Acho injusto que considerem que a gente nasce já sabendo que vamos morrer. Quando me perguntam “o que é a vida?”, eu penso em tudo, inclusive na morte, mas não as vejo como rivais ou opostas. Quando eu era menor, uma criança bem teimosa e criativa, eu não conseguia conceber a ideia de morte. Para mim, morte era algo absurdo demais para ser real.
Meu primeiro contato com morte foi de um amigo de infância meu, Paulo Henrique. Ele era filho de uma amiga da minha mãe, Marlúcia, que tinha adotado o garoto — não através de papéis, mas das ruas mesmo. Ele me ensinou muito do que eu precisava saber sobre as ruas, sobre brincadeiras, pular muro e empinar pipa. Ele morreu atropelado por um caminhão e eu lembro até hoje quando minha mãe me contou. O dia estava nublado e a gente estava indo para a casa de Lúcia. Ela me disse sobre a morte e eu ouvi ela falando os detalhes com outras pessoas. Eu entendia que eu nunca mais poderia falar com Paulo Henrique de novo, o que me deixava muito triste, afinal somente uma criança homem viado sabe o quão é raro outra criança homem te considerar amigo. Eu guardei esse sentimento no meu coração e até hoje eu tenho flashes de memória brincando com ele. A mãe dele passou anos sem se cuidar direito, sem pensar direito, até que conseguiu se erguer. Que tipo de dor é essa que te imobiliza? Que te tira toda vontade de continuar? Mesmo quando morre, a pessoa ainda assim tem um impacto na vida das pessoas. Ela existe enquanto lembrança, enquanto sentimento e afins.
Depois de Paulo Henrique, acompanhei a morte em muitos outros. Alguns que eu não lembro mais, como vizinhos, conhecidos e familiares distantes, outros que eu nunca vou esquecer, como Clara, Ana Tereza, tia Nice, Bizarro e Felipe Gama, mas definitivamente todas essas foram diferentes. Foram estranhas. Foram súbitas e agonizantes. E definitivamente não acabaram no dia de sua morte.
É algo conflitante em mim admitir que eu não vou ter mais lembranças com a pessoa, que eu não vou mais poder ouvir ela falar suas ideias. Não vou mais poder brincar com elas, perturbar, sair junto e enfim. Mas eu aceito isso. É realmente a partida para uma viagem sem volta. Mas quando eu olho a vida dessas pessoas, eu sei que para muitos não significa muito, mas para mim é um infinito. A história de cada uma dessas pessoas é tão interessante, tão intricada, tão bem ajeitada que um universo nela mesma. E é impossível saber das intenções, dos objetivos, aspirações, medos e vícios. O que torna para nós, que ficamos, um mistério insolúvel. Não é como uma casa abandonada, que cai aos pedaços pela falta de moradia, mas como uma foto antiga que sempre tem um detalhe novo que você não tinha visto.
Claro que eu sinto falta de cada uma dessas pessoas e vou sentir falta das outras que se vão logo logo, esse não é o ponto. O ponto é que toda história tem começo e fim. Isso não faz o começo ser oposto do fim, só é a configuração da história. Se me perguntasse qual é o oposto do começo, seria o não-começar. Se só temos uma vida, se só podemos ter uma expectativa de como as coisas podem se desenvolver, por que escolheríamos não viver nossa vida com o máximo que pudermos, com a intensidade de mil sóis? Cada dia, cada respiro, cada passo mais próximo da morte é um novo dia para viver ainda mais, para ser feliz, para ser triste, para ter azar, para chegar no fundo do poço, para conhecer novas pessoas e fazer amizades.
A vida não é a morte. A vida é viver até a morte. Como eu posso explicar… Por exemplo: a diferença entre qualquer conto de fada está no desenvolvimento da história. Todos os contos de fada começam, terminam feliz, o protagonista ou a protagonista recebem ajuda, sempre tem vilão ou vilões, enfim. O que difere os contos de fadas são as diferentes trajetórias que os personagens precisam traçar. Todos os começos e finais são parecidos, mas a história é que é importante.
E por que você ia querer saber disso, ein? Isso é assunto meu! Vai tratar do que você tem que tratar e deixe isso comigo! Sofrimentos passados não devem ser lembrados de forma tão fácil ou tão tranquila, imbecil. O que eu posso dizer é que eu sou de longe daqui. As marcas e metais no meu corpo não me marcaram como o passado em que eu vim. Nasci bem, não nego. Filho de nobres anões de uma corte humana que há muito haviam desertado, eu já teria um lugar no mundo mesmo antes de me perguntarem se eu queria, mesmo antes de saber o que era o mundo.
