Queria começar esse texto dizendo que este é o começo de uma história que eu quero escrever e adaptar melhor. Tem uns termos que eu vou desenvolver melhor, mas até lá, aproveitem esses nomes estranhos e palavras estranhas. Eu tentei.
Deixar uma foto de meu cachorro Apolo aqui porque ele é bonito para aquecer o coração de vocês ao ler esse texto. Eu espero que gostem mesmo.
Todos os dias parecem os mesmos. Quando as lendas se tornarão algo real e emocionante?
Acordo com o brilho dos céus nos olhos e os sons das máquinas ao redor e já sei que devo correr para comer, afinal a comida já deve tá posta. Levanto-me da cama descabelado, mas nem ligo. Eu estou mais preocupado com o que eu vou comer agora. O chão está frio, então eu coloco meus calçados de couro e pego o casaco da cadeira para cobrir o resto do meu corpo.
Meu quarto está um pouco bagunçado. Muitas roupas jogadas pelo chão, dois livros se encontram abertos um em cima do outro com uma fruta meio comida em cima dos dois e eu espero muito que não tenha manchado as páginas. A janela é bloqueada pela minha cortina levemente opaca, deixando apenas uma fresta de luz tocar minha cama. Pelas paredes meus desenhos de antigas lendas e heróis que eu mesmo pintei e até que ficaram bonitos: Hayor, Gloçam, Fytum, Jane. Todos sérios em suas roupas táticas olhando para frente, vislumbrando um novo amanhecer que eu mesmo pude conhecer. Bem, tirando esse altar pessoal, a bagunça estava feita, mas eu posso limpar quando voltar. Saio do meu quarto e bato a porta.
De frente para mim tem a escada descendo para a sala de arquivos. No meu andar tem mais um quarto, mas a porta continua fechada. Dou de ombros, prefiro deixar ela quieta. Desço as escadas pensando no que cozinhar caso eles já tenham comido tudo. Tem algumas frutas, ovos, folhas, acho que carne processada. Daria uma ótima salada. Meu quarto fica no alto da escada e enquanto desço eu percebo que nenhuma das outras portas ainda está aberta, o que significa que os meninos ainda não acordaram. Eu grito em seguida “QUE PERNIL DELICIOSO!” e desço a escada correndo. Chego primeiro na sala de arquivos, imponente e lustrosa com suas enormes estantes encravadas nas paredes, mas já ouço as pisadas pesadas atrás de mim e preciso adiantar. Ainda correndo, eu atravesso nossa sala de arquivos e vou direto para a cozinha.
Mais um dia tranquilo, pois a vida é tranquila. Finalmente na cozinha: um cômodo não muito maior do que os outros, com uma mesa pequena retangular corta o cômodo no meio de forma transversal às maiores paredes ocupando quase todo o espaço, de forma em que ao entrar pelo arco aberto de entrada, é a primeira coisa em que você consegue enxergar. Na parede oposta, há muitas pequenos armários presos em cima e abaixo há uma grande pia de metal para lavar as sujeiras que existem em uma cozinha. Do lado direito há uma porta de metal com vidros embaçados que abre para o lado de fora, junto com um cabide e muitos calçados e do lado esquerdo existe mais um grande armário de madeira para guardar os utensílios, com entalhes decorando as portas e suas pernas.
Sento na cadeira mais perto da geleia de frutas e dos pães, de costas para o corredor de onde vim, e vejo que Oortrei caprichou dessa vez: Um litro de leite e muitos sucos dispersos na grande mesa de madeira. Pães quentinhos em cima da mesa em uma pilha, acabados de sair do forno, acompanhados com geleias variadas. Não consegui ver se tinha manteiga, acho que terei de encomendar depois. Uma cesta com muitas frutas no meio da mesa, até porque eles sabem que todos vão pegar na cesta. Duas frigideiras de ovo com ervas e alguns molhos. Vejo também pedidos para atender as necessidades de cada um: as pílulas de saúde para Krais, o energético natural de Jois, até mesmo os componentes da nova dieta de Tamos.
– Espertinho. Já vai comer todos os pães da mesa. Não vou deixar você sozinho.
O primeiro irmão chega. Urdim. Ele é alto e magro. Cabelos brancos surgem em meio ao seu corpo inteiramente peludo. Está com seu pijama favorito: uma camisa branca surrada e uma calça tão usada que o tecido parece nunca ter visto a limpeza, mesmo ele as limpando todo dia. Ele se dirige para perto de uma das pontas da mesa enquanto eu o encaro. Seu olhar era de sono, mas brincalhão e eu respondo sem demora:
– Vocês demoram mais do que Hayor! Eu quero comer!
– Se a mesa está posta, então está na hora de comer –
Outra voz surge atrás de mim. Krais aparece primeiro com sua mão atrás de mim, pegando o pão mais próximo, como se eu fosse um ser bem pequeno e um gigante fosse devorar a minha casa. Krais o faria, se quisesse.
Ele é enorme. Braços, pernas, cintura, mãos… Tudo grande. Estar do lado de Krais dentro de um transporte é saber que será esmagado, ou por brincadeira ou sem querer. Krais é extremamente extrovertido, o que me deixa um pouco acanhado. Agora que ele se senta, do meu lado, eu vejo que ele está com a mesma roupa de ontem: Um macacão com uma camisa de manga longa por cima. Mas por incrível que pareça o cheiro dele é de frescor do campo e ervas.
– Comporte-se e trate de ingerir suas pílulas. É para seu bem – Diz Urdim em um tom um pouco sério – Ainda é muito cedo para eu pensar em falar sobre o quão é importante estarmos juntos na mesa comendo. Somos… Uma equipe. Irmãos que estão nessa juntos para viver e nos cuidar atenciosamente. O amor vive em nós e flui de nós para a terra e… – Eu e Krais falamos em uníssono de tanto que já ouvimos esse discurso antes, mas no final adicionamos uma parte extra: “Bla bla bla”.
Todos rimos e Krais vai em direção a suas pílulas para tomá-las. Ele as ingere de vez e as engole sem líquidos para ajudar.
– Já estamos usando entorpecentes? Mas ainda é cedo! E… Cadê o pernil?
Deu para ouvir Jois chegar só pela respiração forte. O quarto dela é ao lado do meu e provavelmente ela acabou de acordar e veio correndo.
Ela tem minha altura e está vestida num pequeno sobretudo azul, que é seu desde pequena e nunca se desfez. As olheiras, mãos calejadas e o corpo levemente musculoso e grande denunciam sua paixão pessoal: esportes. Todos os dias ela treina mais e mais com iguais até tarde, pois para ela é um momento de paz e tranquilidade. Eu não entendo muito bem, mas é o caminho dela.
– Eu menti. Queria tirar vocês logo da cama. Vocês ouvem pernil e ficam iguais a loucos!
– Como você OUSA mentir sobre um assunto TÃO SÉRIO como pernil? Estou indignada.
– Pelo menos ele tá sendo sincero agora – Fala Urdim
– Defendendo ele por quê? – Retruca Jois – Ele merece a guilhotina por me fazer acordar tão cedo!
– Vocês estão bem animados para um dia de folga. – Uma nova voz surge de trás de mim.
Quiostono chegou e o ar fica mais denso, não literalmente. Jois foi pegar sua xícara de energético natural enquanto eu e Krais nos encaramos discretamente. Jois se dirigia para sentar ao meu lado, mas Quiostono já estava indo naquele direção. Ele puxa a cadeira arrastando-a no chão dramaticamente e se senta, obrigando Jois a se sentar do outro lado da mesa. “Desculpas” ela diz em minha direção movendo os lábios. Eu demonstro com o rosto que eu agradeço pela preocupação. Não me importo muito com Quiostono, mas os outros sim.
Primeiramente o que posso falar de Quiostono é: ele é um Icka, ou seja, vive através de metal e partes que foram feitas em laboratório. O que significa que seu braço esquerdo, juntamente com seu ombro, costelas, pulmão e partes do coração são feitos através de material sintético e de metal. Ele sofreu um acidente quando era muito pequeno e a única forma de viver foi com esses aprimoramentos. Atualmente existe uma grande discussão sobre o cibernético no mundo, porque existem pessoas que acreditam nas Poderosas Explosões do Magnífico Huçoriamo e, evidentemente, acreditam no Destino natural de todas as coisas, ênfases no “natural”, porque significa que as intervenções científicas muito íntimas na vida pessoal podem distorcer a trajetória do destino.
Bom, Quiostono nem pensa muito nisso porque ele está ocupado sendo sarcástico. Ele é bem magro, delgado como o caule de uma planta que acabou de nascer. Ele é mais alto que eu por poucos dedos, mas seus dedos pequenos, braços e pernas curtas fazem-no parecer menor. Ah, e seus olhos possuem cores diferentes: um é castanho e o outro lilás.
O silêncio continuou dentro da sala, até Quiostono dizer: – Por que ainda não estamos comendo?
– Estamos esperando o último – Diz Krais – Assim como manda as ordens.
– Ordens… Podemos fazer da nossa forma, caso queiramos. Isso são só posturas indicadas por outros. Talvez Tamos nem apareça hoje – rebate Quiostono, com um sorriso suficientemente simpático uma manhã pode deixar – Vamos só comer logo, sim?
