Eu preciso te deixar ir
Os cheiros, os carinhos
Não aguento mais
Sentir você aqui comigo
Você, uma experiência
Cheio de química, possibilidades
Eu, sem consciência
À toa, falando bobagens.
Eu fui o primeiro
O único, o necessário
Minha mania de festeiro
Acabei também sendo
o otário
A verdade é que
Eu te amo
Sempre amei
Desde o primeiro toque
Primeiro sentimento
Primeiro gesto.
Mas, assim como fui seu primeiro,
Você também foi o meu.
E eu não esperava cair tão ligeiro
Afinal, quem perdeu?
Você sofreu comigo
Eu fui seu algoz e seu abrigo
Eu lutava contra tudo ao redor
Você estava se segurando
À deriva, num mar-torturador
Eu também não me cabia
Às expectativas que no momento
Eram dúbias.
Eu era um evento!
Agora sem ti, falido…
E agora depois de tudo
Depois de crescer, depois
Desse absurdo
É só muito egoísta de mim
Exigir de ti
Seu apoio absoluto.
Obrigado por ser fantástico
Obrigado pelo que vivemos
Mas viver não é estático
Preciso devolvê-lo
No fim deste caminho
Tortuoso e insistente
Esperando, sozinho
Quando, subitamente
Encontrarei o amor.
Autor: Ícaro do submundo
Não é um fantasma
“Bonita a casa”
Mariana ouviu de sua cama um som e acordou. Não era a voz de seu pai e nem de sua mãe, e nem de sua irmã e isso a assustou, mas sua mãe tinha acabado de lhe confiar o posto de mais corajosa da casa, depois de matar uma barata, então Mariana tinha alguma confiança ali.
“Q-quem está aí?” Disse, já com o coração no peito.
“Calma, menina. Sou eu. Lúcio.” E do nada surgiu um brilho da entrada do quarto dela. Ela não entendeu direito o que era aquilo, mas estava cegando seus olhos. Ela piscou fortemente para tirar o brilho. Uma. Duas vezes. Na terceira o brilho diminuiu bastante, sobrando apenas algum tipo de capa ao redor deste menino, que estava na porta do seu quarto.
A princípio, Mariana pensou em gritar para alertar seus pais, mas ela sentiu algo estranho, como se podesse confiar naquele menino. E ele realmente estava brilhando. Fraco o suficiente para que ela pudesse olhá-lo sem se cegar, mas forte demais para que ela pudesse ver qualquer características dele. Ela apenas sabia que ele tinha olhos e boca porque ela conseguia distinguir a diferença do brilho de cada e os movimentos. Ele estava vestido com uma camisa de manga curta e shorts curtos também e descalço. Pelo que ela percebeu, ele era da mesma idade que ela, mas algo estava diferente e ela não entendia o porquê.
“Posso conversar contigo?” Disse Lúcio
“Minha mãe falou para eu não conversar com estranhos. Ainda mais quando eles invadem nossa casa.” Rebateu Mariana, vestindo a coragem e ousadia por cima da curiosidade e interesse.
“Mas eu não invadi sua casa. E como você sabe se eu sequer estou aqui de verdade? Talvez isso seja só um sonho, bem real” disse Lúcio, ao se aproximar mais de Mariana e adentrando ao quarto.
“Isso está confuso. E meus sonhos nunca foram tão reais assim.” Disse Mariana, levantando da cama para vê-lo de mais perto.
“Talvez você devesse deixar o sonho continuar”, e o Lúcio fica diante dela.
Mariana continua sem conseguir distinguir o que é Lúcio, mas uma coisa ela percebe: ele deve ser bastante pobre e com fome porque ela consegue enxergar as costelas dele através da blusa. De frente para ele, ela continua.
“Eu que mando nos meus sonhos, e portanto você não poderia existir neles. Eu nunca criaria algo como você, sem ofensas.”
“Ah, minha amiga. E quando as alucinações de uma mente perturbada começam? Nunca sabemos. Não que você seja perturbada, me ouça. Eu quero dizer que…”
“Agora é o limite. Você veio no meu quarto para me chamar de doida?” Ênfase no “meu” para que ele entenda que precisa tomar cuidado com as palavras, afinal se aquele é um sonho, então ela tinha o controle dele também.
“Eu falei ‘mente perturbada’. A loucura é o estágio final caso isso fosse um problema.”
“Hmpf” e Mariana revira os olhos.
“Abra os olhos para as possibilidades, amiga. Qual seu nome?” Diz Lúcio, sentando no chão.
“Mariana” e ela senta de volta na cama.
“Nariz de banana?” E ele faz algum tipo de careta que Mariana só percebeu que era uma careta porque ele colocou a língua, também brilhante, para fora.
“Lúcio, cara de estrupício”
“Mariana, a descansar
Pensas muito de fato
O Lúcio está no ato
Apenas querendo
Conversar” Recita Lúcio, movendo as mãos como se tivesse atuando.
“Agora é poeta?” Debocha Mariana, com um risonho de superioridade.
“Se esse é o teu sonho, então eu sou o que você quiser.”
“Então seja um porco! Faz oinc oinc” disse Mariana, enquanto ela mesma imitava um porco.
“Talvez outro dia. A verdade é que você me chamou aqui.” Disse Lúcio casualmente, enquanto deita no chão.
“Como assim eu te chamei? Eu não lembro de ter chamado nenhum fantasma.”
“Mas você fez a pergunta, e com a pergunta vem uma consequência. Você é muito nova para fazer essas perguntas e, por isso, eu vou tentar te dar as respostas.” Diz Lúcio, novamente bem tranquilo, mas agora levemente desafiador, o que intimida Mariana. Ela, de alguma forma, sabe o que ele está falando, o que assusta ela em alguns níveis. Ela nunca falou sobre isso com ninguém, nem para Nicole, sua melhor amiga. Ela não queria conversar sobre aquilo. Na verdade, ela nem sabia se aquilo era real.