Bem, o começo da história não é muito bonito. Eu nasci em uma vila de anões ao norte muito feliz. E aí os magos vermelhos apareceram e mataram todo mundo. Meus pais tinham dinheiro suficiente para subornar o líder daquela esquadra a me deixar sobreviver. Apenas eu… Ainda lembro os gritos de meu pai…
Bom, eles me levaram para um lugar conhecido pelo domínio de magos vermelhos. Na época eu não sabia muito sobre magos vermelhos, só sabia que eram chatos, poderosos e temidos. Eu sempre gostei da parte de ser temido, mas dos outros ali… Nunca fui muito com a cara não. Não tive tempo para deixar o trauma me corroer e busquei estudar magia desde o momento em que eu cheguei ali, pois me disseram que quanto mais poderoso eu fosse, mais me respeitariam.
Posso dizer que construir meu caminho sozinho, e o que esperar de um anão como eu? Vi muita gente que seguiu o caminho errado morrer… Aqueles que me captaram, porém, me protegeram até eu ter idade para me proteger só e, como os humanos envelhecem rápido, eu acabei tendo que defender meu espaço sozinho. Um anão não envelhece como humanos, eu lembro meus pais explicando para mim a inferioridade deles. Quando os humanos perceberam que eu era um anão jovem, assim como quando eu percebi que humanos são fracotes, eles me deram as primeiras missões.
Os generais de mais alta casta na magocracia nos dava missões e eu sempre as completava, mas do meu jeito. Eles me mandavam destruir um vilarejo? Eu destruía as casas, mas salvava as pessoas. Traidores? Alguns mortos em minhas mãos, outros feitos como aliados para matar meus inimigos de dentro da organização. E eu já matei pessoas que estavam em meu caminho só porque eu podia. Algumas eu me arrependo, e vejo o rosto na luz das tochas à noite. Outras eu fico feliz por ter tido a oportunidade de matar, e até mesmo esqueci seus nomes.
Ainda assim, mesmo desde pequeno lá, magia foi algo muito difícil de aprender, o que me tornou a ralé da ralé lá dentro. Fez com que eu treinasse só e ficasse forte e resistente (diferente daqueles magrelos), mas também fez com que eu aprendesse magia para me defender. Se o mundo te joga uma pedra, você não joga a pedra de volta. Você pega a pedra, entalha uma ponta afiada e tenta esfaquear o mundo.
Eu sobrevivi a este mundo.
Quando houve a cisão entre os poderosos magos, eu saí da organização. Sumi da área, fui procurar trabalhos melhores e, quem sabe, a vila de onde eu vim. Nunca consegui achar tal vida. Acabei parando em Baldur’s gate ganhando a vida ajudando um velho sábio que, em troca, me ensinava magia. A vida era terrivelmente calma.
Até que algo aconteceu…
E você já sabe o que foi.
Explosão da cidade, o velho ficou curioso de saber e me mandou vasculhar numa caravana com outras pessoas. Achou que teria dinheiro, itens mágicos ou sei lá o que. Infelizmente eu sou mandado e sobrevivo ali, então vou fazer o que ele quiser que eu faça.
Acabou aqui a história. Feliz por saber alguma coisa de mim? Agora cala a boca, imbecil. Não quero mais ouvir nada sobre isso. Vai fazer algo útil.
Os adultos conseguem perceber O brilho nos olhos da criança E, agindo como quem quer vê-lo, Manoela já assumia a liderança
A confiança em sua atitude Tornaram suas palavras em lei Abençoada foi por sua virtude Logo disse para os moradores: “Aqui eu não morrerei”
Logo depois procurou o templo torpe Pois via em seus sonhos suas palavras “A guerra está chegando, então te preparas” O coração sentia um medo uniforme Mas a cabeça a assegurava Não mais importavam as batalhas
Cresceu em meio a soldados da fé Mulheres ágeis e indecorosas Umas com cicatrizes da cabeça ao pé Outras imponentes e misteriosas
Todas guerreiras sempre preparadas Os inimigos precisam ser eliminados Sejam eles reis, magos ou outros soldados Todos arrasados após a missão dada
E Manoela se tornou Gloriosa Das mais fortes, a furiosa Das mais místicas, a santificada Ajoelhem, Manoela está na estrada
Guerras não passavam de títulos Honrarias para seu nobre espírito Triunfos consecutivos inflamavam templos Mas havia algo diferente em seus pensamentos
Aquilo não era o suficiente para ela Honrarias não resolveriam o problema Era preciso alguém investigar o dilema Esse alguém teria que ser Manoela
Traçou rumo ao norte a carroça Atrás dela, apenas duas cavaleiras Alahim e Rejene, grandes escudeiras Juntas eram as verdadeiras gloriosas Não havia nada que Manoela não possa
Mas todo herói possui sua derrocada O confronto começou muito cedo Armadilhas estavam bem preparadas E não teve mesmo jeito…
Agora presas pelos seus captores Ainda renderam uma boa luta lá atrás O líder, furioso, mostraria do que era capaz Elas seriam julgadas pelos Redentores
Redentores apareceram mal vestidos Sem metal, apenas couro e tecidos Elas não entendiam o que estava acontecendo Mas Manoela de alguma forma sentia arrependimento
O que eram aquelas guerras que lutavam? Ela queria proteger os inocentes Armas nas mãos não os fazem indigentes Por quais entidades eles se motivaram?