– Mas devemos respeitar as regras, Quiostono – Repete Krais, olhando para Urdim e com a voz mais baixa.
– Bom, faça o que quiser. Eu vou pegar meus ovos mexidos e molho.
Assim que Quiostono toca nos talheres para pegar o ovo, Urdim solta um grunhido. Quiostono para, olha para ele, mas Urdim continua quieto. Quiostono volta a tocar nos talheres e Urdim volta a grunhir, coçando a garganta. Dessa vez Quiostono não para e vai em direção ao ovo. Eu, Krais e Jois continuamos nos olhando calados. Urdim está ocupado encarando viciosamente Quiostono, que a este ponto já está com o ovo no prato. Urdim continua falhando miseravelmente em chamar a atenção do Quiostono sem usar palavras, enquanto que este está procurando os molhos na mesa. Eu, para esquentar a situação e por puro humor, pego o molho para Quiostono e ele me agradece com um olhar, enquanto que Urdim me encara ferozmente.
Quiostono dá a primeira garfada e nós três nos esforçamos muito para não rir ao olhar para Urdim, que está tremendo de raiva. Antes de chegar em sua boca, Quiostono para e finge se questionar.
– Hm, acho que podemos esperar Tamos mesmo. Lembro de tê-la ouvido se arrumar quando estava descendo as escadas.Sim, vou esperar.- Diz finalmente, encostando o garfo no prato e olhando para o rosto de cada um de nós, para finalmente olhar para Urdim com um sorriso debochado.
– E o ciclo continua! – diz Urdim, mudando de temperamento rapidamente e rindo profundamente – Assim como não sabemos nosso suspiro final, certo?
Quiostono repentinamente pega no garfo e come rapidamente direto depois da ultima frase de Urdim. E o caos está feito. Urdim levanta e está preste a gritar com Quiostono, que está calmamente preparando a próxima garfada quando eu ouço passos bem leves atrás de mim.
– Parem vocês dois! – Falo alto o suficiente para que Urdim entenda que não é o momento. Ele fecha o rosto e se recolhe na cadeira.- Tamos chegou.
E eu levanto da cadeira e me viro para buscá-la. Sei que ela está na sala de Arquivos, mas ela se escondeu. Vou para a poltrona mais próxima da sala e a encontro atrás dela, com sua camisa dos Campinatos, um time que ela gosta, grande o suficiente para usar como vestido.
– Vem logo, estamos te esperando. – Digo a ela
– Quase todos nós estamos esperando, não é? – diz por cima de mim Urdim
– O importante é que ela tá aqui – digo sorrindo de volta para ela e ela cede, pegando minha mão e se dirigindo à cozinha.
Tamos é menor que eu. Ela tem um brilho no olhar diferenciado, capaz de enxergar detalhes com muita perspicácia, além de ser bastante exigente com as coisas com que gosta de fazer: desenhar, escrever. Ela é uma artista completa. Pelo que posso ver, ela estava tentando desenhar algo, pois as pontas de seus dedos estavam um pouco sujas.
Como ela é a menor de nós, dividimo-nos para cuidar dela, e tem dado certo. Primeiro dia ela vai com Urdim à cidade para ajudá-lo com o trabalho de organização de arquivos e solução do que chamam de “Casos obtusos”, ou seja, seres que querem destruir o sistema em que fazemos parte. Urdim trabalha quase todos os dias e às vezes traz o trabalho para casa, pois os casos se somam e crescem todos os dias, mas também porque ele não cuida apenas de nossa área, mas das áreas próximas também.
No segundo dia ela acompanha Krais nas fazendas. Krais é responsável pelo semeio e colheita das fazendas de grãos e Tamos ama as máquinas utilizadas nas fazendas. Além disso, Krais também é um dos responsáveis principais pela comunicação e reorganização da plantação para a satisfação dos consumidores e rotatividade da Terra, o que não é muita coisa já que todo pedaço de terra que se planta de forma ampla tem um desse, mas rede a ele reuniões chatas e muitas fofocas que ele me conta quando sentamos juntos e sozinhos.
No terceiro dia Tamos acompanha Quiostono. Ele trabalha como pesquisador no Centro de Aperfeiçoamento e Análise do Absurdo (CAAA). Basicamente analizando momentos e falhas reais em teorias diversas sobre a realidade, procurando brechas no nosso modo de vida e na vida em si para que possamos entender tudo ao nosso redor. Não sei explicar direito, mas é bem interessante. Vejo ele falando às vezes e me sinto muito convencido sobre seus estudos. Queria vê-lo trabalhar, mas ele disse que é muito perigoso e que só consegue levar Tamos porque é necessário. Tamos sempre volta de lá com um doce diferente na boca e uma cara de boba, mas nunca conta para ninguém o que viu.
No quarto dia ela viaja para longe com Jois, que trabalha em um Centro de Reabilitação para Viciados e Instáveis em um conjunto habitacional bem distante de nossa casa. Elas passam o dia inteiro fora e só voltam de noite. No caso de Jois, ela vai lá dia sim e dia não, a não ser quando surgem emergências. Lá, Jois os ensina melhor sobre o próprio corpo e tenta trabalhar novos interesses aos matriculados, geralmente adolescentes e idosos. Temos a ajuda com oficinas de desenho e as duas fazem um trabalho maravilhoso juntas, ao menos é o que parece.
No quinto dia Tamos vem comigo para a Biblioteca Central cuidar dos arquivos da região. Como atualmente todos os arquivos já estão digitalizados e raramente algo físico é utilizado, a biblioteca serve mais como um museu de tempos antigos. Objetos como algumas armas antigas, primeiros artigos de “luxo” que atualmente nem faz sentido pensar em luxuoso, computadores antigos para sites de busca antigos, e enfim. Literalmente eu me sinto congelado no tempo lá dentro e é ao mesmo tempo assustador e maravilhosa a quantidade de informações que eu aprendo diariamente. Quando Tamos vem comigo eu já separo alguns arquivos um dia antes para que nós possamos folheá-los quando ela vir. Lemos esses arquivos como se fossem histórias fictícias, mas aconteceram de verdade e às vezes procuramos juntos por evidências de tais fatos, ou articulações entre os fatos. Ela realmente tem olhos de águia.
O sexto dia em diante ela vai ao Centro de Ensino e Cultura do povoado. Ela passa dez dias seguidos indo para lá, para “criar o sentimento de pertencimento à nossa cultura”, como se viver na nossa família já não fosse demais.
Bem, devaneei um pouco enquanto andava e quase me bati na mesa enquanto segurava a mão dela. Soltei-a e fui me sentar, e ela seguiu para a cadeira dela, do outro lado da mesa. Agora estamos todos na mesa e Quiostono pede desculpas para Tamos movendo os lábios, que sorri para ele e responde com um dedo levantado: o sinal para que ele desse doces para ela depois. Ele sorri e responde com sinais que eu não conheço, mas ela entendi e solta um risinho baixo.
– Bom, já que estamos todos aqui, vamos proferir as palavras sagradas. Sim? – Pergunta Urdim. Todos nós nos damos as mãos, até mesmo Quiostono, apesar de mal grado. Assim que todos fechamos os olhos, Urdim começa, e nós cantamos seguindo ele:
“A noite começa por ti A vida termina em ti Ó Impotente Huçoriamo Calor Que Tudo Toca Que Teus Olhos Emanam Energia Que Sua Voz Seja Ouvida Que Nós Possamos Viver Nessa Vida Calma de Paz Para Nunca mais Faltar comida Para Nunca Mais Faltar Morada Para Nunca Mais Faltar Saúde Para Nunca Mais Voltar ao Passado Assim, Agradecemos Por Ser Real E Realmente Sentiremos Sua Potência”.
E a partir daí é suposto para que peçamos algo ao Huçoriamo, mas eu cansei no meio do rito. Abro meus olhos e encontro Quiostono com a cara de entediado olhando para frente. Ele me vê e esboça um sorriso.
“Feche os olhos”, ele diz, sem sair som.
“Não, cansei”, devolvo a ele.
“Você é do mal”, ele diz.
“Não conte para ninguém”, eu falo.
Antes que Quiostono pudesse responder, todos abrem os olhos.
Eu tinha medo de te perder, seu idiota. Você era tudo para mim. Eu fiz minha vida ao seu redor e assentei minha pedra ao lado da sua. A minha vida dependia do que você e nossos amigos pensavam de mim e meu humor dependia de como nós estávamos. Eu estava vivendo uma fantasia, mesmo que seja tóxica. E você nem sabia disso.
O tempo passou e nossas vidas foram mudando. De repente não estávamos mais na mesma situação. Minha vida não cabia mais ao redor da sua. Sua pedra rolou para longe da minha. E o frio da solidão foi uma experiência de Curitiba no nordeste.
Eu o culpo. Eu quero gritar para todos os ventos que é culpa sua. Você me abandonou, homem. E eu não sabia o que fazer sem alguém do meu lado. Esses sentimentos, no entanto, não são completamente verdadeiros porque eu também te amo. Bastante. O suficiente para, mesmo depois de todo esse tempo, não deixar de amar.
E eu agradeço por esse tempo sem você. Eu adquiri força interior, planejei minha própria vida, estou tentando pensar na minha auto-suficiência e na minha autoestima. Não preciso mais das opiniões de pessoas ao meu redor para basear a minha vida. Estou crescendo de verdade sob os limites que agora eu conheço bem. Não sou tão ingênuo quanto antes.
