Sua família, no entanto, amava-os. Era gato para todo lado: João, José, Maria, Nina, Bolinha, Manchado, Gatito e tudo quanto é nome dos mais variados, mas Wallace nem se esforçava em tentar saber os nomes. Quando criança era ver uma bola de pêlos perto do seu quarto que começava o escândalo seguido dos mais criativos apelidos apelidos já criados pela humanidade residente em sua cidade: “Satanás na Terra”, “Destrói Desgraças”, “Filhote do Satã”, “Inferno de Animal Lazarento” – é legal que em todos os apelidos, os animais possuem nome (Satanás, por exemplo) e sobrenome (na Terra). Certo, não eram apelidos muito criativos, mas ele já carregava consigo a herança mais preciosa de sua família: o vocabulário cristão, o que significa que era só sua mãe ouvir uma parte de um nome que lhe rendia um puxão de orelha na certa.
Como quase todo dia havia um incidente com gatos, Wallace começou a imaginar, com razão, que os próprios gatos provocassem essa reação dele. Ele cresceu com essa teoria em mente, e cada vez mais o número de gatos aumentava em casa, enquanto ele disputava o ódio pelos “arrombadinhos” e pelo amor de sua família. Era uma situação que qualquer pessoa poderia considerar constrangedora, mas para Wallace era questão de honra e dignidade: não se podia tocar no assunto “Daquele animal” perto dele que era questão de momentos para ele se transformar e começar a falar sobre sua teoria, analisada, comentada e amplamente divulgada por ele mesmo sobre como os gatos o odiavam. E podia ser incômodo para desconhecidos, mas era uma grande fonte de diversão para amigos próximos e principalmente para seus irmãos Tereza e Pedro.
E realmente existem muitos momentos em Wallace se frustrou ou se irritou com esse problema particular com os bichanos. Seus pais o colocaram num psicólogo, visitaram terapeutas esotéricos ou xamânicos e até tentaram amolecer o duro coração de aço de Wallace batizando um filhotinho como “Walla” como homenagem. Wallace, irredutível, apenas disse “Espero que seja fêmea e vocês mudem o nome”. Realmente era fêmea, mas eles doaram o bichinho todo peludinho e pequeninho para uma prima distante que continuou chamando de “Walla” ou apenas o austero e também carinhoso “Gato” mesmo. Enfim, muitos são os momentos de Wallace com gatos, mas existe um em específico que até hoje arranca boas risadas de seus parentes.
Num dia que poderia ser o de hoje como poderia ser o de ontem, Wallace estava em seu trabalho resolvendo como organizar suas planilhas no computador. É estranho, mas nada acalmava mais Wallace do que estar em seu lugar cuidando de suas coisas. De repente, seu telefone começa a tocar: é Tereza. Ele para um pouco e rapidamente se dirige à copa para poder atender a ligação.
– Oi, titio. Você vai me ouvir e não vai dar um pio – disse Tereza. O mundo no telefone estava caótico e Wallace só conseguia ouvir algumas vozes e sons estranhos de abre e fecha de portas – Você vai na minha casa hoje, depois de seu trabalho.
– Sua casa? Por quê? Eugênia… – ele parou porque Tereza começou a gritar “”Me ajuda, Marcelo!” – Você está bem?
– Eu estou parindo, gênio! E você vai para minha casa cuidar dos meus gatos por hoje e por amanhã até Pedro poder. Ele vai dar pernoite e não poderá aparecer hoje e você é o único que eu confio para cuidar dos meus nenéns – ela falou tudo isso enquanto berrava com o Marcelo.
– Você sabe que eu…
– Eu não quero saber, Wallace. Escuta aqui e me largue, Marcelo que eu vou falar com Wallace. Não é você está sentindo uma cabeça vindo por sua buceta, Wallace. Você vai fazer o que eu disse e acabou. Vou desligar agora porque tenho que falar com a médica. Deixei a chave com o síndico.
– Mas…
E a ligação desligou.
Bom, não vou negar que a princípio ele tentou fingir que a conversa não acontecera para que não precisasse ir para a casa de Tereza, mas mais forte que um trauma de toda uma vida é uma pessoa grávida a qual você é bem conectado pedindo algo com urgência enquanto sentia contrações fortes. Ela não deu volta atrás e, portanto, Wallace se sentiu numa sinuca de bico. Ele tentou chamar algum amigo próximo para ficar no lugar dele, mas todos eles, mesmo os mais vagabundos, inventaram desculpas. Claro que queriam ver como aquilo iria acontecer. Malditos.