“Eu tenho tempo para a gente conversar. Só quando você tiver pronta.” Disse Lúcio, e a partir dali ele não falou mais.
Mariana o observou e ficou quieta observando ele. Ele não se mexia. Parece até que já tinha caído no sono. Ela esperou algum tempo observando ele e depois deitou-se na cama.
“Eu me sinto cansada e triste. O tempo todo. Muita culpa vem a mim sem ter minha marca e eu já não sei se eu posso fazer alguma coisa certa. Eu erro tudo o que eu faço. A única coisa que eu sei fazer bem é fingir que tudo está bem. Eu não aguento mais. A cada dia que passa o futuro parece tão real e isso me assusta. Eu não sei o que vai ser de mim quando chegar e eu nunca vou estar preparada. Me pergunto o tempo todo se eu vou ser alguém bom em algo e que vou deslanchar na vida, como minha irmã, mas eu sei que eu não consigo lidar com nenhuma pressão. Tudo me sufoca e o tempo parece não passar. Eu queria muito sair daqui, fugir para muito longe e viver feliz em um lugar em que o tempo não passe. Eu só quero…”
Sem pensar muito no que acabou de dizer, ela chorou. E chorou por um bom tempo. Quando abriu os olhos, Lúcio não estava mais lá. E logo depois ela dormiu de verdade.
Será que amanhã ele vai estar lá?

O começo de uma História
Queria começar esse texto dizendo que este é o começo de uma história que eu quero escrever e adaptar melhor. Tem uns termos que eu vou desenvolver melhor, mas até lá, aproveitem esses nomes estranhos e palavras estranhas. Eu tentei.

Todos os dias parecem os mesmos. Quando as lendas se tornarão algo real e emocionante?
Acordo com o brilho dos céus nos olhos e os sons das máquinas ao redor e já sei que devo correr para comer, afinal a comida já deve tá posta. Levanto-me da cama descabelado, mas nem ligo. Eu estou mais preocupado com o que eu vou comer agora. O chão está frio, então eu coloco meus calçados de couro e pego o casaco da cadeira para cobrir o resto do meu corpo.
Meu quarto está um pouco bagunçado. Muitas roupas jogadas pelo chão, dois livros se encontram abertos um em cima do outro com uma fruta meio comida em cima dos dois e eu espero muito que não tenha manchado as páginas. A janela é bloqueada pela minha cortina levemente opaca, deixando apenas uma fresta de luz tocar minha cama. Pelas paredes meus desenhos de antigas lendas e heróis que eu mesmo pintei e até que ficaram bonitos: Hayor, Gloçam, Fytum, Jane. Todos sérios em suas roupas táticas olhando para frente, vislumbrando um novo amanhecer que eu mesmo pude conhecer. Bem, tirando esse altar pessoal, a bagunça estava feita, mas eu posso limpar quando voltar. Saio do meu quarto e bato a porta.
De frente para mim tem a escada descendo para a sala de arquivos. No meu andar tem mais um quarto, mas a porta continua fechada. Dou de ombros, prefiro deixar ela quieta. Desço as escadas pensando no que cozinhar caso eles já tenham comido tudo. Tem algumas frutas, ovos, folhas, acho que carne processada. Daria uma ótima salada. Meu quarto fica no alto da escada e enquanto desço eu percebo que nenhuma das outras portas ainda está aberta, o que significa que os meninos ainda não acordaram. Eu grito em seguida “QUE PERNIL DELICIOSO!” e desço a escada correndo. Chego primeiro na sala de arquivos, imponente e lustrosa com suas enormes estantes encravadas nas paredes, mas já ouço as pisadas pesadas atrás de mim e preciso adiantar. Ainda correndo, eu atravesso nossa sala de arquivos e vou direto para a cozinha.
Mais um dia tranquilo, pois a vida é tranquila.
Finalmente na cozinha: um cômodo não muito maior do que os outros, com uma mesa pequena retangular corta o cômodo no meio de forma transversal às maiores paredes ocupando quase todo o espaço, de forma em que ao entrar pelo arco aberto de entrada, é a primeira coisa em que você consegue enxergar. Na parede oposta, há muitas pequenos armários presos em cima e abaixo há uma grande pia de metal para lavar as sujeiras que existem em uma cozinha. Do lado direito há uma porta de metal com vidros embaçados que abre para o lado de fora, junto com um cabide e muitos calçados e do lado esquerdo existe mais um grande armário de madeira para guardar os utensílios, com entalhes decorando as portas e suas pernas.
Sento na cadeira mais perto da geleia de frutas e dos pães, de costas para o corredor de onde vim, e vejo que Oortrei caprichou dessa vez: Um litro de leite e muitos sucos dispersos na grande mesa de madeira. Pães quentinhos em cima da mesa em uma pilha, acabados de sair do forno, acompanhados com geleias variadas. Não consegui ver se tinha manteiga, acho que terei de encomendar depois. Uma cesta com muitas frutas no meio da mesa, até porque eles sabem que todos vão pegar na cesta. Duas frigideiras de ovo com ervas e alguns molhos. Vejo também pedidos para atender as necessidades de cada um: as pílulas de saúde para Krais, o energético natural de Jois, até mesmo os componentes da nova dieta de Tamos.
– Espertinho. Já vai comer todos os pães da mesa. Não vou deixar você sozinho.
