Eu escrevi isso aqui em 2018 e achei aqui. Vou postar uma sequência. Espero que gostem.
Apresento-lhes aqueles que nunca nos deixam. Mas, para além de sua companhia, aqueles que nos guiam… Ou que somos fadados a seguir. Acorrentam-nos e nos subjuga, como as leis de uma sociedade moderna, mas, diferente das leis, ele é inevitáveis e imparáveis e o melhor: sua existência transcende o querer ou a compreensão humana. Pode escolher a forma de interpretá-los, pode tentar para-los ou até vencê-los em seu jogo, mas todos nós sempre dobramos nosso joelho a ele. Sim, o tempo é muitas coisas, mas não é paciente. Ou calmo. Ou civilizado. Mas essas são as partes boas do tempo, a pergunta seria se nós interpretamos a sua arte de forma concisa. É incrível como apenas fumaça e metal pode transformar mentes e desenvolver pessoas, dando sonhos, expectativas, surpresas, futuro. Não que isso não existisse antes, mas – nossa – até mesmo a fumaça está se desmanchando no ar (da relativização).
Como animais, somos curiosos. Como humanos, somos destrutivos e ameaçadores. Então para nos limitar e entender essa decadência que produzimos e que reflete diretamente em nós, desde nossa idade e experiências quanto o tempo de nossas perdas e objetivos, criamos a História e a definição de tempo.
Limito aqui nesse conjunto de pequenas crônicas definir o que significa passado, presente e futuro para as pessoas de minha geração pois, alem de ser um tema muito importante para ser pesquisado e pensado, é o que passa por nossas cabeças todo o tempo. É o cerne de nossos dias e o principal assunto de qualquer conversa. Todos viemos de algum lugar, sonhamos com algo e por isso fazemos algo, o que interessa e nos diferencia seria a individualidade de cada um desses personagens apresentados.
Primeiramente, o principal pensado para nos proteger do que lhe é prometido: o presente, coitado, usado e abusado. O presente é uma criança muito ativa e criativa, muitas vezes inconsequente, que se desenvolve com facilidade e não percebe seu crescimento. É uma criança para sempre. Como criança, ainda imaturo e infantil, mas isso não significa ser menos inteligente e esperto do que os outros, afinal é dele que se trata os acordos e estabilidade da vida comum. Agora, por exemplo, ele está brincando de crise de Ansiedade e encontra prazer em ver a vida se tornando pequena aos olhos dos outros. Às vezes ele tem que ser abusado e perturbado mesmo para entender o seu lugar. Às vezes nós precisamos brincar com ele para que ele se aquiete.
O Futuro é uma mulher, luxuosa e importante, que não tem tempo para besteiras. Sua presença, ao mesmo tempo que é temida, é a mais desejada. Não tem tempo a perder com as bobagens do presente, que serve mais para confundi-la que realmente servir como companhia. Ela é fria e metódica, calculando e analisando até nas horas mais inapropriadas, quando estamos sozinhos e vulneráveis. Uma meritocrata, acredita que os bons valores e habitos fazem a diferença: acredita que temos poder para mudar o mundo e descobrir o melhor em nós pois, apesar de dura e ríspida, ela ainda é uma pessoa boa. Apesar de nos constrager, nos limitar a análises, nos submeter a questões que questionam nossa existência e o valor de nossa vida, apenas ela poderá dar o fruto da Vitória. Contraditória, não? Pensar que ela tem controle de toda sua vida e, apesar de quase nunca ser suficiente, ela vai decidir o que você pode se tornar.
Ai, ninguém merece… Lá vem o passado. Arrastando-se, visivelmente cansado e irritado (não saberíamos qual veio primeiro), o Passado chega já reclamando por paciência e consideração. Corcunda, o Passado parece que nunca teve um momento da sua vida em que realmente foi feliz ou realmente se sentiu cheio de espírito e energia. Andando com uma muleta, ele não encarava a idade ou o tempo como um empecilho em seu movimento, mas um auxiliador. Não era ou parecia tão velho para mim, mas quando ele falava parecia que ressoava no ar mais vozes dentro de sua garganta, todas roucas e desgastadas, dando a ele um aspecto maior de idoso. Mas definitivamente não poderíamos chamá-lo disso, apesar de toda sua falta de empatia e de auto-controle em questionar sobre as coisas que o incomodam, o Passado nunca parecia distante de nós mesmos. Parecia que, quanto mais nós vamos ficando velhos, mais o Passado envelhece conosco, ao ponto de que cada um veria o Passado em diferentes pontos de idade. O próprio passado possui todos os segredos dentro de si, como respostas para sua solidão ou auto-conhecimento que pessoas buscam tanto para se tornarem melhores pessoas. O engraçado e triste sobre o Passado é que não importa o quanto ele se esforce para fazer com que o mundo o respeite e entenda como ele se posiciona, muitos morrem antes de sequer pensar em compreender suas lições. Não digo que ele não é valorizado, mas que seus gritos não são compreendidos, transformados em memórias que nunca deixam nossos pensamentos, como um castigo por não tê-lo ouvido ou respeitado ou compreendido sua lição. Muito mais fácil de tornar o Passado um vilão do que um grande velho amigo cheio de conhecimento pronto para divulgar.
Os três estão sempre juntos e separados, fazendo parte da vida de todos dentro de nossas cabeças, no nosso cotidiano, dentro de empresas, se desenvolvendo conosco e escolhendo favoritos para julgar, brincar, possuir, dominar. Cada um com seu método, eles já se transformaram muito dentro da história de muitos povos e tiveram diversos nomes e brincaram com diversas vidas através de diversos outros métodos.
Acredito que a beleza da vida está em como nós nos desenvolvemos e aprendemos com esses personagens.
A seguir eu trarei Crônicas para desenvolver melhor estas certas “metodologias”. Cada um com seu estímulo e sua vontade, seu vício e seus problemas. Os personagens se misturam dentro dessas narrativas de rotinas comuns que provavelmente todos já passamos por algo parecido ou vamos passar, afinal não temos muita escolha para controle do tempo.
Escrever para mim sempre foi uma atividade libertadora. Quando era menor eu não conseguia demonstrar meus sentimentos de insatisfação, de amor, de insegurança e afins. Eu descobri que eu conseguia escrever numa oficina que minha professora de Português fez durante a sexta série. Eu fiz a minha primeira poesia (que perdi durante o tempo) e fiz a de meu amigo Bruce em menos de 10 minutos. As duas ficaram muito boas para um garoto de 12 anos e digo sem medo de ser egocêntrico ou narcisista – eu senti muito orgulho de mim mesmo ali. A partir disso eu tenho escrito.
Claro que existem muitos textos que eu nunca publiquei e textos que eu nunca vou querer publicar, também houve textos que perdi com o tempo e outros que só existem na minha cabeça e um dia eu vou parir eles, ou não e tá tudo bem porque o objetivo de meus textos são de principalmente me acalmar e fazer com que o mundo fique quieto por ao menos alguns minutos.
