5 – Azul

Sou eu e o azul
Sempre fomos
Unidos pelo cordão dominical
Separados pelo sonho de estranhos

Quando criança eu via como normal
O azul estava na minha cabeça
Mas ele não poderia ser real

Eu não me sentia diferente
Porque achava que pensavam igual
O azul comovendo em montes
Meu pecado ancestral

O azul cresceu como um câncer
Se multiplicando sem parar
Tomando conta da criança
Silenciosamente, sem manifestar

Mas os outros sabiam do azul
E era de se esperar
O azul não manifestava
Mas eu o fazia se apresentar

O azul respingava de mim para fora
Em gestos, falas e formas
Os homens e crianças fugiam na hora
Tinham medo do azul pegar

Guardei o azul comigo
Eu e ele por anos a fio
O silêncio era explicativo
E o azul ficava quietinho

Na adolescência, o azul voltou
Mas estava diferente,
Era um azul com bordô…
Um roxo que ferve a gente
Entorpece e escorre em amor

Fui roxo, fui vermelho
O azul olhando com medo
Esperando sua vez
Talvez ficasse por dias
Talvez só um mês

E, como nunca se fez
Eu libertei o azul
Um azul cortez
que tomou tudo
No começo, recuo

Depois, o culto

O azul preencheu o vazio
Era o normal verdadeiro
Aquilo que não se ouviu
Escondido dentro do mundo sombrio

Viciante
O azul é um perigo constante
Entorpece os sentidos
Me faz desaparecer por instantes
Tomando conta
Assumindo o volante…

Eu não tinha como fugir
Já estava entregue
Deixando o azul fluir em meu corpo inerte

Como explicar que a doença contagiante
Era o sabor da vida adiante?
Como eu poderia me sentir
Depois de guardar o azul tanto tempo dentro de mim?

O azul transbordou
Ele não era mais eu ou meu
O azul estava nos outros
Mesmo sendo azul, era calor

O azul foram vários outros
O azul me machucou
Eu fechei os olhos para ele
Porque, depois de sê-lo
Transborda-lo em meu corpo
Não queria ver o que se tornou

Azul cor do céu
Dos mares, dos olhos
Das mochilas e do meu fel

Eu chorei, e como chorei
Para o azul, era um eterno replay
Um castigo e uma emoção
E uma esperança e uma ilusão

O azul perdeu a noção

Preciso controlar essa pulsão
Administrar o azul do meu coração
Ele importa, mas não pode escurecer a visão
Borrando meus sentidos
Me escravizando
Me silenciando
Em sua mão

Como o fiz
Quando não tinha noção de como amar
Era bom

Eu gosto de azul

Eu gosto de azul
Gosto de ver o azul do mar de longe
Espesso e profundo
Se movendo com toda sua força
O azul que nunca acaba

Gosto quando o azul do mar
passa para o azul do céu
Gosto quando o céu está azul bem claro
Por entre as nuvens
Gosto quando ele está um azul intenso
Num céu límpido
Gosto também quando anoitece
E o céu faz uma festa de cores dentro do azul

Para depois se despedir
Em preto
E, por mais que eu goste de preto,
O azul sempre parece ser melhor

E, quando o preto estrelado cansa de ser lindo
O azul retorna aos poucos
Em uma festa multicor e brilhante
Só para retomar seu controle em azul de novo

A cor me lembra uma felicidade
Sem medida
Como uma crise de riso que acontece
Naturalmente
Me lembra que eu sou pequeno
E que conceitos são muito mais vastos e complexos
Que eu

Lembra também do estável
Do amanhã
Daquilo que não muda
Pois assim há mais chances de tentar
Errar e viver

O azul misterioso
Como os olhos de meu avó
Azul que viu de tudo
Que se arrepende de um passado
Mergulhado em dor
Um azul sem igual
Tão forte que a própria lucidez
Perde sua cor

O que defino de azul
É um dia de verão
O sol no alto e pessoas na rua
É o som batendo e a água na mão

Mas azul também é a solitude
Um lanche noturno
Ouvindo a música de sua juventude
Sigo para meu quarto
Me sinto seguro

Em meio de azuis mil
Sejam turquesa, petróleo ou anil
Eu aprecio cada única cor
Única presença
Preciosa, com valor

Eu… gosto de azul
Nada a mais