Porta que range

Eu leio minhas cartas morto
Morto
Eu ando meu caminho torto
Torto
Às vezes me bato um louco
Louco

Mas eu continuo morto

E quando eu estou feliz dançando?
Continuo morto
E animado pulando na chuva?
Continuo morto
E comendo uma deliciosa uva?
Continuo morto

E inspirado escrevendo poesia?

Quem sou eu?
Passam anos, passam dias
Passa noite, passam pessoas pelas vias
Passam vidas
E eu ainda não respondo essa pergunta
Tão fugidia quanto as próprias estrelas
Talvez eu realmente nunca me reconheça

Como posso afirmar algo sobre mim?
Tão inconsistente quanto água
Tão bonito quanto uma jasmim
Se toco na fagulha, apaga
Quando começo a história,
Já tá no fim

Não, como eu posso afirmar algo?
Se essa afirmação me impede de ser outro
Só sobra o morto
Só sobra o morto

Escorado em meu próprio corpo
Desprovido de vida
Eu acordo só pelo que me instiga
O desafio é a própria biologia

Não durmo, disassocio
Não sonho, me desafio
A cada futuro perdido, uma moeda
A cada esperança criada, uma queda

Chega um momento
Que o corpo se fragmenta
Joelhos, coração, barriga
Aquilo que me sustenta perde esforço
O alimento perde o gosto
E o sentimento é só desgosto…

A liberdade pode ser meu alimento
Ela pode me dar sustento
Mas ela é só uma palavra
Que voa com o vento…

Não tenho força para assoprar palavras
Mal tenho forças para escreve-las
Uma a uma, como uma peça de roupa
Vestindo o corpo nu do morto

É como uma porta que range muito
Um incômodo absurdo
Mas não se troca a porta conveniência
É só mais uma de muitas negligências
Que um dia proporciona a alguém

Preciso entender o que aconteceu
Entre eu e meu corpo
Preciso ficar só de novo

Deixe um comentário