O primeiro irmão chega. Urdim. Ele é alto e magro. Cabelos brancos surgem em meio ao seu corpo inteiramente peludo. Está com seu pijama favorito: uma camisa branca surrada e uma calça tão usada que o tecido parece nunca ter visto a limpeza, mesmo ele as limpando todo dia. Ele se dirige para perto de uma das pontas da mesa enquanto eu o encaro. Seu olhar era de sono, mas brincalhão e eu respondo sem demora:
– Vocês demoram mais do que Hayor! Eu quero comer!
– Se a mesa está posta, então está na hora de comer –
Outra voz surge atrás de mim.
Krais aparece primeiro com sua mão atrás de mim, pegando o pão mais próximo, como se eu fosse um ser bem pequeno e um gigante fosse devorar a minha casa. Krais o faria, se quisesse.
Ele é enorme. Braços, pernas, cintura, mãos… Tudo grande. Estar do lado de Krais dentro de um transporte é saber que será esmagado, ou por brincadeira ou sem querer. Krais é extremamente extrovertido, o que me deixa um pouco acanhado. Agora que ele se senta, do meu lado, eu vejo que ele está com a mesma roupa de ontem: Um macacão com uma camisa de manga longa por cima. Mas por incrível que pareça o cheiro dele é de frescor do campo e ervas.
– Comporte-se e trate de ingerir suas pílulas. É para seu bem – Diz Urdim em um tom um pouco sério – Ainda é muito cedo para eu pensar em falar sobre o quão é importante estarmos juntos na mesa comendo. Somos…
Uma equipe. Irmãos que estão nessa juntos para viver e nos cuidar atenciosamente. O amor vive em nós e flui de nós para a terra e… – Eu e Krais falamos em uníssono de tanto que já ouvimos esse discurso antes, mas no final adicionamos uma parte extra: “Bla bla bla”.
Todos rimos e Krais vai em direção a suas pílulas para tomá-las. Ele as ingere de vez e as engole sem líquidos para ajudar.
– Já estamos usando entorpecentes? Mas ainda é cedo! E… Cadê o pernil?
Deu para ouvir Jois chegar só pela respiração forte. O quarto dela é ao lado do meu e provavelmente ela acabou de acordar e veio correndo.
Ela tem minha altura e está vestida num pequeno sobretudo azul, que é seu desde pequena e nunca se desfez. As olheiras, mãos calejadas e o corpo levemente musculoso e grande denunciam sua paixão pessoal: esportes. Todos os dias ela treina mais e mais com iguais até tarde, pois para ela é um momento de paz e tranquilidade. Eu não entendo muito bem, mas é o caminho dela.
– Eu menti. Queria tirar vocês logo da cama. Vocês ouvem pernil e ficam iguais a loucos!
– Como você OUSA mentir sobre um assunto TÃO SÉRIO como pernil? Estou indignada.
– Pelo menos ele tá sendo sincero agora – Fala Urdim
– Defendendo ele por quê? – Retruca Jois – Ele merece a guilhotina por me fazer acordar tão cedo!
– Vocês estão bem animados para um dia de folga. – Uma nova voz surge de trás de mim.
Quiostono chegou e o ar fica mais denso, não literalmente. Jois foi pegar sua xícara de energético natural enquanto eu e Krais nos encaramos discretamente. Jois se dirigia para sentar ao meu lado, mas Quiostono já estava indo naquele direção. Ele puxa a cadeira arrastando-a no chão dramaticamente e se senta, obrigando Jois a se sentar do outro lado da mesa.
“Desculpas” ela diz em minha direção movendo os lábios. Eu demonstro com o rosto que eu agradeço pela preocupação. Não me importo muito com Quiostono, mas os outros sim.
Primeiramente o que posso falar de Quiostono é: ele é um Icka, ou seja, vive através de metal e partes que foram feitas em laboratório. O que significa que seu braço esquerdo, juntamente com seu ombro, costelas, pulmão e partes do coração são feitos através de material sintético e de metal. Ele sofreu um acidente quando era muito pequeno e a única forma de viver foi com esses aprimoramentos. Atualmente existe uma grande discussão sobre o cibernético no mundo, porque existem pessoas que acreditam nas Poderosas Explosões do Magnífico Huçoriamo e, evidentemente, acreditam no Destino natural de todas as coisas, ênfases no “natural”, porque significa que as intervenções científicas muito íntimas na vida pessoal podem distorcer a trajetória do destino.
Bom, Quiostono nem pensa muito nisso porque ele está ocupado sendo sarcástico. Ele é bem magro, delgado como o caule de uma planta que acabou de nascer. Ele é mais alto que eu por poucos dedos, mas seus dedos pequenos, braços e pernas curtas fazem-no parecer menor. Ah, e seus olhos possuem cores diferentes: um é castanho e o outro lilás.
O silêncio continuou dentro da sala, até Quiostono dizer:
– Por que ainda não estamos comendo?
– Estamos esperando o último – Diz Krais – Assim como manda as ordens.
– Ordens… Podemos fazer da nossa forma, caso queiramos. Isso são só posturas indicadas por outros. Talvez Tamos nem apareça hoje – rebate Quiostono, com um sorriso suficientemente simpático uma manhã pode deixar – Vamos só comer logo, sim?
– Mas devemos respeitar as regras, Quiostono – Repete Krais, olhando para Urdim e com a voz mais baixa.
– Bom, faça o que quiser. Eu vou pegar meus ovos mexidos e molho.
