Homero abre os olhos e, ao ver o horário, levanta da cama desesperado.
“Meu deus, são quase 5 da manhã”. Segue direto para o choveiro tomar uma ducha fria e garantir as energias de um dia inteiro, mas precisa ser rápido senão perderá tempo. No entanto, ao chegar ao banheiro, ele se questiona: “Que sonho foi esse?”. Esta é a frase que mais ecoa em sua mente no momento. Um sonho brutal, violento, tão real quanto uma lembrança ainda lívido em sua mente e desesperador é ter esse sonho – afinal, que tipo de imaginação é essa que cria desgraça e desespero? Tais assombrações não eram comuns para todos, pelo menos não deveriam ser…
Acorda!
Uma gota em especial caindo em sua cabeça o lembra de seu atraso cotidiano e ele volta a sua rotina. Odiava banhos justamente por causa disso: grande desperdício de tempo! Não podemos perder tempo hoje em dia, e o banho é justamente a junção de gasto de tempo desnecessário com autocuidado também desnecessário. Para quê pensar em milhares de coisas? Para quê cair num devaneio sobre um sonho bobo que eu tive? Para quê tentar entender a mim mesmo ou me dar um pouco de amor? Tempo é precioso e…
Acorda!!
Homero sentiu um arrepio. Estava preparando seu café da manhã e lavando o pote para colocar comida para o gato quando percebeu que já eram 4:30. Quatro e meia! Não havia mais tempo para comer. Deixou o pão cortado na mesa e foi direto escovar os dentes. Novamente chegaria atrasado, mesmo tentando acordar cedo. Havia colocado o despertador para 3:30, mas estava muito cansado para ouvir. Felizmente despertou só por causa daquele sonho terrível. Sonhos não são inúteis e Homero sabe disso: desde pequeno ouviu/ouve histórias sobre com os sonhos mudam as pessoas e em como algumas histórias se tornam a realidade. Seus próprios sonhos o transformaram e transformam o tempo todo, desde o mais delirante até o mais real e possível. Presente é realmente uma dádiva, e deveríamos utilizar isso muito bem para que consigamos ver nosso presente dessa forma. Seus sonhos fazem você se sentir presente? Talvez o que falta fosse justamente esse sentimen…
Acorda, porra!!
Colocando as roupas, ele viu Guto, o gato, miando e subindo em sua cama preparado para pegar a sua meia. Com um movimento rápido, ele pega seu par de meias, guarda e começa a atacar Guto com chamego e carícias, mas são 4:50 e ele não tem como gastar mais tempo com qualquer outra coisa. Quando o gato começa a se interessar, o dono desvia o olhar e recomeça a se arrumar. Ligeiro. As chaves do carro. A carteira. Jogou o lixo fora? Colocou a comida do gato? E a água? Chega de perguntas. Chega de dúvidas ou questões importantes! Por que ele não podia só esquecer tudo e se ligar em seus objetivos? Por que a realidade tinha que ser tão abstrata?
PARA!
Liga o som e sai para um outro dia.
Assim, ele foi. Assim, ele é. E como será? Não tem tempo para responder.
E esse foi o último texto recuperado. Minha irmã apagou todos os textos salvos. Eu fiquei triste, mas não adianta culpar ela nem nada. Homero já tinha sido reescrito de uma primeira vez que eu o escrevi e perdi. Ele representaria o excesso de presente em uma pessoa.
“Existe uma lei mais importante que a do governo, esta é a lei da consciência” .
Eu vi uma negra. Uma negra na rua. Com muito dinheiro nas mãos. Tanto que ela não conseguia esconder, ou guardar. Ela estava séria, ela era decidida.
Ela era. Seu sangue foi a segunda coisa que percebi. Era de um vermelho que pingava como vinho, mas viscoso como óleo. E eu estava vendo o fogo se aproximando.
Ela não era ela, mas não tem muita coisa para ser além disso, talvez preta, talvez mulher, não como se ela tivesse escolha, como se ela quisesse isso para ela. Eu a vi, e ela estava com dinheiro, estava em sangue. A terceira coisa que percebi não foi olhando, mas em um presumir absurdo: ela não tinha boas roupas. Sujas, rasgadas, velhas, suas roupas mal cabiam no seu corpo.
Como um mito, ela estava ali. Como uma descoberta do óbvio, eu estava lá. Um novo Pero Vaz na terra das índias… Ingênuo e burro este Pero Vaz que se encanta com coisas tão minúsculas! Ambiente? Terras novas? Ouro? Negros da terra? Os negros da nova terra não são dela e nem ela deles. Naquele momento, como o banto chegando de repente, sua seriedade fez sentido. Naquele momento, tribos, sociedades tidas como não desenvolvidas, quilombolas… respiravam o mesmo ar ofegante daquela negra. A mesma ansiedade. O mesmo desespero. Aquelas lágrimas eram todos em uma, numa súplica silenciosa, um socorro abafado que ninguém conseguiria entender. Num sério e arrependido desabafo de sua história, procurou tudo que tinha, pensou em todo dinheiro em suas mãos, e em família, e em amigos. E na voz de todos achou sua dignidade, minguante, mas viva.
Ela caiu no chão. E ninguém a levantou. Ela ainda está lá?
Bom dia, senhoras e senhores. Pessoas de todas as idades. Se aproximem e não tenham medo do texto. Sim, é sobre política. Sim, é “militância”. Não, não é um texto genérico. Sugiro que leiam. Ao menos respondam a pergunta.
Tá, é muito difícil descrever o que foi sair hoje na rua, discutir e relativizar o que aconteceu ontem, mas eu vou tentar escrever aqui um pouco disso: a minha visão do que aconteceu ontem (7/10/2018, dia de eleição), de noite para ser específico, e hoje.