Por isso que eu entendo os atritos. Eu realmente compreendo como é se desestruturar e que o espaço não fez bem somente pra mim. Eu não me importo mais com essas feridas porque elas se curaram. Brigas por brigas acabam nas palavras.
No entanto eu não consigo perdoar o tempo que está levando para você se desculpar sinceramente sobre tudo isso. E eu não quero ser a pessoa dando o braço a torcer. Toda vez que eu vejo você tentando falar comigo eu tenho medo de voltar a me relacionar contigo e parar na relação que tínhamos antes. E isso é muito doloroso porque eu quero muito te abraçar e conversar sobre tudo contigo.
Eu sei que eu preciso largar a mão da incerteza, que é um “leap of faith” (Spiderman into the Spiderverse), mas eu não posso pular se eu não tiver certeza de onde eu estou indo. Por mais que eu ainda te ame. Desculpa. Se eu tivesse essa certeza, eu fingia que nada tinha acontecido…
Mas se eu tinha medo de te perder, agora que já te perdi eu tenho medo de ter medo de novo. Faz sentido?
Eu amo como esse álbum de BaianaSystem consegue ser ao mesmo tempo único, atemporal e significativo. Cada desenho, cada símbolo, cada referência é de extrema importância. O Futuro não demora por BaianaSystem.
Por detrás da sua mão, solto um gemido baixinho. Eu estou acordado. Não consigo me desvencilhar da consciência nem que seja um segundo. Você consegue. Você está em outro mundo agora, muito longe para que eu consiga ter coragem de te colocar aqui embaixo, para que possa me ouvir.
Continuamos. Eu sinto a dor, mas você diz que é passageira. Eu peço para que você me ajude a suportar, mas você quer viver isso sozinho. Eu já estou acostumado. A dor cresce, mas o prazer vem junto e eu me contento.
Penso em como ele é gostoso. Em como é sorte minha tê-lo. Em como sou inferior àquele corpo que agora me consome. Eu não sou? Ele sorri e me beija. Eu tento segurar esse beijo para não chorar. Ele não tem tempo para beijos, penetração é mais importante.
Ele goza. Respira. Sorri. E me leva para tomar banho com ele.
Eu respiro fundo. Levanto feliz. Tento conversar e elogiar. Tomo banho. Vou para minha casa.
Talvez a culpa seja minha de não gostar. Ele gostou. O sexo foi bom, não? E ele foi gentil e educado comigo…
Tiveram outros que não foram…
Coloquei meu barbeador como foto. Eu sou bem peludo, então é necessário que eu tenha um.
Todo sarnento, maltrapilho, desajeitado, Todo feio, sem vergonha e derrotado Nojo escorre por sua vilanesca boca Sua mente? Suja, desalmada, também oca
O tempo passa e continua idiota Suas falas, vidas perdidas, nada importa Continua a praguejar todas as beldade E não vale a surra que o diabo te bate
Dono de toda verdade, o verdadeiro machão Sentindo todo o poder de se ser Se recusa a ouvir um mínimo “não”
Com muita força, mas lhe falta o saber Homem cis já se questionou Se uma Travesti iria TE querer?
Essa é a capa do álbum MONTERO do Lil Nas X. Incrível como é negado ao homem negro o sentimento. Eu escrevi esse texto pensando se conseguia fazer um soneto com sílabas contadas, mas eu nunca terminei de revisar, então vou mandar assim mesmo. Melhor que mofar no meu celular.
Eu fui destinado para ser um infeliz. As marcas da saudade de algum tempo longiquo de utilidade agora são só cicatrizes que doem continuamente. Minha cabeça não aguenta mais. Eu sou só um casulo esperando para que a doce e linda borboleta possa quebrar e destruir por completo algo que não lhe serve mais. O que estou fazendo comigo mesmo? Minhas mãos calejadas de tanto nada, minha cabeça confusa de tanto barulho e eu não consigo mais me ouvir. Busco um sonho irreal e na verdade eu mesmo já me perdi e nem sei quando comecei a me perder. A história de Ícaro é minha algoz e essa é a única da qual eu posso ser personagem principal.
Deitado, jaz eu, imóvel pela monotonia e inutilidade que me cerca. Futilidade também, seja pelos sentimentos ou pelas pessoas. Não que eu ache meus sentimentos fúteis, pelo in contrário, acho que ninguém os merece.
Estou trancado sozinho, preso e ignorado. Realmente me sinto como um objeto estático numa casa de ricos, que foi comprado por ser majestoso, mas que não tem valor nenhum. A pena da minha asa constantemente me lembra do corvo, que paira no teto de minha casa desde que era pequeno. Viu-me crescer e esteve comigo em muitos dos meus momentos. Ele me conhece de perto e eu não o renego. Apesar de ter muito medo dele, eu não fujo. Eu o escondo e o mantenho comigo, na verdade já não sei se sou eu que estou preso a ele, mas estamos juntos querendo ou não.
Agora eu evito me xingar ou me maltratar porque eu mereço melhor, mas não sinto que eu mereça. Eu me sinto só, me sinto inquieto, me sinto triste e cansado. Queria que alguém aparecesse e me tirasse desse buraco que eu me enfiei. Queria acordar um dia e todos meus pensamentos maus sobre mim tivessem desaparecido. Queria muito não me destruir, mas eu não sei mais quem eu sou ou o que eu quero. Eu não sei nem o que sonhar. Eu não tenho perspectiva. Sinto as asas dele sempre que me lembro que eu gastei minha existência de forma ridícula e infantil. Ouço-o quando penso sobre o quão atrasado eu estou em questão aos meus amigos, sobre o quão afundado eu estou.
Eu sou um problema, uma interferência, um incômodo, uma agonia. Eu realmente não vejo porque continuar. Eu não tenho um futuro. Eu não tenho amor, não sei como demonstrar isso, não sirvo pra confiar nem ser confiado, não sirvo pra ser amigo. Sou completamente dependente e só vivo por conta de que minha existência interfere na vida dos outros inevitavelmente. Já faz uns anos que eu tô correndo de todo esse pensamento, mudando minha perspectiva, tentando colocar outras coisas em jogo, me colocando em coisas novas, mas toda vez que eu faço isso, eu quebro. Algo dá errado. Eu destruo alguma chance. Eu não sirvo pra ter chances.
Como o Ícaro da História, eu sirvo como exemplo e destino falho, de vida interrompida devido aos erros do passado. Assim como Ícaro devia ter ouvido o pai, eu devia ter feito algo, mudado minha vida, antes que eu caísse nesse buraco.
A borboleta é mais bonita que o casulo.
O corvo venceu hoje.
Esse é Apolo, meu cachorro. Minha psicóloga não entendeu esse texto direito. Acho que ela não assimilou o fato de eu ser o casulo e a borboleta ser outra coisa.
Respira fundo e continue sorrindo. Aelium sabia que, enquanto pudesse respirar, ele conseguiria construir o futuro dele. E essa frase nem era dele, mas de sua avó. Infelizmente nunca pôde conhecê-los, pois ele nasceu no mesmo dia em que seus avós morreram.
Sua familia era uma isolada familia de pescadores. Num dia onde o céu estava muito límpido e a água estava bastante calma, os anciãos insistiram em sair para pescar. Eles sabiam que havia uma tempestade das grandes vindo. Sabiam não, contavam com isso. Seus filhos não sabiam e nem precisavam saber, mas havia um segredo em sua familia: eles eram herdeiros de um benevolente Djinn. Haviam diversas histórias que foram passadas por gerações sobre como a família Windrunner foi poderosa e influenciou a história de Calimshan em determinadas cidades, seja lutando contra a corrupção ou se tornando parte dela.
Com o poder e a glória vem o reconhecimento, e os dias glorioso passam como minutos diante daqueles que os aproveita. Descobriu-se que aqueles grandes feitiços e habilidades haviam desaparecido entre as gerações perdidas, tornando cada vez mais difícil viver sob a ideia de ter a possibilidade de ser alguém com poderes do Djinn.
Preocupados com o que aconteceria, eles foram para a costa, mudaram de nome, construíram sua casa e vivem lá por gerações sendo pescadores e marinheiros. As histórias continuavam sendo passadas, mas apenas dentro do seio familiar.
Os Avós de Aelium foran diferentes: eles nunca contaram aos filhos sobre a herança que a mãe tinha, porque afinal ela havia se decepcionado pois, apesar de ter cabelos brancos por toda a vida, nunca teve nenhuma habilidade extraordinária. Portanto ela se isolou com marido e os fez nunca saber do passado de sua família.
A geração que nasceu em seguida não tinha noção dos poderes. Julian era um menino forte com olhos bem lilás e um sorriso traquinas, enquanto que Eloíse era uma garota quieta e bem reservada que se predispunha apenas para fazer o que era necessário. A Eloíse nunca manifestou os poderes, como a mãe, mas Julian… ele tinha uma característica própria: Seus saltos eram gigantescos. Ele podia pular até o telhado de uma casa, caso quisesse. Seus pais diziam que era porque ele tinha muita força nas pernas e ele deixou por isso mesmo.