Essas perguntas nunca foram bem-vindas Elas enfraqueciam as forças de luta Era necessária a contínua disputa Mas neste ponto desculpas não garante a saída
Os Redentores chegam perto delas Falam entre si numa língua nunca ouvida E repetem em uníssono para elas:
“As trilhas seguidas pelo caminho da vida Dependem, antes de tudo, de nossas ações Você, Manoela, usou o poder sem remediações Ceifou jovens, adultos e idosos como diversão Temos ciência do erro tomado, temos noção Portanto, tu serás recebida. As outras, irão para a execução”.
Manoela entrou em choque por um momento Ao abrirem as grades, ajudou as guerreiras Não iriam matar suas companheiras Esmurrou quem podia para parar o evento Mas, como um transe, tudo ficou sonolento Última vez que as cumprimenta….
Sonhou com vinhas Uma floresta inteira em volta Olhar pra cima não adiantava Tentou procurar alguma rota para casa Se perdia cada vez mais enquanto andava
Chegou misteriosamente em um vale O rio corria fino como uma fresta Atrás dela, ouviu uma voz na floresta “O chamado foi escutado, mas algo deu errado. Quero que se defenda, então fale: O que você não tem pensado?”
O sangue gelou em seu coração A voz era a mesma que ouvia quando menor E se viu acenando em compreensão
Ela foi enganada por temidos charlatões A justiça que vendiam não servia ao mundo Mundo este que não procura confusões Mas sim a luz que existe lá no fundo
Ao acordar, Manoela se calou Ela estava em um gramado Não havia ninguém nem nada de nenhum lado Com fogo nos olhos, se levantou E sabia qual era seu fardo
Refez sua vida em pouco tempo Treinou até estar bem preparada E então voltou àquele templo
Chegando lá, foi recebida com aplausos Os planos de vingança já estavam arrumados Mal esperavam pela gloriosa Manoela Destruindo a reputação que construiu com guerras Pediu a rendição para todos os líderes O pedido foi negado
Seus olhos recuperaram o brilho de pequena Sozinha, subjugou um dos arrombados Seu nome era Zenyas, líder dos esquemas Matou-o em nome daqueles outrora ceifados
O amor se transformou em ódio num segundo Ela mal conseguiu sair viva daquele reduto QSentiu toda a solidão e tristeza do mundo Guardou esse sentimento para uso futuro
Se escondeu em uma floresta distante Encontrou-se um druida de nome Kerpito Que adorava ser um rato falante Ele a ensinou o que ela havia perdido A conexão entre ela e o divino adiante
Hoje ela visita cidades esporadicamente Para observar as pessoas e o dia-a-dia Comprar equipamento, falar com gente E até que é boa nisso, Apesar de não ser muito sabida.
Ossent abriu seus grandes olhos violetas e o que viu a deixou pasma: ela via a noite ao seu redor, cobrindo-a completamente, como se estivesse em um quarto decorado com a própria escuridão. Na sua surpresa ela exasperou, mas era inaudível – qualquer palavra que falasse ou até mesmo seus movimentos eram inaudíveis. Olhou para baixo, mas apenas via escuridão. As únicas luzes que via eram dos pontos luminosos que brilhavam como os olhos de uma criança, e mais nada. Ela começou a andar e em seguida começou a correr, na tentativa de achar um limite, em que pudesse achar uma parede ou algo que entendesse para poder se ancorar, mas quanto mais corria, maior ficava o lugar, com aqueles pontos luminosos continuavam no mesmo lugar.