Dali o dia só desandou. Seu trabalho acabava só no fim do dia, mas ele não conseguiu raciocinar direito até que ele acabasse. Saiu do trabalho e quase esqueceu de pegar suas coisas no armário dos funcionários. Quando chegou no ponto, ainda sim ficou se questionando sobre porque Tereza tinha pedido logo ele de todas as pessoas da face da terra. Desde que saiu de casa ele não tinha mais contato algum com bichanos. Nem mesmo os vizinhos possuíam gatos, pois morava em um prédio que era proibido animais. Revisitar isso não estava nem perto dos planos de Wallace, mas não se pode escolher as dádivas que a vida guarda pra você e, nesse caso, a dádiva é uma casa cheirando a xixi de gato e pêlo de gato em todo o lugar inclusive no ar, principalmente no sofá e na poltrona, ambas viradas para a Televisão, ambos com mais da metade dos estofados rasgados e a outra metade já arranhados. As paredes, algumas manchadas. No chão já tinha dois copos plásticos já derrubados com algo já seco que parecia suco no chão. Isso foi só a sala, que é o primeiro cômodo, e Wallace agradeceu por ainda não ter visto nenhum tapete dentro de casa cheio de pêlo e com cheiro de xixi. Ao se virar no pequeno corredor, entre a sala e a porta de entrada, ele viu a cozinha e tomou um susto!
Dois seres absurdos e simplesmente incompreensíveis por serem tão assustadores e horripilantes, reconhecidos apenas pelo brilho dos olhos e corpos excessivamente peludos com caudas, estavam em cima da lata de lixo derrubada se banqueteando em cima da pia com o que parecia ser restos de frango assado. Aquela cena primeiro chocou Wallace e também as criaturas. Wallace ficou estático parado, enquanto as criaturas saíram se movimentando através de seus pés peludos e cheio de navalhas. Quando esses seres voltaram para a escuridão, lugar que já está diretamente associado a eles.
Ao passar pela casa, Wallace viu mais duas criaturas daquela no quarto e mais uma deitada numa almofada no chão, já desfiando. Totalizou quatro e meio – o que estava na almofada era ainda uma criaturinha mirim, mas Wallace já conseguia ver os dentes protuberantes de um assassino natural crescendo.
Mas ele não tinha tempo para perder, então começou a fazer uma faxina aquela casa. Era Wallace, um esfregão, uma vassoura, desinfetante, um balde de água e um pano contra quatro monstros e meio fazendo o possível para impedir que ele destruísse seu império maligno de vilania, pêlos e terror, ou fedor, como preferir.
A primeira batalha foi fácil, a batalha da Cozinha, ou como foi dito, a Guerra Entregue. As aberrações horrendas apenas observaram de longe planejando estrategicamente a perda de território enquanto Wallace fazia sua parte conquistando cada centímetro que podia. Aconteceram algumas expedições inimigas, mas o esfregão foi o suficiente para parar o avanço inimigo. Quando acabou a cozinha eram nove horas e Wallace se perguntou como o tempo poderia passar tão devagar. Ele ligou para Tereza, mas não obteve resposta. Ligou, então, para Marcelo.
– E aí? Já sou tio?
– Err… Um minuto… Não. Estamos buscando uma sala. Calma, amor! Preciso desligar.
E ele desligou. Isso preocupou um pouco Wallace, primeiro porque ela está sem ser atendida no hospital! Que horrível! A outra é que aquilo significava que ele ainda ia passar muito tempo ali. E agora vamos reavaliar a estratégia.
Existiam duas opções agora para iniciar uma guerra: a sala ou os quartos. Primeiramente Wallace inspecionou a sala e a situação estava tão ruim quanto se ele podia imaginar, mas infelizmente aquilo não era sua imaginação. Para poupar mais do seu cérebro, já derretido somente por conta de lidar com aqueles demônios que inclusive estavam estranhamente quietos. Ele se dirigiu para o quarto de hóspedes com seu kit de guerra.
Entrou no quarto e antes ele estava tão assustado com os gatos que não tinha percebido: aquele era o quarto de Eugênia. Ali havia uma cômoda verde, com alguns produtos como perfume de bebê, lenços umedecidos e óleo para a pele do bebê. Parece que esse era o quarto que menos tinha pêlo de gato. Alguns quadros prendiam na parede com imagens de foguetes e dinossauros esculpidas em madeira. No outro canto do quarto, um berço com forro de cama verde e um véu cobrindo-o. Intocado. Ao lado do berço, algumas fotos de Tereza e Marcelo pequenos e Wallace logo reconheceu as fotos de sua irmã. Ela em seus seis anos com os dentes da frente nascendo ainda enquanto sorria sem parar para a câmera, Wallace lembrou que um desses dentes ele a ajudou amarrando com fio dental e puxando. Ela em seus onze anos tímida batendo parabéns com os amigos, e Wallace conseguiu ouvir ainda hoje os gritos e bater de palmas. Tereza com quinze anos sorrindo e escondendo o rosto estouradíssimo de espinhas, e Wallace no fundo da foto com a cara amarrada. Ele voltou para a foto do aniversário e não conseguiu se achar e lembrou que nesse momento ele estava no seu quarto trancado por conta dos gatos. Na foto Quindim, um gato de sua mãe já falecido, faz presença atrás de uma das garotas da foto.