Ontem foi desespero. Ontem eu me senti pequeno, indefeso, injustiçado. Não foi só tristeza ao ver que 47% de 170milhões votaram no Bolsonaro, foi desespero. Foi sentir o peso das estatísticas todo em minhas coisas. O peso das Travestis, dos afeminados, das lésbicas, das crianças negras, do Polícia… Todos mortos. Eu senti que mais da metade do país estava pouco se fodendo. Mais que sentir: isso foi provado em minha frente.
As primeiras perguntas que nos fazemos é: Quem se importaria se eu morresse, como muitos outros que já morrem? Quem realmente me olha como ser humano, independente de quem eu seja? Eu tenho como viver aqui? (Note que nas perguntas não tem questões tipo felicidade ou ansiedade. Estou perguntando sobre existência mesmo) E a resposta é Bolsonaro Presidente.
Hoje, em São Lázaro, me senti esperançoso por um momento… Mas não tem como, porque mesmo se #17 perder, ninguém estará a salvo da ideia de que dá pra negociar a VIDA de alguém por… ? Educação de qualidade para todos? Não… Estabilidade política? Inquestionável realmente este ponto. Boa economia? Podemos tentar.
O problema é que eu não estou afim de saber qual política vale minha vida, ou quantos Trans valem uma política econômica de Paulo Guedes. Eu, pessoalmente, quero viver! Quero ter mais chances de estar vivo! Quero que meus amigos não sejam esmurrados por andar na rua.
Quero que meus amigos possam beijar quem eles quiserem onde quiserem e casar, caso queiram. Quero que todos sobrevivamos. E não quero ter uma sobrevida, mas uma vida.
Desculpa se é pedir demais, mas quero fazer uma pergunta: Quem vale mais – Ícaro aqui(e todos que vão sofrer com Bolso e Paulo Guedes) ou as ideias do fantoche #Bolsomito?
Isso que sinto.
Eu escrevi esse texto aos 18 anos quando Bolsonaro foi para o segundo turno com Haddad. Mais do que nunca eu sinto esse sentimento ampliado em milhões ao ver o senado, ao ver o congresso e ver as candidaturas do PL e do Fe Brasil ascendentes. Eu quero um país para viver e não um reduto cristão. O desespero é real.
Eu escrevi isso aqui em 2018 e achei aqui. Vou postar uma sequência. Espero que gostem.
Apresento-lhes aqueles que nunca nos deixam. Mas, para além de sua companhia, aqueles que nos guiam… Ou que somos fadados a seguir. Acorrentam-nos e nos subjuga, como as leis de uma sociedade moderna, mas, diferente das leis, ele é inevitáveis e imparáveis e o melhor: sua existência transcende o querer ou a compreensão humana. Pode escolher a forma de interpretá-los, pode tentar para-los ou até vencê-los em seu jogo, mas todos nós sempre dobramos nosso joelho a ele. Sim, o tempo é muitas coisas, mas não é paciente. Ou calmo. Ou civilizado. Mas essas são as partes boas do tempo, a pergunta seria se nós interpretamos a sua arte de forma concisa. É incrível como apenas fumaça e metal pode transformar mentes e desenvolver pessoas, dando sonhos, expectativas, surpresas, futuro. Não que isso não existisse antes, mas – nossa – até mesmo a fumaça está se desmanchando no ar (da relativização).
Como animais, somos curiosos. Como humanos, somos destrutivos e ameaçadores. Então para nos limitar e entender essa decadência que produzimos e que reflete diretamente em nós, desde nossa idade e experiências quanto o tempo de nossas perdas e objetivos, criamos a História e a definição de tempo.
Limito aqui nesse conjunto de pequenas crônicas definir o que significa passado, presente e futuro para as pessoas de minha geração pois, alem de ser um tema muito importante para ser pesquisado e pensado, é o que passa por nossas cabeças todo o tempo. É o cerne de nossos dias e o principal assunto de qualquer conversa. Todos viemos de algum lugar, sonhamos com algo e por isso fazemos algo, o que interessa e nos diferencia seria a individualidade de cada um desses personagens apresentados.
Primeiramente, o principal pensado para nos proteger do que lhe é prometido: o presente, coitado, usado e abusado. O presente é uma criança muito ativa e criativa, muitas vezes inconsequente, que se desenvolve com facilidade e não percebe seu crescimento. É uma criança para sempre. Como criança, ainda imaturo e infantil, mas isso não significa ser menos inteligente e esperto do que os outros, afinal é dele que se trata os acordos e estabilidade da vida comum. Agora, por exemplo, ele está brincando de crise de Ansiedade e encontra prazer em ver a vida se tornando pequena aos olhos dos outros. Às vezes ele tem que ser abusado e perturbado mesmo para entender o seu lugar. Às vezes nós precisamos brincar com ele para que ele se aquiete.
O Futuro é uma mulher, luxuosa e importante, que não tem tempo para besteiras. Sua presença, ao mesmo tempo que é temida, é a mais desejada. Não tem tempo a perder com as bobagens do presente, que serve mais para confundi-la que realmente servir como companhia. Ela é fria e metódica, calculando e analisando até nas horas mais inapropriadas, quando estamos sozinhos e vulneráveis. Uma meritocrata, acredita que os bons valores e habitos fazem a diferença: acredita que temos poder para mudar o mundo e descobrir o melhor em nós pois, apesar de dura e ríspida, ela ainda é uma pessoa boa. Apesar de nos constrager, nos limitar a análises, nos submeter a questões que questionam nossa existência e o valor de nossa vida, apenas ela poderá dar o fruto da Vitória. Contraditória, não? Pensar que ela tem controle de toda sua vida e, apesar de quase nunca ser suficiente, ela vai decidir o que você pode se tornar.