Ossent não era uma pessoa muito paciente ou respeitável, pois virtude foi uma palavra que ela fugiu por muito tempo, em um tempo que sequer se lembrava. Ela sabia que podia confiar no que podia ler e entender sobre o passado e apenas isso – e por isso que lutava com os Sem Pátria. No entanto, até mesmo uma pessoa que jurou para si nunca se submeter a nenhuma força tem limites e, ao perceber que não conseguia se lembrar de como havia chegado lá e de que não sabia o que era tudo aquilo, Ossent apenas ajoelhou e chorou. Ela não sabia ao certo o porquê estava chorando, mas ela não tinha mais nenhuma outra coisa para fazer ali, isolada de tudo e todos que conhecia, assim como um pedaço de pedra flutuando pela vasta noite.
Assim que se acalmou, Ossent deitou na escuridão, abriu seus braços e gritou o mais forte que podia. Gritou porque se sentia frustrada. Gritou porque, se aquilo era seu fim, ela ainda não aceitava. Gritou porque parecia certo. E gritou até não aguentar mais, e então dormiu.
Como seria mais fácil se ela não tivesse olhado dentro da caixa.
Acordou algumas vezes e dormiu novamente. Às vezes ela levantava, andava um pouco, mas não conseguia mais discernir diferenças entre o vazio do lugar em que estava e vazias impressões que tinha dele. Um dia ela acordou diferente, com mais ímpeto. Ao cuidadosamente analisar o seu arredor, Ossent viu que os pontos brilhantes haviam mudado de lugar bem drasticamente, e percebeu que agora eles pareciam mais aos pontos de que via ao céu de Ausmus. Em sua frente, ao longe, ela via algo diferente, e apesar de não conseguir reconhecer bem de primeira, avançou rapidamente para aquela direção porque sabia de alguma forma que aquilo estava tão estático quanto ela aquele infinito obscuro.
Era uma escrivaninha, uma caneta tinteiro, muita tinta e muito papel. E ela não conhecia nenhuma dessas coisas. Sentou-se à escrivaninha na cadeira acolchoada e viu tudo aquilo disposto à mesa e, subitamente, sabia o que fazer. Simplesmente sabia. Pegou o papel e começou a escrever e, enquanto escrevia, as informações entravam em sua cabeça, como quando nos esforçamos demais para lembrar de algo e nossa cabeça dói. Ela continuou a escrever e, a cada frase escrita, sua cabeça doía mais. Houve um momento, depois do que deviam ser duas horas para ela, mas na verdade eram meia hora, em que ela tentou parar de escrever e percebeu que não conseguia. Sua mão não mexia sem ela saber, não havia nenhuma outra entidade ali fazendo as anotações para ela, mas uma parte dela simplesmente se recusava a parar porque entendia que ela tinha que entender tudo aquilo. Ou melhor, uma parte dela queria passar por aquilo, quase como se tivesse sido uma escolha que já não se lembrava mais.
E escreveu. Ossent escreveu até seus dedos estarem tortos e em carne viva, até sua cabeça simplesmente não aguentar mais. E, quando parou, algo em seus olhos brilhou. Não com luz, mas com a própria energia pulsando dentro dela. Ao sentir esse impulso vindo de dentro dela, Ossent tentou reagir e segurou a cabeça mais forte que podia. A dor era imensa e intensa demais, ao ponto em que Ossent simplesmente perdeu a consciência em pé de frente à mesa.
Acordou. Novamente ali. Novamente tudo escuro, com exceção dos pontos brilhantes, mas ela sentia que algo não estava ali. Uma leve dor de cabeça a acompanhava enquanto cambaleava em meio à noite eterna. Em sua frente, sua visão meio turva viu algo distante e andou o mais rápido possível para chegar ali.
Quando chegou, não entendia o que estava vendo. Pela escuridão do chão, algo escuro e viscoso estava impregnado. Ela conseguia enxergar a sombra de algumas coisas, mas não tinha luz suficiente para saber o que era. Em sua frente, a escrivaninha, a caneta e os infinitos papéis. Sentou-se à escrivaninha na cadeira acolchoada e viu tudo aquilo disposto à mesa e, subitamente, sabia o que fazer. Simplesmente sabia. Ao escrever a primeira linha, lembrou o que havia acontecido, mas novamente uma sensação de certeza tomou conta de seu corpo e continuou a escrever. Era tanta informação correndo para sua cabeça que não conseguia controlar entender seus traços – ela sabia o que era e o que não era, mas não entendia o que significava tudo aquilo, como uma pequena criança aprendendo o alfabeto pela primeira vez.
Desta vez ela continuou escrevendo. Mesmo sentindo o sangue descendo por seus dedos, mesmo que a fatiga tomasse conta de seus braços, mesmo que sua cabeça quisesse derreter, nada mais importava além daquilo e era uma única chance.
E então tudo se apagou.