E Julian cresceu e se casou com uma mulher chamada Laureen de uma vila próxima em que eles vendem peixe. Laureen era uma mulher esperta e muito alegre que via o mundo com olhos bondosos e tratava todos como iguais. Julian aprendeu muito com ela e conseguiu compreender que a vida tem mais sentido quando fazemos o bem para as pessoas em nossa volta.
Eloíse se cansou da vida de pescaria. Um dia, logo depois que completou seus 16 anos, foi para a cidade grande de Calimporto e nunca mais voltou. Julian tem notícias que ela continua lá, mas nunca mais a viu.
E eles foram navegar. Disseram que iam pescar, mas eles sabiam que aquele não era um bom dia de pesca. Quando o mar está calmo é porque uma grande tempestade está por vir e quando essa tempestade vem, o pior lugar que devemos estar é dentro de uma canoa com varas de pescar tentando fisgar uns malditos. Mas aquela não era uma viagem de pesca.
Do âmago do seu ser, Lorena sentia que devia ir de encontro a esta tempestade. Ela nunca havia sentido isso em toda sua vida: na verdade, no auge dos seus atuais 68 anos, ela não sabia mais se não havia despertado os poderes ou se simplesmente não deixou que eles chegassem a ela. Sempre ríspida e autoritária, nunca deu espaço para brincadeiras e sempre esteve estressada em cada momento de sua vida. Mas, naquele momento, ela estava calma. E sabia que havia chegado a hora.
Falou a Julian tudo que precisava falar: que o amava, que amava o neto que iria ter, que a vida pode ser muito mais significativa e ampla do que qualquer horizonte pode oferecer e que, para descobrir sobre isso, era necessário se desprender daquilo que mais nos atormenta. Respirar e entender que, enquanto respirarmos, podemos viver e transformar nossas vidas. Ser leve para entender as injustiças do mundo e ser forte para traçar nosso caminho por elas.
Julian não entendeu direito porque sua mãe falou tanto e tantas coisas do nada, mas ouviu e assimilou cada palavra, afinal Dona Lorena nunca tinha sido tão clara e simpática na vida como naquele momento.
E eles foram. Quando eles foram pescar, como qualquer dia, Julian foi à vila comprar utensílios para ajudar no parto de sua mulher. Uma banheira, panos… Está chovendo? Ele olhou na rua e vê que o céu está acinzentado violentamente e leves pingos de chuva começam a cair, mas ele sente que os pesados estão a caminho. Com sua esposa, ele começa a ficar agitado em preocupação com os pais no mar – coincidência ou não que eles estão numa tempestade? Os dois eram muito experientes para cometer esse erro. Quando a chuva ficou mais forte a preocupação virou desespero e ele não tinha mais paciência para comprar as coisas. Agilizou Laureen para ir aos cavalos e foi direto para casa.
Chegando em casa ele não tinha mais visão do barco dos pais, então pensou que foram para casa – macacos velhos não cometem erros – e, assim que ajudou Laureen a descer do cavalo, a bolsa estourou. Novamente desesperado, ele a colocou na bamheira dentro de casa e foi a casa dos pais, que ficava perto… Mas não tinha ninguém. Sem se preocupar com o que aquilo significava no momento, afinal ele não parou para ligar os fatos, ele saiu pela vizinhança procurando alguém que ajudasse. Depois de uns 20 minutos ele achou uma mulher que, apesar de nunca ter realizado de outra pessoa, tinha 6 filhos e sabia como funcionava um parto.
Julian esquentou a água, e a colocou na banheira. A mulher se chamava Fabíola e ela só tinha olhos para Laureen, que estava se derretendo de força e desespero. “Respira, respira e EMPURRE!” dizia Fabíola, enquanto Julian segurava a mão de Laureen, rezando aos céus que tudo desse certo. Pedindo todo o bem para aquele parto, para que seu filho nascesse tão forte quanto a tempestade que assolava sua casa de madeira naquele momento. E seu desejo foi eventualmente realizado. Laureen conseguiu dar à luz a um menino com a pele escura e olhos lilás igual a Julian, mas com os cabelos brancos quase transparentes da sua avó. Lembrando das palavras de sua mãe, eles decidem colocar o nome de Aelium “Éolo”, para que ele seja sempre leve e consiga andar na corda bamba da vida.
No entanto, Eolo e nem Julian conseguiram contar para Lorena sobre o nome.
Depois de falar com seu filho sem falar da herança Djinn, ela posteriormente iria se arrepender disto. Antes de falar com seu filho, ela teve conversou com seu marido sobre a situação: “Romildo, acho que devemos ir ao mar hoje.” E contou sobre ter sonhado sobre uma grande tempestade se aproximando, sobre sentir que precisavam ir de encontro a ela e sobre como ela entendia aquilo como sua sina. Ao invés de impedí-la, Romildo a apoiou. No auge dos seus 75 anos, ele apenas disse “Já vivi 46 anos contigo. Qualquer lugar que você for, eu irei. Sou seu amor e nunca deixaria você sozinha”. E eles foram, no pequeno barco improvisado – não iam desperdiçar o melhor barco que tinham para isto – e foram pescar. Eles realmente pescaram no meio tempo que a tempestade não vinha, e conversaram como se conheceram, como criaram seus filhos, como Julian agora teria um filho e apenas conseguiram se sentir honrados. Claro, Eloíse havia desaparecido e Lorena foi muito mais dura do que ela queria ser durante a criação dos dois, mas aquele não era um momento para se arrepender. Lembraram das primeiras palavras dos dois, lembraram do primeiro sexo que tiveram, de como o peixe cozido de Lorena havia melhorado com o tempo e como haviam aprendido a pescar. Lembraram de seus pais e lembraram das histórias. Quando menos esperavam, as ondas estavam gigantescas e eles mal conseguiam se segurar no barco. Olharam aos céus e agora no horizonte contrário a costa havia um furacão.
Ao ver o furacão, Lorena entendeu o significado e começou a remar até ele, mas Romildo a impediu. Disse que era suicídio e que, se morresse, ao menos esperava ser encontrado. Um furacão arrancaria a pele de seus ossos e simplesmente o esfacelaria. Mas Lorena sabia que aquilo era o que ela sempre buscou e precisava ir de encontro a ele. “Se você quiser deixar o bote, eu não o julgarei, mas eu preciso ir até lá”. E então Romildo pede desculpas e salta do bote, sendo engolfado pelas ondas violentas tentando chegar à margem.
Dona Lorena julgou a covardia de seu marido e se sentiu traída, no entanto não pensou muito sobre isto. Diante uma tempestade furiosa, ela remou. Enfrentou ondas enormes, ventos cortantes e um frio torrencial sozinha. Quando estava chegando perto do furacão, uma onda do tamanho de uma torre a afundou e destruiu seu barco. Ela teve apenas o tempo de segurar o ar antes de cair do barco e afundar. E afundou.
Ela se perguntava quanto tempo duraria até perder o ar de seus pulmões e começar a sufocar com a água, mas já havia passado 10 minutos e isso não havia acontecido. Ali em baixo a visão era maravilhosa: o mar revolto acima, os peixes, a escuridão em volta, o silêncio. Aquilo inspirava Lorena. E o tempo passou enquanto ela afundava, mas então ela entendei que não era o seu fim e desistiu de afundar: comecou a nadar.
Não entendia porque, mas não perdia o fôlego – será que essa foi sua herança? 65 anos de ódio por ser nada além de uma mulher de cabelo branco para saber que seus esporros eram bem dados porque ela tinha fôlego infinito.
Chegando na superfície, ela respirou novamente e percebeu estar no olho da tempestade, uma área aberta e sem chuva no meio de muito caos e demonstração da força dos ventos. Neste meio, ela vê um pequeno ser no alto do céu, mas não é avistada por ele e nem consegue saber se aquilo era real ou só coisas de sua cabeça perturbada. E, quando tenta ver melhor, é engolido por uma nova onda. Esta a pegou de surpresa e é sucedida de muitas outras. Mas a velhinha se preparou para isto por toda sua vida: lutar contra os ventos era seu destino. Infelizmente, era uma luta unilateral e bastou sua cabeça bater numa pedra para perder a consciência e morrer no mar. Seu corpo nunca foi achado. Romildo conseguiu sobreviver, mas, por medo do julgamento doloroso de seu filho, forjou sua morte com a esposa e fugiu para outra cidade.
Essa é uma arte de nosso mestre de RPG para lembrarmos de nosso grupo. Aelium tem cabelos brancos que se desfazem no ar nas pontas como fumaça. Sua pele é bem escura, quase disfarçando o fato de que é azul. Ele mede mais ou menos 1,80 e gosta de roupas bonitas. É um feiticeiro genasi do ar. (Para verem mais artes dele visitem o @mario.exe no instagram).
Desenho de Klaus da série “Umbrella Academy” pelo meu amigo Fritas.
Essa frase me tocou. Depender diretamente dos outros para me dar algum sentido de viver já não faz mais sentido. Preciso seguir meu caminho, traçar meus objetivos, viver minha própria vida. Fugir de viver só me faz deixar mais lento o presente e não me impede de lidar com meu futuro. Preciso me agarrar a essa vontade de viver. Preciso internalizar que eu me amo e que não existir não faz sentido mais – pois eu existo.