Assim que Quiostono toca nos talheres para pegar o ovo, Urdim solta um grunhido. Quiostono para, olha para ele, mas Urdim continua quieto. Quiostono volta a tocar nos talheres e Urdim volta a grunhir, coçando a garganta. Dessa vez Quiostono não para e vai em direção ao ovo. Eu, Krais e Jois continuamos nos olhando calados. Urdim está ocupado encarando viciosamente Quiostono, que a este ponto já está com o ovo no prato. Urdim continua falhando miseravelmente em chamar a atenção do Quiostono sem usar palavras, enquanto que este está procurando os molhos na mesa. Eu, para esquentar a situação e por puro humor, pego o molho para Quiostono e ele me agradece com um olhar, enquanto que Urdim me encara ferozmente.
Quiostono dá a primeira garfada e nós três nos esforçamos muito para não rir ao olhar para Urdim, que está tremendo de raiva. Antes de chegar em sua boca, Quiostono para e finge se questionar.
– Hm, acho que podemos esperar Tamos mesmo. Lembro de tê-la ouvido se arrumar quando estava descendo as escadas.Sim, vou esperar.- Diz finalmente, encostando o garfo no prato e olhando para o rosto de cada um de nós, para finalmente olhar para Urdim com um sorriso debochado.
– E o ciclo continua! – diz Urdim, mudando de temperamento rapidamente e rindo profundamente – Assim como não sabemos nosso suspiro final, certo?
Quiostono repentinamente pega no garfo e come rapidamente direto depois da ultima frase de Urdim. E o caos está feito. Urdim levanta e está preste a gritar com Quiostono, que está calmamente preparando a próxima garfada quando eu ouço passos bem leves atrás de mim.
– Parem vocês dois! – Falo alto o suficiente para que Urdim entenda que não é o momento. Ele fecha o rosto e se recolhe na cadeira.- Tamos chegou.
E eu levanto da cadeira e me viro para buscá-la. Sei que ela está na sala de Arquivos, mas ela se escondeu. Vou para a poltrona mais próxima da sala e a encontro atrás dela, com sua camisa dos Campinatos, um time que ela gosta, grande o suficiente para usar como vestido.
– Vem logo, estamos te esperando. – Digo a ela
– Quase todos nós estamos esperando, não é? – diz por cima de mim Urdim
– O importante é que ela tá aqui – digo sorrindo de volta para ela e ela cede, pegando minha mão e se dirigindo à cozinha.
Tamos é menor que eu. Ela tem um brilho no olhar diferenciado, capaz de enxergar detalhes com muita perspicácia, além de ser bastante exigente com as coisas com que gosta de fazer: desenhar, escrever. Ela é uma artista completa. Pelo que posso ver, ela estava tentando desenhar algo, pois as pontas de seus dedos estavam um pouco sujas.
Como ela é a menor de nós, dividimo-nos para cuidar dela, e tem dado certo. Primeiro dia ela vai com Urdim à cidade para ajudá-lo com o trabalho de organização de arquivos e solução do que chamam de “Casos obtusos”, ou seja, seres que querem destruir o sistema em que fazemos parte. Urdim trabalha quase todos os dias e às vezes traz o trabalho para casa, pois os casos se somam e crescem todos os dias, mas também porque ele não cuida apenas de nossa área, mas das áreas próximas também.
No segundo dia ela acompanha Krais nas fazendas. Krais é responsável pelo semeio e colheita das fazendas de grãos e Tamos ama as máquinas utilizadas nas fazendas. Além disso, Krais também é um dos responsáveis principais pela comunicação e reorganização da plantação para a satisfação dos consumidores e rotatividade da Terra, o que não é muita coisa já que todo pedaço de terra que se planta de forma ampla tem um desse, mas rede a ele reuniões chatas e muitas fofocas que ele me conta quando sentamos juntos e sozinhos.
No terceiro dia Tamos acompanha Quiostono. Ele trabalha como pesquisador no Centro de Aperfeiçoamento e Análise do Absurdo (CAAA). Basicamente analizando momentos e falhas reais em teorias diversas sobre a realidade, procurando brechas no nosso modo de vida e na vida em si para que possamos entender tudo ao nosso redor. Não sei explicar direito, mas é bem interessante. Vejo ele falando às vezes e me sinto muito convencido sobre seus estudos. Queria vê-lo trabalhar, mas ele disse que é muito perigoso e que só consegue levar Tamos porque é necessário. Tamos sempre volta de lá com um doce diferente na boca e uma cara de boba, mas nunca conta para ninguém o que viu.
No quarto dia ela viaja para longe com Jois, que trabalha em um Centro de Reabilitação para Viciados e Instáveis em um conjunto habitacional bem distante de nossa casa. Elas passam o dia inteiro fora e só voltam de noite. No caso de Jois, ela vai lá dia sim e dia não, a não ser quando surgem emergências. Lá, Jois os ensina melhor sobre o próprio corpo e tenta trabalhar novos interesses aos matriculados, geralmente adolescentes e idosos. Temos a ajuda com oficinas de desenho e as duas fazem um trabalho maravilhoso juntas, ao menos é o que parece.
No quinto dia Tamos vem comigo para a Biblioteca Central cuidar dos arquivos da região. Como atualmente todos os arquivos já estão digitalizados e raramente algo físico é utilizado, a biblioteca serve mais como um museu de tempos antigos. Objetos como algumas armas antigas, primeiros artigos de “luxo” que atualmente nem faz sentido pensar em luxuoso, computadores antigos para sites de busca antigos, e enfim. Literalmente eu me sinto congelado no tempo lá dentro e é ao mesmo tempo assustador e maravilhosa a quantidade de informações que eu aprendo diariamente. Quando Tamos vem comigo eu já separo alguns arquivos um dia antes para que nós possamos folheá-los quando ela vir. Lemos esses arquivos como se fossem histórias fictícias, mas aconteceram de verdade e às vezes procuramos juntos por evidências de tais fatos, ou articulações entre os fatos. Ela realmente tem olhos de águia.