Isso se repetiu mais quatro vezes até Ossent entender que a cada vez que fazia aquilo, sua cabeça explodia. Ela fugiu da mesa, correndo mais longe possível, mas tudo e nada não significavam naquele lugar. Apenas ela e a mesa existiam. Irônico, pois o desejo de toda a vida de Ossent era ser imortal para conseguir viver o mundo, ver o tempo passar, conhecer tudo que podia. E agora ela tinha todo o conhecimento nas mãos, mas tinha medo da consequência.
Passou mais um tempo apenas dormindo e acordando, tentando recordar o que escrevera- se tinha realmente tocado naquela caneta – , talvez até mesmo semana, mas não conseguia achar outra resposta. Sua mente ainda estava destruída pensando naquela revelação, mas o desespero falou mais alto. Então voltou à mesa e vasculhou tudo sob a sombra, mas não conseguia ver nada direito, nem mesmo as palavras que tinha escrito naquelas diversas folhas em sua frente, agora meio sujas também de pedaços de carne que ela julgava que fosse sua cabeça.
Pegou as folhas limpas, a caneta e tentou traçar uma linha. Automaticamente seu corpo sentou-se à escrivaninha na cadeira acolchoada e viu tudo aquilo disposto à mesa, até mesmo os detritos de sua antiga cabeça, e mesmo assim começou a escrever. Dessa vez, ela lembrou que havia feito um plano com as informações que tinha traçado: as informações a revelaram que existem padrões que o tudo respeita e que Ossent poderia utilizar ao seu favor, e já sabia alguns padrões, mas não por completo – e também não sabia como realizá-los ou qual era o específico que a tiraria dali, mesmo que a sedução daquela caneta fosse muito maior do que sua efetiva vontade de sair dali. Conseguiu traçar uma linha de raciocínio, mas era já tarde demais. A dor em sua cabeça estava insuportável. E tudo se apagou.
Dessa vez a mesa estava muito distante e, ao chegar à mesa, quase vomitou com a cena que viu, mas não tinha nada em seu corpo então só saiu suco gástrico, saliva e dor. Tudo completamente sujo de sangue e restos humanos jogados para todo lado. A mesa parecia algum altar anti-humanos. Ela limpou um pouco da sujeira na cadeira e sentou-se à escrivaninha na cadeira acolchoada e, ao começar novamente sua viagem, dessa vez não hesitou. Continuou assim por incontáveis dias. Algumas vezes demoravam mais ou menos para voltar, mas sempre voltava a escrever.
Até que um dia conseguiu tirar uma conclusão sólida sobre o que tinha acontecido com ela. Segurou a caneta mais forte e, logo antes de seu cérebro desligar por conta da dor excruciante, ela usou seu outro braço para afundar a caneta na madeira da mesa, o que fez a caneta quebrar e jorrar tinta por cima dela, enquanto ela olhava para um ponto luminoso específico que sabia que ficava em Ausmus e recitou a canção.
“Estradas desertas não oferecem caminhos ou escolhas
Crianças choram com o aprender
Galáxias são estrelas dos olhos
E o silêncio é o meu saber
E a escuridão é o grito dos olhos.
Mesmo que tente muito não chegará a você”.
E, como se fosse um piscar de olhos, ela estava ali na rua de novo. Seus olhos marejados, sua boca seca, sua cabeça prestes a explodir de tanta dor. Falou algumas palavras que nem lembrava direito para Yragos, que seguiu em frente, enquanto ela esmorecia na rua até desmaiar.
A verdade é que Ossent não lembrava o que acontecera antes de estar naquele silêncio absoluto, e na verdade nunca saberá, mas ela quis algo e assim foi feito. O que há dentro da caixa é um portal, mas ainda é muito cedo para dizer alguma coisa. De qualquer forma, Ossent tinha certeza de uma coisa: toda a vida e até mesmo o mundo e os deuses são uma piada para o que a CAAA está mexendo e, se continuar assim, nada mais vai importar.
Essa é minha mão. Imaginando se eu tivesse no lugar de Ossent.
A chuva estava torrencial quando Yragos subia a rua e cada uma de suas passadas equivaliam a dois dos seus passos normais, revelando sua ansiedade e angústia, como se estivesse atrasado para um compromisso importante
“Espero que Ossent chegue logo.”
