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Ossent abriu seus grandes olhos violetas e o que viu a deixou pasma: ela via a noite ao seu redor, cobrindo-a completamente, como se estivesse em um quarto decorado com a própria escuridão. Na sua surpresa ela exasperou, mas era inaudível – qualquer palavra que falasse ou até mesmo seus movimentos eram inaudíveis. Olhou para baixo, mas apenas via escuridão. As únicas luzes que via eram dos pontos luminosos que brilhavam como os olhos de uma criança, e mais nada. Ela começou a andar e em seguida começou a correr, na tentativa de achar um limite, em que pudesse achar uma parede ou algo que entendesse para poder se ancorar, mas quanto mais corria, maior ficava o lugar, com aqueles pontos luminosos continuavam no mesmo lugar.
Ossent não era uma pessoa muito paciente ou respeitável, pois virtude foi uma palavra que ela fugiu por muito tempo, em um tempo que sequer se lembrava. Ela sabia que podia confiar no que podia ler e entender sobre o passado e apenas isso – e por isso que lutava com os Sem Pátria. No entanto, até mesmo uma pessoa que jurou para si nunca se submeter a nenhuma força tem limites e, ao perceber que não conseguia se lembrar de como havia chegado lá e de que não sabia o que era tudo aquilo, Ossent apenas ajoelhou e chorou. Ela não sabia ao certo o porquê estava chorando, mas ela não tinha mais nenhuma outra coisa para fazer ali, isolada de tudo e todos que conhecia, assim como um pedaço de pedra flutuando pela vasta noite.
Assim que se acalmou, Ossent deitou na escuridão, abriu seus braços e gritou o mais forte que podia. Gritou porque se sentia frustrada. Gritou porque, se aquilo era seu fim, ela ainda não aceitava. Gritou porque parecia certo. E gritou até não aguentar mais, e então dormiu.
Como seria mais fácil se ela não tivesse olhado dentro da caixa.
Acordou algumas vezes e dormiu novamente. Às vezes ela levantava, andava um pouco, mas não conseguia mais discernir diferenças entre o vazio do lugar em que estava e vazias impressões que tinha dele. Um dia ela acordou diferente, com mais ímpeto. Ao cuidadosamente analisar o seu arredor, Ossent viu que os pontos brilhantes haviam mudado de lugar bem drasticamente, e percebeu que agora eles pareciam mais aos pontos de que via ao céu de Ausmus. Em sua frente, ao longe, ela via algo diferente, e apesar de não conseguir reconhecer bem de primeira, avançou rapidamente para aquela direção porque sabia de alguma forma que aquilo estava tão estático quanto ela aquele infinito obscuro.
Era uma escrivaninha, uma caneta tinteiro, muita tinta e muito papel. E ela não conhecia nenhuma dessas coisas. Sentou-se à escrivaninha na cadeira acolchoada e viu tudo aquilo disposto à mesa e, subitamente, sabia o que fazer. Simplesmente sabia. Pegou o papel e começou a escrever e, enquanto escrevia, as informações entravam em sua cabeça, como quando nos esforçamos demais para lembrar de algo e nossa cabeça dói. Ela continuou a escrever e, a cada frase escrita, sua cabeça doía mais. Houve um momento, depois do que deviam ser duas horas para ela, mas na verdade eram meia hora, em que ela tentou parar de escrever e percebeu que não conseguia. Sua mão não mexia sem ela saber, não havia nenhuma outra entidade ali fazendo as anotações para ela, mas uma parte dela simplesmente se recusava a parar porque entendia que ela tinha que entender tudo aquilo. Ou melhor, uma parte dela queria passar por aquilo, quase como se tivesse sido uma escolha que já não se lembrava mais.
E escreveu. Ossent escreveu até seus dedos estarem tortos e em carne viva, até sua cabeça simplesmente não aguentar mais. E, quando parou, algo em seus olhos brilhou. Não com luz, mas com a própria energia pulsando dentro dela. Ao sentir esse impulso vindo de dentro dela, Ossent tentou reagir e segurou a cabeça mais forte que podia. A dor era imensa e intensa demais, ao ponto em que Ossent simplesmente perdeu a consciência em pé de frente à mesa.
Acordou. Novamente ali. Novamente tudo escuro, com exceção dos pontos brilhantes, mas ela sentia que algo não estava ali. Uma leve dor de cabeça a acompanhava enquanto cambaleava em meio à noite eterna. Em sua frente, sua visão meio turva viu algo distante e andou o mais rápido possível para chegar ali.