Tinham outras fotos, mas aquela deixou Wallace pensando. Quantos momentos da vida dele, dos irmãos e da família ele deixou de viver por conta de seu medo? Hoje em dia ele vive bem e sustenta sua vida tranquilamente sem ter que lidar com gatos, mas agora olhando para aquela foto, ele não tem certeza se suas reações fazem sentido. Se toda aquela lógica algum momento sequer fez sentido. Ele trancou a porta e deitou no chão ao lado do berço e notou que ali tinha um tapete – sorte que os gatos ainda não descobriram porque estava com doce cheiro de amaciante. E ali Wallace ficou por um tempo enquanto pensou no tempo perdido. Lembrou de cada um desses momentos com gatos dentro de sua família. Lembrou de quando sua vó lhe mostrou o gato dela, Pepinho – e ele empurrou a mão de sua vó e saiu correndo. Agora falecida, ele gostaria de conversar com ela sobre Pepinho ou sobre qualquer coisa. Ver Quindim na foto também não foi fácil, pois a lembrança de sua mãe veio extremamente forte e a última vez que a vira Wallace disse coisas muito duras para ela e sumiu. Apenas manteve contato com os irmãos que, pessoalmente, sabia que a mantinha informada sobre ele, mas nunca conversaram sobre isso. Toda essa história triste por culpa desses Filhotes de Satã.
Desde quando isso acontece mesmo? Wallace não lembrava direito, mas não tinha nenhum problema de saúde envolvido. Engraçado pensar nisso agora, depois de tanto tempo correndo do medo, agora nem sabe direito o motivo do medo, somente que ele acontece e como deve prosseguir. Como uma sequência de códigos, ou uma lista de afazeres em suas planilhas. Dia após dia somente dizendo motivos e argumentando respostas que sequer tem sentido. O medo não é mais o causador de suas frustrações, mas suas atitudes que fizeram com que o medo continuasse a viver em sua memória. Desde pequeno, todos em sua volta dispostos a ajudar, e Wallace preferiu se esconder em seu quarto para que não pudesse enfrentar seu problema de frente. Não queria fazer o grande esforço de encarar sua família, de voltar atrás em sua palavra, de conciliar seus amigos, de reconhecer que gatos não são necessariamente maus. Nunca precisou diretamente de um motivo porque as aparições de gatos era muito recorrente em sua vida desde pequeno, mesmo se o gato só quisesse carinho ou paciência, a verdade é que Wallace não queria aquilo.
É comum não gostar de gatos, não? Porque isso não foi respeitado por sua família? Por que Wallace sempre precisou gostar de gatos para poder participar das festas, conversar com familiares, estar em conjunto? Por alguns minutos, Wallace grunhiu, enquanto criava uma lista em sua cabeça de culpados: os próprios gatos, sua mãe que o batia, seus irmãos que riam da cara dele, seus amigos que raramente o apoiavam sobre ir contra os gatos. Wallace queria queimar tudo naquele momento, queria pedir demissão, queria pedir desculpas à sua mãe, mas não conseguia falar mais. Tudo parecia tão alto em sua cabeça que ele não conseguia mais pensar direito. As lágrimas vinham em seus olhos, mas elas não caíam. Virou-se de lado e esperou o tempo passar enquanto sentia o fofo do tapete em seu rosto e o frio do chão de piso em seus pés.
Demorou um pouco, mas logo ele sentiu algo no seu rosto e uma vontade involuntária de espirar. O pequenino monstro que estava deitado na almofada desse quarto e Wallace nem se deu conta estava agora em cima dele. Seus grandes olhos o encaravam ameaçadoramente enquanto ele se preparava para dar uma investida fatal com as garras em seu nariz. Wallace se afastou o que pôde, fazendo a criaturinha tropeçar. Mas ela não desistiu e vinha com mais uma. Wallace levantou, pegou a pequena besta por trás e a colocou na almofada de novo e ela aninhou e voltou a dormir. Vendo aquela cena, ele lembrou do porquê que estava ali na casa de sua irmã: Eugênia.
Eugênia tinha uma vida pela frente e a seguir. Ela tinha suas próprias escolhas, um ponto de partida, um marco zero, mesmo sem saber disso. Ela podia viver sem pensar sobre quais são seus medos do passado, porque ela não tem nenhum. Ao pensar nisso, Wallace não sentiu inveja ou tristeza, ele sentiu esperança. Esperança porque ele sentia a mudança vir com ela e sentia que poderia crescer de novo. Ele não esperava que seus erros do passado fossem perdoados, nem queria perdoar as pessoas pelo que fizeram. Ele queria começar de novo, um passo de cada vez, assim como Eugênia. Ele podia aprender a não odiar gatos, para variar.
Um novo início, não é?