Para mim, pensar sobre essa frase é mais do que deixar viva os momentos e pessoas que já morreram dentro de mim para celebrar suas vidas o máximo que eu puder. É saber que visões de mundo são únicas e especiais de sua forma. É aprender a cuidar de meus próprios pensamentos, mesmo os mais vis e assustadores, e fazer as pazes com esse Ícaro infeliz e negligenciado. É cuidar das relações que eu ainda tenho aqui, ao menos no limite do que eu possa fazer e do que as relações suportam. É ser verdadeiro e fiel comigo mesmo.
Portanto, quando as minhas memórias morrerem comigo, eu estarei satisfeito, pois sei que não há nada que um homem de 10 mil anos possa ver que um de 44 anos já não tenha visto. E eu nem sei o meu limite e nem quantas coisas verei nessa vida.
O perfume das flores já acabou. Aquele beijo em meio as árvores só existe no passado. Aquelas conversas inspiradoras se tornaram cinza. O sentimento agora murchou. Mas agora não sou mais o que eu era antes e duvido que você seja também, o que só significa que o perfume das flores daquele dia acabou. Por mais que eu me recorde da vividez das cores, da rigidez do caule, dos seus olhos olhando os meus naquela tarde, essa cena nunca mais vai acontecer. E eu nunca mais vou sentir o seu cheiro.
– Entre já! Cale a boca e se esconda. Eles vão chegar a qualquer momento.
Tadeo nunca teve um momento de paz na sua vida. Seu pai mandava ele se esconder enquanto a Guarda Real chegava novamente. Cinco homens em seus cavalos, todos em armadura vestindo os símbolos da coroa. Desde que Tadeo se entende por gente esses homens vão até o vilarejo oferecer “a proteção da coroa” para nós em troca de tudo que temos: dinheiro, comida, móveis, amuletos ou até nossa própria humilhação para a satisfação deles. Era insuportável a presença deles e até uma única palavra proferida por eles já causava em Tadeo profundo ódio. Aquela vila, diziam os anciãos, outrora acolheu grandes heróis elfos em momentos de necessidade deles. Os vilões oferecemos abrigo, comida, remédios e eles, como troca, disseram que os espíritos trariam paz a essa terra e um deles, na lenda era um grande mago, conjurou um grande selo num lugar dentro da floresta. A partir desse dia os moradores seriam eternamente gratos por eles e sempre rezaríamos e traríamos coisas para Ele. A melhor parte da colheita sempre foi reservada a Ele, todos nossos ganhos, nossas perdas e despedidas. Ele sabia de tudo porque sempre estiveram com Ele. Eram abençoados por isso, pela floresta, mesmo sem saber direito o que aquilo era. Assim o vilarejo permaneceu em paz, com comida suficiente e os viajantes sempre eram recebidos de braços abertos, independente das maldades que poderiam fazer e, no final, nunca machucavam os moradores. No entanto, quando o avô de Tadeo era pequeno, aconteceu uma grande batalha perto daquela cidade. Ela permaneceu intacta e a floresta sofreu pequenas avarias, no entanto a região em volta deles foi bastante castigada. Prevendo ladrões e charlatões, a coroa gentilmente ofereceu sua proteção para que aquela pequena vila pudesse passar por aqueles momentos sem serem afetados negativamente por uma batalha que nem tiveram participação, diferente das outras vilas da região. O discurso era bonito, mas perigoso. O preço era muito alto e os anciãos da época percebiam que aquilo era praticamente dar toda a vila para aqurles nobres fazerem o que quiserem com eles. No entanto, as lideranças pensavam diferente. Temendo que os poderes do Espirito fosse algo muito inseguro para se planejar sobre o futuro e almejando o crescimento da vila com o auxílio da coroa, os líderes votaram em segredo e assinaram o acordo. Claro, os anciãos ficaram muito irritados, mas não puderam fazer nada ao verem as tropas se mudando para um lugar próximo à vila. Os primeiros contatos foram amistosos, no entanto a cada troca de Companhia de Cavaleiros que cuidavam da vila, as coisas ficavam piores. Primeiro eles começaram conseguindo pagar ao auxílio, mas logo eles não tinham mais como conciliar agradar o Espirito da Floresta e os Cavaleiros ao mesmo tempo. A liderança da vila, agora ouvindo os anciãos, decidiram parar com aquele contrato, no entanto eles não tinham mais o poder para fazer isso. Os Cavaleiros estavam lá e eles precisavam de comida e suprimentos, coisas que a nobreza achava que aquela conhecida vila de pessoas gentis dava. E começou a exploração a partir deste dia. Pessoas que eram consideradas como artesãos consertavam armaduras e armas para a cavalaria. Os outros buscavam comida, amuletos, caçavam… Tudo para que os Cavaleiros pudessem se instalar. Se alguém desobedecesse, era levado de lá e nunca mais voltava. Se fizesse qualquer ato que eles declarassem rebeldia, eles humilhavam sem pena. Os Cavaleiros já não ligavam mais para crimes que qualquer um cometia ou para qualquer senso de justiça pois, contanto que tivessem o que queriam na hora que queriam, eles não reclamavam. Com o passar do tempo a situação foi piorando. Eles não tinham mais tempo para fazerem coisas pessoais e o simples ato de ir para a floresta rezar foi deixando de ser comum e passando a ser cada vez mais raro. No entanto esse não era o caso de Tadeo. A família de Tadeo seguia uma longa linhagem de Anciãos daquela vila, sempre repassando todas as informações, salvaguardando artigos considerados preciosos e preservando tradições que não deviam ser quebradas. Todavia a geração do avô de Tadeo quebrou com todas as tradições por quererem modernidade para a cidade e aceitarem aqueles inquisidores lá como realmente heróis. O pai de Tadeo já via aquilo como uma grande exploração, no entanto se sentia muito impotente e cedia a qualquer pedido dos Cavaleiros. Por outro lado, a mãe de Tadeo via toda aquela descrença como um sacrilégio à memória daquela Vila em tempos de paz e fazia questão de ensinar a Tadeo tudo que sabia sobre os antigos costumes, dos segredos e histórias sobre aquela vila ou sobre magia e encantamentos. Claro, eles não tinham nada que os guiasse nessa escuridão, apenas o mais profundo que suas imaginações poderiam criar. Apesar de explorados, a mãe de Tadeo ensinou a ele como rezar na Marca do Espírito da Floresta e sempre levava Tadeo para dar o mínimo da refeição do dia para Ele. Mas não era o suficiente. Aqueles ultimos anos… Eles estavam em um dos piores momentos em relação a alimentação que aquela Vila já passou em sua história: os animais haviam desaparecido, as plantas ou não cresciam ou cresciam pestilentas, os acordos com as outras vilas enfraqueceram e ladrões começaram a espreitar. Tadeo cresceu nesse meio e sua única motivação para seus dias era tentar não morrer de inanição e trabalhar para aqueles desgraçados. Boatos que chegaram a eles diziam que um dos soldados havia visto Tadeo entrando na floresta e, ao acompanhar, viu o santuário e todo aquele tesouro em volta. Antes que pudessem destruir o santuário, iriam atrás daquela família por manderem o santuário vivo. E ali eles estavam.