Quando chegou, não entendia o que estava vendo. Pela escuridão do chão, algo escuro e viscoso estava impregnado. Ela conseguia enxergar a sombra de algumas coisas, mas não tinha luz suficiente para saber o que era. Em sua frente, a escrivaninha, a caneta e os infinitos papéis. Sentou-se à escrivaninha na cadeira acolchoada e viu tudo aquilo disposto à mesa e, subitamente, sabia o que fazer. Simplesmente sabia. Ao escrever a primeira linha, lembrou o que havia acontecido, mas novamente uma sensação de certeza tomou conta de seu corpo e continuou a escrever. Era tanta informação correndo para sua cabeça que não conseguia controlar entender seus traços – ela sabia o que era e o que não era, mas não entendia o que significava tudo aquilo, como uma pequena criança aprendendo o alfabeto pela primeira vez.
Desta vez ela continuou escrevendo. Mesmo sentindo o sangue descendo por seus dedos, mesmo que a fatiga tomasse conta de seus braços, mesmo que sua cabeça quisesse derreter, nada mais importava além daquilo e era uma única chance.
E então tudo se apagou.
Isso se repetiu mais quatro vezes até Ossent entender que a cada vez que fazia aquilo, sua cabeça explodia. Ela fugiu da mesa, correndo mais longe possível, mas tudo e nada não significavam naquele lugar. Apenas ela e a mesa existiam. Irônico, pois o desejo de toda a vida de Ossent era ser imortal para conseguir viver o mundo, ver o tempo passar, conhecer tudo que podia. E agora ela tinha todo o conhecimento nas mãos, mas tinha medo da consequência.
Passou mais um tempo apenas dormindo e acordando, tentando recordar o que escrevera- se tinha realmente tocado naquela caneta – , talvez até mesmo semana, mas não conseguia achar outra resposta. Sua mente ainda estava destruída pensando naquela revelação, mas o desespero falou mais alto. Então voltou à mesa e vasculhou tudo sob a sombra, mas não conseguia ver nada direito, nem mesmo as palavras que tinha escrito naquelas diversas folhas em sua frente, agora meio sujas também de pedaços de carne que ela julgava que fosse sua cabeça.
Pegou as folhas limpas, a caneta e tentou traçar uma linha. Automaticamente seu corpo sentou-se à escrivaninha na cadeira acolchoada e viu tudo aquilo disposto à mesa, até mesmo os detritos de sua antiga cabeça, e mesmo assim começou a escrever. Dessa vez, ela lembrou que havia feito um plano com as informações que tinha traçado: as informações a revelaram que existem padrões que o tudo respeita e que Ossent poderia utilizar ao seu favor, e já sabia alguns padrões, mas não por completo – e também não sabia como realizá-los ou qual era o específico que a tiraria dali, mesmo que a sedução daquela caneta fosse muito maior do que sua efetiva vontade de sair dali. Conseguiu traçar uma linha de raciocínio, mas era já tarde demais. A dor em sua cabeça estava insuportável. E tudo se apagou.
Dessa vez a mesa estava muito distante e, ao chegar à mesa, quase vomitou com a cena que viu, mas não tinha nada em seu corpo então só saiu suco gástrico, saliva e dor. Tudo completamente sujo de sangue e restos humanos jogados para todo lado. A mesa parecia algum altar anti-humanos. Ela limpou um pouco da sujeira na cadeira e sentou-se à escrivaninha na cadeira acolchoada e, ao começar novamente sua viagem, dessa vez não hesitou. Continuou assim por incontáveis dias. Algumas vezes demoravam mais ou menos para voltar, mas sempre voltava a escrever.
Até que um dia conseguiu tirar uma conclusão sólida sobre o que tinha acontecido com ela. Segurou a caneta mais forte e, logo antes de seu cérebro desligar por conta da dor excruciante, ela usou seu outro braço para afundar a caneta na madeira da mesa, o que fez a caneta quebrar e jorrar tinta por cima dela, enquanto ela olhava para um ponto luminoso específico que sabia que ficava em Ausmus e recitou a canção.
“Estradas desertas não oferecem caminhos ou escolhas
Crianças choram com o aprender
Galáxias são estrelas dos olhos
E o silêncio é o meu saber
E a escuridão é o grito dos olhos.
Mesmo que tente muito não chegará a você”.
E, como se fosse um piscar de olhos, ela estava ali na rua de novo. Seus olhos marejados, sua boca seca, sua cabeça prestes a explodir de tanta dor. Falou algumas palavras que nem lembrava direito para Yragos, que seguiu em frente, enquanto ela esmorecia na rua até desmaiar.
A verdade é que Ossent não lembrava o que acontecera antes de estar naquele silêncio absoluto, e na verdade nunca saberá, mas ela quis algo e assim foi feito. O que há dentro da caixa é um portal, mas ainda é muito cedo para dizer alguma coisa. De qualquer forma, Ossent tinha certeza de uma coisa: toda a vida e até mesmo o mundo e os deuses são uma piada para o que a CAAA está mexendo e, se continuar assim, nada mais vai importar.

Essa é minha mão. Imaginando se eu tivesse no lugar de Ossent.