Acho que meu intervalo maior da escrita foi durante o ensino médio em que eu só podia escrever dissertações em que eu nunca fui um aluno exemplar (mesmo tendo um modelo único). Na verdade, mesmo durante o ensino médio, eu sempre escrevi nas notas meus textos. Eu tinha um conjunto de crônicas sobre o tempo que eu queria muito publicar, algo sobre dar personalidade às versões de tempo que maior parte de nossa sociedade acredita (passado, presente e futuro) e crônicas sobre essas três que pudesse falar por si os desafios de se pensar tempo de forma singular ou obsessiva, mas eu os perdi quando perdi meu celular antigo (furtado). Tentei reescrever, mas nunca ficou da mesma forma.
Eu tinha muito medo e vergonha de apresentar meus textos às outras pessoas. Eu ainda tenho. É porque esses textos são recortes do meu ponto de vista da realidade em que me cerca e geralmente meus sentimentos transbordam nesses textos. É/era muito doloroso só sentir que alguém não se importa com eles ou que não gostou, mas atualmente eu aceito melhor as críticas porque eu quero melhorar e desenvolver essa parte minha. Por isso e por empurrão de uma amiga que eu criei esse blog. Para que meus pensamentos e minhas histórias fiquem armazenadas até eu morrer. E depois.
Sei lá, quem sabe alguém lê e se sente bem, ou pensa em algo que eu disse ou guarda pra si e lembra de mim mesmo. Eu escrevo para mim e pronto, mas a decisão de publicar é para mim e para meus leitores.
Eu penso em um dia escrever um livro. Isso seria meu sonho. Mas ainda acho que tem muito para eu melhorar e muitas palavras e manias de escrita que eu preciso deixar. Eu queria ter uma escrita mais limpa e mais instigante. Eu tô tentando aprender no limite do possível, porque é um hobby e eu tenho outras coisas para fazer. Acho que livro é meio ultrapassado também, já que hoje em dia no Brasil quase ninguém lê, mas eu adoro livros. É um meio físico de compartilhamento de informações e pensamentos! Que resistem anos! E podem ser reformulados, renovados, reescritos e inspirar gerações. Podem servir também só para colar sapato. Espero que as pessoas que eu considero ao menos guardem meus livros e não usem para cola de sapato ou carteira, mas se acontecer eu vou entender.
Primeiro eu quero dizer que não estou mais no lugar em que esse texto foi criado. Isso foi a quase dois anos atrás, antes da terapia. Eu vou publicar esse texto porque eu preciso salva-lo. Eu preciso ter esse registro de momentos ruins que eu já passei. Enfim, fico um pouco envergonhado por publicar algo tão pessoal, mas enfim. Está aí.
Eu quero voltar a escrever, mas eu estou pensando demais o tempo inteiro. Pensando demais até para conseguir colocar no papel tudo que eu estou sentido. Basicamente o que eu sinto é cansaço e tristeza ou angústia e agonia. Não estou me sentindo capaz de basicamente nada. Não me sinto forte ou suficiente para nada. Pensamentos ruins passam pela minha cabeça muitas vezes pelos dias e eu só penso calado em minha existência miserável como eu sou um merda. Como sou fútil e vazio e burro e inútil. Não consigo ser bom em nada que eu tente fazer. Não consigo me sentir bem com quase ninguém. Magoo as pessoas em minha volta sem querer.
Por que eu me sinto triste? Eu acredito que seja porque eu não consigo me satisfazer com minhas vitórias e qualquer coisa que lembre de meus fracassos me deixa muito mal. Eu entendo que preciso subir minha escada da forma como eu puder, mas eu me sinto muito desapontado comigo mesmo quando percebo que existem pessoas melhores que eu e que se gabam disso, não em uma comparação direta, mas com diversos comentários espaçados dados como “dicas” ou “incentivos”. Isso é só exaustivo. Provavelmente é inveja ou sei lá, mas ainda me machuca. Eu queria conseguir ser melhor do que eu sou.
Como é se sentir assim? Todos os dias eu acordo e na maioria deles eu tenho energia alguma. Tento evitar pelo máximo de tempo alguma socialização direta. Vejo as redes sociais para manter meu status de popularzinho e fujo de qualquer conversa. Passo meu dia inteiro sem comer direito porque não sinto fome. Sortudos são os dias em que eu não questiono completamente minha existência e penso em meios de me matar. E depois choro, sabendo que não tenho coragem pra fazer o certo ou que eu sou covarde tanto para enfrentar o mundo quanto para tirar minha vida e fico aqui só. Diariamente eu falo com meus amigos e tenho sorte quando eu não me sinto inferior a eles. Enfim. Um dia inteiro tirado para pensar a minha inferioridade pelo mundo. Vou falar com meus parentes e os comentários são “como tá a faculdade?” Ou “você está muito magro” ou “você não cuida de você mesmo” ou “você não faz nada” e eu me sinto ainda mais um fudido porque tudo isso tá certo. Eu, no fim das contas, me odeio. Eu me odeio por estar nesse buraco e não conseguir sair. Odeio estar cavando mais e mais pra fundo e só me sentir mal o dia inteiro pensando e fazendo coisas que me deixam frustrado. Imagina se sentir o dia quase inteiro em uma onda de frustração, às vezes menos, às vezes muito. E decepcionado e cansado disso tudo.
Por que você não faz algo para melhorar? Praticar alguma atividade física, falar com novas pessoas, tentar novos projetos? Eu sou de ciclos e faço o que eu achar certo. Agora eu achei certo escrever isso, mas agora parte de mim quer que eu pare de escrever imediatamente por medo do que vai sair. Eu tento fazer coisas para melhorar. Eu tento ir para academia ou fazer esportes ou qualquer coisa mas eu me sinto muito mal, como se eu tivesse atrapalhando ou incomodando as pessoas o tempo inteiro. Nesses ambientes amplos de treinamento eu me sinto como se fosse uma pedra no sapato das pessoas que se sentem incomodadas com minha presença. Geralmente eu começo quando eu tô na minha fase confiante e logo no meu primeiro surto eu paro e desisto de todos meus projetos. Tudo. Porque eu me sinto inútil demais para ajudar qualquer pessoa e não há nada que possam falar para me convencer do contrário. Morte é viável demais, velho. Puta que pariu.
Eu secretamente penso nisso desde pequeno. Eu tentaria ter uma vida já cedo para que não precisasse envelhecer muito. Conquistaria tudo e aos 20 me mataria. Mas eu não esperava que fosse tão rápido e difícil se manter vivo e conquistar meus objetivos. Eu me sinto preso, afundado, em meu erros passados e atuais que fazem eu ser o fracassado que sou hoje. Eu nem consigo mais ler porque não consigo parar sem ficar pensando mil e uma coisa. Eu sei que a morte é o caminho mais curto e fácil, mas é o mais lógico também. Não inclui muitas despesas, não inclui cobranças e depois da dor da morte nada mais vai me machucar. O que me para é pensar em minha mãe e como ela se sentiria quanto a isso. Mas quando minha mãe morrer eu não sei como eu vou me sentir.
Por que você se odeia? Porque as soluções são simples. É só ir lá e fazer. Mas eu não tenho energia para nada e nem vontade e nem objetivo real. Eu não consigo ter perspectiva de futuro. Eu juro que eu só quero ter paz.
É um sorvete de uma loja que eu amo no interior da Bahia. Queria compartilhar um bom momento de minha vida.
