Sombra

Sombras só acompanham. Eu sou feito de carne e história. Eu tenho vida própria e, por maior que sejam meus medos, eu tenho sonhos. Não me cabe ser sombra.

____________________________________________________________

Um fantoche pisado
Andando pra todo lado
Repete os gestos
Mas a voz é muda
Não há chiado

Andar contra maré é errado
Já não sabe quantas regras
Tem quebrado…
“Ah, não se faça de coitado”
Disseram
“Você lembra do que fez verão passado…
Ou foi no inverno?”

Fantoche pisado
Brincando de amar
Sem ser amado
Movendo seus braços
Achando que escolhe o passo
Não passa de um otário

O tempo voa
E o fantoche cresce
Fica maior do que se pensava
E se assusta, esmorece

Ele não é o único assustado
Os outros vêem o tamanho
São pegos desarmados
Não esperavam um tão grande
Otário

O fantoche não é deixado
Continua com seu trabalho árduo
Tudo para seu amado
Tudo pelos seus amados

A noite chega
A escuridão limita seus passos
Eles deixam de pisar
Mas eles também não são encontrados

O fantoche procura cada brecha
Cada poste, vela, lanterna erguida
Ele precisa de regras, de sentido
Sem uma luz, sem tremular
Uma sombra não pode ser vista

Ele vira copo
Vira planta,
Vira presença querida
Vira comida, tv
Vira até uma moça bonita
E Quando as luzes se apagam
A sombra vira escuridão infinita

O prazer é a maldição
Sombra pode ser tudo
Dentro na escuridão
Acontece que o tudo é absurdo
E a sombra nunca teve muita sorte
De escolher o que fazer
De se dar um norte
Ela se espalha sobre a casa
Refletindo somente suas falhas
Esperando ser de novo
O Fantoche

A luz chega forte
Quando acorda, oh sombra
Você precisa que alguém te escolte
Calada na cama, imóvel
Até que alguém acorde

A rotina se repete
O fantoche se diverte
Ele ama apresentar imitações
De gato a inteligente,
Várias opções
Esperando o mestre
O mestre negligente
Ser clemente
Para dar ordens padrões

Um dia a vida esquece
A sombra existe
Mas não mais se repete
Como um borrão cinzento no chão
Seu mestre já decide
“Vá, sombra. Sua serventia passou
Do limite”

Sombra corre pelo chão
Vira poste, vira roupa
Mas ninguém a dá atenção

A sombra anda o dia inteiro
Sem direção, o Fantoche é só meio
Desesperada ela ajoelha
Olha para o céu
E vê saltar poucas estrelas

Naturalmente ela cresce
E, agora, vê o mundo da rua
Passou tanto tempo sendo sombra
De outros
Refletida por qualquer luz escura
Que esqueceu quem era

A sombra se levanta
E, com ela, a noite se espanta
Um apagão no meio da cidade
Para que a sombra refletisse sua imagem

O sol que antes era majestoso
Agora só restava a lembrança das cores
A Lua era gigante, brilhante
Vibrando mais do que os amores

Sombra nunca foi o nada
Nem mesmo um fantoche
Não era a vela, o copo
E nem o poste.

Sombra era a força da luz
Era a visão possibilitada
Sombra era tudo que reluz
Sombra não tinha corpo
Não tinha identidade
E muito menos desgosto

Sombra era maior que eles todos

Um mundo inteiro era menor que sombra
Que nesse momento refletia a vida
O sentimento de partida
A lei inevitável da morte
Aquilo que se move
E os imóveis

Sombra era eterna
Tal como a luz
Pois irmãs eram
Brilhando e escurecendo de onde vieram
Simplesmente flui

Entendia porque a viam como fantoche
Como copo, roupa ou mascote
Eles não sabiam o que é uma entidade
Que flui pelo universo
Que vive tantas eternidades
Que acaba parando sua vida

Vendo no lugar de bobo
A única saída

Deixe um comentário