Ai, ninguém merece… Lá vem o passado. Arrastando-se, visivelmente cansado e irritado (não saberíamos qual veio primeiro), o Passado chega já reclamando por paciência e consideração. Corcunda, o Passado parece que nunca teve um momento da sua vida em que realmente foi feliz ou realmente se sentiu cheio de espírito e energia. Andando com uma muleta, ele não encarava a idade ou o tempo como um empecilho em seu movimento, mas um auxiliador. Não era ou parecia tão velho para mim, mas quando ele falava parecia que ressoava no ar mais vozes dentro de sua garganta, todas roucas e desgastadas, dando a ele um aspecto maior de idoso. Mas definitivamente não poderíamos chamá-lo disso, apesar de toda sua falta de empatia e de auto-controle em questionar sobre as coisas que o incomodam, o Passado nunca parecia distante de nós mesmos. Parecia que, quanto mais nós vamos ficando velhos, mais o Passado envelhece conosco, ao ponto de que cada um veria o Passado em diferentes pontos de idade. O próprio passado possui todos os segredos dentro de si, como respostas para sua solidão ou auto-conhecimento que pessoas buscam tanto para se tornarem melhores pessoas. O engraçado e triste sobre o Passado é que não importa o quanto ele se esforce para fazer com que o mundo o respeite e entenda como ele se posiciona, muitos morrem antes de sequer pensar em compreender suas lições. Não digo que ele não é valorizado, mas que seus gritos não são compreendidos, transformados em memórias que nunca deixam nossos pensamentos, como um castigo por não tê-lo ouvido ou respeitado ou compreendido sua lição. Muito mais fácil de tornar o Passado um vilão do que um grande velho amigo cheio de conhecimento pronto para divulgar.
Os três estão sempre juntos e separados, fazendo parte da vida de todos dentro de nossas cabeças, no nosso cotidiano, dentro de empresas, se desenvolvendo conosco e escolhendo favoritos para julgar, brincar, possuir, dominar. Cada um com seu método, eles já se transformaram muito dentro da história de muitos povos e tiveram diversos nomes e brincaram com diversas vidas através de diversos outros métodos.
Acredito que a beleza da vida está em como nós nos desenvolvemos e aprendemos com esses personagens.
A seguir eu trarei Crônicas para desenvolver melhor estas certas “metodologias”. Cada um com seu estímulo e sua vontade, seu vício e seus problemas. Os personagens se misturam dentro dessas narrativas de rotinas comuns que provavelmente todos já passamos por algo parecido ou vamos passar, afinal não temos muita escolha para controle do tempo.
Escrever para mim sempre foi uma atividade libertadora. Quando era menor eu não conseguia demonstrar meus sentimentos de insatisfação, de amor, de insegurança e afins. Eu descobri que eu conseguia escrever numa oficina que minha professora de Português fez durante a sexta série. Eu fiz a minha primeira poesia (que perdi durante o tempo) e fiz a de meu amigo Bruce em menos de 10 minutos. As duas ficaram muito boas para um garoto de 12 anos e digo sem medo de ser egocêntrico ou narcisista – eu senti muito orgulho de mim mesmo ali. A partir disso eu tenho escrito.
Claro que existem muitos textos que eu nunca publiquei e textos que eu nunca vou querer publicar, também houve textos que perdi com o tempo e outros que só existem na minha cabeça e um dia eu vou parir eles, ou não e tá tudo bem porque o objetivo de meus textos são de principalmente me acalmar e fazer com que o mundo fique quieto por ao menos alguns minutos.
Acho que meu intervalo maior da escrita foi durante o ensino médio em que eu só podia escrever dissertações em que eu nunca fui um aluno exemplar (mesmo tendo um modelo único). Na verdade, mesmo durante o ensino médio, eu sempre escrevi nas notas meus textos. Eu tinha um conjunto de crônicas sobre o tempo que eu queria muito publicar, algo sobre dar personalidade às versões de tempo que maior parte de nossa sociedade acredita (passado, presente e futuro) e crônicas sobre essas três que pudesse falar por si os desafios de se pensar tempo de forma singular ou obsessiva, mas eu os perdi quando perdi meu celular antigo (furtado). Tentei reescrever, mas nunca ficou da mesma forma.
Eu tinha muito medo e vergonha de apresentar meus textos às outras pessoas. Eu ainda tenho. É porque esses textos são recortes do meu ponto de vista da realidade em que me cerca e geralmente meus sentimentos transbordam nesses textos. É/era muito doloroso só sentir que alguém não se importa com eles ou que não gostou, mas atualmente eu aceito melhor as críticas porque eu quero melhorar e desenvolver essa parte minha. Por isso e por empurrão de uma amiga que eu criei esse blog. Para que meus pensamentos e minhas histórias fiquem armazenadas até eu morrer. E depois.
Sei lá, quem sabe alguém lê e se sente bem, ou pensa em algo que eu disse ou guarda pra si e lembra de mim mesmo. Eu escrevo para mim e pronto, mas a decisão de publicar é para mim e para meus leitores.