Sua família, no entanto, amava-os. Era gato para todo lado: João, José, Maria, Nina, Bolinha, Manchado, Gatito e tudo quanto é nome dos mais variados, mas Wallace nem se esforçava em tentar saber os nomes. Quando criança era ver uma bola de pêlos perto do seu quarto que começava o escândalo seguido dos mais criativos apelidos apelidos já criados pela humanidade residente em sua cidade: “Satanás na Terra”, “Destrói Desgraças”, “Filhote do Satã”, “Inferno de Animal Lazarento” – é legal que em todos os apelidos, os animais possuem nome (Satanás, por exemplo) e sobrenome (na Terra). Certo, não eram apelidos muito criativos, mas ele já carregava consigo a herança mais preciosa de sua família: o vocabulário cristão, o que significa que era só sua mãe ouvir uma parte de um nome que lhe rendia um puxão de orelha na certa.
Como quase todo dia havia um incidente com gatos, Wallace começou a imaginar, com razão, que os próprios gatos provocassem essa reação dele. Ele cresceu com essa teoria em mente, e cada vez mais o número de gatos aumentava em casa, enquanto ele disputava o ódio pelos “arrombadinhos” e pelo amor de sua família. Era uma situação que qualquer pessoa poderia considerar constrangedora, mas para Wallace era questão de honra e dignidade: não se podia tocar no assunto “Daquele animal” perto dele que era questão de momentos para ele se transformar e começar a falar sobre sua teoria, analisada, comentada e amplamente divulgada por ele mesmo sobre como os gatos o odiavam. E podia ser incômodo para desconhecidos, mas era uma grande fonte de diversão para amigos próximos e principalmente para seus irmãos Tereza e Pedro.
E realmente existem muitos momentos em Wallace se frustrou ou se irritou com esse problema particular com os bichanos. Seus pais o colocaram num psicólogo, visitaram terapeutas esotéricos ou xamânicos e até tentaram amolecer o duro coração de aço de Wallace batizando um filhotinho como “Walla” como homenagem. Wallace, irredutível, apenas disse “Espero que seja fêmea e vocês mudem o nome”. Realmente era fêmea, mas eles doaram o bichinho todo peludinho e pequeninho para uma prima distante que continuou chamando de “Walla” ou apenas o austero e também carinhoso “Gato” mesmo. Enfim, muitos são os momentos de Wallace com gatos, mas existe um em específico que até hoje arranca boas risadas de seus parentes.
Num dia que poderia ser o de hoje como poderia ser o de ontem, Wallace estava em seu trabalho resolvendo como organizar suas planilhas no computador. É estranho, mas nada acalmava mais Wallace do que estar em seu lugar cuidando de suas coisas. De repente, seu telefone começa a tocar: é Tereza. Ele para um pouco e rapidamente se dirige à copa para poder atender a ligação.
– Oi, titio. Você vai me ouvir e não vai dar um pio – disse Tereza. O mundo no telefone estava caótico e Wallace só conseguia ouvir algumas vozes e sons estranhos de abre e fecha de portas – Você vai na minha casa hoje, depois de seu trabalho.
– Sua casa? Por quê? Eugênia… – ele parou porque Tereza começou a gritar “”Me ajuda, Marcelo!” – Você está bem?
– Eu estou parindo, gênio! E você vai para minha casa cuidar dos meus gatos por hoje e por amanhã até Pedro poder. Ele vai dar pernoite e não poderá aparecer hoje e você é o único que eu confio para cuidar dos meus nenéns – ela falou tudo isso enquanto berrava com o Marcelo.
– Você sabe que eu…
– Eu não quero saber, Wallace. Escuta aqui e me largue, Marcelo que eu vou falar com Wallace. Não é você está sentindo uma cabeça vindo por sua buceta, Wallace. Você vai fazer o que eu disse e acabou. Vou desligar agora porque tenho que falar com a médica. Deixei a chave com o síndico.
– Mas…
E a ligação desligou.
Bom, não vou negar que a princípio ele tentou fingir que a conversa não acontecera para que não precisasse ir para a casa de Tereza, mas mais forte que um trauma de toda uma vida é uma pessoa grávida a qual você é bem conectado pedindo algo com urgência enquanto sentia contrações fortes. Ela não deu volta atrás e, portanto, Wallace se sentiu numa sinuca de bico. Ele tentou chamar algum amigo próximo para ficar no lugar dele, mas todos eles, mesmo os mais vagabundos, inventaram desculpas. Claro que queriam ver como aquilo iria acontecer. Malditos.
Dali o dia só desandou. Seu trabalho acabava só no fim do dia, mas ele não conseguiu raciocinar direito até que ele acabasse. Saiu do trabalho e quase esqueceu de pegar suas coisas no armário dos funcionários. Quando chegou no ponto, ainda sim ficou se questionando sobre porque Tereza tinha pedido logo ele de todas as pessoas da face da terra. Desde que saiu de casa ele não tinha mais contato algum com bichanos. Nem mesmo os vizinhos possuíam gatos, pois morava em um prédio que era proibido animais. Revisitar isso não estava nem perto dos planos de Wallace, mas não se pode escolher as dádivas que a vida guarda pra você e, nesse caso, a dádiva é uma casa cheirando a xixi de gato e pêlo de gato em todo o lugar inclusive no ar, principalmente no sofá e na poltrona, ambas viradas para a Televisão, ambos com mais da metade dos estofados rasgados e a outra metade já arranhados. As paredes, algumas manchadas. No chão já tinha dois copos plásticos já derrubados com algo já seco que parecia suco no chão. Isso foi só a sala, que é o primeiro cômodo, e Wallace agradeceu por ainda não ter visto nenhum tapete dentro de casa cheio de pêlo e com cheiro de xixi. Ao se virar no pequeno corredor, entre a sala e a porta de entrada, ele viu a cozinha e tomou um susto!
Dois seres absurdos e simplesmente incompreensíveis por serem tão assustadores e horripilantes, reconhecidos apenas pelo brilho dos olhos e corpos excessivamente peludos com caudas, estavam em cima da lata de lixo derrubada se banqueteando em cima da pia com o que parecia ser restos de frango assado. Aquela cena primeiro chocou Wallace e também as criaturas. Wallace ficou estático parado, enquanto as criaturas saíram se movimentando através de seus pés peludos e cheio de navalhas. Quando esses seres voltaram para a escuridão, lugar que já está diretamente associado a eles.
Ao passar pela casa, Wallace viu mais duas criaturas daquela no quarto e mais uma deitada numa almofada no chão, já desfiando. Totalizou quatro e meio – o que estava na almofada era ainda uma criaturinha mirim, mas Wallace já conseguia ver os dentes protuberantes de um assassino natural crescendo.
Mas ele não tinha tempo para perder, então começou a fazer uma faxina aquela casa. Era Wallace, um esfregão, uma vassoura, desinfetante, um balde de água e um pano contra quatro monstros e meio fazendo o possível para impedir que ele destruísse seu império maligno de vilania, pêlos e terror, ou fedor, como preferir.
A primeira batalha foi fácil, a batalha da Cozinha, ou como foi dito, a Guerra Entregue. As aberrações horrendas apenas observaram de longe planejando estrategicamente a perda de território enquanto Wallace fazia sua parte conquistando cada centímetro que podia. Aconteceram algumas expedições inimigas, mas o esfregão foi o suficiente para parar o avanço inimigo. Quando acabou a cozinha eram nove horas e Wallace se perguntou como o tempo poderia passar tão devagar. Ele ligou para Tereza, mas não obteve resposta. Ligou, então, para Marcelo.