Era final da tarde e cinco homens, todos com armadura de couro remendadas da melhor forma possível apareciam de pé em frente à humilde casa de Tadeo. Nenhum deles parecia ser realmente importante, mas serviam para dar o recado. O mais gordo deu um passo para frente, assumindo o papel do líder deles. Tadeo o reconhecia como Guigo-Cheira-a-Bosta, apesar de que o nome real dele era Guilhermo Lebourneu. – Com toda a… Licença – disse Guigo afetadamente, ao passar pelos vegetais podres que estavam na banca do pai de Tadeo – Eu acredito que saibam porque estamos aqui. – V-Vieram pelos vegetais, presumo – Diz Hernando, o pai de Tadeo, entre pigarreios – Por mais que eu presuma realmente que isso é o melhor que vocês podem oferecer – diz, enquanto pega um rabanete podre do balcão – Eu não iria comer isso nem que vocês pudessem me obrigar. E todos os cavaleiros riem junto ao líder. – Então pelo quê está aqui? – Ah, meu caro. Então não ouviu os rumores? O fato… É que Timora sorriu para nossos corações. E estamos apenas agradecendo a ela pela oportunidade. – Não fale dos Deuses como se eles servissem a você – Diz Manuella, a mãe de Tadeo – Mas eles não me servem mesmo! – Diz Guigo, agora com uma sobrancelha arqueada – Os serventes são vocês, meus caros. Meus amigáveis… Ajudantes – Ao dizer essa palavra ele dá uma pequena risada, como se estivesse deliciando-se com o poder de chamá-los de escravos. – Com licença – Uma recruta se aproxima um pouco de Guigo e diz – as ordens são expressivamente levar os três familiares para o Duque. No entanto, só vejo dois familiares presentes. Neste momento, o coração de Tadeo apertou. Ele correu para o porão escondido em que seus pais guardavam os segredos de seu povo e se escondeu lá, se fechando por dentro e percebeu que de lá ainda dava para ouvir o lado de fora. Mas seus pais ainda achavam que ele estava logo atrás da porta e reagiram nervosos com essa afirmativa da recruta. – Como assim nos levar?! – Manuella começa a levantar a voz – Demos tudo que pediram. Nunca questionamos até o mais absurdo dos favores. Meu marido já dançou nu no meio da praça por horas para fazer vocês rirem. E agora isso? Expliquem-se. Expliquem o motivo. Por favor. – O modo em que ela falou não demonstrou qualquer sinonimo de hilário, mas pelo contrário. Foi entre o leve desespero e o cansaço de uma mulher que não aguentava mais aquela vida. Aquilo não era uma ordem expressiva, era mais um pedido, como quando algum infeliz tenta falar sobre seus sonhos antes de ser enforcado. – Moça, desculpe-me por trazer essas notícias tão infelizes – Começa a falar a Recruta -, mas não temos escolh… – Com licença, minha querida. Eu ainda não terminei – E Guigo fala isso alto o bastante para calar a recruta e para chamar mais ainda a atenção das pessoas na Vila. E se volta para a mãe de Tadeo – Já que se preocupa tanto com o nosso bem-estar e guarda essa memória tão carinhosamente, então que tal vocês dois dançarem juntos para nos entreter? Que belíssimo show, não seria? Pela primeira vez, nenhum dos dois pais tiveram coragem para falar algo. Depois de um intervalo em silêncio, Guigo continuou. – Eu entendo o que estão pensando agora. “Que homem horrível e desprezível! Ele nos trata como bonecas! Nós devemos ter mais dignidade do que isso!”. Bom, vou adiantando o pensamento de mais tarde: Vocês não têm dignidade. Você mal conhecem qualquer coisa sobre isso e mesmo gastar palavras para tentar explicar seria um desperdício de tempo. Porque sim, vocês são nossas bonecas. E enquanto nós – E ele fala mais alto, para poder amedrontar quem estivesse por perto assistindo a cena – estivermos aqui, vocês se subjugarão a nós! Porcos imundos! Comendo coisas podres porque não conseguem nada melhor! Eu tenho uma vida boa porque eu sou um soldado e nós sacrificamos nossas vidas pela segurança de todos vocês! Tudo que pedimos é submissão e obediência, além de uns poucos favores e olha como nos tratam? Com mentiras! – E, gritando essa última palavra, ele estapeia o pai de Tadeo. – Sabemos que escondem um santuário. E sabemos que ele tem grandes riquezas inimagináveis de centenas de anos. – diz outro soldado alheio, se sentindo meio constrangido com a demonstração de força do Guigo – Não é nada pessoal a vocês. Só queremos saber onde está este Santuário. – É, essa porra desse Santuário! Eu ouvi o seu menino comentando com os amiguinhos dele sobre isso! – Diz a voz fina do soldado mais magro da equipe. Tadeo reconheceu logo Zé-cabeção, ou Joshua Allegatieri. – Fui à floresta seguindo ele e não consegui encontrar, mas o menino estava carregado de jóias. Eu vi com meus olhos! – Talvez precise de olhos novos… – Diz a recruta, com um sorriso para os pais de Tadeo, sem resposta de volta. – Acho que você está atrapalhando, Miriam – Disse Guigo, intimando ela a ficar quieta, mas ela não fica. – Eu só acho um absurdo isso. Estamos a décadas nessa vilas e nunca ouvimos falar sobre um Santuário? Nunca chegamos nele? E como una criança vai ter tantas jóias se os pais dela passam fome todos e comem vegetais podres? Você não está sendo lógico, sir Lebourneu. – Ela fala tudo isso em tom de provocação, o que faz Guigo só se irritar mais. – Tirem-na daqui. Eu e Joshua vasculharemos a casa. Se nada existir de criminoso, só cumpriremos nosso trato e os levaremos para que o Duque cheque esse rumor ele mesmo. E, mesmo com resmungos de desaprovação sobre o quenele estava fazendo, ela por conta própria sai de lá, junta com os dois outros soldados. As pessoas se aglomeram ainda mais, mas não dizem nada. Apenas pequenos murmúrios são ouvidos aqui e ali, mas o silêncio impera. – Onde estávamos? Ah, sim. – E Guigo invade com tudo a casa de Tadeo.
Ao arrombar a porta, ele percebe logo que não era necessário. A casa era simples demais. Era uma casa que possuía uma grande sala com tudo e os cômodos eram divididos através dos tapetes, dos quadros e de umas paredes de madeira bem fina. Ele olhou ao redor e vasculhou um pouco. Logo percebeu que não havia nenhum resquício de qualquer tipo de pedra preciosa nem nada que ele estivesse procurando. “Aqueles dois devem ter escondido e agora estão me fazendo de besta” e, com esse pensamento, ele começa a destruir a casa inteira. Com as machadinhas bem polidas que guarda em sua armadura de couro, ele começa a quebrar tudo: paredes, móveis, lembranças da Família, potes com unguentos, heranças de família como um arco antigo sem corda que pousava na parede e qualquer outra coisa que para ele parecia “suspeito”. Manuelle tentou correr para salvar suas coisas, mas Hernando e Joshua seguraram ela. Tadeo só conseguia ouvir o choro desesperado de sua mãe enquanto aquele monstro destruía tudo. Quando finalmente Guigo se acalmou, a casa apenas prendia o telhado no teto. Tirando isso, quase tudo estava destruído ou ao menos em péssimas condições. Os pais de Tadeo estavam na porta abraçados sem dizer uma palavra. – É, realmente Miriam estava certa. Vocês só são um bando de miseráveis mesmo. – Espere um momento – Disse Joshua – Onde está o garoto? Até agora ele não apareceu. – Ele tinha ido brincar quando vocês apareceram. Agora eu mesma não tenho certeza onde ele pode estar. Devido a desgraça que causaram à minha casa eu nem sei se é justo chamá-lo aqui novamente! – Manuella novamente se impõe contra aquele brutamontes, agora imbuída de uma coragem que ela não sabia de onde vinha. – Quem você pensa que é para falar assim comigo? Sabe quem eu sou? Sabe de onde minha família é? – Guigo volta para ela, agora com um brilho sombrio no olhar. – Eu sei o suficiente sobre você. E nunca vai importar qualquer nome que sair de sua boca, você ainda vai ser um miserá… – Tadeo escuta um corte sendo feito e sua mãe parando de falar. Agora seu pai está gritando, obviamente chorando. Se ele não saísse naquela hora, poderia ser pior para os pais dele. Sabia que aqueles idiotas iriam seguir ele e, afinal de contas, tudo era culpa dele, então cabia a ele resolver. Ele destrancou. O Barulho de fora tornou imperceptível o som da tranca. Rapidamente, ignorando toda a bagunça que a casa estava, ele pegou um livro antigo que estava bem no fundo, pegou algumas gemas bem coloridas e saiu. Primeiramente, o que viu era traumatizante: toda sua casa era destruição. Viu sua mãe, viu sangue, viu seu pai e percebeu que ele olhou de volta. Logo os outros dois olharam também, mas foi o tempo de Tadeo sair pela porta dos fundos com tudo que tinha nas mãos e ir direto para a floresta. Guilhermo e Joshua o seguiram, deixando o povo da vila acompanhando a tragédia que tinha acontecido.