Eu penso em um dia escrever um livro. Isso seria meu sonho. Mas ainda acho que tem muito para eu melhorar e muitas palavras e manias de escrita que eu preciso deixar. Eu queria ter uma escrita mais limpa e mais instigante. Eu tô tentando aprender no limite do possível, porque é um hobby e eu tenho outras coisas para fazer. Acho que livro é meio ultrapassado também, já que hoje em dia no Brasil quase ninguém lê, mas eu adoro livros. É um meio físico de compartilhamento de informações e pensamentos! Que resistem anos! E podem ser reformulados, renovados, reescritos e inspirar gerações. Podem servir também só para colar sapato. Espero que as pessoas que eu considero ao menos guardem meus livros e não usem para cola de sapato ou carteira, mas se acontecer eu vou entender.
Primeiro eu quero dizer que não estou mais no lugar em que esse texto foi criado. Isso foi a quase dois anos atrás, antes da terapia. Eu vou publicar esse texto porque eu preciso salva-lo. Eu preciso ter esse registro de momentos ruins que eu já passei. Enfim, fico um pouco envergonhado por publicar algo tão pessoal, mas enfim. Está aí.
Eu quero voltar a escrever, mas eu estou pensando demais o tempo inteiro. Pensando demais até para conseguir colocar no papel tudo que eu estou sentido. Basicamente o que eu sinto é cansaço e tristeza ou angústia e agonia. Não estou me sentindo capaz de basicamente nada. Não me sinto forte ou suficiente para nada. Pensamentos ruins passam pela minha cabeça muitas vezes pelos dias e eu só penso calado em minha existência miserável como eu sou um merda. Como sou fútil e vazio e burro e inútil. Não consigo ser bom em nada que eu tente fazer. Não consigo me sentir bem com quase ninguém. Magoo as pessoas em minha volta sem querer.
Por que eu me sinto triste? Eu acredito que seja porque eu não consigo me satisfazer com minhas vitórias e qualquer coisa que lembre de meus fracassos me deixa muito mal. Eu entendo que preciso subir minha escada da forma como eu puder, mas eu me sinto muito desapontado comigo mesmo quando percebo que existem pessoas melhores que eu e que se gabam disso, não em uma comparação direta, mas com diversos comentários espaçados dados como “dicas” ou “incentivos”. Isso é só exaustivo. Provavelmente é inveja ou sei lá, mas ainda me machuca. Eu queria conseguir ser melhor do que eu sou.
Como é se sentir assim? Todos os dias eu acordo e na maioria deles eu tenho energia alguma. Tento evitar pelo máximo de tempo alguma socialização direta. Vejo as redes sociais para manter meu status de popularzinho e fujo de qualquer conversa. Passo meu dia inteiro sem comer direito porque não sinto fome. Sortudos são os dias em que eu não questiono completamente minha existência e penso em meios de me matar. E depois choro, sabendo que não tenho coragem pra fazer o certo ou que eu sou covarde tanto para enfrentar o mundo quanto para tirar minha vida e fico aqui só. Diariamente eu falo com meus amigos e tenho sorte quando eu não me sinto inferior a eles. Enfim. Um dia inteiro tirado para pensar a minha inferioridade pelo mundo. Vou falar com meus parentes e os comentários são “como tá a faculdade?” Ou “você está muito magro” ou “você não cuida de você mesmo” ou “você não faz nada” e eu me sinto ainda mais um fudido porque tudo isso tá certo. Eu, no fim das contas, me odeio. Eu me odeio por estar nesse buraco e não conseguir sair. Odeio estar cavando mais e mais pra fundo e só me sentir mal o dia inteiro pensando e fazendo coisas que me deixam frustrado. Imagina se sentir o dia quase inteiro em uma onda de frustração, às vezes menos, às vezes muito. E decepcionado e cansado disso tudo.
Por que você não faz algo para melhorar? Praticar alguma atividade física, falar com novas pessoas, tentar novos projetos? Eu sou de ciclos e faço o que eu achar certo. Agora eu achei certo escrever isso, mas agora parte de mim quer que eu pare de escrever imediatamente por medo do que vai sair. Eu tento fazer coisas para melhorar. Eu tento ir para academia ou fazer esportes ou qualquer coisa mas eu me sinto muito mal, como se eu tivesse atrapalhando ou incomodando as pessoas o tempo inteiro. Nesses ambientes amplos de treinamento eu me sinto como se fosse uma pedra no sapato das pessoas que se sentem incomodadas com minha presença. Geralmente eu começo quando eu tô na minha fase confiante e logo no meu primeiro surto eu paro e desisto de todos meus projetos. Tudo. Porque eu me sinto inútil demais para ajudar qualquer pessoa e não há nada que possam falar para me convencer do contrário. Morte é viável demais, velho. Puta que pariu.
Eu secretamente penso nisso desde pequeno. Eu tentaria ter uma vida já cedo para que não precisasse envelhecer muito. Conquistaria tudo e aos 20 me mataria. Mas eu não esperava que fosse tão rápido e difícil se manter vivo e conquistar meus objetivos. Eu me sinto preso, afundado, em meu erros passados e atuais que fazem eu ser o fracassado que sou hoje. Eu nem consigo mais ler porque não consigo parar sem ficar pensando mil e uma coisa. Eu sei que a morte é o caminho mais curto e fácil, mas é o mais lógico também. Não inclui muitas despesas, não inclui cobranças e depois da dor da morte nada mais vai me machucar. O que me para é pensar em minha mãe e como ela se sentiria quanto a isso. Mas quando minha mãe morrer eu não sei como eu vou me sentir.
Por que você se odeia? Porque as soluções são simples. É só ir lá e fazer. Mas eu não tenho energia para nada e nem vontade e nem objetivo real. Eu não consigo ter perspectiva de futuro. Eu juro que eu só quero ter paz.
É um sorvete de uma loja que eu amo no interior da Bahia. Queria compartilhar um bom momento de minha vida.
