoso, talvez problemático
Pois onde sangro, também eu fortaleço

Não escorre vermelho sangue,
Escorre cinza vazio
Meus olhos não brilham inocência
Brilham um vermelho frio

Prateado como a faca que me esfola
Eu sinto finalmente sair
Sair algo de dentro
Como que nascesse um novo esqueleto

A faca não é o suficiente
Busco, então, uma lixa
Lixa de parede para pintores
Lixo fora todas as dores

Com a pele, se vão minha inibições
Incertezas e aflições

Mas os medos continuam aqui dentro
Empurrando a coragem pra fora
Me dando discernimento

Também ficam os bons sentimentos
Ficam a alegria e a amizade
A paixão, consideração e lealdade
Retiro de mim a humanidade
Aquela que reflete apenas a vaidade,
Sem contemplar eu mesmo
Sem contemplar meus defeitos

Me olho no espelho novamente
Enxergo sangue, enxergo medo
Algo amorfo sem cor ou cabelo
Vejo seu o grande medo em seu corpo definhado
Seu peito desnudo metálico
Deformado

Como deveria aparentar um robô?
Como um humano gostoso
Ou uma esfera com motor
Por mais que robôs não pensem,
Eu penso
E por mais que não sintam
Eu sinto
Que dúvida inquietante!

Quando foi que eu perdi
A diferença entre ser um robô
E ser um menino?