Tadeo corria o mais rápido que podia no meio da escuridão da noite, mas aqueles dois eram mais velozes. Ele tentou utilizar a mata da floresta ao seu favor, mas os soldados já tinham treinado perseguições antes. Numa curva, ele ganhou tempo o suficiente para se esconder em um arbusto e despistou eles por uns minutos. Seu coração batia ferozmente e sua respiração estava muito forte, mas ele tinha que continuar correndo. Mesmo hiperventilando, ele continuava a correr. Mesmo com os pés feridos, mesmo cansado, mesmo sem saber o destino ao certo de seus pais, a cada palava que vinha deles, cada barulho que escutava, era um motivo para correr mais rápido. Até que ele conseguiu chegar no Santuário. Aquele era o lugar mais sagrado o possível para Tadeo, portanto ao chegar perto ele começou a andar com mais calma, tentando controlar a respiração. O santuário era um dos lugares mais escuros da Floresta e Tadeo conseguia reconhecer pelos relevos que tinham no chão. Era um grande círculo com diversas runas desenhadas. Dentro do círculo haviam três árvores grandes e mais três brotos que ele e sua mãe haviam plantado. Apesar de ser no meio da floresta, raramente animais ultrapassavam aquela faixa na terra. Assim que chegou, Tadeo fez uma referência e enterrou as gemas que segurava no chão de dentro do Círculo e foi direto para a árvore do meio. Cada árvore possuía seu próprio conjunto de runas ao seu redor e, de acordo com a mãe de Tadeo, serviam para coisas diferentes. Se era uma clemência ou um pedido, a árvore da direito o traria de volta ao equilíbrio. Se tivesse perdido algo ou alguém, ou estivesse sofrendo de alguma forma, a árvore da direita o traria de volta. A árvore do meio nunca era utilizada porque era justamente uma conexão direta com o Espirito da Floresta. No entanto, o desespero no pequeno coração de Tadeo o fez recorrer àquela árvore. E, depois de rezar, falou o seguinte. – Ó, Grande Rainha. Entendo que sua força foi há muito, desgastada. Entendo que já nos ajuda e abençoa nossas vidas há séculos e eu a agradeço com tudo que tenho. No entanto, minha grande Senhora, o mal a espreita. Nós não conseguimos conter mais o seu segredo aqui conosco. O seu poder que outrora nos protegia, parece que agora não é o suficiente e estamos todos com a corda no pescoço. Homens forasteiros chegaram à nossa terra e a declaram com as dele, declaram nossas vidas como as dele, mas eles estão engados, minha Senhora. A sua Escuridão é o que nos guia, o seu poder e a sua vontade é o que nos torna fortes e perseverantes. Eu sou um nada perto de sua grandiosidade, mas ainda sim acredito em sua misericórdia para poder me ajudar. Por favor, me ajude. Pela próxima hora, Tadeo não ouve nada. No entando, ele continua repetindo por clemência o “Por favor” enquanto estava ajoelhado no chão chorando. E ele fica no mesmo lugar, da mesma forma. Quando a madrugada chega, Tadeo já estava dormindo ajoelhado, ele ouve em seus sonhos uma voz lhe dizendo “Tu és mui audacioso, pequeno. Podes me chamar de Rainha das Trevas ou Rainha do Ar. Grande Senhora da Escuridão. Sou aquela que foi esquecida, mas que nunca ficam longe de mim. Sou aquela que trouxe a liberdade para ser quem quisesse ser o que quisesse ser. Sou aquela que esconde em suas trevas as atitudes e sentimentos que nem a luz da lua e nem mesmo a luz do sol ousam tocar. Eu sou poderosa e influente. Sou esguia e não possuo forma: sou aquilo que eu toco e com aquilo me transformo. Nada pode conter minha grandeza e, quanto mais tentam fugir e se esconder de mim, mais fácil será de achá-los. […] Eu estive de olho em você, meu garoto, desde que nasceu. A sua familia tem tomado a minha atenção desde a formação dessa pequena vila, afinal foi seu antepassado que me colocou aqui, sacrificando sua própria vida e seu sangue nessa área para chamar um pouco da minha atenção para essa pequena vila. Eu sinceramente não me importava muito com ela – Seryne seu nome -, mas atitudes rebeldes contra elfos religiosos merecem meu reconhecimento. Você, no entanto, é muito diferente dela. Um reles humano, sua vida passa diante dos teus olhos sem sequer você possa fazer algo para me impressionar. Diga-me o que você tem até de coragem para me chamar? Que tipo de força você tem? Do que você é capaz para poder abraçar as sombras?” Tadeo acordou sobressaltado. Olhou para ao redor, mas não conseguia ver nada. Nada exceto… O que é isto? O livro que trouxe estava brilhando. Ele abriu o livro, mas não havia nada ali. Apenas páginas em branco. Ele olhou para a capa e continuava sendo o mesmo livro estranho. Sem nenhuma forma ou formato, apenas uma cor cinza outras pedras cinza que fazia aquilo ser um grande livro sem graça. Não havia tempo para entender aquilo, então voltou com apenas algum tipo de profecia dentro de seus sonhos para a Vila. Chegando perto, avistou que Zé e Guigo ainda estavam lá. Eles estavam em outra casa, atormentando outra família. Era a gota d’água. Tadeo correu até a casa da dona Ingrid, que era uma das caçadoras da vila, pegou sua besta e alguns virotes. Pegou também uma clava grande, se aproveitando que ela estava na rua assistindo a inquisição daqueles imbecis acontecer. Chegando perto, ele tenta acertar um tiro de virote em Zé, mas erra. Felizmente, eles não percebem porque o tipo não errou tão feio. Novamente ele tenta atirar em Zé e acerta. O virote atravessa seu braço e Zé só fica em choque de tanta dor. Guigo olha ao redor, procurando o insolente que resolveu lançar esse Virote, mas na bagunça das pessoas chocadas, ele não consegue ver. E então Tadeo dá seu segundo tiro em Zé. Esse muito mais preciso que o primeiro, atravessa sua garganta. Sangue começa a jorrar para todos os lados. Os pais mandam seus filhos irem pra casa e as pessias começam a se assustar com a cena, enquanto Tadeo com todos seus quinze anos sobre em um telhado e grita – Fomos passivos por muito tempo. Eles nos humilharam e fizeram com que acreditássemos que éramos indefesos. Eles mentiram para nós! Somos fortes! Somos inteligentes! E, sem nós, eles são apenas otários com títulos que servem para nada no mundo real. Olhem para esse vagabundo. Percebam que vocês são muito mais fortes que ele. E agora percebam o medo naquele olhar. Ele sabe que o que digo é verdade. Nós existimos aqui por muito tempo e não foi por causa deles. Vocês sabem, todos vocês sabem: A noite não foi feita para se acovardar! A Escuridão que nos guia e esta é a hora perfeita! Vamos mostrá-los do que somos capazes! E vamos mostrar Às Trevas que nós não temos medo. Pelo contrário, nós a adoramos! Primeiramente as pessoas não sabiam o que pensar sobre aquilo. Matar as outras? Elas nunca fizeram aquilo e aquele discurso parecia mais algo que um lunático diria. Mas, no momento em que ele começa a falar sobre a escuridão, o livro que estava debaixo de seu braço começa a se transformar enquanto emana algum tipo de aura, tão escura que nem mesmo a luz de dentro das casas conseguem ver e tão intensa e poderosa que, mesmo sem conseguir ver direito, eles sentiam a presença. E definitivamente entenderam que aquilo não era mais uma mensagem de Tadeo, mas da própria Senhora da Escuridão. Era aquela noite e a hora era aquela. Rapidamente eles subjulgaram Guigo, que tentou fugir desesperadamente, mas não iria conseguir com tantas pessoas ao redor dele. Enquanto que o povo fazia o que quisesse com ele, Tadeo se reunia com dois antigos líderes para organizar um ataque contra o grande acampamento dos Cavaleiros. Eles foram espertos e não subestimaram o inimigo. Não tinham tempo a perder. Pegaram a armadura dos dois Cavaleiros e suas armas, assim como as armas de caça de cada um e seguiram na espreita em grupos de cinco. Apesar de se movimentaram em grupo, eles dividiram as tarefas em fases: Interceptar os sentinelas noturnos, recolher o equimamento deles (de mantimentos a armas e armaduras), encontrar onde eles estavam dormindo e onde estava o comandante, tirar as armaduras pessoais de perto deles e, se possível, atacar enquanto ainda dormem. O final foi um completo sucesso. Eles estavam mal acostumados com mordomia e não perceberam pessoas vindo, não ouviram seu equipamento ser roubado e não conseguiram lutar sem o equipamento. A maioria foi apenas rendida. Aqueles que resistiam à rendição eram duramente repreendidos ou simplesmente mortos. A batalha acabou antes que o sol chegasse a pino. Quando acabaram, esperaram dar meio dia para todos se reunirem e rezarem para A Grande Escuridão, agradecendo-a pela vitória e desculparam-se pela negligência. Assim, levaram de volta para a vila todos os soldados e equipamentos, que foram divididos entre as pessoas de lá. Agora que a noite havia se passado e o sol queimava nos céus, Tadeo se sentia um pouco fraco pelo dia anterior e desmaiou assim que chegou na cidade.