Suor escorria em sua têmpora e em suas mãos, mas Yragos não tinha tempo para pensar nisso. Ele precisava chegar no ponto de encontro exatamente no mesmo momento que Ossent, sua companheira de grupo, chegasse, mas por conta de tudo que estava acontecendo, ele preferiu ir mais cedo um pouco e esperava que Ossent tivesse a mesma ideia. Eram quase cinco horas da tarde, mas as nuvens pesadas no céu faziam parecer quase noite. As ruas estavam muito vazias, como de costume, afinal não era todo mundo e não era sempre que alguém precisava ir para o centro da Fortaleza. Imensas casas e torres de pedra branca, cinza e azul escuro subiam pelas ruas recém pintadas em tons amarelos, vermelhos e branco, como se tentassem animar aquele dia cinzento. Os iluminantes bastões de luz já começavam a acender, dando uma sensação um pouco fantasmagórica àquela rua fria de chuva. Yragos virava a esquina quando se bateu com um senhor carregando diversos materiais diferentes em suas mãos
“Desculpa – disse, enquanto apertava o passo, sem esperar sequer ver o rosto do senhor”.
Dali ele começava a ver o ponto de encontro: o Centro de Aperfeiçoamento e Análise do Absurdo (CAAA), uma casa gigante situada em um terreno maior ainda. Ele diminuiu o ritmo do passo para se acalmar e conseguir pensar direito. Tudo tinha que dar certo naquele dia e eles só tinham uma chance. Ao longe, Yragos via que Ossent estava quase no lugar marcado. Novamente, apertou o passo.
Eles estavam ali para uma missão que seu grupo confiou a eles. Os Sem Pátria foi um grupo criado há mais de um século por pessoas que entenderam que haviam determinados fatores que impediam a atuação do Estado ou dos grupos de apoio em determinados lugares ou o contrário: a atuação do Estado piorava determinados fatores da comunidade e, por conta disso, era necessário um grupo de iniciativa própria das pessoas ali de intervir contra àqueles problemas. E era quase natural que realmente existissem essas organizações, a ideia se espalhou e era muito comum que existisse até uma comunicação entre as SP próximas, com uma reunião a cada seis meses dos principais responsáveis. Mesmo com toda essa responsabilidade, eles nunca quiseram auxílio ou participação do governo ou de outros grupos dentro de suas ações. Às vezes eles atuavam até mesmo em segredo e muitas vezes nem mesmo os moradores sabiam quem eram os membros da organização. As queixas eram feitas a informantes que traziam para um representante da agência.
Apesar da discrição, era nada grandioso demais e pouquíssimo trabalho, afinal não tinham muitos problemas que os grupos de apoio dos trabalhadores não pudessem resolver… Até ser criada a CAAA. Ao abrirem os primeiro cinco laboratórios de testes do absurdo há cerca de trinta anos atrás começaram a surgir murmúrios de atividade suspeita na região. A princípio, os moradores alegaram que estavam ficando loucos, mas ao conversarem entre si entenderam que não: eles tinham a impressão que algumas mudanças estavam acontecendo a todo o tempo sem que percebêssemos. A cor das ruas, de dentro de suas casas, a forma de alguns objetos e até mesmo imagens de seus sonhos reaparecendo no mundo real.
Os SP não acreditaram, mas ainda sim mandaram um grupo descobrir o que estava acontecendo – e eles nunca voltaram. Isso aconteceu há uns dez anos e os SP decidiram não tocar mais no assunto e encerrar de vez a situação, no entanto cada uma das sedes fazia sua própria investigação de sua área, mesmo com a desaprovação geral do conselho dos Sem Pátria.
Naquele dia, Yragos e Ossent tinham uma missão simples, mas importante: às cinco horas e dez minutos do próximo dia de chuva foi notificado que um homem sairia com algum tipo de caixa da CAAA e entregaria a eles. Eles, com a caixa, sairiam de lá o mais rápido possível e iriam para o esconderijo dos Sem Pátria. Eles tinham que ser impecáveis e aparecer sem atraso. Se o entregador não os visse, ele iria embora. Foi lhes dito que o conteúdo da caixa responderia muitas perguntas e deixaria novas em aberto e, como eles nunca tiveram uma resposta sequer sobre o que acontece no CAAA, essa era uma oportunidade única.
E lá Ossent estava, chegando no muro do Centro. O CAAA era uma casa enorme situada em um terreno maior ainda. Diversas vinhas subiam de suas paredes marrons-terra até seu teto em formato hexagonal, como se aquela casa tivesse submergido do solo para cima. Ao longe, não podia ver direito, mas dava para dizer que embaixo de toda aquelas plantas haviam diversos símbolos e desenhos que seria muito difícil de reconhecer. O grande terreno ao redor da casa estava ocupado por grandes equipamentos tecnológicos para captações de ondas e bulbos de eletromagnetismo, o que destoava muito da arquitetura meio rústica, brutalista do resto da cidade. Um muro de um metro num tom de rosa claro detalhado em branco, um pouco desgastado, separava não o terreno da pista, mas as pessoas do terreno. No portão principal de metal de quatro metros num arco que desafiava qualquer estudioso ou construtor com desenhos de animais enfeitando suas grades havia um aviso escrito:
ATENÇÃO:
Não ultrapasse!
