O abismo em mim

Novamente estou aqui encarando o abismo, e isso não é vontade minha. Engraçado que era mais fácil quando jovem encarar o abismo e ignorar, mas fica cada vez mais difícil quando os anos passam e você é esse indivíduo sem resposta. Apenas uma imagem sua crescendo e engolindo o seu outro eu, assustado com o crescimento repentino.

Eu queria realmente que eu não tivesse tanta coisa na cabeça, eu queria eu não precisasse reavaliar motivos para me manter vivo. Eu queria que o abismo realmente fosse uma rachadura na parede em que uma fita isolante poderia cuidar. Mas não. Esse abismo é o próprio riftvalley dividindo meu peito em dois e destruindo a minha essência no caminho. No final nem eu mesmo vou me reconhecer, mas não vai importar caso tudo esteja completo. Não vai importar se eu ressignificar meu eu. Se eu seguir em frente. Será se eu quero seguir em frente?
A moral do capitalismo de viver por viver nunca foi tão contraditória para mim. Eu simplesmente não tenho propósito, velho. Não tenho. Como posso viver?

Ciências sociais não é para mim. Eu sou eloquente, mas eu não tenho real interesse em utilizar isso para falar sobre causas. Eu quero o controle, mas também quero a inquietação. Eu gostei da sala de aula, isso é verdade, mas não aguentaria a pressão e nem viver com a cabeça presa no que o diretor quer ou o que os pais de alunos esperam. Eu quero atravessar o mundo do raciocínio das pessoas. Eu quero flutuar entre o consciente e o subconsciente delas com ideias que subversivamente iriam destitui-las de certezas. Eu quero ser a dúvida. Quero explodir e ser entendido em minhas crises. Eu sei que sou um potencial, mas não sei exatamente do quê. Homicida? Suicida? Mártir? Artista? Eu só quero saber.

Enquanto eu não souber quem ou o que eu amo, continuarei nesse vórtex colapsando em mim e destruindo a minha existência e separando-a entre o que eu posso ser e o que querem que eu seja. Eu não sei o que eu sou. O que é esse terreno sendo dividido?
O grito é de desespero porque a loucura às vezes toma posse de minha alma. Não consigo controlar os impulsos que transbordam em textos, em palavras ditas, em desaforos ou em gesticulações.

Destrua-me. Eu me destruo todos os dias. Devore-me. É a única coisa que vai me fazer sentir. Humilhe-me. Não há nada mais de dignidade que sobre em meu ser. No final eu sou ninguém nesse mundo de ninguém e tudo bem. Eu não me importo em ser ninguém, contanto que eu possa sumir e não sentir a singularidade de minha existência contrastando com a simplicidade do comum.

Queria ser mais um menino amante de futebol que traz a noiva para um almoço em casa e que anda tranquilo na rua. Que nasceu com a faculdade já escolhida e com a certeza de um emprego. Queria poder viajar mundos sozinho e falar fluente diversas línguas na adolescência. Queria poder guardar tudo que sinto em uma caixa e solidificar a ponto de poder não racionaliza-los ou sequer questiona-los. Queria ser normal.

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