O sexto dia em diante ela vai ao Centro de Ensino e Cultura do povoado. Ela passa dez dias seguidos indo para lá, para “criar o sentimento de pertencimento à nossa cultura”, como se viver na nossa família já não fosse demais.
Bem, devaneei um pouco enquanto andava e quase me bati na mesa enquanto segurava a mão dela. Soltei-a e fui me sentar, e ela seguiu para a cadeira dela, do outro lado da mesa. Agora estamos todos na mesa e Quiostono pede desculpas para Tamos movendo os lábios, que sorri para ele e responde com um dedo levantado: o sinal para que ele desse doces para ela depois. Ele sorri e responde com sinais que eu não conheço, mas ela entendi e solta um risinho baixo.
– Bom, já que estamos todos aqui, vamos proferir as palavras sagradas. Sim? – Pergunta Urdim. Todos nós nos damos as mãos, até mesmo Quiostono, apesar de mal grado. Assim que todos fechamos os olhos, Urdim começa, e nós cantamos seguindo ele:
“A noite começa por ti
A vida termina em ti
Ó Impotente Huçoriamo
Calor Que Tudo Toca
Que Teus Olhos Emanam Energia
Que Sua Voz Seja Ouvida
Que Nós Possamos Viver
Nessa Vida Calma de Paz
Para Nunca mais Faltar comida
Para Nunca Mais Faltar Morada
Para Nunca Mais Faltar Saúde
Para Nunca Mais Voltar ao Passado
Assim, Agradecemos Por Ser Real
E Realmente Sentiremos Sua Potência”.
E a partir daí é suposto para que peçamos algo ao Huçoriamo, mas eu cansei no meio do rito. Abro meus olhos e encontro Quiostono com a cara de entediado olhando para frente. Ele me vê e esboça um sorriso.
“Feche os olhos”, ele diz, sem sair som.
“Não, cansei”, devolvo a ele.
“Você é do mal”, ele diz.
“Não conte para ninguém”, eu falo.
Antes que Quiostono pudesse responder, todos abrem os olhos.
Esse aqui é pra você
Eu tinha medo de te perder, seu idiota. Você era tudo para mim. Eu fiz minha vida ao seu redor e assentei minha pedra ao lado da sua. A minha vida dependia do que você e nossos amigos pensavam de mim e meu humor dependia de como nós estávamos. Eu estava vivendo uma fantasia, mesmo que seja tóxica. E você nem sabia disso.
O tempo passou e nossas vidas foram mudando. De repente não estávamos mais na mesma situação. Minha vida não cabia mais ao redor da sua. Sua pedra rolou para longe da minha. E o frio da solidão foi uma experiência de Curitiba no nordeste.
Eu o culpo. Eu quero gritar para todos os ventos que é culpa sua. Você me abandonou, homem. E eu não sabia o que fazer sem alguém do meu lado. Esses sentimentos, no entanto, não são completamente verdadeiros porque eu também te amo. Bastante. O suficiente para, mesmo depois de todo esse tempo, não deixar de amar.
E eu agradeço por esse tempo sem você. Eu adquiri força interior, planejei minha própria vida, estou tentando pensar na minha auto-suficiência e na minha autoestima. Não preciso mais das opiniões de pessoas ao meu redor para basear a minha vida. Estou crescendo de verdade sob os limites que agora eu conheço bem. Não sou tão ingênuo quanto antes.
Por isso que eu entendo os atritos. Eu realmente compreendo como é se desestruturar e que o espaço não fez bem somente pra mim. Eu não me importo mais com essas feridas porque elas se curaram. Brigas por brigas acabam nas palavras.
No entanto eu não consigo perdoar o tempo que está levando para você se desculpar sinceramente sobre tudo isso. E eu não quero ser a pessoa dando o braço a torcer. Toda vez que eu vejo você tentando falar comigo eu tenho medo de voltar a me relacionar contigo e parar na relação que tínhamos antes. E isso é muito doloroso porque eu quero muito te abraçar e conversar sobre tudo contigo.
Eu sei que eu preciso largar a mão da incerteza, que é um “leap of faith” (Spiderman into the Spiderverse), mas eu não posso pular se eu não tiver certeza de onde eu estou indo. Por mais que eu ainda te ame. Desculpa. Se eu tivesse essa certeza, eu fingia que nada tinha acontecido…
Mas se eu tinha medo de te perder, agora que já te perdi eu tenho medo de ter medo de novo. Faz sentido?

O silêncio do sexo.
Por detrás da sua mão, solto um gemido baixinho. Eu estou acordado. Não consigo me desvencilhar da consciência nem que seja um segundo. Você consegue. Você está em outro mundo agora, muito longe para que eu consiga ter coragem de te colocar aqui embaixo, para que possa me ouvir.
Continuamos. Eu sinto a dor, mas você diz que é passageira. Eu peço para que você me ajude a suportar, mas você quer viver isso sozinho. Eu já estou acostumado. A dor cresce, mas o prazer vem junto e eu me contento.
Penso em como ele é gostoso. Em como é sorte minha tê-lo. Em como sou inferior àquele corpo que agora me consome. Eu não sou? Ele sorri e me beija. Eu tento segurar esse beijo para não chorar. Ele não tem tempo para beijos, penetração é mais importante.
Ele goza. Respira. Sorri. E me leva para tomar banho com ele.
Eu respiro fundo. Levanto feliz. Tento conversar e elogiar. Tomo banho. Vou para minha casa.