Área restrita
Trabalhadores, favor evitar passar por aqui.
Os bulbos e os medidores podem ser perigosos e são muito sensíveis!
Os dois foram escolhidos para a missão porque os dois moravam perto. Yragos morava há duas esquinas dali e Ossent morava na direção contrária por um ou dois quarteirões. E lá estava Yragos chegando. Ossent estava com sua jaqueta usual e suas botas sujas com a chuva.
“Quase se atrasa, como pode?” – diz ela, sem nenhum receio ou intervalo, já se apressando para chegar no Portão
“Um senhor me atrasou, e a gente chegou cedo demais. Será que vão suspeitar ou alguma coisa?”
“Dificilmente. Ninguém vem aqui, pelo que pude ver nos últimos dias. Essa área da cidade realmente é bem abandonada. Nem mesmo os funcionários entram por aqui. Talvez existam gravadores de vídeo, mas com a chuva eles provavelmente estão embaçados. Muitas variáveis hoje e minha primeira pergunta é: como ele, ou ela ou elu ou sei lá, sabia que conseguiria fazer isso num dia de chuva e que esse dia seria próximo?”
“Talvez estude clima e tempo. Talvez esse seja o absurdo: a aleatoriedade do clima!”
“Talvez você seja muito burro.”
Eles chegaram no portão às 5:08 e esperaram cada minuto como se fosse uma hora. Cinco e nove. Cinco e dez. O minuto inteiro passando e os dois tentando enxergar se havia algum movimento dentro daquele mausoléu ao longe, mas nada mudou. Continuava com o aspecto de abandonado e distante. De repente, um trovão e um clarão atingiu o céu e, no momento em que os dois piscaram no meio daquela chuva, um reflexo passou pelos olhos de Yragos. Atrás dele, uma pessoa meio metro menor que eles dois grunhiu limpando a garganta.
“Com licença, senhores. Isto aqui é para vocês.”
A pessoa que se tratava provavelmente era uma estudiosa. Seus vestes eram pesados com diversos bolsos, a maioria ocupado com algum tipo de pequena engenhoca e a outra parte era com escrituras, estavam cobertas por uma capa de chuva bem maior que seu corpo, o que sugere que foi emprestada por outra pessoa. Um sorriso malicioso e um brilho diferente no olhar foram as únicas feições que Yragos conseguiu lembrar daquilo que estava em sua frente.
Com um movimento, a pessoa deixou uma caixa feita de um material muito curioso no chão e desceu a rua. Yragos e Ossent já haviam tratado de alguns assuntos mais estranhos que pegar uma caixa na mão de um estranho naqueles lugares, mas aquilo foi tão abrupto que eles ficaram sem reação. Yragos podia jurar que o homem passou por eles debaixo do muro para a calçada, mas era impossível alguém ser tão rápido. Piscou mais uma vez e viu Ossent andando, ou melhor cambaleando.
“Siga aquilo agora, eu fico com a Caixa. – dizia ela, e parecia dar urgência ao que dizia, mas sua voz perdera todo o tom energético de alguns minutos atrás.”
Yragos olhou ao redor, mas a chuva tinha ficado mais forte ali, fazendo ficar cada vez mais difícil enxergar mais do que alguns metros à sua frente. Ele já teria perdido quem o entregou a caixa.
Olhou para Ossent novamente e ela havia caído no chão. Seu rosto estava pálido e seus olhos estavam arregalados. Ela olhava para dentro da caixa. Yragos logo puxou Ossent para cima e a segurou contra o muro para que ficasse em pé, mas ela parecia em choque. Não se movia e nem fazia muito movimento além de respirar fundo.
“Deixe-me aqui. Leve a caixa para a sede e não olhe para dentro. – dizia Ossent, tentando se mover para se soltar de Yragos. – Eu vou ficar bem. Saia daqui com a caixa agora!”
E com esse grito que parece que levou toda a força que Ossent ainda tinha, Yragos a soltou no muro em que ela já tinha se equilibrado para segurar e manter-se em pé. Ele pegou a caixa com um de seus braços e desatou a correr pela rua.