– E aí? Já sou tio?
– Err… Um minuto… Não. Estamos buscando uma sala. Calma, amor! Preciso desligar.
E ele desligou. Isso preocupou um pouco Wallace, primeiro porque ela está sem ser atendida no hospital! Que horrível! A outra é que aquilo significava que ele ainda ia passar muito tempo ali. E agora vamos reavaliar a estratégia.
Existiam duas opções agora para iniciar uma guerra: a sala ou os quartos. Primeiramente Wallace inspecionou a sala e a situação estava tão ruim quanto se ele podia imaginar, mas infelizmente aquilo não era sua imaginação. Para poupar mais do seu cérebro, já derretido somente por conta de lidar com aqueles demônios que inclusive estavam estranhamente quietos. Ele se dirigiu para o quarto de hóspedes com seu kit de guerra.
Entrou no quarto e antes ele estava tão assustado com os gatos que não tinha percebido: aquele era o quarto de Eugênia. Ali havia uma cômoda verde, com alguns produtos como perfume de bebê, lenços umedecidos e óleo para a pele do bebê. Parece que esse era o quarto que menos tinha pêlo de gato. Alguns quadros prendiam na parede com imagens de foguetes e dinossauros esculpidas em madeira. No outro canto do quarto, um berço com forro de cama verde e um véu cobrindo-o. Intocado. Ao lado do berço, algumas fotos de Tereza e Marcelo pequenos e Wallace logo reconheceu as fotos de sua irmã. Ela em seus seis anos com os dentes da frente nascendo ainda enquanto sorria sem parar para a câmera, Wallace lembrou que um desses dentes ele a ajudou amarrando com fio dental e puxando. Ela em seus onze anos tímida batendo parabéns com os amigos, e Wallace conseguiu ouvir ainda hoje os gritos e bater de palmas. Tereza com quinze anos sorrindo e escondendo o rosto estouradíssimo de espinhas, e Wallace no fundo da foto com a cara amarrada. Ele voltou para a foto do aniversário e não conseguiu se achar e lembrou que nesse momento ele estava no seu quarto trancado por conta dos gatos. Na foto Quindim, um gato de sua mãe já falecido, faz presença atrás de uma das garotas da foto.
Tinham outras fotos, mas aquela deixou Wallace pensando. Quantos momentos da vida dele, dos irmãos e da família ele deixou de viver por conta de seu medo? Hoje em dia ele vive bem e sustenta sua vida tranquilamente sem ter que lidar com gatos, mas agora olhando para aquela foto, ele não tem certeza se suas reações fazem sentido. Se toda aquela lógica algum momento sequer fez sentido. Ele trancou a porta e deitou no chão ao lado do berço e notou que ali tinha um tapete – sorte que os gatos ainda não descobriram porque estava com doce cheiro de amaciante. E ali Wallace ficou por um tempo enquanto pensou no tempo perdido. Lembrou de cada um desses momentos com gatos dentro de sua família. Lembrou de quando sua vó lhe mostrou o gato dela, Pepinho – e ele empurrou a mão de sua vó e saiu correndo. Agora falecida, ele gostaria de conversar com ela sobre Pepinho ou sobre qualquer coisa. Ver Quindim na foto também não foi fácil, pois a lembrança de sua mãe veio extremamente forte e a última vez que a vira Wallace disse coisas muito duras para ela e sumiu. Apenas manteve contato com os irmãos que, pessoalmente, sabia que a mantinha informada sobre ele, mas nunca conversaram sobre isso. Toda essa história triste por culpa desses Filhotes de Satã.
Desde quando isso acontece mesmo? Wallace não lembrava direito, mas não tinha nenhum problema de saúde envolvido. Engraçado pensar nisso agora, depois de tanto tempo correndo do medo, agora nem sabe direito o motivo do medo, somente que ele acontece e como deve prosseguir. Como uma sequência de códigos, ou uma lista de afazeres em suas planilhas. Dia após dia somente dizendo motivos e argumentando respostas que sequer tem sentido. O medo não é mais o causador de suas frustrações, mas suas atitudes que fizeram com que o medo continuasse a viver em sua memória. Desde pequeno, todos em sua volta dispostos a ajudar, e Wallace preferiu se esconder em seu quarto para que não pudesse enfrentar seu problema de frente. Não queria fazer o grande esforço de encarar sua família, de voltar atrás em sua palavra, de conciliar seus amigos, de reconhecer que gatos não são necessariamente maus. Nunca precisou diretamente de um motivo porque as aparições de gatos era muito recorrente em sua vida desde pequeno, mesmo se o gato só quisesse carinho ou paciência, a verdade é que Wallace não queria aquilo.
É comum não gostar de gatos, não? Porque isso não foi respeitado por sua família? Por que Wallace sempre precisou gostar de gatos para poder participar das festas, conversar com familiares, estar em conjunto? Por alguns minutos, Wallace grunhiu, enquanto criava uma lista em sua cabeça de culpados: os próprios gatos, sua mãe que o batia, seus irmãos que riam da cara dele, seus amigos que raramente o apoiavam sobre ir contra os gatos. Wallace queria queimar tudo naquele momento, queria pedir demissão, queria pedir desculpas à sua mãe, mas não conseguia falar mais. Tudo parecia tão alto em sua cabeça que ele não conseguia mais pensar direito. As lágrimas vinham em seus olhos, mas elas não caíam. Virou-se de lado e esperou o tempo passar enquanto sentia o fofo do tapete em seu rosto e o frio do chão de piso em seus pés.
Demorou um pouco, mas logo ele sentiu algo no seu rosto e uma vontade involuntária de espirar. O pequenino monstro que estava deitado na almofada desse quarto e Wallace nem se deu conta estava agora em cima dele. Seus grandes olhos o encaravam ameaçadoramente enquanto ele se preparava para dar uma investida fatal com as garras em seu nariz. Wallace se afastou o que pôde, fazendo a criaturinha tropeçar. Mas ela não desistiu e vinha com mais uma. Wallace levantou, pegou a pequena besta por trás e a colocou na almofada de novo e ela aninhou e voltou a dormir. Vendo aquela cena, ele lembrou do porquê que estava ali na casa de sua irmã: Eugênia.
Eugênia tinha uma vida pela frente e a seguir. Ela tinha suas próprias escolhas, um ponto de partida, um marco zero, mesmo sem saber disso. Ela podia viver sem pensar sobre quais são seus medos do passado, porque ela não tem nenhum. Ao pensar nisso, Wallace não sentiu inveja ou tristeza, ele sentiu esperança. Esperança porque ele sentia a mudança vir com ela e sentia que poderia crescer de novo. Ele não esperava que seus erros do passado fossem perdoados, nem queria perdoar as pessoas pelo que fizeram. Ele queria começar de novo, um passo de cada vez, assim como Eugênia. Ele podia aprender a não odiar gatos, para variar.
Um novo início, não é?
Essas são Selena e Demi, gatas de uma pessoa que eu gosto. Eu dedico isso aqui para todos que possuem gatos e falaram comigo. Foi material suficiente, já que eu não tenho.