Sua família, no entanto, amava-os. Era gato para todo lado: João, José, Maria, Nina, Bolinha, Manchado, Gatito e tudo quanto é nome dos mais variados, mas Wallace nem se esforçava em tentar saber os nomes. Quando criança era ver uma bola de pêlos perto do seu quarto que começava o escândalo seguido dos mais criativos apelidos apelidos já criados pela humanidade residente em sua cidade: “Satanás na Terra”, “Destrói Desgraças”, “Filhote do Satã”, “Inferno de Animal Lazarento” – é legal que em todos os apelidos, os animais possuem nome (Satanás, por exemplo) e sobrenome (na Terra). Certo, não eram apelidos muito criativos, mas ele já carregava consigo a herança mais preciosa de sua família: o vocabulário cristão, o que significa que era só sua mãe ouvir uma parte de um nome que lhe rendia um puxão de orelha na certa.
Como quase todo dia havia um incidente com gatos, Wallace começou a imaginar, com razão, que os próprios gatos provocassem essa reação dele. Ele cresceu com essa teoria em mente, e cada vez mais o número de gatos aumentava em casa, enquanto ele disputava o ódio pelos “arrombadinhos” e pelo amor de sua família. Era uma situação que qualquer pessoa poderia considerar constrangedora, mas para Wallace era questão de honra e dignidade: não se podia tocar no assunto “Daquele animal” perto dele que era questão de momentos para ele se transformar e começar a falar sobre sua teoria, analisada, comentada e amplamente divulgada por ele mesmo sobre como os gatos o odiavam. E podia ser incômodo para desconhecidos, mas era uma grande fonte de diversão para amigos próximos e principalmente para seus irmãos Tereza e Pedro.
E realmente existem muitos momentos em Wallace se frustrou ou se irritou com esse problema particular com os bichanos. Seus pais o colocaram num psicólogo, visitaram terapeutas esotéricos ou xamânicos e até tentaram amolecer o duro coração de aço de Wallace batizando um filhotinho como “Walla” como homenagem. Wallace, irredutível, apenas disse “Espero que seja fêmea e vocês mudem o nome”. Realmente era fêmea, mas eles doaram o bichinho todo peludinho e pequeninho para uma prima distante que continuou chamando de “Walla” ou apenas o austero e também carinhoso “Gato” mesmo. Enfim, muitos são os momentos de Wallace com gatos, mas existe um em específico que até hoje arranca boas risadas de seus parentes.
Num dia que poderia ser o de hoje como poderia ser o de ontem, Wallace estava em seu trabalho resolvendo como organizar suas planilhas no computador. É estranho, mas nada acalmava mais Wallace do que estar em seu lugar cuidando de suas coisas. De repente, seu telefone começa a tocar: é Tereza. Ele para um pouco e rapidamente se dirige à copa para poder atender a ligação.
– Oi, titio. Você vai me ouvir e não vai dar um pio – disse Tereza. O mundo no telefone estava caótico e Wallace só conseguia ouvir algumas vozes e sons estranhos de abre e fecha de portas – Você vai na minha casa hoje, depois de seu trabalho.
– Sua casa? Por quê? Eugênia… – ele parou porque Tereza começou a gritar “”Me ajuda, Marcelo!” – Você está bem?
– Eu estou parindo, gênio! E você vai para minha casa cuidar dos meus gatos por hoje e por amanhã até Pedro poder. Ele vai dar pernoite e não poderá aparecer hoje e você é o único que eu confio para cuidar dos meus nenéns – ela falou tudo isso enquanto berrava com o Marcelo.
– Você sabe que eu…
– Eu não quero saber, Wallace. Escuta aqui e me largue, Marcelo que eu vou falar com Wallace. Não é você está sentindo uma cabeça vindo por sua buceta, Wallace. Você vai fazer o que eu disse e acabou. Vou desligar agora porque tenho que falar com a médica. Deixei a chave com o síndico.
– Mas…
E a ligação desligou.
Bom, não vou negar que a princípio ele tentou fingir que a conversa não acontecera para que não precisasse ir para a casa de Tereza, mas mais forte que um trauma de toda uma vida é uma pessoa grávida a qual você é bem conectado pedindo algo com urgência enquanto sentia contrações fortes. Ela não deu volta atrás e, portanto, Wallace se sentiu numa sinuca de bico. Ele tentou chamar algum amigo próximo para ficar no lugar dele, mas todos eles, mesmo os mais vagabundos, inventaram desculpas. Claro que queriam ver como aquilo iria acontecer. Malditos.
Dali o dia só desandou. Seu trabalho acabava só no fim do dia, mas ele não conseguiu raciocinar direito até que ele acabasse. Saiu do trabalho e quase esqueceu de pegar suas coisas no armário dos funcionários. Quando chegou no ponto, ainda sim ficou se questionando sobre porque Tereza tinha pedido logo ele de todas as pessoas da face da terra. Desde que saiu de casa ele não tinha mais contato algum com bichanos. Nem mesmo os vizinhos possuíam gatos, pois morava em um prédio que era proibido animais. Revisitar isso não estava nem perto dos planos de Wallace, mas não se pode escolher as dádivas que a vida guarda pra você e, nesse caso, a dádiva é uma casa cheirando a xixi de gato e pêlo de gato em todo o lugar inclusive no ar, principalmente no sofá e na poltrona, ambas viradas para a Televisão, ambos com mais da metade dos estofados rasgados e a outra metade já arranhados. As paredes, algumas manchadas. No chão já tinha dois copos plásticos já derrubados com algo já seco que parecia suco no chão. Isso foi só a sala, que é o primeiro cômodo, e Wallace agradeceu por ainda não ter visto nenhum tapete dentro de casa cheio de pêlo e com cheiro de xixi. Ao se virar no pequeno corredor, entre a sala e a porta de entrada, ele viu a cozinha e tomou um susto!