Primeiro quarteirão. Segundo quarteirão. Ele se sentia mais confuso a cada passo. Quem era aquilo e por que ele sentia que não era de Ausmus? O que tinha naquela caixa? Por que Ossent agiu daquela forma? O que quer que fosse que estivesse na caixa, estava balançando bastante na corrida. Não parecia nada mais do que um pacote pequeno de ração de comida e Yragos naquele ponto já estava cansado de levar algo que ele nem sabia o que era. Não entendia porque Ossent tinha sido tão incisiva com o não olhar para dentro. Ia dar só uma espiada e continuaria indo para a sede. Quase estava lá. Não ficava tão longe de sua casa… Era uma corrida tão tranquila…
No terceiro quarteirão Yragos não pôde mais segurar a curiosidade. Parou de frente para um beco, entrou na beirada e olhou para a caixa. Ela era áspera, em um formato retangular, meio verde e bege. Havia uma abertura na frente dela, uma fresta com uma grade. Yragos pegou a caixa com as duas mãos e virou a fresta para seu rosto e…
Antes até mesmo de existir qualquer coisa, existia a Ordem. Antes do tempo, das cores, das curvas, das pontas e formas. Não havia energia ou equilíbrio. Não havia nada e também tudo. Havia apenas Ordem. Ordem era algo. Ordem era singular e regrada. Era a lógica pura em contínua ação, criando e traçando a física como jogos mentais de uma mente fértil de criança que não existia. Nem mesmo a imaginação. Somente existia Ordem. E, ao passo em que era singular, pois singular também era sua completude, era além do perfeito, pois limites não poderiam mensurar suas capacidades. Em suas análises contínuas e eternas, eventualmente houve uma dissonância, uma disparidade, uma desassociação que fez a Ordem entrar em choque. Desse choque, rachaduras começaram a existir e a Ordem começou a se desfazer em farelos, cacos, pedaços que eram engolfados pelo novo nada ao redor. O Nada, por outro lado, cresceu por entre esses cacos, como um líquido viscoso escorrendo na superfície de um vidro. Assim nasceu o Caos.
Errático, instável, imprevisível. O Caos não calcula ou age – Caos simplesmente é, simplesmente surge. É a resposta à Ordem, a sua antítese, ou melhor: a resposta, a dúvida, a afirmação, a negação e a conclusão.
Com o nascimento do Caos, a Ordem perdeu um pouco de sua força, enquanto que o Caos se aproveitou do espaço dado pela Ordem para avançar pela eternidade afundo. A cada espaço conquistado pelo Caos, a Ordem perdia, como o crescimento de uma rachadura que não poderia ser impedido de nenhuma forma. Quando o Caos se tornou equiparável com a Ordem, esta já estava preparada e afundou-se no Caos simplesmente – porque assim planejara. Ordem não tinha mais como impedir o Caos, mas também agora as nuances e possibilidades de seus cálculos eram muito maiores considerando o espaço de nada, tudo, infinito que vos foi dado. Ao cair dentro do nada, Ordem começou a se dissipar e se transformar em resíduos e se tornou a própria Lógica. Como Lógica, ela agora poderia Ordenar o Vazio do Caos, poderia trazer controle e equilíbrio do nada. Transformá-lo finalmente em algo… Mas a falta de consciência de ambos não direcionava suas ações, então ainda não havia um “algo” para a Lógica trabalhar. Foi o cálculo de Ordem. Seus resíduos friccionaram com o Caos criando a Matéria. A Matéria e a Lógica, as duas nascidas de Ordem e do Caos, buscariam transformar o Caos em algo diferente que simples nada. A Matéria, ao existir, chocou o Caos, que dilatou seu corpo infinito ainda mais numa explosão tão intensa e impossível que jamais um ser humano poderia sequer entender sua magnitude. Essa explosão foi o suficiente para que a Lógica e a Matéria pudessem assimilar as funcionalidades do Caos e também foi o suficiente para que o Caos criasse o que a Lógica e a Matéria precisavam para começar a desenvolver o universo: a Energia. Assim, a Energia, a Matéria e a Lógica trabalharam juntas criando o universo.
Essas três nunca foram seres. Todos estes eram além da própria existência, transcendendo perguntas sobre “Pensar” ou “Saber” e suas funcionalidades eram seus cernes. Entes da criação, poderosos e imperiosos, a razão não poderia segurar tamanho poder irrestrito, transformando tudo em sincronia dada pela Lógica, com intervenções contínuas do Caos reagindo ao desenvolvimento contínuo de mutações dentro dele. Dentro dessas intervenções do Caos, fez-se possível existir vida no Planeta Ausmus.
Como existe magia nesse universo? Qual a história de Ausmus? Questões muito interessantes para serem respondidas tão rapidamente.