Eu não consigo nutrir amor por ninguém. Várias pessoas me vendo como descartável me faz pensar em se eu sou amável de verdade. Será que eu mereço ser amado? Será que um dia alguém vai querer alguém como eu? Não que eu precise, mas queria saber.
O amor me procura E eu nem me importo mais Ele me tortura Me desfaz Me deixa na loucura Eu só quero paz
Pessoas falam coisas demais Sonham comigo Me fazendo sonhar Lambem meu umbigo Transam sem parar Fogem, viram “inimigos” Eu só no altar
Eu cansei de amar Amor me traz prejuízo Me traz dor, me traz regozijo Tudo tão lindo na hora, mas Um mês depois e agora Tenho que esquecer o satanás
Não penso demais Sei que posso tentar Já construí um lar aqui dentro Um trabalho bem bom, mas lento Queria ter alguém pra partilhar Meu humilde apartamento
Mas para quê mais sofrimento? Hoje aconteceu novamente Do nada, desistiu de mim Falou que eu não era decente Um dia antes Me chamando de querubim
Por que fez isso? Criou expectativa Prometeu sonhos Ilícitos Só resta a memória viva
Quero escrever pra porra Não dá assim não Eu quero que escorra Quero liberdade no meu coração Eu me sinto uma cachorra Largada e sem compaixão Eu quero que morra Tudo que senti em vão
Agora eu tô repetitivo Um pouco obsessivo Então vou partir Tão rápido Não vai nem sentir E assim como os outros Você esquecerá de tudo Que foi dito aqui.
Um cãozinho de rua que um segurança pegou para cuidar
Mariana ouviu de sua cama um som e acordou. Não era a voz de seu pai e nem de sua mãe, e nem de sua irmã e isso a assustou, mas sua mãe tinha acabado de lhe confiar o posto de mais corajosa da casa, depois de matar uma barata, então Mariana tinha alguma confiança ali.
“Q-quem está aí?” Disse, já com o coração no peito.
“Calma, menina. Sou eu. Lúcio.” E do nada surgiu um brilho da entrada do quarto dela. Ela não entendeu direito o que era aquilo, mas estava cegando seus olhos. Ela piscou fortemente para tirar o brilho. Uma. Duas vezes. Na terceira o brilho diminuiu bastante, sobrando apenas algum tipo de capa ao redor deste menino, que estava na porta do seu quarto.
A princípio, Mariana pensou em gritar para alertar seus pais, mas ela sentiu algo estranho, como se podesse confiar naquele menino. E ele realmente estava brilhando. Fraco o suficiente para que ela pudesse olhá-lo sem se cegar, mas forte demais para que ela pudesse ver qualquer características dele. Ela apenas sabia que ele tinha olhos e boca porque ela conseguia distinguir a diferença do brilho de cada e os movimentos. Ele estava vestido com uma camisa de manga curta e shorts curtos também e descalço. Pelo que ela percebeu, ele era da mesma idade que ela, mas algo estava diferente e ela não entendia o porquê.
“Posso conversar contigo?” Disse Lúcio
“Minha mãe falou para eu não conversar com estranhos. Ainda mais quando eles invadem nossa casa.” Rebateu Mariana, vestindo a coragem e ousadia por cima da curiosidade e interesse.
“Mas eu não invadi sua casa. E como você sabe se eu sequer estou aqui de verdade? Talvez isso seja só um sonho, bem real” disse Lúcio, ao se aproximar mais de Mariana e adentrando ao quarto.
“Isso está confuso. E meus sonhos nunca foram tão reais assim.” Disse Mariana, levantando da cama para vê-lo de mais perto.
“Talvez você devesse deixar o sonho continuar”, e o Lúcio fica diante dela.
Mariana continua sem conseguir distinguir o que é Lúcio, mas uma coisa ela percebe: ele deve ser bastante pobre e com fome porque ela consegue enxergar as costelas dele através da blusa. De frente para ele, ela continua.
“Eu que mando nos meus sonhos, e portanto você não poderia existir neles. Eu nunca criaria algo como você, sem ofensas.”
“Ah, minha amiga. E quando as alucinações de uma mente perturbada começam? Nunca sabemos. Não que você seja perturbada, me ouça. Eu quero dizer que…”
“Agora é o limite. Você veio no meu quarto para me chamar de doida?” Ênfase no “meu” para que ele entenda que precisa tomar cuidado com as palavras, afinal se aquele é um sonho, então ela tinha o controle dele também.
“Eu falei ‘mente perturbada’. A loucura é o estágio final caso isso fosse um problema.”
“Hmpf” e Mariana revira os olhos.
“Abra os olhos para as possibilidades, amiga. Qual seu nome?” Diz Lúcio, sentando no chão.
“Mariana” e ela senta de volta na cama.
“Nariz de banana?” E ele faz algum tipo de careta que Mariana só percebeu que era uma careta porque ele colocou a língua, também brilhante, para fora.
“Lúcio, cara de estrupício”
“Mariana, a descansar Pensas muito de fato O Lúcio está no ato Apenas querendo Conversar” Recita Lúcio, movendo as mãos como se tivesse atuando.
“Agora é poeta?” Debocha Mariana, com um risonho de superioridade.
“Se esse é o teu sonho, então eu sou o que você quiser.”
“Então seja um porco! Faz oinc oinc” disse Mariana, enquanto ela mesma imitava um porco.
“Talvez outro dia. A verdade é que você me chamou aqui.” Disse Lúcio casualmente, enquanto deita no chão.
“Como assim eu te chamei? Eu não lembro de ter chamado nenhum fantasma.”
“Mas você fez a pergunta, e com a pergunta vem uma consequência. Você é muito nova para fazer essas perguntas e, por isso, eu vou tentar te dar as respostas.” Diz Lúcio, novamente bem tranquilo, mas agora levemente desafiador, o que intimida Mariana. Ela, de alguma forma, sabe o que ele está falando, o que assusta ela em alguns níveis. Ela nunca falou sobre isso com ninguém, nem para Nicole, sua melhor amiga. Ela não queria conversar sobre aquilo. Na verdade, ela nem sabia se aquilo era real.
“Eu tenho tempo para a gente conversar. Só quando você tiver pronta.” Disse Lúcio, e a partir dali ele não falou mais.
Mariana o observou e ficou quieta observando ele. Ele não se mexia. Parece até que já tinha caído no sono. Ela esperou algum tempo observando ele e depois deitou-se na cama.
“Eu me sinto cansada e triste. O tempo todo. Muita culpa vem a mim sem ter minha marca e eu já não sei se eu posso fazer alguma coisa certa. Eu erro tudo o que eu faço. A única coisa que eu sei fazer bem é fingir que tudo está bem. Eu não aguento mais. A cada dia que passa o futuro parece tão real e isso me assusta. Eu não sei o que vai ser de mim quando chegar e eu nunca vou estar preparada. Me pergunto o tempo todo se eu vou ser alguém bom em algo e que vou deslanchar na vida, como minha irmã, mas eu sei que eu não consigo lidar com nenhuma pressão. Tudo me sufoca e o tempo parece não passar. Eu queria muito sair daqui, fugir para muito longe e viver feliz em um lugar em que o tempo não passe. Eu só quero…”
Sem pensar muito no que acabou de dizer, ela chorou. E chorou por um bom tempo. Quando abriu os olhos, Lúcio não estava mais lá. E logo depois ela dormiu de verdade.