Dois seres absurdos e simplesmente incompreensíveis por serem tão assustadores e horripilantes, reconhecidos apenas pelo brilho dos olhos e corpos excessivamente peludos com caudas, estavam em cima da lata de lixo derrubada se banqueteando em cima da pia com o que parecia ser restos de frango assado. Aquela cena primeiro chocou Wallace e também as criaturas. Wallace ficou estático parado, enquanto as criaturas saíram se movimentando através de seus pés peludos e cheio de navalhas. Quando esses seres voltaram para a escuridão, lugar que já está diretamente associado a eles.
Ao passar pela casa, Wallace viu mais duas criaturas daquela no quarto e mais uma deitada numa almofada no chão, já desfiando. Totalizou quatro e meio – o que estava na almofada era ainda uma criaturinha mirim, mas Wallace já conseguia ver os dentes protuberantes de um assassino natural crescendo.
Mas ele não tinha tempo para perder, então começou a fazer uma faxina aquela casa. Era Wallace, um esfregão, uma vassoura, desinfetante, um balde de água e um pano contra quatro monstros e meio fazendo o possível para impedir que ele destruísse seu império maligno de vilania, pêlos e terror, ou fedor, como preferir.
A primeira batalha foi fácil, a batalha da Cozinha, ou como foi dito, a Guerra Entregue. As aberrações horrendas apenas observaram de longe planejando estrategicamente a perda de território enquanto Wallace fazia sua parte conquistando cada centímetro que podia. Aconteceram algumas expedições inimigas, mas o esfregão foi o suficiente para parar o avanço inimigo. Quando acabou a cozinha eram nove horas e Wallace se perguntou como o tempo poderia passar tão devagar. Ele ligou para Tereza, mas não obteve resposta. Ligou, então, para Marcelo.
– E aí? Já sou tio?
– Err… Um minuto… Não. Estamos buscando uma sala. Calma, amor! Preciso desligar.
E ele desligou. Isso preocupou um pouco Wallace, primeiro porque ela está sem ser atendida no hospital! Que horrível! A outra é que aquilo significava que ele ainda ia passar muito tempo ali. E agora vamos reavaliar a estratégia.
Existiam duas opções agora para iniciar uma guerra: a sala ou os quartos. Primeiramente Wallace inspecionou a sala e a situação estava tão ruim quanto se ele podia imaginar, mas infelizmente aquilo não era sua imaginação. Para poupar mais do seu cérebro, já derretido somente por conta de lidar com aqueles demônios que inclusive estavam estranhamente quietos. Ele se dirigiu para o quarto de hóspedes com seu kit de guerra.
Entrou no quarto e antes ele estava tão assustado com os gatos que não tinha percebido: aquele era o quarto de Eugênia. Ali havia uma cômoda verde, com alguns produtos como perfume de bebê, lenços umedecidos e óleo para a pele do bebê. Parece que esse era o quarto que menos tinha pêlo de gato. Alguns quadros prendiam na parede com imagens de foguetes e dinossauros esculpidas em madeira. No outro canto do quarto, um berço com forro de cama verde e um véu cobrindo-o. Intocado. Ao lado do berço, algumas fotos de Tereza e Marcelo pequenos e Wallace logo reconheceu as fotos de sua irmã. Ela em seus seis anos com os dentes da frente nascendo ainda enquanto sorria sem parar para a câmera, Wallace lembrou que um desses dentes ele a ajudou amarrando com fio dental e puxando. Ela em seus onze anos tímida batendo parabéns com os amigos, e Wallace conseguiu ouvir ainda hoje os gritos e bater de palmas. Tereza com quinze anos sorrindo e escondendo o rosto estouradíssimo de espinhas, e Wallace no fundo da foto com a cara amarrada. Ele voltou para a foto do aniversário e não conseguiu se achar e lembrou que nesse momento ele estava no seu quarto trancado por conta dos gatos. Na foto Quindim, um gato de sua mãe já falecido, faz presença atrás de uma das garotas da foto.
Tinham outras fotos, mas aquela deixou Wallace pensando. Quantos momentos da vida dele, dos irmãos e da família ele deixou de viver por conta de seu medo? Hoje em dia ele vive bem e sustenta sua vida tranquilamente sem ter que lidar com gatos, mas agora olhando para aquela foto, ele não tem certeza se suas reações fazem sentido. Se toda aquela lógica algum momento sequer fez sentido. Ele trancou a porta e deitou no chão ao lado do berço e notou que ali tinha um tapete – sorte que os gatos ainda não descobriram porque estava com doce cheiro de amaciante. E ali Wallace ficou por um tempo enquanto pensou no tempo perdido. Lembrou de cada um desses momentos com gatos dentro de sua família. Lembrou de quando sua vó lhe mostrou o gato dela, Pepinho – e ele empurrou a mão de sua vó e saiu correndo. Agora falecida, ele gostaria de conversar com ela sobre Pepinho ou sobre qualquer coisa. Ver Quindim na foto também não foi fácil, pois a lembrança de sua mãe veio extremamente forte e a última vez que a vira Wallace disse coisas muito duras para ela e sumiu. Apenas manteve contato com os irmãos que, pessoalmente, sabia que a mantinha informada sobre ele, mas nunca conversaram sobre isso. Toda essa história triste por culpa desses Filhotes de Satã.