Talvez a culpa seja minha de não gostar. Ele gostou. O sexo foi bom, não? E ele foi gentil e educado comigo…
Tiveram outros que não foram…

O Homem
Todo sarnento, maltrapilho, desajeitado,
Todo feio, sem vergonha e derrotado
Nojo escorre por sua vilanesca boca
Sua mente? Suja, desalmada, também oca
O tempo passa e continua idiota
Suas falas, vidas perdidas, nada importa
Continua a praguejar todas as beldade
E não vale a surra que o diabo te bate
Dono de toda verdade, o verdadeiro machão
Sentindo todo o poder de se ser
Se recusa a ouvir um mínimo “não”
Com muita força, mas lhe falta o saber
Homem cis já se questionou
Se uma Travesti iria TE querer?

Eu sou o casulo 💕
Eu fui destinado para ser um infeliz. As marcas da saudade de algum tempo longiquo de utilidade agora são só cicatrizes que doem continuamente. Minha cabeça não aguenta mais. Eu sou só um casulo esperando para que a doce e linda borboleta possa quebrar e destruir por completo algo que não lhe serve mais. O que estou fazendo comigo mesmo? Minhas mãos calejadas de tanto nada, minha cabeça confusa de tanto barulho e eu não consigo mais me ouvir. Busco um sonho irreal e na verdade eu mesmo já me perdi e nem sei quando comecei a me perder. A história de Ícaro é minha algoz e essa é a única da qual eu posso ser personagem principal.
Deitado, jaz eu, imóvel pela monotonia e inutilidade que me cerca. Futilidade também, seja pelos sentimentos ou pelas pessoas. Não que eu ache meus sentimentos fúteis, pelo in contrário, acho que ninguém os merece.
Estou trancado sozinho, preso e ignorado. Realmente me sinto como um objeto estático numa casa de ricos, que foi comprado por ser majestoso, mas que não tem valor nenhum. A pena da minha asa constantemente me lembra do corvo, que paira no teto de minha casa desde que era pequeno. Viu-me crescer e esteve comigo em muitos dos meus momentos. Ele me conhece de perto e eu não o renego. Apesar de ter muito medo dele, eu não fujo. Eu o escondo e o mantenho comigo, na verdade já não sei se sou eu que estou preso a ele, mas estamos juntos querendo ou não.
Agora eu evito me xingar ou me maltratar porque eu mereço melhor, mas não sinto que eu mereça. Eu me sinto só, me sinto inquieto, me sinto triste e cansado. Queria que alguém aparecesse e me tirasse desse buraco que eu me enfiei. Queria acordar um dia e todos meus pensamentos maus sobre mim tivessem desaparecido. Queria muito não me destruir, mas eu não sei mais quem eu sou ou o que eu quero. Eu não sei nem o que sonhar. Eu não tenho perspectiva. Sinto as asas dele sempre que me lembro que eu gastei minha existência de forma ridícula e infantil. Ouço-o quando penso sobre o quão atrasado eu estou em questão aos meus amigos, sobre o quão afundado eu estou.
Eu sou um problema, uma interferência, um incômodo, uma agonia. Eu realmente não vejo porque continuar. Eu não tenho um futuro. Eu não tenho amor, não sei como demonstrar isso, não sirvo pra confiar nem ser confiado, não sirvo pra ser amigo. Sou completamente dependente e só vivo por conta de que minha existência interfere na vida dos outros inevitavelmente. Já faz uns anos que eu tô correndo de todo esse pensamento, mudando minha perspectiva, tentando colocar outras coisas em jogo, me colocando em coisas novas, mas toda vez que eu faço isso, eu quebro. Algo dá errado. Eu destruo alguma chance. Eu não sirvo pra ter chances.
Como o Ícaro da História, eu sirvo como exemplo e destino falho, de vida interrompida devido aos erros do passado. Assim como Ícaro devia ter ouvido o pai, eu devia ter feito algo, mudado minha vida, antes que eu caísse nesse buraco.
A borboleta é mais bonita que o casulo.
O corvo venceu hoje.

Eolo “Aelium” Losseeker
Respira fundo e continue sorrindo. Aelium sabia que, enquanto pudesse respirar, ele conseguiria construir o futuro dele. E essa frase nem era dele, mas de sua avó. Infelizmente nunca pôde conhecê-los, pois ele nasceu no mesmo dia em que seus avós morreram.
Sua familia era uma isolada familia de pescadores. Num dia onde o céu estava muito límpido e a água estava bastante calma, os anciãos insistiram em sair para pescar. Eles sabiam que havia uma tempestade das grandes vindo. Sabiam não, contavam com isso. Seus filhos não sabiam e nem precisavam saber, mas havia um segredo em sua familia: eles eram herdeiros de um benevolente Djinn. Haviam diversas histórias que foram passadas por gerações sobre como a família Windrunner foi poderosa e influenciou a história de Calimshan em determinadas cidades, seja lutando contra a corrupção ou se tornando parte dela.
Com o poder e a glória vem o reconhecimento, e os dias glorioso passam como minutos diante daqueles que os aproveita. Descobriu-se que aqueles grandes feitiços e habilidades haviam desaparecido entre as gerações perdidas, tornando cada vez mais difícil viver sob a ideia de ter a possibilidade de ser alguém com poderes do Djinn.
Preocupados com o que aconteceria, eles foram para a costa, mudaram de nome, construíram sua casa e vivem lá por gerações sendo pescadores e marinheiros. As histórias continuavam sendo passadas, mas apenas dentro do seio familiar.
Os Avós de Aelium foran diferentes: eles nunca contaram aos filhos sobre a herança que a mãe tinha, porque afinal ela havia se decepcionado pois, apesar de ter cabelos brancos por toda a vida, nunca teve nenhuma habilidade extraordinária. Portanto ela se isolou com marido e os fez nunca saber do passado de sua família.