Será que amanhã ele vai estar lá?
Vi essa foto no twitter de @wah.ah.ah e me inspirei. Não ficou da forma em que eu pensei, mas acho que isso eu só vou melhorar com o tempo e escrevendo bastante e lendo sobre escrever.
Queria começar esse texto dizendo que este é o começo de uma história que eu quero escrever e adaptar melhor. Tem uns termos que eu vou desenvolver melhor, mas até lá, aproveitem esses nomes estranhos e palavras estranhas. Eu tentei.
Deixar uma foto de meu cachorro Apolo aqui porque ele é bonito para aquecer o coração de vocês ao ler esse texto. Eu espero que gostem mesmo.
Todos os dias parecem os mesmos. Quando as lendas se tornarão algo real e emocionante?
Acordo com o brilho dos céus nos olhos e os sons das máquinas ao redor e já sei que devo correr para comer, afinal a comida já deve tá posta. Levanto-me da cama descabelado, mas nem ligo. Eu estou mais preocupado com o que eu vou comer agora. O chão está frio, então eu coloco meus calçados de couro e pego o casaco da cadeira para cobrir o resto do meu corpo.
Meu quarto está um pouco bagunçado. Muitas roupas jogadas pelo chão, dois livros se encontram abertos um em cima do outro com uma fruta meio comida em cima dos dois e eu espero muito que não tenha manchado as páginas. A janela é bloqueada pela minha cortina levemente opaca, deixando apenas uma fresta de luz tocar minha cama. Pelas paredes meus desenhos de antigas lendas e heróis que eu mesmo pintei e até que ficaram bonitos: Hayor, Gloçam, Fytum, Jane. Todos sérios em suas roupas táticas olhando para frente, vislumbrando um novo amanhecer que eu mesmo pude conhecer. Bem, tirando esse altar pessoal, a bagunça estava feita, mas eu posso limpar quando voltar. Saio do meu quarto e bato a porta.
De frente para mim tem a escada descendo para a sala de arquivos. No meu andar tem mais um quarto, mas a porta continua fechada. Dou de ombros, prefiro deixar ela quieta. Desço as escadas pensando no que cozinhar caso eles já tenham comido tudo. Tem algumas frutas, ovos, folhas, acho que carne processada. Daria uma ótima salada. Meu quarto fica no alto da escada e enquanto desço eu percebo que nenhuma das outras portas ainda está aberta, o que significa que os meninos ainda não acordaram. Eu grito em seguida “QUE PERNIL DELICIOSO!” e desço a escada correndo. Chego primeiro na sala de arquivos, imponente e lustrosa com suas enormes estantes encravadas nas paredes, mas já ouço as pisadas pesadas atrás de mim e preciso adiantar. Ainda correndo, eu atravesso nossa sala de arquivos e vou direto para a cozinha.
Mais um dia tranquilo, pois a vida é tranquila. Finalmente na cozinha: um cômodo não muito maior do que os outros, com uma mesa pequena retangular corta o cômodo no meio de forma transversal às maiores paredes ocupando quase todo o espaço, de forma em que ao entrar pelo arco aberto de entrada, é a primeira coisa em que você consegue enxergar. Na parede oposta, há muitas pequenos armários presos em cima e abaixo há uma grande pia de metal para lavar as sujeiras que existem em uma cozinha. Do lado direito há uma porta de metal com vidros embaçados que abre para o lado de fora, junto com um cabide e muitos calçados e do lado esquerdo existe mais um grande armário de madeira para guardar os utensílios, com entalhes decorando as portas e suas pernas.
Sento na cadeira mais perto da geleia de frutas e dos pães, de costas para o corredor de onde vim, e vejo que Oortrei caprichou dessa vez: Um litro de leite e muitos sucos dispersos na grande mesa de madeira. Pães quentinhos em cima da mesa em uma pilha, acabados de sair do forno, acompanhados com geleias variadas. Não consegui ver se tinha manteiga, acho que terei de encomendar depois. Uma cesta com muitas frutas no meio da mesa, até porque eles sabem que todos vão pegar na cesta. Duas frigideiras de ovo com ervas e alguns molhos. Vejo também pedidos para atender as necessidades de cada um: as pílulas de saúde para Krais, o energético natural de Jois, até mesmo os componentes da nova dieta de Tamos.
– Espertinho. Já vai comer todos os pães da mesa. Não vou deixar você sozinho.
O primeiro irmão chega. Urdim. Ele é alto e magro. Cabelos brancos surgem em meio ao seu corpo inteiramente peludo. Está com seu pijama favorito: uma camisa branca surrada e uma calça tão usada que o tecido parece nunca ter visto a limpeza, mesmo ele as limpando todo dia. Ele se dirige para perto de uma das pontas da mesa enquanto eu o encaro. Seu olhar era de sono, mas brincalhão e eu respondo sem demora:
– Vocês demoram mais do que Hayor! Eu quero comer!
– Se a mesa está posta, então está na hora de comer –
Outra voz surge atrás de mim. Krais aparece primeiro com sua mão atrás de mim, pegando o pão mais próximo, como se eu fosse um ser bem pequeno e um gigante fosse devorar a minha casa. Krais o faria, se quisesse.
Ele é enorme. Braços, pernas, cintura, mãos… Tudo grande. Estar do lado de Krais dentro de um transporte é saber que será esmagado, ou por brincadeira ou sem querer. Krais é extremamente extrovertido, o que me deixa um pouco acanhado. Agora que ele se senta, do meu lado, eu vejo que ele está com a mesma roupa de ontem: Um macacão com uma camisa de manga longa por cima. Mas por incrível que pareça o cheiro dele é de frescor do campo e ervas.
– Comporte-se e trate de ingerir suas pílulas. É para seu bem – Diz Urdim em um tom um pouco sério – Ainda é muito cedo para eu pensar em falar sobre o quão é importante estarmos juntos na mesa comendo. Somos… Uma equipe. Irmãos que estão nessa juntos para viver e nos cuidar atenciosamente. O amor vive em nós e flui de nós para a terra e… – Eu e Krais falamos em uníssono de tanto que já ouvimos esse discurso antes, mas no final adicionamos uma parte extra: “Bla bla bla”.
Todos rimos e Krais vai em direção a suas pílulas para tomá-las. Ele as ingere de vez e as engole sem líquidos para ajudar.
– Já estamos usando entorpecentes? Mas ainda é cedo! E… Cadê o pernil?
Deu para ouvir Jois chegar só pela respiração forte. O quarto dela é ao lado do meu e provavelmente ela acabou de acordar e veio correndo.
Ela tem minha altura e está vestida num pequeno sobretudo azul, que é seu desde pequena e nunca se desfez. As olheiras, mãos calejadas e o corpo levemente musculoso e grande denunciam sua paixão pessoal: esportes. Todos os dias ela treina mais e mais com iguais até tarde, pois para ela é um momento de paz e tranquilidade. Eu não entendo muito bem, mas é o caminho dela.
– Eu menti. Queria tirar vocês logo da cama. Vocês ouvem pernil e ficam iguais a loucos!