Desde quando isso acontece mesmo? Wallace não lembrava direito, mas não tinha nenhum problema de saúde envolvido. Engraçado pensar nisso agora, depois de tanto tempo correndo do medo, agora nem sabe direito o motivo do medo, somente que ele acontece e como deve prosseguir. Como uma sequência de códigos, ou uma lista de afazeres em suas planilhas. Dia após dia somente dizendo motivos e argumentando respostas que sequer tem sentido. O medo não é mais o causador de suas frustrações, mas suas atitudes que fizeram com que o medo continuasse a viver em sua memória. Desde pequeno, todos em sua volta dispostos a ajudar, e Wallace preferiu se esconder em seu quarto para que não pudesse enfrentar seu problema de frente. Não queria fazer o grande esforço de encarar sua família, de voltar atrás em sua palavra, de conciliar seus amigos, de reconhecer que gatos não são necessariamente maus. Nunca precisou diretamente de um motivo porque as aparições de gatos era muito recorrente em sua vida desde pequeno, mesmo se o gato só quisesse carinho ou paciência, a verdade é que Wallace não queria aquilo.
É comum não gostar de gatos, não? Porque isso não foi respeitado por sua família? Por que Wallace sempre precisou gostar de gatos para poder participar das festas, conversar com familiares, estar em conjunto? Por alguns minutos, Wallace grunhiu, enquanto criava uma lista em sua cabeça de culpados: os próprios gatos, sua mãe que o batia, seus irmãos que riam da cara dele, seus amigos que raramente o apoiavam sobre ir contra os gatos. Wallace queria queimar tudo naquele momento, queria pedir demissão, queria pedir desculpas à sua mãe, mas não conseguia falar mais. Tudo parecia tão alto em sua cabeça que ele não conseguia mais pensar direito. As lágrimas vinham em seus olhos, mas elas não caíam. Virou-se de lado e esperou o tempo passar enquanto sentia o fofo do tapete em seu rosto e o frio do chão de piso em seus pés.
Demorou um pouco, mas logo ele sentiu algo no seu rosto e uma vontade involuntária de espirar. O pequenino monstro que estava deitado na almofada desse quarto e Wallace nem se deu conta estava agora em cima dele. Seus grandes olhos o encaravam ameaçadoramente enquanto ele se preparava para dar uma investida fatal com as garras em seu nariz. Wallace se afastou o que pôde, fazendo a criaturinha tropeçar. Mas ela não desistiu e vinha com mais uma. Wallace levantou, pegou a pequena besta por trás e a colocou na almofada de novo e ela aninhou e voltou a dormir. Vendo aquela cena, ele lembrou do porquê que estava ali na casa de sua irmã: Eugênia.
Eugênia tinha uma vida pela frente e a seguir. Ela tinha suas próprias escolhas, um ponto de partida, um marco zero, mesmo sem saber disso. Ela podia viver sem pensar sobre quais são seus medos do passado, porque ela não tem nenhum. Ao pensar nisso, Wallace não sentiu inveja ou tristeza, ele sentiu esperança. Esperança porque ele sentia a mudança vir com ela e sentia que poderia crescer de novo. Ele não esperava que seus erros do passado fossem perdoados, nem queria perdoar as pessoas pelo que fizeram. Ele queria começar de novo, um passo de cada vez, assim como Eugênia. Ele podia aprender a não odiar gatos, para variar.
Um novo início, não é?
Essas são Selena e Demi, gatas de uma pessoa que eu gosto. Eu dedico isso aqui para todos que possuem gatos e falaram comigo. Foi material suficiente, já que eu não tenho.
Eu não consigo nutrir amor por ninguém. Várias pessoas me vendo como descartável me faz pensar em se eu sou amável de verdade. Será que eu mereço ser amado? Será que um dia alguém vai querer alguém como eu? Não que eu precise, mas queria saber.
O amor me procura E eu nem me importo mais Ele me tortura Me desfaz Me deixa na loucura Eu só quero paz
Pessoas falam coisas demais Sonham comigo Me fazendo sonhar Lambem meu umbigo Transam sem parar Fogem, viram “inimigos” Eu só no altar
Eu cansei de amar Amor me traz prejuízo Me traz dor, me traz regozijo Tudo tão lindo na hora, mas Um mês depois e agora Tenho que esquecer o satanás
Não penso demais Sei que posso tentar Já construí um lar aqui dentro Um trabalho bem bom, mas lento Queria ter alguém pra partilhar Meu humilde apartamento
Mas para quê mais sofrimento? Hoje aconteceu novamente Do nada, desistiu de mim Falou que eu não era decente Um dia antes Me chamando de querubim
Por que fez isso? Criou expectativa Prometeu sonhos Ilícitos Só resta a memória viva
Quero escrever pra porra Não dá assim não Eu quero que escorra Quero liberdade no meu coração Eu me sinto uma cachorra Largada e sem compaixão Eu quero que morra Tudo que senti em vão
Agora eu tô repetitivo Um pouco obsessivo Então vou partir Tão rápido Não vai nem sentir E assim como os outros Você esquecerá de tudo Que foi dito aqui.
Um cãozinho de rua que um segurança pegou para cuidar
Mariana ouviu de sua cama um som e acordou. Não era a voz de seu pai e nem de sua mãe, e nem de sua irmã e isso a assustou, mas sua mãe tinha acabado de lhe confiar o posto de mais corajosa da casa, depois de matar uma barata, então Mariana tinha alguma confiança ali.
“Q-quem está aí?” Disse, já com o coração no peito.