A geração que nasceu em seguida não tinha noção dos poderes. Julian era um menino forte com olhos bem lilás e um sorriso traquinas, enquanto que Eloíse era uma garota quieta e bem reservada que se predispunha apenas para fazer o que era necessário. A Eloíse nunca manifestou os poderes, como a mãe, mas Julian… ele tinha uma característica própria: Seus saltos eram gigantescos. Ele podia pular até o telhado de uma casa, caso quisesse. Seus pais diziam que era porque ele tinha muita força nas pernas e ele deixou por isso mesmo.
E Julian cresceu e se casou com uma mulher chamada Laureen de uma vila próxima em que eles vendem peixe. Laureen era uma mulher esperta e muito alegre que via o mundo com olhos bondosos e tratava todos como iguais. Julian aprendeu muito com ela e conseguiu compreender que a vida tem mais sentido quando fazemos o bem para as pessoas em nossa volta.
Eloíse se cansou da vida de pescaria. Um dia, logo depois que completou seus 16 anos, foi para a cidade grande de Calimporto e nunca mais voltou. Julian tem notícias que ela continua lá, mas nunca mais a viu.
E eles foram navegar. Disseram que iam pescar, mas eles sabiam que aquele não era um bom dia de pesca. Quando o mar está calmo é porque uma grande tempestade está por vir e quando essa tempestade vem, o pior lugar que devemos estar é dentro de uma canoa com varas de pescar tentando fisgar uns malditos. Mas aquela não era uma viagem de pesca.
Do âmago do seu ser, Lorena sentia que devia ir de encontro a esta tempestade. Ela nunca havia sentido isso em toda sua vida: na verdade, no auge dos seus atuais 68 anos, ela não sabia mais se não havia despertado os poderes ou se simplesmente não deixou que eles chegassem a ela. Sempre ríspida e autoritária, nunca deu espaço para brincadeiras e sempre esteve estressada em cada momento de sua vida. Mas, naquele momento, ela estava calma. E sabia que havia chegado a hora.
Falou a Julian tudo que precisava falar: que o amava, que amava o neto que iria ter, que a vida pode ser muito mais significativa e ampla do que qualquer horizonte pode oferecer e que, para descobrir sobre isso, era necessário se desprender daquilo que mais nos atormenta. Respirar e entender que, enquanto respirarmos, podemos viver e transformar nossas vidas. Ser leve para entender as injustiças do mundo e ser forte para traçar nosso caminho por elas.
Julian não entendeu direito porque sua mãe falou tanto e tantas coisas do nada, mas ouviu e assimilou cada palavra, afinal Dona Lorena nunca tinha sido tão clara e simpática na vida como naquele momento.
E eles foram. Quando eles foram pescar, como qualquer dia, Julian foi à vila comprar utensílios para ajudar no parto de sua mulher. Uma banheira, panos… Está chovendo? Ele olhou na rua e vê que o céu está acinzentado violentamente e leves pingos de chuva começam a cair, mas ele sente que os pesados estão a caminho. Com sua esposa, ele começa a ficar agitado em preocupação com os pais no mar – coincidência ou não que eles estão numa tempestade? Os dois eram muito experientes para cometer esse erro.
Quando a chuva ficou mais forte a preocupação virou desespero e ele não tinha mais paciência para comprar as coisas. Agilizou Laureen para ir aos cavalos e foi direto para casa.
Chegando em casa ele não tinha mais visão do barco dos pais, então pensou que foram para casa – macacos velhos não cometem erros – e, assim que ajudou Laureen a descer do cavalo, a bolsa estourou. Novamente desesperado, ele a colocou na bamheira dentro de casa e foi a casa dos pais, que ficava perto… Mas não tinha ninguém. Sem se preocupar com o que aquilo significava no momento, afinal ele não parou para ligar os fatos, ele saiu pela vizinhança procurando alguém que ajudasse. Depois de uns 20 minutos ele achou uma mulher que, apesar de nunca ter realizado de outra pessoa, tinha 6 filhos e sabia como funcionava um parto.
Julian esquentou a água, e a colocou na banheira. A mulher se chamava Fabíola e ela só tinha olhos para Laureen, que estava se derretendo de força e desespero. “Respira, respira e EMPURRE!” dizia Fabíola, enquanto Julian segurava a mão de Laureen, rezando aos céus que tudo desse certo. Pedindo todo o bem para aquele parto, para que seu filho nascesse tão forte quanto a tempestade que assolava sua casa de madeira naquele momento. E seu desejo foi eventualmente realizado. Laureen conseguiu dar à luz a um menino com a pele escura e olhos lilás igual a Julian, mas com os cabelos brancos quase transparentes da sua avó. Lembrando das palavras de sua mãe, eles decidem colocar o nome de Aelium “Éolo”, para que ele seja sempre leve e consiga andar na corda bamba da vida.
No entanto, Eolo e nem Julian conseguiram contar para Lorena sobre o nome.
Depois de falar com seu filho sem falar da herança Djinn, ela posteriormente iria se arrepender disto. Antes de falar com seu filho, ela teve conversou com seu marido sobre a situação: “Romildo, acho que devemos ir ao mar hoje.” E contou sobre ter sonhado sobre uma grande tempestade se aproximando, sobre sentir que precisavam ir de encontro a ela e sobre como ela entendia aquilo como sua sina. Ao invés de impedí-la, Romildo a apoiou. No auge dos seus 75 anos, ele apenas disse “Já vivi 46 anos contigo. Qualquer lugar que você for, eu irei. Sou seu amor e nunca deixaria você sozinha”. E eles foram, no pequeno barco improvisado – não iam desperdiçar o melhor barco que tinham para isto – e foram pescar. Eles realmente pescaram no meio tempo que a tempestade não vinha, e conversaram como se conheceram, como criaram seus filhos, como Julian agora teria um filho e apenas conseguiram se sentir honrados. Claro, Eloíse havia desaparecido e Lorena foi muito mais dura do que ela queria ser durante a criação dos dois, mas aquele não era um momento para se arrepender. Lembraram das primeiras palavras dos dois, lembraram do primeiro sexo que tiveram, de como o peixe cozido de Lorena havia melhorado com o tempo e como haviam aprendido a pescar. Lembraram de seus pais e lembraram das histórias. Quando menos esperavam, as ondas estavam gigantescas e eles mal conseguiam se segurar no barco. Olharam aos céus e agora no horizonte contrário a costa havia um furacão.