– Como você OUSA mentir sobre um assunto TÃO SÉRIO como pernil? Estou indignada.
– Pelo menos ele tá sendo sincero agora – Fala Urdim
– Defendendo ele por quê? – Retruca Jois – Ele merece a guilhotina por me fazer acordar tão cedo!
– Vocês estão bem animados para um dia de folga. – Uma nova voz surge de trás de mim.
Quiostono chegou e o ar fica mais denso, não literalmente. Jois foi pegar sua xícara de energético natural enquanto eu e Krais nos encaramos discretamente. Jois se dirigia para sentar ao meu lado, mas Quiostono já estava indo naquele direção. Ele puxa a cadeira arrastando-a no chão dramaticamente e se senta, obrigando Jois a se sentar do outro lado da mesa. “Desculpas” ela diz em minha direção movendo os lábios. Eu demonstro com o rosto que eu agradeço pela preocupação. Não me importo muito com Quiostono, mas os outros sim.
Primeiramente o que posso falar de Quiostono é: ele é um Icka, ou seja, vive através de metal e partes que foram feitas em laboratório. O que significa que seu braço esquerdo, juntamente com seu ombro, costelas, pulmão e partes do coração são feitos através de material sintético e de metal. Ele sofreu um acidente quando era muito pequeno e a única forma de viver foi com esses aprimoramentos. Atualmente existe uma grande discussão sobre o cibernético no mundo, porque existem pessoas que acreditam nas Poderosas Explosões do Magnífico Huçoriamo e, evidentemente, acreditam no Destino natural de todas as coisas, ênfases no “natural”, porque significa que as intervenções científicas muito íntimas na vida pessoal podem distorcer a trajetória do destino.
Bom, Quiostono nem pensa muito nisso porque ele está ocupado sendo sarcástico. Ele é bem magro, delgado como o caule de uma planta que acabou de nascer. Ele é mais alto que eu por poucos dedos, mas seus dedos pequenos, braços e pernas curtas fazem-no parecer menor. Ah, e seus olhos possuem cores diferentes: um é castanho e o outro lilás.
O silêncio continuou dentro da sala, até Quiostono dizer: – Por que ainda não estamos comendo?
– Estamos esperando o último – Diz Krais – Assim como manda as ordens.
– Ordens… Podemos fazer da nossa forma, caso queiramos. Isso são só posturas indicadas por outros. Talvez Tamos nem apareça hoje – rebate Quiostono, com um sorriso suficientemente simpático uma manhã pode deixar – Vamos só comer logo, sim?
– Mas devemos respeitar as regras, Quiostono – Repete Krais, olhando para Urdim e com a voz mais baixa.
– Bom, faça o que quiser. Eu vou pegar meus ovos mexidos e molho.
Assim que Quiostono toca nos talheres para pegar o ovo, Urdim solta um grunhido. Quiostono para, olha para ele, mas Urdim continua quieto. Quiostono volta a tocar nos talheres e Urdim volta a grunhir, coçando a garganta. Dessa vez Quiostono não para e vai em direção ao ovo. Eu, Krais e Jois continuamos nos olhando calados. Urdim está ocupado encarando viciosamente Quiostono, que a este ponto já está com o ovo no prato. Urdim continua falhando miseravelmente em chamar a atenção do Quiostono sem usar palavras, enquanto que este está procurando os molhos na mesa. Eu, para esquentar a situação e por puro humor, pego o molho para Quiostono e ele me agradece com um olhar, enquanto que Urdim me encara ferozmente.
Quiostono dá a primeira garfada e nós três nos esforçamos muito para não rir ao olhar para Urdim, que está tremendo de raiva. Antes de chegar em sua boca, Quiostono para e finge se questionar.
– Hm, acho que podemos esperar Tamos mesmo. Lembro de tê-la ouvido se arrumar quando estava descendo as escadas.Sim, vou esperar.- Diz finalmente, encostando o garfo no prato e olhando para o rosto de cada um de nós, para finalmente olhar para Urdim com um sorriso debochado.
– E o ciclo continua! – diz Urdim, mudando de temperamento rapidamente e rindo profundamente – Assim como não sabemos nosso suspiro final, certo?
Quiostono repentinamente pega no garfo e come rapidamente direto depois da ultima frase de Urdim. E o caos está feito. Urdim levanta e está preste a gritar com Quiostono, que está calmamente preparando a próxima garfada quando eu ouço passos bem leves atrás de mim.
– Parem vocês dois! – Falo alto o suficiente para que Urdim entenda que não é o momento. Ele fecha o rosto e se recolhe na cadeira.- Tamos chegou.
E eu levanto da cadeira e me viro para buscá-la. Sei que ela está na sala de Arquivos, mas ela se escondeu. Vou para a poltrona mais próxima da sala e a encontro atrás dela, com sua camisa dos Campinatos, um time que ela gosta, grande o suficiente para usar como vestido.
– Vem logo, estamos te esperando. – Digo a ela
– Quase todos nós estamos esperando, não é? – diz por cima de mim Urdim
– O importante é que ela tá aqui – digo sorrindo de volta para ela e ela cede, pegando minha mão e se dirigindo à cozinha.
Tamos é menor que eu. Ela tem um brilho no olhar diferenciado, capaz de enxergar detalhes com muita perspicácia, além de ser bastante exigente com as coisas com que gosta de fazer: desenhar, escrever. Ela é uma artista completa. Pelo que posso ver, ela estava tentando desenhar algo, pois as pontas de seus dedos estavam um pouco sujas.
Como ela é a menor de nós, dividimo-nos para cuidar dela, e tem dado certo. Primeiro dia ela vai com Urdim à cidade para ajudá-lo com o trabalho de organização de arquivos e solução do que chamam de “Casos obtusos”, ou seja, seres que querem destruir o sistema em que fazemos parte. Urdim trabalha quase todos os dias e às vezes traz o trabalho para casa, pois os casos se somam e crescem todos os dias, mas também porque ele não cuida apenas de nossa área, mas das áreas próximas também.
No segundo dia ela acompanha Krais nas fazendas. Krais é responsável pelo semeio e colheita das fazendas de grãos e Tamos ama as máquinas utilizadas nas fazendas. Além disso, Krais também é um dos responsáveis principais pela comunicação e reorganização da plantação para a satisfação dos consumidores e rotatividade da Terra, o que não é muita coisa já que todo pedaço de terra que se planta de forma ampla tem um desse, mas rede a ele reuniões chatas e muitas fofocas que ele me conta quando sentamos juntos e sozinhos.
No terceiro dia Tamos acompanha Quiostono. Ele trabalha como pesquisador no Centro de Aperfeiçoamento e Análise do Absurdo (CAAA). Basicamente analizando momentos e falhas reais em teorias diversas sobre a realidade, procurando brechas no nosso modo de vida e na vida em si para que possamos entender tudo ao nosso redor. Não sei explicar direito, mas é bem interessante. Vejo ele falando às vezes e me sinto muito convencido sobre seus estudos. Queria vê-lo trabalhar, mas ele disse que é muito perigoso e que só consegue levar Tamos porque é necessário. Tamos sempre volta de lá com um doce diferente na boca e uma cara de boba, mas nunca conta para ninguém o que viu.