“Calma, menina. Sou eu. Lúcio.” E do nada surgiu um brilho da entrada do quarto dela. Ela não entendeu direito o que era aquilo, mas estava cegando seus olhos. Ela piscou fortemente para tirar o brilho. Uma. Duas vezes. Na terceira o brilho diminuiu bastante, sobrando apenas algum tipo de capa ao redor deste menino, que estava na porta do seu quarto.
A princípio, Mariana pensou em gritar para alertar seus pais, mas ela sentiu algo estranho, como se podesse confiar naquele menino. E ele realmente estava brilhando. Fraco o suficiente para que ela pudesse olhá-lo sem se cegar, mas forte demais para que ela pudesse ver qualquer características dele. Ela apenas sabia que ele tinha olhos e boca porque ela conseguia distinguir a diferença do brilho de cada e os movimentos. Ele estava vestido com uma camisa de manga curta e shorts curtos também e descalço. Pelo que ela percebeu, ele era da mesma idade que ela, mas algo estava diferente e ela não entendia o porquê.
“Posso conversar contigo?” Disse Lúcio
“Minha mãe falou para eu não conversar com estranhos. Ainda mais quando eles invadem nossa casa.” Rebateu Mariana, vestindo a coragem e ousadia por cima da curiosidade e interesse.
“Mas eu não invadi sua casa. E como você sabe se eu sequer estou aqui de verdade? Talvez isso seja só um sonho, bem real” disse Lúcio, ao se aproximar mais de Mariana e adentrando ao quarto.
“Isso está confuso. E meus sonhos nunca foram tão reais assim.” Disse Mariana, levantando da cama para vê-lo de mais perto.
“Talvez você devesse deixar o sonho continuar”, e o Lúcio fica diante dela.
Mariana continua sem conseguir distinguir o que é Lúcio, mas uma coisa ela percebe: ele deve ser bastante pobre e com fome porque ela consegue enxergar as costelas dele através da blusa. De frente para ele, ela continua.
“Eu que mando nos meus sonhos, e portanto você não poderia existir neles. Eu nunca criaria algo como você, sem ofensas.”
“Ah, minha amiga. E quando as alucinações de uma mente perturbada começam? Nunca sabemos. Não que você seja perturbada, me ouça. Eu quero dizer que…”
“Agora é o limite. Você veio no meu quarto para me chamar de doida?” Ênfase no “meu” para que ele entenda que precisa tomar cuidado com as palavras, afinal se aquele é um sonho, então ela tinha o controle dele também.
“Eu falei ‘mente perturbada’. A loucura é o estágio final caso isso fosse um problema.”
“Hmpf” e Mariana revira os olhos.
“Abra os olhos para as possibilidades, amiga. Qual seu nome?” Diz Lúcio, sentando no chão.
“Mariana” e ela senta de volta na cama.
“Nariz de banana?” E ele faz algum tipo de careta que Mariana só percebeu que era uma careta porque ele colocou a língua, também brilhante, para fora.
“Lúcio, cara de estrupício”
“Mariana, a descansar Pensas muito de fato O Lúcio está no ato Apenas querendo Conversar” Recita Lúcio, movendo as mãos como se tivesse atuando.
“Agora é poeta?” Debocha Mariana, com um risonho de superioridade.
“Se esse é o teu sonho, então eu sou o que você quiser.”
“Então seja um porco! Faz oinc oinc” disse Mariana, enquanto ela mesma imitava um porco.
“Talvez outro dia. A verdade é que você me chamou aqui.” Disse Lúcio casualmente, enquanto deita no chão.
“Como assim eu te chamei? Eu não lembro de ter chamado nenhum fantasma.”
“Mas você fez a pergunta, e com a pergunta vem uma consequência. Você é muito nova para fazer essas perguntas e, por isso, eu vou tentar te dar as respostas.” Diz Lúcio, novamente bem tranquilo, mas agora levemente desafiador, o que intimida Mariana. Ela, de alguma forma, sabe o que ele está falando, o que assusta ela em alguns níveis. Ela nunca falou sobre isso com ninguém, nem para Nicole, sua melhor amiga. Ela não queria conversar sobre aquilo. Na verdade, ela nem sabia se aquilo era real.
“Eu tenho tempo para a gente conversar. Só quando você tiver pronta.” Disse Lúcio, e a partir dali ele não falou mais.
Mariana o observou e ficou quieta observando ele. Ele não se mexia. Parece até que já tinha caído no sono. Ela esperou algum tempo observando ele e depois deitou-se na cama.
“Eu me sinto cansada e triste. O tempo todo. Muita culpa vem a mim sem ter minha marca e eu já não sei se eu posso fazer alguma coisa certa. Eu erro tudo o que eu faço. A única coisa que eu sei fazer bem é fingir que tudo está bem. Eu não aguento mais. A cada dia que passa o futuro parece tão real e isso me assusta. Eu não sei o que vai ser de mim quando chegar e eu nunca vou estar preparada. Me pergunto o tempo todo se eu vou ser alguém bom em algo e que vou deslanchar na vida, como minha irmã, mas eu sei que eu não consigo lidar com nenhuma pressão. Tudo me sufoca e o tempo parece não passar. Eu queria muito sair daqui, fugir para muito longe e viver feliz em um lugar em que o tempo não passe. Eu só quero…”
Sem pensar muito no que acabou de dizer, ela chorou. E chorou por um bom tempo. Quando abriu os olhos, Lúcio não estava mais lá. E logo depois ela dormiu de verdade.
Será que amanhã ele vai estar lá?
Vi essa foto no twitter de @wah.ah.ah e me inspirei. Não ficou da forma em que eu pensei, mas acho que isso eu só vou melhorar com o tempo e escrevendo bastante e lendo sobre escrever.