Sou eu e o azul
Sempre fomos
Unidos pelo cordão dominical
Separados pelo sonho de estranhos
Quando criança eu via como normal
O azul estava na minha cabeça
Mas ele não poderia ser real
Eu não me sentia diferente
Porque achava que pensavam igual
O azul comovendo em montes
Meu pecado ancestral
O azul cresceu como um câncer
Se multiplicando sem parar
Tomando conta da criança
Silenciosamente, sem manifestar
Mas os outros sabiam do azul
E era de se esperar
O azul não manifestava
Mas eu o fazia se apresentar
O azul respingava de mim para fora
Em gestos, falas e formas
Os homens e crianças fugiam na hora
Tinham medo do azul pegar
Guardei o azul comigo
Eu e ele por anos a fio
O silêncio era explicativo
E o azul ficava quietinho
Na adolescência, o azul voltou
Mas estava diferente,
Era um azul com bordô…
Um roxo que ferve a gente
Entorpece e escorre em amor
Fui roxo, fui vermelho
O azul olhando com medo
Esperando sua vez
Talvez ficasse por dias
Talvez só um mês
E, como nunca se fez
Eu libertei o azul
Um azul cortez
que tomou tudo
No começo, recuo
Depois, o culto
O azul preencheu o vazio
Era o normal verdadeiro
Aquilo que não se ouviu
Escondido dentro do mundo sombrio
Viciante
O azul é um perigo constante
Entorpece os sentidos
Me faz desaparecer por instantes
Tomando conta
Assumindo o volante…
Eu não tinha como fugir
Já estava entregue
Deixando o azul fluir em meu corpo inerte
Como explicar que a doença contagiante
Era o sabor da vida adiante?
Como eu poderia me sentir
Depois de guardar o azul tanto tempo dentro de mim?
O azul transbordou
Ele não era mais eu ou meu
O azul estava nos outros
Mesmo sendo azul, era calor
O azul foram vários outros
O azul me machucou
Eu fechei os olhos para ele
Porque, depois de sê-lo
Transborda-lo em meu corpo
Não queria ver o que se tornou
Azul cor do céu
Dos mares, dos olhos
Das mochilas e do meu fel
Eu chorei, e como chorei
Para o azul, era um eterno replay
Um castigo e uma emoção
E uma esperança e uma ilusão
O azul perdeu a noção
Preciso controlar essa pulsão
Administrar o azul do meu coração
Ele importa, mas não pode escurecer a visão
Borrando meus sentidos
Me escravizando
Me silenciando
Em sua mão
Como o fiz
Quando não tinha noção de como amar
Era bom
Tag: Amor Próprio
2 – Cortinas
Escrevi palavras
E seguem mentindo
Mantenho um sorriso
Traço meu caminho
Mentiras saem pela culatra
Cabe a mim rever a estrada
Mais uma pegada
Inimigo ou namorada?
Eu beijo o espelho
E me sinto inteiro
Corro para dentro de casa
Onde o perigo não passa
Deito no sofá e abraço as pernas
Abraço a almofada
Espero o clima dar uma melhorada
O silêncio também possui
Palavras…
Abro uma fresta na cortina
Para ver o que espera
Minha carne latina
Mentiras escorrem na janela
Nublando o dia quente
Esfriando meu coração
Que bate inclemente
Penso em versos de canção
A emoção mais adolescente
Subitamente desvio o olhar
Fecho a cortina
Volto pro sofá
Eu e eu, sempre comigo
O silêncio absurdo zune meu ouvido
Eu e eu, comigo
Namorados eternos
Eternos vadios
Mas eu não omiti
Eu não minto
Se o mundo sumisse
Ainda seria eu
Meu único amigo
A cortina bate em casa
Eu vou ver a rua
Não é nada
Fecho a janela
Penso se devo a espera
Olho pela fresta
Nunca houve nada…
Morto-vivo
Você me rasga a pele
Corta com a língua
Definha meu corpo
Você me humilha
Você detona meu cabelo
Finge que dá conselho
Você é meu escárnio
O dedo grudento de alho
Você é nojento pra caralho
Você destrói minha autoestima
Me faz passar fome
Você me finge e me xinga
Me morde cru e me come
Devora inteiro meu rosto
Boca, pés, pêlos, pescoço
Maltrata até mesmo o morto
Você não respeita a paz do outro
Já se tornou comum ser odioso
Não se importa sobre quem será
E sobre quem pode ser
Apenas importa causar desconforto
Ser o inimigo do meu prazer
E quando olho de novo pra você
Olho com um ódio no seu olho
Percebo que nunca foi o outro
E vejo minha imagem, no espelho
Esmorecer
O que há de errado com ela?
Por que está tão sem brio?
Ela deveria ser agradecida
Ele não deveria ser tão sombrio
Agradecida pelas oportunidades
Da vida
Como sempre, olhar gentil…
O morto-vivo que nunca desistiu
Incansável na sua procura
Sem sede, sem fome, sem vontade
Confundindo usura com vaidade
Sem pensar…
Não pensa a criatura
Só segue em frente
Sempre na busca
Com a fome de mente
Faminto pela busca
Não cuida de si e nem mais sente
Só cuida da busca
Morreu no meio dela
Numa determinação tão potente
Que o segue no pós vida
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Eu não estou sendo muito agradável comigo esses tempos. Eu preciso de um terapeuta novo e novos objetivos de vida. E me perdoar.