No quarto dia ela viaja para longe com Jois, que trabalha em um Centro de Reabilitação para Viciados e Instáveis em um conjunto habitacional bem distante de nossa casa. Elas passam o dia inteiro fora e só voltam de noite. No caso de Jois, ela vai lá dia sim e dia não, a não ser quando surgem emergências. Lá, Jois os ensina melhor sobre o próprio corpo e tenta trabalhar novos interesses aos matriculados, geralmente adolescentes e idosos. Temos a ajuda com oficinas de desenho e as duas fazem um trabalho maravilhoso juntas, ao menos é o que parece.
No quinto dia Tamos vem comigo para a Biblioteca Central cuidar dos arquivos da região. Como atualmente todos os arquivos já estão digitalizados e raramente algo físico é utilizado, a biblioteca serve mais como um museu de tempos antigos. Objetos como algumas armas antigas, primeiros artigos de “luxo” que atualmente nem faz sentido pensar em luxuoso, computadores antigos para sites de busca antigos, e enfim. Literalmente eu me sinto congelado no tempo lá dentro e é ao mesmo tempo assustador e maravilhosa a quantidade de informações que eu aprendo diariamente. Quando Tamos vem comigo eu já separo alguns arquivos um dia antes para que nós possamos folheá-los quando ela vir. Lemos esses arquivos como se fossem histórias fictícias, mas aconteceram de verdade e às vezes procuramos juntos por evidências de tais fatos, ou articulações entre os fatos. Ela realmente tem olhos de águia.
O sexto dia em diante ela vai ao Centro de Ensino e Cultura do povoado. Ela passa dez dias seguidos indo para lá, para “criar o sentimento de pertencimento à nossa cultura”, como se viver na nossa família já não fosse demais.
Bem, devaneei um pouco enquanto andava e quase me bati na mesa enquanto segurava a mão dela. Soltei-a e fui me sentar, e ela seguiu para a cadeira dela, do outro lado da mesa. Agora estamos todos na mesa e Quiostono pede desculpas para Tamos movendo os lábios, que sorri para ele e responde com um dedo levantado: o sinal para que ele desse doces para ela depois. Ele sorri e responde com sinais que eu não conheço, mas ela entendi e solta um risinho baixo.
– Bom, já que estamos todos aqui, vamos proferir as palavras sagradas. Sim? – Pergunta Urdim. Todos nós nos damos as mãos, até mesmo Quiostono, apesar de mal grado. Assim que todos fechamos os olhos, Urdim começa, e nós cantamos seguindo ele:
“A noite começa por ti A vida termina em ti Ó Impotente Huçoriamo Calor Que Tudo Toca Que Teus Olhos Emanam Energia Que Sua Voz Seja Ouvida Que Nós Possamos Viver Nessa Vida Calma de Paz Para Nunca mais Faltar comida Para Nunca Mais Faltar Morada Para Nunca Mais Faltar Saúde Para Nunca Mais Voltar ao Passado Assim, Agradecemos Por Ser Real E Realmente Sentiremos Sua Potência”.
E a partir daí é suposto para que peçamos algo ao Huçoriamo, mas eu cansei no meio do rito. Abro meus olhos e encontro Quiostono com a cara de entediado olhando para frente. Ele me vê e esboça um sorriso.
“Feche os olhos”, ele diz, sem sair som.
“Não, cansei”, devolvo a ele.
“Você é do mal”, ele diz.
“Não conte para ninguém”, eu falo.
Antes que Quiostono pudesse responder, todos abrem os olhos.
Eu tinha medo de te perder, seu idiota. Você era tudo para mim. Eu fiz minha vida ao seu redor e assentei minha pedra ao lado da sua. A minha vida dependia do que você e nossos amigos pensavam de mim e meu humor dependia de como nós estávamos. Eu estava vivendo uma fantasia, mesmo que seja tóxica. E você nem sabia disso.
O tempo passou e nossas vidas foram mudando. De repente não estávamos mais na mesma situação. Minha vida não cabia mais ao redor da sua. Sua pedra rolou para longe da minha. E o frio da solidão foi uma experiência de Curitiba no nordeste.
Eu o culpo. Eu quero gritar para todos os ventos que é culpa sua. Você me abandonou, homem. E eu não sabia o que fazer sem alguém do meu lado. Esses sentimentos, no entanto, não são completamente verdadeiros porque eu também te amo. Bastante. O suficiente para, mesmo depois de todo esse tempo, não deixar de amar.
E eu agradeço por esse tempo sem você. Eu adquiri força interior, planejei minha própria vida, estou tentando pensar na minha auto-suficiência e na minha autoestima. Não preciso mais das opiniões de pessoas ao meu redor para basear a minha vida. Estou crescendo de verdade sob os limites que agora eu conheço bem. Não sou tão ingênuo quanto antes.
Por isso que eu entendo os atritos. Eu realmente compreendo como é se desestruturar e que o espaço não fez bem somente pra mim. Eu não me importo mais com essas feridas porque elas se curaram. Brigas por brigas acabam nas palavras.
No entanto eu não consigo perdoar o tempo que está levando para você se desculpar sinceramente sobre tudo isso. E eu não quero ser a pessoa dando o braço a torcer. Toda vez que eu vejo você tentando falar comigo eu tenho medo de voltar a me relacionar contigo e parar na relação que tínhamos antes. E isso é muito doloroso porque eu quero muito te abraçar e conversar sobre tudo contigo.
Eu sei que eu preciso largar a mão da incerteza, que é um “leap of faith” (Spiderman into the Spiderverse), mas eu não posso pular se eu não tiver certeza de onde eu estou indo. Por mais que eu ainda te ame. Desculpa. Se eu tivesse essa certeza, eu fingia que nada tinha acontecido…
Mas se eu tinha medo de te perder, agora que já te perdi eu tenho medo de ter medo de novo. Faz sentido?
Eu amo como esse álbum de BaianaSystem consegue ser ao mesmo tempo único, atemporal e significativo. Cada desenho, cada símbolo, cada referência é de extrema importância. O Futuro não demora por BaianaSystem.
Por detrás da sua mão, solto um gemido baixinho. Eu estou acordado. Não consigo me desvencilhar da consciência nem que seja um segundo. Você consegue. Você está em outro mundo agora, muito longe para que eu consiga ter coragem de te colocar aqui embaixo, para que possa me ouvir.
Continuamos. Eu sinto a dor, mas você diz que é passageira. Eu peço para que você me ajude a suportar, mas você quer viver isso sozinho. Eu já estou acostumado. A dor cresce, mas o prazer vem junto e eu me contento.
Penso em como ele é gostoso. Em como é sorte minha tê-lo. Em como sou inferior àquele corpo que agora me consome. Eu não sou? Ele sorri e me beija. Eu tento segurar esse beijo para não chorar. Ele não tem tempo para beijos, penetração é mais importante.
Ele goza. Respira. Sorri. E me leva para tomar banho com ele.
Eu respiro fundo. Levanto feliz. Tento conversar e elogiar. Tomo banho. Vou para minha casa.
Talvez a culpa seja minha de não gostar. Ele gostou. O sexo foi bom, não? E ele foi gentil e educado comigo…
Tiveram outros que não foram…
Coloquei meu barbeador como foto. Eu sou bem peludo, então é necessário que eu tenha um.