Ao ver o furacão, Lorena entendeu o significado e começou a remar até ele, mas Romildo a impediu. Disse que era suicídio e que, se morresse, ao menos esperava ser encontrado. Um furacão arrancaria a pele de seus ossos e simplesmente o esfacelaria. Mas Lorena sabia que aquilo era o que ela sempre buscou e precisava ir de encontro a ele. “Se você quiser deixar o bote, eu não o julgarei, mas eu preciso ir até lá”. E então Romildo pede desculpas e salta do bote, sendo engolfado pelas ondas violentas tentando chegar à margem.
Dona Lorena julgou a covardia de seu marido e se sentiu traída, no entanto não pensou muito sobre isto. Diante uma tempestade furiosa, ela remou. Enfrentou ondas enormes, ventos cortantes e um frio torrencial sozinha. Quando estava chegando perto do furacão, uma onda do tamanho de uma torre a afundou e destruiu seu barco. Ela teve apenas o tempo de segurar o ar antes de cair do barco e afundar. E afundou.
Ela se perguntava quanto tempo duraria até perder o ar de seus pulmões e começar a sufocar com a água, mas já havia passado 10 minutos e isso não havia acontecido. Ali em baixo a visão era maravilhosa: o mar revolto acima, os peixes, a escuridão em volta, o silêncio. Aquilo inspirava Lorena. E o tempo passou enquanto ela afundava, mas então ela entendei que não era o seu fim e desistiu de afundar: comecou a nadar.
Não entendia porque, mas não perdia o fôlego – será que essa foi sua herança? 65 anos de ódio por ser nada além de uma mulher de cabelo branco para saber que seus esporros eram bem dados porque ela tinha fôlego infinito.
Chegando na superfície, ela respirou novamente e percebeu estar no olho da tempestade, uma área aberta e sem chuva no meio de muito caos e demonstração da força dos ventos. Neste meio, ela vê um pequeno ser no alto do céu, mas não é avistada por ele e nem consegue saber se aquilo era real ou só coisas de sua cabeça perturbada. E, quando tenta ver melhor, é engolido por uma nova onda. Esta a pegou de surpresa e é sucedida de muitas outras. Mas a velhinha se preparou para isto por toda sua vida: lutar contra os ventos era seu destino. Infelizmente, era uma luta unilateral e bastou sua cabeça bater numa pedra para perder a consciência e morrer no mar. Seu corpo nunca foi achado. Romildo conseguiu sobreviver, mas, por medo do julgamento doloroso de seu filho, forjou sua morte com a esposa e fugiu para outra cidade.

(Para verem mais artes dele visitem o @mario.exe no instagram).
Engano
A princípio eu estava lá de corpo.
Minha mente, como sempre, a devaneiar.
Você atrasou, mas chegou
E eu suspiro e desvio o olhar.
Conversamos um pouco
Você fofo, e eu meio bobo
Comecei a cair no lance de apego.
Vou tentar a sorte.
E, por maior que seja meu pessimismo
Sua simpatia era mais forte.
Enfim, a noite foi incrível.
Eu adorei sair contigo.
Continuaria naquele momento
Se parar o tempo fosse possível.
Mas a verdade é que sou ator.
Sou poeta.
Sou escritor.
E no meu mundo precisa de ardor
Para que dele eu possa tirar a cor
E produza a arte de minha vida.
Você queria uma foda
Queria que eu acreditasse nos teus contos de bosta
Queria que eu voltasse e amasse sem volta.
E eu amaria.
Mas agora é tarde demais.
Não vou olhar pra trás
Eu aceito as desculpas, sim
Mas não me enganarás
Você perdeu, otário.
E, apesar de lembrar de você,
Ainda sinto seu cheiro aqui,
Meu amor é algo especial.
Te darei mais nada de mim.

“Nossas memórias morrem conosco”

Essa frase me tocou. Depender diretamente dos outros para me dar algum sentido de viver já não faz mais sentido. Preciso seguir meu caminho, traçar meus objetivos, viver minha própria vida. Fugir de viver só me faz deixar mais lento o presente e não me impede de lidar com meu futuro. Preciso me agarrar a essa vontade de viver. Preciso internalizar que eu me amo e que não existir não faz sentido mais – pois eu existo.
Para mim, pensar sobre essa frase é mais do que deixar viva os momentos e pessoas que já morreram dentro de mim para celebrar suas vidas o máximo que eu puder. É saber que visões de mundo são únicas e especiais de sua forma. É aprender a cuidar de meus próprios pensamentos, mesmo os mais vis e assustadores, e fazer as pazes com esse Ícaro infeliz e negligenciado. É cuidar das relações que eu ainda tenho aqui, ao menos no limite do que eu possa fazer e do que as relações suportam. É ser verdadeiro e fiel comigo mesmo.
Portanto, quando as minhas memórias morrerem comigo, eu estarei satisfeito, pois sei que não há nada que um homem de 10 mil anos possa ver que um de 44 anos já não tenha visto. E eu nem sei o meu limite e nem quantas coisas verei nessa vida.