“Apesar de jovem, tu tens força, humano. Eu lhe abençoei toda esta noite na esperança de que tu pudestes fazê-los crentes. Não em mim, mas neles mesmos. Toda essa história de subjugação não teria existido se eu tivesse sido envolvida por vocês desde o começo e a omissão, ou melhor, a negligência foi o preço que todos você pagaram. Mas humano, como eu estava dizendo, eu o ajudei a fazer com que sua pequena vila conseguisse entender a sua autossuficiência e pudessem compreender a força para mantê-la. Vocês são bons de coração, mas isso não é suficiente para se manter estável eternamente no mundo. Agora que resolvemos a sua grande questão, vamos resolver a minha.” O sonho muda. Antes era o simples preto enquanto que a voz ecoava na cabeça de Tadeo. Agora Tadeo se encontrava em um tipo de ponte que conectava o nada a lugar algum. Acima de sua cabeça havia apenas as cores se transformando e brilhando de volta para ele. O chão era transparente e embaixo de seus pés possuía o vazio eterno. “É, no entanto, sua escolha.”. Num piscar de olhos, algo aparece em sua frente. Algum tipo de fumaça sobe de baixo, do nada, se separando pela ponte. Ao se juntar novamente, o espaço entre as duas torrentes de fumaça brilhou em um tom azulado. “Eu te disse, você sabe. Eu possuo grandes interesses e nunca sou saciada. Saberes… Magias… Conhecimentos atuais… Bem, eu fui esquecida, esta é a verdade. Entretanto a vida é contínua” E, da fumaça, uma figura feminina começa a se formar, mas nunca consegue completamente se tornar reconhecível. “E eu simplesmente não sou segurada pela morte. Entenda. Isto aqui é um portal. Ao atravessá-lo, você aceitará meu acordo e terá a minha… Bênção. Por toda sua vida. No entanto existem certos termos para esse acordo: Primeiro, terá que seguir às minhas regras e andar sempre comigo. Terá que resignar sua vida mundana e sair mundo afora em busca de magia e poder. Segundo: Seus pensamentos são completamente meus. Não terá momentos sozinhos apenas com seus pensamentos e eu sempre saberei o que planejas, suas questões mais íntimas e, ao meu bel prazer, posso… estruturá-las. Moldá-las, mas apenas quando necessário. Terceiro: a minha benção é perigosa, pois muitos são esquecidos do meu poder, mas os elfos sapientes da Corte do Crepúsculo serão plenamente contra você e tentarão que impedir minha presença no mundo. Poucos são os que lembram sobre a minha Corte neste mundo atualmente, mas ainda sim é bom ser cauteloso. Por último: Seus objetivos são meus objetivos e qualquer missão importante para você será ouvida, mas não serei leniente caso perceba você desviando do caminho que trilharei para você.” O chão em que Tadeo estava de pé se petrificou a partir dos
pés dele, expandindopara toda a ponte. Ao tocar na fumaça com um formato de mulher, ela se solidificou e uma escultura pitoresca que parecia ser algum tipo de monstro se moldou em sua frente. Quando a petrificação chegou no portal, ele se tornou sólido e a luz que produzia dentro dele antes era fraca, agora brilhava um azul forte. O céu que brilhava em diversas cores agora se tornava opaco, como se uma nuvem de chuva bem densa cobrisse o maior arco-íris do mundo. A petrificação continuou para o infinito enquanto que, embasbacado, o Tadeo procurava em sua cabeça pensar sobre aquilo que estava sendo oferecido, com certa dúvida. “Eu admito que é muito peso para lidar, no entanto o seu vilarejo é apenas o começo. Eu prometo a seu nome riquezas, glória, honra! Prometo a ti toda proteção e maravilhas que imaginar, mas apenas se souber como se desventurar no mundo. Você poderá ser um herói.” – Eu serei como… como seu herói? “Será como um mensageiro do mundo da minha presença. Um representante do meu poder e da minha vontade no mundo.” – Então é claro que eu aceito! Desculpe-me pela animação, senhora, mas ser seu ajudante é a melhor coisa que pode me acontecer na vida! E eu juro à Senhora que farei o que for possível para te satisfazer. Sei que sou nada além de um pequeno humano perto de sua grandiosidade, mas prometo que farei tudo que quisestes. Ao falar isso, Tadeo se convence automaticamente da sua adoração, entende o sentimento e o abraça mais forte o possível. Ele começa a andar. Não andar, correr, para o portal, desejando “Então atravesse o portal, mortal. Mas lhe aviso que ser temente a mim pode ser desafiador e intenso demais para você.” – Por você, milady, eu lutaria contra todo o mundo! “Veremos, humano.” E ele entrou no portal.
Acordou e estava se sentindo estranho. Meio sonolento e sentindo cheiro de pétalas no ar, levantou-se da cama e percebeu que não sabia onde ele estava. Era uma cama, mas muito mais luxuosa do que ele jamais dormiu. A cama era gigantesca, com diversos travesseiros e tecidos diferentes com texturas diferentes. Ela tinha hastes que seguravam persianas para manter o lado de dentro escuro. A cama era feita de mogno, e assim na cabeceira como em suas hastes e pernas haviam desenhos esculpidos, mas Tadeo não conseguia entender o que seria aquilo. Percebeu que havia uma corda com franja que ligava até o teto abobodado da cama. Temendo o que iria acontecer, ele puxou. Ao fazer isso, as persianas se abriram e, diferente do que imaginava, ele ficou ainda mais chocado. O quarto em que estava era um absurdo de tão impecável. Todos os móveis que estavam ali eram me madeira, porem encerados e todos também tinham sido esculpidos. Na frente da cama havia um banco e, na parede contrária, um sofá com uma mesa de centro na frente. Logo aos lados da cama haviam pequenas mesas com candelabros e velas fixadas, assim como nas paredes do quarto. O que não faltava no quarto, além de mesas e cadeiras, esculturas e retratos pintados, eram portas e janelas. O quarto formava um hexagono, com dois lados longos, dois lados pequenos e dois lados médios. Um dos lados longos é onde estava localizada a cama. Na extrema ponta do lado esquerdo haviam grandes portas. Na extrema ponta do lado esquerdo haviam duas portas menores. Todo o resto das paredes do quarto foram preenchidas com janelas, quadros ou tapeçarias. O chão, que era de madeira bem encerada, estava quase todo coberto por tapetes e peles de animais grandes. E, apesar da intensa quantidade de informação e objetos que haviam no quarto, ele ainda sim trazia a sensação de conforto, segurança e aconchego, como um lugar que qualquer vagabundo ou desafortunado sonha por toda sua vida. Bem distante da cama na direção direita, mas na mesma parede havia outra porta, obstruída por um homem. Ele estava usando armadura e mal tinha percebido Tadeo acordar, mas quando percebeu, pediu a Tadeo um momento e entrou naquela porta. O mundo girava na cabeça de Tadeo, tentando entender o que se passava. Saiu da cama e sentiu uma sensação estranha, como tivesse se esquecendo de algo. Deu uns passos para longe da cama e sentiu uma leve dor de cabeça, mas pensou que não fosse nada. Quando alcançou a porta, a dor de cabeça se tornou um pouco mais forte, e agora ele ouvia uma voz falando baixo em sua cabeça: “Não esqueça do livro”. Mas que livro? Voltou para a cama e percebeu que, em cima de uma das mesinhas de cama, havia um tomo. A parte de fora do tomo era preta e, pela aspereza e frieza, era feita de uma pedra polida fina, bastante negra. Sua capa possuía diversas pedras encrustadas, todas negras, desenhando um rosto, com olhos bastante penetrantes. Tadeo abriu o Tomo e percebeu que havia metal fundido na pedra e que, por sua vez, as páginas foram fixadas naquele metal. Eram muitas paginas, e todas elas eram pretas e pareciam desgastadas, dando a sensação de que as páginas haviam sido queimadas. No entando, aos olhos de Tadeo, aquele Tomo era muito mais do que paginas queimadas: ele conseguia enxergar desenhos, regras, leis. Ele conseguia ler cada palavra escrita, como se a própria escuridão das folhas falasse com ele e o ensinasse justamente o que ele queria aprender. Fechou o livro, o prendeu em suas roupas e seguiu caminho para a porta. Saindo do quarto, ele percebeu o que já tinha deduzido: estava num castelo. E em um bastante movimentado. Ele via homens e mulheres andando de um lado para o outro, subindo e descendo lances e mais lances de escada. Todos eles impecavelmente vestidos, com calças brancas, sapatos pretos, camisas azuis e chapéus azuis com um tecido branco caindo sobre ele. E, estranhamente, todos eles estavam vestidos iguais. Tadeo teve que dar espaço para uma mulher, que parecia apressada pelo corredor enquanto repetia uma lista de afazeres. Pensando em como aquele castelo poderia ser gigante, ele voltou para seu quarto, esperando o guarda enquanto se afeiçoava mais ao livro. Mais tarde, Tadeo iria saber que um grande nobre, relacionado ao próprio ducado, havia estudado as grandes cortes élficas e, ao saber o que havia acontecido com aqueles soldados, mandou imediatamente uma carta de solicitação dos pais de Tadeo juntamente com ele para que se apresentassem no Castelo das Cem Vozes. Tadeo permaneceu desmaiado por semanas e a única coisa que murmurava era sobre o livro, por isso deixaram-no com o livro no quarto. Pelo que ele soube posteriormente, sua mãe havia ficado viva, mas não conseguia mais utilizar seu braço esquerdo, devido a machadada em sua clavícula. Seu pai, portanto, tomou as rédeas de toda a situação em casa. A vila voltou aos trilhos e, graças às estórias contadas para os sete cantos do mundo, aquela vila começou a ganhar notoriedade e crescer. Quanto a Tadeo, ele realmente nunca foi o mesmo. O Nobre, de nome Grorganir Harfoosen, da casa dos Noerbus, o abrigou e lhe concedeu a chance de ser seu cavaleiro real, com a promessa de que depois que estudasse sobre Magia, Política e Arte, seria liberado para sair em suas companhias. Passaram os anos e Tadeo nunca decepcionaran o Lorde Harfoosen. Sempre um prodígio, sempre esforçado e sempre com aquele Tomo ao seu lado. Dava um pouco de medo às vezes, olhar para aquele Tomo e passou a ser uma dos motivos das pessoas respeitarem o garoto aonde ele ia. Aos seus vinte e cinco anos, Tadeo não tinha amores que não fossem a arte. Não tinha interesses que não envolvessem magia ou monstros ou a própria história do mundo. Quando as pessoas o viam passar, elas sentiam uma aura de poder e comando, e Tadeo amava sentir aquelas pessoas representarem medo ou admiração em seus rostos enquanto passava, ainda mais os nobres. Podia ter envelhecido e aprendido o possivel, mas dentro dele, bem dentro, sempre iria existir uma chama de ódio a qualquer título nobre que pudesse existir. Sua aparência estava muito diferente quando menor: estava muito menos magro, mas ainda preservava sua estrutura mais fraca. Seu rosto meio arredondado agora acompanhava pequenos óculos, segurados por uma corda. Seu cabelo, que agora batia em seus ombros, continuavam pretos como a noite, mas agora eram sedosos. Seus olhos cor de mel sempre estavam em fogo, como se estivesse preparado para uma batalha a qualquer momento. Depois de um ano, se aprontando e procurando investimentos e treinando escudeiros, ele finalmente saiu do castelo e sai em busca da cidade, para conhecer outros nobres e desvendar novas aventuras.